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Opinião

Perdão e qualidade de vida

O perdão é importante não apenas porque ele nos faz viver mais e melhor. Mas porque nos faz ser como o Criador – aquele à imagem de quem fomos feitos

Por Daniel Guanaes

O interesse universal pelo perdão
Entre os assuntos tradicionalmente tidos como religiosos, o tema do perdão figura como um dos mais populares nos ambientes acadêmicos. No ano de 2001, o doutor Fred Luskin, diretor e cofundador do centro de pesquisa Forgiveness Projects, da Universidade de Stanford, publicou um livro sobre o assunto chamando o perdão de “uma prescrição comprovada para a saúde e a felicidade”. Seu laboratório continua sendo uma referência de pesquisas acadêmicas que estudam os benefícios do perdão para a promoção da saúde.

Em outro estudo, conduzido pelo professor Everett Worthington, da Virginia Commonwealth University, e publicado em março deste ano, constatou-se a eficácia do perdão para aliviar problemas como a depressão e a ansiedade. Por meio de entrevistas com quase 5 mil pessoas de diferentes localidades do mundo, foi verificado o poder do perdão para possibilitar aos indivíduos lidar melhor com sentimentos nocivos que muitas vezes cultivam e, assim, melhorar a qualidade de vida.

Em 2011, o professor Loren Toussaint, do Luther College, desenvolveu um projeto de pesquisa no seu laboratório de psicologia no qual demonstrou como as pessoas menos dispostas a perdoar estavam mais propensas a ter uma expectativa de vida menor. O perdão, seu estudo indicava, oferecia longevidade aos indivíduos.

Estes são apenas alguns dos muitos projetos de pesquisa que têm sido fomentados nas últimas décadas por laboratórios de algumas das mais renomadas universidades do mundo. Por acaso, os três exemplos citados são de professores de departamento de psicologia. No entanto, áreas como a medicina, a antropologia, a sociologia, a biologia e outras ciências também têm se dedicado cada vez mais ao tema.

Tal verificação só nos faz constatar que o perdão tem sido um tema de interesse universal. E por universal, nesse caso, não me refiro ao fato de ele ter se tornado um tema de interesse de todas as pessoas, posto que isso ele sempre foi. Falo do fato de, desde as últimas décadas, o perdão ser um tema de interesse acadêmico de outras áreas que não apenas os departamentos de filosofia e religião das universidades. Descobriu-se que falar sobre o perdão não é apenas tratar de um assunto metafísico, existencial ou religioso. Mais do que isso, é abordar uma questão de ordem prática fundamental para promover saúde.

O principal elemento viabilizador da existência humana
Eu entendo a razão de tamanho interesse pela matéria. Não se trata apenas de uma curiosidade momentânea por um assunto em voga, ou uma espécie de pauta de ocasião sobre a qual todos acabam se vendo obrigados a falar. A dedicação ao tema do perdão se explica pelo fato de ele ser o principal elemento viabilizador da existência humana.

Sei que existem muitas perspectivas pelas quais considerar a viabilidade da existência humana. Pode-se analisá-la pelas óticas biológica, religiosa, antropológica, além de tantos outros prismas. Quero defender a tese de que, do ponto de vista social, o perdão é o principal elemento viabilizador da existência humana.

Diferentes de outras espécies animais, nós, seres humanos, somos mais do que meros seres gregários. Somos relacionais. Isso significa dizer que não nos satisfazemos apenas com estarmos em bandos. Precisamos construir relacionamentos que deem sentido e significado à nossa existência.

Pertencemos a sociedades, e nelas desenvolvemos relacionamentos com as pessoas nos mais diferentes níveis. Com a maior parte dos indivíduos, jamais teremos sequer contato. Com muitos, teremos algum convívio superficial. Com um grupo menor, nos relacionaremos de maneira mais aprofundada. E ainda há alguns poucos com os quais partilharemos a vida na intimidade. Sejam quais forem as histórias em questão, em todos esses níveis precisaremos de certa habilidade relacional para mantermos a viabilidade da dimensão social da nossa existência.

A necessidade de tal habilidade relacional se explica por um motivo: não há quem, no equilíbrio dessas histórias, não cometa erros. Tampouco há quem não tenha erros cometidos contra si. É nesse sentido que afirmo que o perdão é o elemento que viabiliza a nossa existência. Cultivar relacionamentos não é possível sem que consideremos o perdão como um elemento regulador fundamental.

Tente pensar em um relacionamento – seja ele uma amizade, um namoro, um casamento, uma sociedade – que não tenha demandado o exercício do perdão. Não tenho dúvida de que ninguém encontrará. Porque a condição de falibilidade humana não nos permite viver sem que percalços ocorram. Sejam eles cometidos intencionalmente, contingencialmente ou ingenuamente, não há como escapar de tais acontecimentos. Essa é a razão pela qual toda pessoa que deseje viver com saúde bio-psico-emocional-relacional-espiritual precisa considerar o perdão como um cultivo indispensável.



O fundamento cristão do perdão

Longe de pretender fazer parecer que o assunto é exclusividade nossa, quero apenas destacar que em nenhuma outra literatura encontro tanta beleza na descrição do tema do perdão como na tradição bíblica cristã. Se tomarmos a Bíblia Sagrada como uma literatura coesa (e não apenas como um compilado de textos), eu diria que o perdão é o arco narrativo que perpassa o enredo que se constrói de Gênesis a Apocalipse.

A força da narrativa da reconciliação da criação com o Criador por meio do perdão que em Cristo Deus oferece à humanidade é de uma riqueza singular. Ou seja, à ética cristã o perdão é importante não apenas porque ele nos faz viver mais e melhor. Ele é importante porque nos faz ser como o Criador – aquele à imagem de quem fomos feitos.

Todas as descobertas que a academia tem feito nas últimas décadas sobre os benefícios físicos, psíquicos e relacionais do perdão são fantásticas e motivadoras a que continuemos a cultivá-lo. No entanto, mesmo que nada disso estivesse sendo proposto, ainda teríamos a maior das razões para perdoar. Foi isso que Deus fez por nós, e é essa a razão da nossa existência. É dessa relação que se sustenta no perdão que decorrem todas as outras que cultivamos na vida. Logo, para que tenhamos qualidade de vida é fundamental que repliquemos aquilo que dele aprendemos e experimentamos. Perdoar é preciso!
  • Daniel Guanaes é teólogo e psicólogo. PhD em teologia pela Universidade de Aberdeen, na Escócia, atua como pastor titular na Igreja Presbiteriana do Recreio, no Rio de Janeiro.
Artigo publicado originalmente na edição 405 de Ultimato.

Imagem: Unsplash.


REVISTA ULTIMATO – PERDOA-NOS, COMO NÓS PERDOAMOS
A mais comprometedora petição ensinada por Jesus é essa: Deus pede de nós aquilo que pedimos a ele.
O tema do perdão se espalha por toda a Escritura e rege a relação do ser humano com Deus. É provavelmente o conceito que mais realiza conexões com temas da teologia. Sem a menção ao
perdão não se discursa sobre o acesso a Deus, a obra da salvação, o objetivo da graça divina nem sobre Jesus encarnado, o amor de Deus, o resgate, a restauração, a missão da igreja etc.
Este é o assunto da matéria de capa da edição 420. Clique aqui e saiba mais. Para assinar, clique
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Saiba mais:
» A Vida Em Cristo, John Stott
» Culpa e Graça, Paul Tournier
» Saúde Emocional e Vida Cristã - Curando s feridas do coração, Esly Regina Carvalho
» O perdão anuncia coisas estupendas, blog Ultimato
» Perdão genuíno, Martinho Lutero

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