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Opinião

Em nome do céu – os perigos de uma fé cega

A história está cheia de casos de pessoas que sofreram e fizeram sofrer por vivenciar uma fé que crê, mas não pensa

Por Carlos Caldas

“Agora não pergunto mais pra onde vai a estrada...” Quem aprecia a música popular brasileira se lembra(rá) que estas são as palavras iniciais da bela canção Fé cega, faca amolada, de Ronaldo Bastos e Milton Nascimento, uma das clássicas do Clube da Esquina. A poesia refinada e requintada da dupla, usando a figura de pensamento conhecida como oxímoro, isto é, o emprego de palavras contraditórias em sequência para enfatizar sentido, fala em “brilho cego da paixão e fé, faca amolada...”.

Esta canção me veio repetidas vezes à memória enquanto assistia os sete episódios da série (ou minissérie?) Em nome do céu, cada episódio tem cerca de uma hora de duração e está disponível no canal Disney+, dirigida pelo cineasta escocês David Mackenzie. A série em questão é a adaptação televisiva do livro Pela bandeira do Paraíso: uma história de fé e violência1, do jornalista e escritor estadunidense Jon Krakauer (n. 1954). O livro de Krakauer apresenta um crime terrível acontecido em 1984 no estado de Utah, nos Estados Unidos: os irmãos (no sentido literal da palavra) Ron e Dan Lafferty mataram a facadas Brenda, esposa de Allan, outro irmão deles) e a filhinha dela, Erica, de apenas 15 meses, ou seja, a sobrinha deles. Descobertos, foram acusados e levados a julgamento, quando alegaram ter feito o que fizeram seguindo revelações divinas. Ron foi condenado à morte, mas faleceu de causas naturais com 78 anos em 2019,2 e Dan, condenado à prisão perpétua, sem direito à liberdade condicional, segue preso. Todos os envolvidos, agressores e vítimas, são membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, ou seja, mórmons.

Pois bem, este é o resumo do livro. Logo, a série que o adapta é do gênero true crime, “crime verdadeiro”. O ator principal é Andrew Garfield, que vive o detetive Jeb Pyre, um mórmon praticante, devoto e fiel – detalhe: Garfield, que já deu vida ao Homem Aranha, interpretou um padre jesuíta em Silêncio, de Martin Scorcese, e um adventista do sétimo dia em Até o último homem, de Mel Gibson. Está se especializando em papéis de religiosos, e sempre muito bem em suas atuações. Seu parceiro de investigação é o detetive Bill Taba, que é indígena (vivido pelo ator Gil Birmingham, ele próprio um indígena comanche), o único não branco e não mórmon em uma cidade onde todos são caucasianos e mórmons. Mas o elenco conta com outros nomes conhecidos, como Wyatt Russell (atualmente interpretando John Walker, o Agente Americano, no Universo Cinematográfico Marvel), que tem pedigree artístico, pois é filho de Kurt Russell e Goldie Hawn, e Sam Worthington, que vivem respectivamente os irmãos assassinos Dan e Ron.

Geralmente um filme que envolve crimes e investigação policial apresentam em seus enredos uma narrativa que quer responder as duas perguntas clássicas: quem cometeu o crime e por qual motivo (ou motivos). Em nome do céu é diferente deste roteiro padrão, pois no máximo no segundo episódio já se sabe quem cometeu o crime bárbaro. Resta saber a razão: o que levou dois homens a assassinar com requintes de crueldade (se é que a crueldade pode ser requintada) uma mulher e uma criança pequena totalmente indefesa?

A narrativa acompanha a investigação conduzida pelos detetives Pyre e Taba. Pyre é o clássico “bom moço”: dedicado e responsável em sua ação profissional, fiel à esposa, carinhoso e cuidadoso com as duas filhas pequenas e com a mãe idosa e viúva, com princípio de Alzheimer, que mora com sua família, e firmemente devotado à sua crença religiosa. Allan, além de ter perdido a esposa e a filhinha, é o principal suspeito. Ele é preso preventivamente, mas colabora com a investigação.



A série mostra momentos de flashback nos quais a história da origem do mormonismo é mostrada. Não é objetivo deste texto detalhar a história desta tradição religiosa e nem a abordar a partir de uma perspectiva apologética. Basta dizer que o mormonismo, surgido nos Estados Unidos no século 19, é, em termos sociológicos, uma seita, e em termos teológicos, uma heresia cristã, isto é, um desvio do cristianismo ortodoxo. Uma das crenças exclusivas do mormonismo é a poligamia, o direito de o homem ter mais de uma esposa. Mas os mórmons já no final do século 19 deixaram de praticá-la. Todavia, alguns grupos dissidentes do ramo mórmon principal, chamados de fundamentalistas mórmons, ainda a praticam, ou, pelo menos, a defendem. Aos poucos, o detetive Pyre vai descobrindo as conexões dos irmãos Ron e Dan com grupos fundamentalistas mórmons que vivem em regiões rurais distantes de centros urbanos. A partir dos interrogatórios feitos com Allan, que ficou viúvo de maneira precoce e absurdamente trágica, Pyre descobre que Brenda, a jovem mãe assassinada pelos cunhados, tinha um perfil questionador, que não se encaixa no ideal de uma mulher mórmon, que deve ser sempre completa e totalmente submissa. Ron e Dan passam a considerá-la como uma ameaça, e resgatam uma doutrina mórmon antiga, a “vingança de sangue” (blood atonement, literalmente, “expiação por sangue” no original), que “justificaria” (entre muitas, muitas aspas) assassinatos em nome de Deus. Daí o desfecho cruel da história. No processo investigativo, Pyre entrevista líderes do alto escalão da hierarquia mórmon, e todos o aconselham a deixar os questionamentos de lado. Para estes líderes, Pyre deveria ter uma fé cega, pois todo e qualquer questionamento seria perigoso.

Claro que Pyre entra em uma crise existencial, psicológica e religiosa. É aí que, muito curiosamente, entra o papel importante do seu colega, o detetive Taba, que é ateu. Taba não tem nenhuma crença religiosa, mas tem sabedoria, e ajuda Pyre a (re)colocar a sua vida em uma perspectiva correta.

Como mencionado, a série tem sete episódios, mas poderia ser menor ainda. Alguns episódios andam em círculos, não acrescentando nada ao desenrolar da trama, só repetindo o que já se sabia e tinha sido mostrado. Mesmo assim, vale a pena ser vista, especialmente por causa da reflexão que provoca.

O drama dos Lafferty aconteceu em um meio mórmon, mas não é novidade para ninguém que situações semelhantes (em maior ou menor grau) acontecem, ou podem acontecer, em toda e qualquer tradição religiosa. Uma fé cega é passível de ser manipulada. Se houver líderes religiosos inescrupulosos, e infelizmente os há em toda parte, pessoas com fé, mas sem discernimento, podem ser levadas a fazer coisas horríveis. A fé, por definição, não é lógica, ou seja, está além da capacidade humana de compreensão racional. Mas isso não quer dizer que em nome da fé o raciocínio, a dúvida, o questionamento vão ser deixados de lado. Uma fé cega é potencialmente perigosa. A história está cheia de casos que mostram consequências terríveis de pessoas que deliberadamente ou não, sofreram e fizeram sofrer por vivenciar uma fé que crê, mas não pensa, não reflete, não tem senso crítico (o “penso, logo existo” de Descartes não é absoluto – tem gente que existe, mas não pensa). Felizmente nem todos estes casos tiveram, têm ou terão um desfecho horrível como o dos Lafferty. Mas fica o alerta: a vida de fé é vivida no paradoxo de vivenciar o que não pode ser explicado racionalmente, mas sem abrir mão do pensamento crítico.

Notas
1.São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
2. Ron Lafferty, condenado à morte no estado de Utah, morre de causas naturais. The Salt Lake Tribune. Disponível em https://www.sltrib.com/news/2019/11/11/utah-death-row-inmate-ron/ Acesso: 27 jul 26.



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» Por Que Sou Cristão, John Stott
» Pessoas: Humanas e Divinas – Ensaios sobre a natureza e o valor das pessoas, Peter van Inwagen
é professor no Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da PUC Minas, onde lidera o Grupo de Pesquisa sobre Protestantismo, Religião e Arte. É autor de Dietrich Bonhoeffer e a teologia pública no Brasil (São Paulo: Garimpo Editorial, 2016), vice-presidente da Sociedade Bonhoeffer Brasil e autor de vários artigos sobre Bonhoeffer.
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