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Opinião

Garantia de direitos e a proteção da mulher – o que a Bíblia tem com isso?

A dignidade da mulher não depende e antecede a concessão social, o reconhecimento estatal ou a autorização religiosa porque foi criada por Deus e participa da dignidade decorrente da Imago Dei

Por Acyr de Gerone Junior

Será que a Bíblia tem algo a dizer sobre a garantia de direitos e a proteção da mulher? Tem – e muito. Não porque seja uma constituição moderna, um código penal ou um tratado de políticas públicas. Como sabemos, sua finalidade é outra: revelar Deus, sua vontade e seu plano para a humanidade, cujo ápice está em Jesus Cristo.

Isso, porém, não significa que a Bíblia trate apenas de assuntos estritamente religiosos. Como Palavra de Deus comunicada na história e por meio de pessoas inseridas em contextos concretos, ela também fala da condição humana, das relações, do uso do poder, do sofrimento, da justiça e da maneira como devemos viver. Por isso, mesmo não sendo um livro moderno de direitos humanos, ela oferece fundamentos decisivos para reconhecer a dignidade humana, denunciar a violência e proteger os vulneráveis.

Esses princípios não interessam apenas a quem professa a fé cristã. Mesmo quem não compartilha o pressuposto da revelação bíblica pode reconhecer a contribuição histórica, ética e cultural das Escrituras para a compreensão da dignidade humana, da justiça e dos limites do poder. A fé cristã encontra na Bíblia sua autoridade; porém, a sociedade em geral também pode dialogar com os valores humanos que dela emergem, afinal, a Bíblia é a base do pensamento filosófico ocidental.

O ponto de partida nesta reflexão está na criação. O livro de Gênesis afirma que Deus criou o ser humano – homem e mulher – à sua imagem (Gn 1.26-27). A dignidade da mulher, portanto, não depende de concessão social, reconhecimento estatal ou autorização religiosa. Ela antecede essas instâncias. Toda mulher possui valor porque foi criada por Deus e participa da dignidade decorrente da imagem divina (Imago Dei).

O problema é que a Imago Dei foi afetada (Gn 3). Como consequência, a Bíblia mostra que o pecado desorganizou as relações humanas e corrompeu o exercício do poder. A Escritura não idealiza essa realidade, mas ela as apresenta.

Juízes 19 discorre sobre uma mulher sem nome e praticamente sem voz que é entregue, violentada, morta e, depois da morte, tem seu corpo instrumentalizado. Em 2Samuel 13, Tamar é violentada e rejeitada por Amnom, silenciada por Absalão e não encontra justiça efetiva em Davi seu pai e rei. Essas narrativas expõem não apenas a violência individual, mas também as estruturas de cumplicidade e omissão contra as mulheres.

Por isso, nesse ponto, é decisivo distinguir descrição de prescrição. Nem tudo o que a Bíblia relata ela recomenda ou aprova. Na maioria das vezes, ela descreve o pecado para denunciá-lo, mesmo quando envolve personagens importantes da história bíblica.

Ao mesmo tempo, a Escritura apresenta Deus como defensor dos que podem ser oprimidos. Ele faz justiça ao órfão e à viúva e ama o estrangeiro (Dt 10.18). Seu povo é convocado a defender o fraco, socorrer o necessitado e fazer justiça ao vulnerável (Sl 82.3-4; Is 1.17; Pv 31.8-9). Proteger, nessa perspectiva, significa impedir que força, autoridade ou posição sejam convertidas em instrumentos de opressão.

Esse princípio alcança claramente as mulheres em muitos textos. Entre eles, as filhas de Zelofeade identificam uma situação injusta, apresentam sua causa e são ouvidas; Deus declara que elas têm razão, e sua reivindicação altera a legislação de herança de Israel (Nm 27.1-11). Em Atos 6, quando viúvas helenistas são negligenciadas, a igreja reconhece a falha e reorganiza sua estrutura para corrigi-la.

A Bíblia também não trata a mulher apenas como alguém a ser protegida, mas como sujeito ativo na história de Deus. Débora exerce liderança; Hulda fala com autoridade profética; Ester atua politicamente; Priscila lidera e ensina etc.

Em Jesus, essa perspectiva alcança sua expressão mais clara. Entre outras, ele quebrou barreiras da época ao conversar com a samaritana (Jo 4), acolher a mulher que sofria (Mc 5.25-34), incluí-las em sua missão (Lc 8.1-3) e escolher Maria Madalena como a primeira testemunha da ressurreição (Jo 20.11-18).

No relato da mulher surpreendida em adultério (Jo 8.1-11), Jesus confronta também uma aplicação seletiva da Lei. Apenas a mulher é levada diante dele, embora a Lei previsse responsabilização de ambos os envolvidos no adultério. Ela é transformada em instrumento de acusação e colocada sob ameaça de violência. Jesus interrompe essa lógica, expõe a hipocrisia dos acusadores, protege a mulher e impede sua condenação sumária. É claro que ele não ignora seu pecado; antes, ele acolhe e a chama a abandonar o erro. Há proteção, graça, verdade e responsabilidade.

O texto de Lucas 13.10-17 é igualmente revelador. Jesus vê uma mulher encurvada havia dezoito anos, chama-a para o centro, dirige-lhe a palavra, cura-a e a identifica como “filha de Abraão”. Diante da reação do chefe da sinagoga, Jesus confronta uma religiosidade que colocava a regra acima da vida. A dignidade daquela mulher não começou quando Jesus a curou; ela já existia. Cristo a torna visível diante de uma comunidade que aprendera a conviver com seu sofrimento.

Aqui está um desafio para a igreja, afinal, ainda existe distância entre a dignidade que Deus e a Bíblia atribuem à mulher e a forma como muitas mulheres são tratadas. Por isso, igrejas não podem ser ambientes em que a violência é encoberta, a vítima é responsabilizada ou a autoridade religiosa é usada para silenciar denúncias. Fidelidade bíblica exige reconhecer, ouvir, prevenir, proteger e responsabilizar.

Essa responsabilidade também está diretamente relacionada à missão da Sociedade Bíblica do Brasil. A SBB serve à sociedade, às igrejas e aos cristãos com a Bíblia, contribuindo para que a Palavra de Deus alcance todas as pessoas, sem distinção. Nesse contexto, os programas, projetos e serviços socioassistenciais desenvolvidos pela SBB oferecem assessoramento gratuito a grupos, movimentos, famílias e organizações da sociedade civil, fortalecendo sua atuação e contribuindo para a promoção da cidadania, da inclusão e da defesa de direitos.

A Sociedade Bíblica do Brasil também atua na informação e conscientização sobre a prevenção e o enfrentamento das principais violações sociais vivenciadas cotidianamente por milhares de famílias, incluindo ações voltadas à proteção, à dignidade e à valorização da mulher. Por meio de jornadas formativas, assessoramento técnico e produção de conteúdos, a SBB contribui para qualificar a gestão, o planejamento, a atuação social e a defesa de direitos no âmbito da Assistência Social. Essa atuação está alinhada aos valores e princípios bíblicos e busca promover o desenvolvimento humano de forma integral.

Como se percebe, promover a Bíblia, nesse sentido, não é apenas fazê-la circular. Mais que isso, é contribuir para que ela seja conhecida, compreendida e vivida de modo que sua mensagem traga salvação, confronte a violência, forme consciências, corrija abusos e mobilize pessoas e instituições em favor da vida.

A Bíblia tem tudo a ver com a garantia de direitos e a proteção da mulher porque afirma sua dignidade, torna visível seu sofrimento, confronta o abuso de poder e convoca pessoas e instituições à responsabilidade sob o modelo de Cristo.


Esse artigo é parte da palestra proferida no 3º Encontro Nacional de Pessoas com Deficiência Visual, promovido pela SBB no Sítio Bom Pastor, em Capela do Alto, SP, de 12 a 15 de agosto de 2026.







  • Acyr de Gerone Junior é doutor em teologia, pastor, professor e diretor de cultura e formação bíblica da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB). Atua nas áreas de Bíblia, teologia, educação, gestão, história e missão.
Imagem: Ruth e Boaz. Júlio Schnorr von Carolsfeld, 1825. Wikimedia.
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