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Opinião

A Odisseia, a mitologia grega e C. S. Lewis

Por Paulo Ribeiro

Uma nova adaptação cinematográfica de A Odisseia está em cartaz e gostei muito de assisti-la, não tanto pela história em si, que já me era bastante familiar, mas por sua fotografia. Minha apreciação por Homero deve muito a C. S. Lewis, cujos escritos me ensinaram a ver a mitologia grega não apenas como uma coleção de histórias antigas, mas como um dos grandes fundamentos da imaginação ocidental, influenciando toda uma tradição literária que passa por Virgílio, Dante, Milton e chega até Nárnia.

Lewis nunca escreveu um livro dedicado exclusivamente à Odisseia, mas Homero aparece repetidamente em suas obras acadêmicas e literárias. Para ele, a Ilíada e a Odisseia eram leituras indispensáveis.

Enquanto assistia ao filme, lembrei-me de inúmeras passagens de alguns dos meus livros favoritos de Lewis as quais transcrevo abaixo.

Uma das primeiras referências encontra-se em O Regresso do Peregrino (1933). Embora seja essencialmente uma alegoria cristã, a obra é profundamente permeada pelo pensamento e pela mitologia gregos. Ao longo da jornada aparecem referências a Platão, às Oréades, Atalanta, Píndaro e muitos outros personagens clássicos. Mais significativo ainda é o capítulo "Deixe que a grelha seja grelha", no qual Lewis faz uma memorável alusão à Odisseia. Inspirando-se, por meio de The Faerie Queene, de Edmund Spenser, na história dos companheiros de Ulisses transformados por Circe, Lewis reflete sobre aqueles que se acostumam tanto a uma forma inferior de existência que deixam de desejar recuperar sua verdadeira humanidade. Já nessa obra inicial, a mitologia grega não aparece como rival do cristianismo, mas como uma profunda antecipação da verdade.

Em Prefácio ao Paraíso Perdido (1942), Lewis compara a epopeia de Milton com a Ilíada e a Odisseia, discutindo o que torna uma epopeia verdadeiramente épica. Ele distingue as epopeias primárias, como as de Homero, nascidas naturalmente da tradição oral, das epopeias secundárias compostas conscientemente dentro de uma tradição literária já estabelecida.

Ao longo da obra, Lewis utiliza repetidamente a Odisseia para explicar convenções épicas como a intervenção divina, os ideais heroicos, a hospitalidade, o longo retorno ao lar e a dignidade narrativa, mostrando também como Milton dialoga com Homero e Virgílio ao reinterpretar essa herança clássica.

Em Um Experimento em Crítica Literária (1961), Lewis apresenta Homero como um dos maiores exemplos de literatura capaz de ampliar nossa experiência humana. Um de seus temas recorrentes é que o bom leitor aprende a "ver pelos olhos dos outros". Como ele escreveu:
"Ao ler grande literatura, torno-me mil homens e, ainda assim, permaneço eu mesmo."

A Odisseia permite habitar uma civilização completamente diferente da nossa sem reduzi-la às categorias modernas. Talvez seja por isso que continuemos voltando a Homero quase três mil anos depois.

Em A Imagem Descartada (1964), embora seu foco seja a cosmovisão medieval, Lewis parte do pressuposto de que o leitor culto já conhece Homero. Ele observa que a literatura medieval foi profundamente moldada por Homero, Virgílio e Ovídio, ainda que muitas vezes através da tradição latina.

Em Literatura Inglesa do Século Dezesseis (1954), Lewis mostra como os escritores renascentistas retornaram continuamente às epopeias homéricas como modelos de poesia heroica, imaginação moral e excelência literária.

Suas Cartas revelam ainda outro aspecto dessa admiração. Lewis comenta que relia Homero simplesmente pelo prazer da leitura, observando que certos livros deixam de ser apenas objetos de estudo e tornam-se companheiros para toda a vida.



Essa influência prossegue em As Crônicas de Nárnia (1950-1956). Embora Lewis reconheça mais explicitamente a influência da Eneida, de Virgílio, estudiosos há muito identificam ecos homéricos em toda a série.

Em A Viagem do Peregrino da Alvorada, a viagem de ilha em ilha lembra claramente a Odisseia, assim como as terras misteriosas, as tentações e os encontros extraordinários vividos pelos viajantes.

Mas talvez o paralelo mais belo seja o de Ripchip. Enquanto Ulisses anseia por Ítaca, seu lar terreno, Ripchip anseia pela Terra de Aslam, seu lar eterno:
"Meus planos já estão traçados. Enquanto puder, navegarei para o Leste no Peregrino da Alvorada. Quando ele não puder mais levar-me, remarei para o Leste em meu coráculo. Quando ele afundar, nadarei para o Leste com minhas quatro patas. E, quando já não puder nadar, se ainda não tiver alcançado a Terra de Aslam ou passado pela borda do mundo em direção a alguma imensa catarata, afundarei com o focinho voltado para o nascer do sol."

Para Lewis, a mitologia grega nunca foi apenas uma curiosidade da Antiguidade nem um conjunto de lendas fascinantes. Ela representava uma das grandes preparações da imaginação humana para a verdade. Essa convicção permeou toda a sua vida, influenciando seus estudos sobre Homero, sua admiração por Virgílio, seu amor pela literatura medieval e, finalmente, o próprio universo de Nárnia, onde faunos, dríades, centauros, deuses dos rios, animais falantes e o próprio Aslam convivem em um mundo no qual o melhor da imaginação pagã encontra seu lugar legítimo.

Talvez Lewis tenha resumido essa visão da forma mais bela em O Regresso do Peregrino, quando a Voz diz a João:
"Meu filho, se assim o quiseres, isto é mitologia. É verdade, mas não fato; é imagem, não a própria realidade. Mas esta é a Minha mitologia... Esta é Minha invenção; este é o véu sob o qual escolhi aparecer desde o princípio até agora. Para isso fiz teus sentidos e tua imaginação: para que pudesses contemplar Minha face e viver."

Talvez seja por isso que Homero continue tão importante. Seus poemas fazem muito mais do que preservar a memória de uma civilização antiga. Continuam despertando a imaginação, ampliando nossa compreensão da condição humana e lembrando-nos de que as maiores histórias sempre apontam para uma Realidade mais profunda.

P.S. Uma das grandes ironias da vida de C. S. Lewis é que a mitologia grega acabou se tornando um dos caminhos que o conduziram a Cristo. Seu amor por Homero, Virgílio, pelas sagas nórdicas e pelos grandes mitos pagãos despertou nele um profundo Sehnsucht — um anseio por uma beleza e uma alegria que transcendiam este mundo. Foi seu grande amigo J. R. R. Tolkien quem o ajudou a compreender que esses mitos não competiam com o Evangelho; ao contrário, apontavam para ele. Durante a célebre conversa em Addison"s Walk, em Oxford, em setembro de 1931, Tolkien argumentou que o cristianismo é o "mito verdadeiro": o único mito em que o padrão do Deus que morre e ressuscita entrou na história como fato. Lewis desenvolveria essa ideia em seu ensaio Myth Became Fact, ao afirmar que "o coração do cristianismo é um mito que também é um fato". Nesse sentido, a mitologia grega não o afastou da fé cristã; pela providência de Deus, ajudou a preparar tanto sua imaginação quanto seu intelecto para reconhecer Cristo quando o Mito se tornou Fato.

Referências:
Lewis, C. S. (1933). The Pilgrim"s Regress: An Allegorical Apology for Christianity, Reason and Romanticism. London: J. M. Dent & Sons.
Lewis, C. S. (1942). A Preface to Paradise Lost. Oxford: Oxford University Press.
Lewis, C. S. (1944). Myth Became Fact. First published in Theology 48 (1944), pp. 63–67. Reprinted in God in the Dock (1970).
Lewis, C. S. (1954). English Literature in the Sixteenth Century, Excluding Drama. Oxford: Oxford University Press.
Lewis, C. S. (1950–1956). The Chronicles of Narnia. London: Geoffrey Bles.
Lewis, C. S. (1961). An Experiment in Criticism. Cambridge: Cambridge University Press.
Lewis, C. S. (1964). The Discarded Image. Cambridge: Cambridge University Press.
Lewis, C. S. (1966). Letters of C. S. Lewis. Edited by W. H. Lewis. London: Geoffrey Bles.



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Saiba mais:
» Surpreendido Pela Alegria, C. S. Lewis
» Até Que Tenhamos Rostos – A releitura de um mito, C. S. Lewis
Doutor em Engenharia Elétrica pela Universidade de Manchester, na Inglaterra, foi Professor em Universidades nos Estados Unidos, Nova Zelândia e Holanda, e Pesquisador em Centros de Pesquisa (EPRI, NASA). Atualmente é Professor Titular Livre na Universidade Federal de Itajubá, MG. É originário do Vale do Pajeú e torcedor do Santa Cruz.
>> http://lattes.cnpq.br/2049448948386214
>> https://scholar.google.com/citations?user=38c88BoAAAAJ&hl=en&oi=ao

Pesquisa publicada recentemente aponta os cientistas destacados entre o “top” 2% dos pesquisadores de maior influência no mundo, nas diversas áreas do conhecimento. Destes, 600 cientistas são de Instituições Brasileiras. O Professor Paulo F. Ribeiro foi incluído nesta lista relacionado a área de Engenharia Elétrica.
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