Opinião
19 de agosto de 2026- Visualizações: 25
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Abismos sociais e o evangelho
Pessoas não escolhem nascer onde a água é insalubre, não optam por ser vítimas do fogo cruzado, tampouco decidem receber uma educação deficitária
Por Gabrielly C. Cardoso
“Então olhei de novo para toda a injustiça que existe neste mundo. Vi muitos sendo explorados e maltratados. Eles choravam, mas ninguém os ajudava. Ninguém os ajudava porque os seus perseguidores tinham o poder do seu lado.” (Eclesiastes 4.1, NTLH)
É impossível ser um cidadão consciente e não se deparar com os abismos da desigualdade social no Brasil e no mundo. Embora a ética do esforço individual tenha algum lugar, a realidade expõe o que o sociólogo Johan Galtung chamou de "violência estrutural": um sistema onde as próprias engrenagens da sociedade oprimem os mais vulneráveis. Essa opressão invisível fica evidente justamente na falta de direitos fundamentais. Afinal, as pessoas não escolhem nascer onde a água é insalubre, não optam por ser vítimas do fogo cruzado, tampouco decidem receber uma educação deficitária. Como aponta o filósofo Michael Sandel em sua crítica à "tirania do mérito", a crença de que o sucesso financeiro é apenas fruto do esforço pessoal ignora cruelmente o abismo de oportunidades que nos separa. Diante desse cenário, a comparação entre os que têm mais e os que têm menos torna-se inevitável. Esse contraste frequentemente nos incomoda, pois nos obriga a avaliar a nossa própria posição; afinal, mesmo que julguemos não possuir tanto, é muito provável que tenhamos bem mais do que vários outros.
Mas, afinal, o que a Igreja de Cristo tem a ver com isso? Este texto é um convite para reconhecermos que o combate à desigualdade não é uma invenção de ONGs, fóruns econômicos ou pautas políticas contemporâneas; é, antes de tudo, uma exigência Bíblia. Tanto o Antigo quanto o Novo Testamento são enfáticos ao denunciar a assimetria de poder e a desigualdade. O teólogo Walter Brueggemann nos lembra que os profetas bíblicos exerciam uma "imaginação profética": eles não apenas criticavam o status quo, mas desmantelavam as estruturas de opressão do seu tempo. Miquéias delatou o suborno e a exploração promovida pelos líderes (Mq 3.9-12); Elias confrontou o abuso de poder do Estado na figura do rei Acabe em relação aos pobres (1Rs 21); e Malaquias defendeu publicamente mulheres vulneráveis e abandonadas (Ml 2.13-16). Através da legislação mosaica – que criava redes de proteção sistêmicas para viúvas, órfãos e estrangeiros – e do grito desses homens, Deus se revela como um juiz solidário aos marginalizados.

Os ensinamentos de Jesus não apenas reafirmam, mas radicalizam esse compromisso. Na contramão da apatia moderna, Cristo inaugura um Reino materializado em amor e justiça. Em seu discurso inaugural, Ele declara: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos; e proclamar o ano da graça do Senhor” (Lc 4.18-19). Ser imitador de Cristo exige que abandonemos o nosso conforto para nos sujarmos nas feridas do mundo, assim como o fez o Bom Samaritano (Lc 10.25-37), que cruzou barreiras étnicas e econômicas para socorrer um desconhecido. É essa mesma ética que levou a igreja primitiva a subverter a lógica do individualismo, repartindo seus bens para que não houvesse necessitados entre eles (At 4.34).
A desigualdade socioeconômica não é a vontade soberana de Deus, tampouco um fenômeno natural; ela é o sintoma amargo do pecado estrutural, da exploração e da corrupção (Pv 30.14-15; Am 5.12; Sl 12.5). Acomodar-se a esse cenário é trair o Evangelho. Como cristãos, somos agentes do Shalom. O teólogo Cornelius Plantinga define o Shalom bíblico como "o entrelaçamento de Deus, dos seres humanos e de toda a criação em justiça e deleite". Onde há miséria e opressão, o Shalom foi quebrado.
É central na vida do cristão o entendimento de que fomos convocados a participar do amor e da justiça de Deus. Nossa herança e vocação apontam para a restauração do ser humano em sua totalidade. Como sintetizou Timothy Keller: “Deus ama e defende quem tem menos poder econômico e social, e devemos agir da mesma forma. É esse o significado de ‘fazer justiça’.” Essa é a missão integral para a qual fomos chamados: resgatar os perdidos, agir no mundo como filhos de Deus e participar do seu Reino de amor e justiça. Que a nossa inconformidade com os abismos sociais se transforme em ação prática de justiça, equidade e erradicação da pobreza, ecoando o antigo e inegociável mandato divino:
“Ó povo, o SENHOR já lhe declarou o que é bom e o que ele requer de você: que pratique a justiça, ame a misericórdia e ande humildemente com seu Deus.” (Miqueias 6.8 – NVT).
Imagem: Unsplash.
REVISTA ULTIMATO – PERDOA-NOS, COMO NÓS PERDOAMOS
A mais comprometedora petição ensinada por Jesus é essa: Deus pede de nós aquilo que pedimos a ele.
O tema do perdão se espalha por toda a Escritura e rege a relação do ser humano com Deus. É provavelmente o conceito que mais realiza conexões com temas da teologia. Sem a menção ao perdão não se discursa sobre o acesso a Deus, a obra da salvação, o objetivo da graça divina nem sobre Jesus encarnado, o amor de Deus, o resgate, a restauração, a missão da igreja etc.
Este é o assunto da matéria de capa da edição 420. Clique aqui e saiba mais. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
» Muitas Andorinhas Fazem Verão – Renovo - Unindo Pessoas na Transformação Social da Cidade, Cilas Fiuza Gavioli
» A Missão Cristã no Mundo Moderno, John Stott
» Quando a Igreja Abraça a Cidade, Vários autores
» Trabalho sob a perspectiva do reino de Deus, por Gabrielly C. Cardoso
Por Gabrielly C. Cardoso
“Então olhei de novo para toda a injustiça que existe neste mundo. Vi muitos sendo explorados e maltratados. Eles choravam, mas ninguém os ajudava. Ninguém os ajudava porque os seus perseguidores tinham o poder do seu lado.” (Eclesiastes 4.1, NTLH)
É impossível ser um cidadão consciente e não se deparar com os abismos da desigualdade social no Brasil e no mundo. Embora a ética do esforço individual tenha algum lugar, a realidade expõe o que o sociólogo Johan Galtung chamou de "violência estrutural": um sistema onde as próprias engrenagens da sociedade oprimem os mais vulneráveis. Essa opressão invisível fica evidente justamente na falta de direitos fundamentais. Afinal, as pessoas não escolhem nascer onde a água é insalubre, não optam por ser vítimas do fogo cruzado, tampouco decidem receber uma educação deficitária. Como aponta o filósofo Michael Sandel em sua crítica à "tirania do mérito", a crença de que o sucesso financeiro é apenas fruto do esforço pessoal ignora cruelmente o abismo de oportunidades que nos separa. Diante desse cenário, a comparação entre os que têm mais e os que têm menos torna-se inevitável. Esse contraste frequentemente nos incomoda, pois nos obriga a avaliar a nossa própria posição; afinal, mesmo que julguemos não possuir tanto, é muito provável que tenhamos bem mais do que vários outros.Mas, afinal, o que a Igreja de Cristo tem a ver com isso? Este texto é um convite para reconhecermos que o combate à desigualdade não é uma invenção de ONGs, fóruns econômicos ou pautas políticas contemporâneas; é, antes de tudo, uma exigência Bíblia. Tanto o Antigo quanto o Novo Testamento são enfáticos ao denunciar a assimetria de poder e a desigualdade. O teólogo Walter Brueggemann nos lembra que os profetas bíblicos exerciam uma "imaginação profética": eles não apenas criticavam o status quo, mas desmantelavam as estruturas de opressão do seu tempo. Miquéias delatou o suborno e a exploração promovida pelos líderes (Mq 3.9-12); Elias confrontou o abuso de poder do Estado na figura do rei Acabe em relação aos pobres (1Rs 21); e Malaquias defendeu publicamente mulheres vulneráveis e abandonadas (Ml 2.13-16). Através da legislação mosaica – que criava redes de proteção sistêmicas para viúvas, órfãos e estrangeiros – e do grito desses homens, Deus se revela como um juiz solidário aos marginalizados.

Os ensinamentos de Jesus não apenas reafirmam, mas radicalizam esse compromisso. Na contramão da apatia moderna, Cristo inaugura um Reino materializado em amor e justiça. Em seu discurso inaugural, Ele declara: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos; e proclamar o ano da graça do Senhor” (Lc 4.18-19). Ser imitador de Cristo exige que abandonemos o nosso conforto para nos sujarmos nas feridas do mundo, assim como o fez o Bom Samaritano (Lc 10.25-37), que cruzou barreiras étnicas e econômicas para socorrer um desconhecido. É essa mesma ética que levou a igreja primitiva a subverter a lógica do individualismo, repartindo seus bens para que não houvesse necessitados entre eles (At 4.34).
A desigualdade socioeconômica não é a vontade soberana de Deus, tampouco um fenômeno natural; ela é o sintoma amargo do pecado estrutural, da exploração e da corrupção (Pv 30.14-15; Am 5.12; Sl 12.5). Acomodar-se a esse cenário é trair o Evangelho. Como cristãos, somos agentes do Shalom. O teólogo Cornelius Plantinga define o Shalom bíblico como "o entrelaçamento de Deus, dos seres humanos e de toda a criação em justiça e deleite". Onde há miséria e opressão, o Shalom foi quebrado.
É central na vida do cristão o entendimento de que fomos convocados a participar do amor e da justiça de Deus. Nossa herança e vocação apontam para a restauração do ser humano em sua totalidade. Como sintetizou Timothy Keller: “Deus ama e defende quem tem menos poder econômico e social, e devemos agir da mesma forma. É esse o significado de ‘fazer justiça’.” Essa é a missão integral para a qual fomos chamados: resgatar os perdidos, agir no mundo como filhos de Deus e participar do seu Reino de amor e justiça. Que a nossa inconformidade com os abismos sociais se transforme em ação prática de justiça, equidade e erradicação da pobreza, ecoando o antigo e inegociável mandato divino:
“Ó povo, o SENHOR já lhe declarou o que é bom e o que ele requer de você: que pratique a justiça, ame a misericórdia e ande humildemente com seu Deus.” (Miqueias 6.8 – NVT).
- Gabrielly C. Cardoso é socióloga e mestranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), pesquisadora no Núcleo de Estudos sobre Política Local e membra da Quarta Igreja Presbiteriana de Juiz de Fora.
Imagem: Unsplash.
REVISTA ULTIMATO – PERDOA-NOS, COMO NÓS PERDOAMOSA mais comprometedora petição ensinada por Jesus é essa: Deus pede de nós aquilo que pedimos a ele.
O tema do perdão se espalha por toda a Escritura e rege a relação do ser humano com Deus. É provavelmente o conceito que mais realiza conexões com temas da teologia. Sem a menção ao perdão não se discursa sobre o acesso a Deus, a obra da salvação, o objetivo da graça divina nem sobre Jesus encarnado, o amor de Deus, o resgate, a restauração, a missão da igreja etc.
Este é o assunto da matéria de capa da edição 420. Clique aqui e saiba mais. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
» Muitas Andorinhas Fazem Verão – Renovo - Unindo Pessoas na Transformação Social da Cidade, Cilas Fiuza Gavioli
» A Missão Cristã no Mundo Moderno, John Stott
» Quando a Igreja Abraça a Cidade, Vários autores
» Trabalho sob a perspectiva do reino de Deus, por Gabrielly C. Cardoso
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