Opinião
21 de julho de 2026- Visualizações: 34
comente!- +A
- -A
-
compartilhar
J. I. Packer (1926–2020)
100 anos de nascimento do autor do clássico Conhecendo a Deus – um livro para pessoas dispostas a pensar de forma séria e honesta
Por Jose de Segovia
Relatar tudo isso ajuda a compreender melhor o crescente fascínio de J. I. Packer pela América do Norte. Depois de atuar como professor visitante no Seminário Teológico de Westminster, na Filadélfia, e no Seminário Teológico Fuller, em Pasadena, Califórnia, ele já passava dez semanas por ano nos Estados Unidos, embora só tenha estabelecido residência permanente no Canadá na década de 1980. Foi também na América que o livro que compilava os artigos que ele havia publicado na revista que coeditava com Lloyd-Jones desde o final da década de 1950, Conhecendo a Deus, se tornou popular. A história começa com uma encomenda de Elizabeth Braund (1921-2013), jornalista da BBC que se converteu graças à pregação de Packer na Capela de Westminster. Ele a incumbiu da responsabilidade pela revista Evangelical Magazine, tendo Packer como consultor, juntamente com o galês Elwyn-Davies.
Braund pediu a Packer que escrevesse uma série de artigos para pessoas “cansadas da verborragia religiosa”, que estivessem “dispostas a pensar de forma séria e honesta” e, acima de tudo, que “quisessem algo real”. É a esse público que se dirige Conhecendo a Deus. Concordo com McGrath que Packer seguiu rigorosamente a orientação de Braund. Para compreender bem esses textos, precisamos ter em mente o público ao qual se dirigem.
Os artigos foram levemente editados para serem publicados na forma de livro, mas mantêm a ordem original. Packer lia o texto anterior antes de escrever um novo. A ordem é claramente consecutiva, mas ele não tinha a menor ideia de que iria fazer um livro com eles. A ideia surgiu quando ele lecionava na Trinity, no final dos anos 60. Ele propôs o projeto à editora dos estudantes evangélicos na Inglaterra, a Inter-Varsity Press (IVP), mas o que eles queriam era que ele escrevesse sobre o movimento carismático, algo que ele não via com clareza. Foi a Inter-Varsity americana que acabou publicando o livro, depois da Hodder & Stoughton na Inglaterra.
Packer já havia escrito um livro em uma coleção editada por John Stott para a Hodder & Stoughton sobre o Apocalipse e a Bíblia, mas o restante de seus livros estava na IVP – que mais tarde publicaria sua obra polêmica sobre o Espírito Santo, Na Dinâmica do Espírito, que inclui uma avaliação positiva do movimento carismático. O que aconteceu foi que o editor da filial americana da IVP, James Sire (1933-2018) – a quem tive a oportunidade de conhecer e até mesmo traduzir algumas palestras –, veio à comunidade de Francis Schaeffer em L’Abri, na Suíça, para trabalhar com Os Guinness no manuscrito de outro livro interessante que nunca foi publicado em espanhol, Pó da Morte: Uma crítica cristã à contracultura. Ao passar por Londres, Sire visitou o editor da Hodder & Stoughton e, em apenas um quarto de hora folheando o livro de Packer, decidiu publicá-lo nos Estados Unidos.

A primeira edição era em capa dura, mas, ao publicá-la em brochura como edição de bolso, a Hodder & Stoughton cometeu o erro de utilizar o índice que Packer havia elaborado para a primeira edição sem alterar a numeração das páginas, que não coincidia. Irritado, Packer fez com que repetissem a edição.
Um livro para pessoas cansadas da verborragia religiosa, dispostas a pensar de forma séria e honesta
Como é que Conhecendo a Deus se tornou um clássico? Não apenas da literatura evangélica, mas da literatura cristã em geral, já que é um livro que pode ser comprado na Inglaterra em qualquer livraria. Em 1992, já havia vendido um milhão de exemplares, algo que Packer jamais teria imaginado. O que surpreende o mundo editorial em relação a Conhecendo a Deus é que não se trata de um livro fácil de ler, vamos deixar isso bem claro. Não tem nada a ver com a chamada “literatura de autoajuda” que domina o mundo cristão com mensagens simplistas e superficiais, mas aborda questões complexas da fé com um estilo claro, bíblico e realista.
Para entender isso, vamos dar uma olhada em qualquer parágrafo do livro, como estas linhas do epígrafe intitulado “Conhecer e ser conhecido”. A tradução é minha, pois, como já disse, não me entusiasmam as várias traduções que já existem em espanhol:
“O que importa, acima de tudo, não é, em última análise, o fato de eu conhecer a Deus, mas um fato ainda maior e fundamental: que ele me conhece. Estou gravado nas palmas de suas mãos. Nunca saio de sua mente. Todo o meu conhecimento depende de sua iniciativa contínua em me conhecer. Eu o conheço, porque ele me conheceu primeiro e continua me conhecendo. Ele me conhece como amigo, que me ama, e não há momento em que deixe de olhar para mim, ou em que sua atenção diminua, de modo que falte seu cuidado.”
Em primeiro lugar, observem o poder das imagens verbais. A expressão “gravado nas palmas de suas mãos” vem da Bíblia, mas, significativamente, não cita o livro, capítulo ou versículo. Ao contrário da maioria da literatura evangélica, Packer não cansa seus leitores com citações bíblicas contínuas entre parênteses. Seus textos podem ser lidos de forma contínua, sem interrupções. Em segundo lugar, trata-se de uma prosa imbuída das Escrituras, mas com alusões a textos bíblicos, não referências explícitas. Em terceiro lugar, é uma visão puritana da teologia, pois aplica a doutrina à vida. É experimental. E, em quarto e último lugar, identifica sempre o Criador com o Redentor; o Deus de quem fala é aquele que se revelou em Cristo Jesus.
As mãos de Deus, o Criador, são, na tradição cristã desde Irineu de Lyon, feridas para salvar sua Criação. Perfuradas pelos pregos da cruz, elas nos mostram que o Autor é o Redentor. Quando são mostradas a Tomé como prova da realidade de sua ressurreição, elas aparecem com as marcas das feridas que as perfuraram (Jo 20.24-28). É assim que podemos conhecer a realidade de Deus, não por meio de uma consciência que tenhamos naturalmente dele, mas pelo conhecimento que ele nos deu em Cristo Jesus.
Conhecer a Deus não é saber sobre ele. É o conhecimento que vem de um relacionamento que nos faz confiar nele. É conhecer o relacionamento dele conosco. O que é a fé senão conhecer aquele que está em relacionamento conosco? Nas palavras do reformador, a verdadeira sabedoria está nesse conhecimento de Deus e de nós mesmos. Esse conhecimento é o único que nos salva. Nenhum outro.
Trecho do artigo La diferencia entre saber y conocer para Packer. Protestante Digital. Reproduzido com permissão.
REVISTA ULTIMATO – PERDOA-NOS, COMO NÓS PERDOAMOS
A mais comprometedora petição ensinada por Jesus é essa: Deus pede de nós aquilo que pedimos a ele.
O tema do perdão se espalha por toda a Escritura e rege a relação do ser humano com Deus. É provavelmente o conceito que mais realiza conexões com temas da teologia. Sem a menção ao perdão não se discursa sobre o acesso a Deus, a obra da salvação, o objetivo da graça divina nem sobre Jesus encarnado, o amor de Deus, o resgate, a restauração, a missão da igreja etc.
Este é o assunto da matéria de capa da edição 420. Clique aqui e saiba mais. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
» Conhecendo a Deus ao Longo do Ano – Meditações diárias, J. I. Packer
» Box Stott – O Cristão Contemporâneo
» A Arte e a Bíblia, Francis Schaeffer
» Como saber a vontade de Deus?, por Luiz Fernando dos Santos
» J.I. Packer, o legado de um defensor da fé evangélica, por Reinaldo Percinoto Jr.
Por Jose de Segovia
Relatar tudo isso ajuda a compreender melhor o crescente fascínio de J. I. Packer pela América do Norte. Depois de atuar como professor visitante no Seminário Teológico de Westminster, na Filadélfia, e no Seminário Teológico Fuller, em Pasadena, Califórnia, ele já passava dez semanas por ano nos Estados Unidos, embora só tenha estabelecido residência permanente no Canadá na década de 1980. Foi também na América que o livro que compilava os artigos que ele havia publicado na revista que coeditava com Lloyd-Jones desde o final da década de 1950, Conhecendo a Deus, se tornou popular. A história começa com uma encomenda de Elizabeth Braund (1921-2013), jornalista da BBC que se converteu graças à pregação de Packer na Capela de Westminster. Ele a incumbiu da responsabilidade pela revista Evangelical Magazine, tendo Packer como consultor, juntamente com o galês Elwyn-Davies.Braund pediu a Packer que escrevesse uma série de artigos para pessoas “cansadas da verborragia religiosa”, que estivessem “dispostas a pensar de forma séria e honesta” e, acima de tudo, que “quisessem algo real”. É a esse público que se dirige Conhecendo a Deus. Concordo com McGrath que Packer seguiu rigorosamente a orientação de Braund. Para compreender bem esses textos, precisamos ter em mente o público ao qual se dirigem.
Os artigos foram levemente editados para serem publicados na forma de livro, mas mantêm a ordem original. Packer lia o texto anterior antes de escrever um novo. A ordem é claramente consecutiva, mas ele não tinha a menor ideia de que iria fazer um livro com eles. A ideia surgiu quando ele lecionava na Trinity, no final dos anos 60. Ele propôs o projeto à editora dos estudantes evangélicos na Inglaterra, a Inter-Varsity Press (IVP), mas o que eles queriam era que ele escrevesse sobre o movimento carismático, algo que ele não via com clareza. Foi a Inter-Varsity americana que acabou publicando o livro, depois da Hodder & Stoughton na Inglaterra.
Packer já havia escrito um livro em uma coleção editada por John Stott para a Hodder & Stoughton sobre o Apocalipse e a Bíblia, mas o restante de seus livros estava na IVP – que mais tarde publicaria sua obra polêmica sobre o Espírito Santo, Na Dinâmica do Espírito, que inclui uma avaliação positiva do movimento carismático. O que aconteceu foi que o editor da filial americana da IVP, James Sire (1933-2018) – a quem tive a oportunidade de conhecer e até mesmo traduzir algumas palestras –, veio à comunidade de Francis Schaeffer em L’Abri, na Suíça, para trabalhar com Os Guinness no manuscrito de outro livro interessante que nunca foi publicado em espanhol, Pó da Morte: Uma crítica cristã à contracultura. Ao passar por Londres, Sire visitou o editor da Hodder & Stoughton e, em apenas um quarto de hora folheando o livro de Packer, decidiu publicá-lo nos Estados Unidos.

A primeira edição era em capa dura, mas, ao publicá-la em brochura como edição de bolso, a Hodder & Stoughton cometeu o erro de utilizar o índice que Packer havia elaborado para a primeira edição sem alterar a numeração das páginas, que não coincidia. Irritado, Packer fez com que repetissem a edição.
Um livro para pessoas cansadas da verborragia religiosa, dispostas a pensar de forma séria e honesta
Como é que Conhecendo a Deus se tornou um clássico? Não apenas da literatura evangélica, mas da literatura cristã em geral, já que é um livro que pode ser comprado na Inglaterra em qualquer livraria. Em 1992, já havia vendido um milhão de exemplares, algo que Packer jamais teria imaginado. O que surpreende o mundo editorial em relação a Conhecendo a Deus é que não se trata de um livro fácil de ler, vamos deixar isso bem claro. Não tem nada a ver com a chamada “literatura de autoajuda” que domina o mundo cristão com mensagens simplistas e superficiais, mas aborda questões complexas da fé com um estilo claro, bíblico e realista.
Para entender isso, vamos dar uma olhada em qualquer parágrafo do livro, como estas linhas do epígrafe intitulado “Conhecer e ser conhecido”. A tradução é minha, pois, como já disse, não me entusiasmam as várias traduções que já existem em espanhol:
“O que importa, acima de tudo, não é, em última análise, o fato de eu conhecer a Deus, mas um fato ainda maior e fundamental: que ele me conhece. Estou gravado nas palmas de suas mãos. Nunca saio de sua mente. Todo o meu conhecimento depende de sua iniciativa contínua em me conhecer. Eu o conheço, porque ele me conheceu primeiro e continua me conhecendo. Ele me conhece como amigo, que me ama, e não há momento em que deixe de olhar para mim, ou em que sua atenção diminua, de modo que falte seu cuidado.”
Em primeiro lugar, observem o poder das imagens verbais. A expressão “gravado nas palmas de suas mãos” vem da Bíblia, mas, significativamente, não cita o livro, capítulo ou versículo. Ao contrário da maioria da literatura evangélica, Packer não cansa seus leitores com citações bíblicas contínuas entre parênteses. Seus textos podem ser lidos de forma contínua, sem interrupções. Em segundo lugar, trata-se de uma prosa imbuída das Escrituras, mas com alusões a textos bíblicos, não referências explícitas. Em terceiro lugar, é uma visão puritana da teologia, pois aplica a doutrina à vida. É experimental. E, em quarto e último lugar, identifica sempre o Criador com o Redentor; o Deus de quem fala é aquele que se revelou em Cristo Jesus.
As mãos de Deus, o Criador, são, na tradição cristã desde Irineu de Lyon, feridas para salvar sua Criação. Perfuradas pelos pregos da cruz, elas nos mostram que o Autor é o Redentor. Quando são mostradas a Tomé como prova da realidade de sua ressurreição, elas aparecem com as marcas das feridas que as perfuraram (Jo 20.24-28). É assim que podemos conhecer a realidade de Deus, não por meio de uma consciência que tenhamos naturalmente dele, mas pelo conhecimento que ele nos deu em Cristo Jesus.
Conhecer a Deus não é saber sobre ele. É o conhecimento que vem de um relacionamento que nos faz confiar nele. É conhecer o relacionamento dele conosco. O que é a fé senão conhecer aquele que está em relacionamento conosco? Nas palavras do reformador, a verdadeira sabedoria está nesse conhecimento de Deus e de nós mesmos. Esse conhecimento é o único que nos salva. Nenhum outro.
Trecho do artigo La diferencia entre saber y conocer para Packer. Protestante Digital. Reproduzido com permissão.
- Jose de Segovia, jornalista, teólogo e pastor, escreve para o site Protestante Digital.
REVISTA ULTIMATO – PERDOA-NOS, COMO NÓS PERDOAMOSA mais comprometedora petição ensinada por Jesus é essa: Deus pede de nós aquilo que pedimos a ele.
O tema do perdão se espalha por toda a Escritura e rege a relação do ser humano com Deus. É provavelmente o conceito que mais realiza conexões com temas da teologia. Sem a menção ao perdão não se discursa sobre o acesso a Deus, a obra da salvação, o objetivo da graça divina nem sobre Jesus encarnado, o amor de Deus, o resgate, a restauração, a missão da igreja etc.
Este é o assunto da matéria de capa da edição 420. Clique aqui e saiba mais. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
» Conhecendo a Deus ao Longo do Ano – Meditações diárias, J. I. Packer
» Box Stott – O Cristão Contemporâneo
» A Arte e a Bíblia, Francis Schaeffer
» Como saber a vontade de Deus?, por Luiz Fernando dos Santos
» J.I. Packer, o legado de um defensor da fé evangélica, por Reinaldo Percinoto Jr.
21 de julho de 2026- Visualizações: 34
comente!- +A
- -A
-
compartilhar

Leia mais em Opinião
Opinião do leitor
Para comentar é necessário estar logado no site. Clique aqui para fazer o login ou o seu cadastro.
Ainda não há comentários sobre este texto. Seja o primeiro a comentar!
Escreva um artigo em resposta
Para escrever uma resposta é necessário estar cadastrado no site. Clique aqui para fazer o login ou seu cadastro.
Ainda não há artigos publicados na seção "Palavra do leitor" em resposta a este texto.
Assuntos em Últimas
- 500AnosReforma
- Aconteceu Comigo
- Aconteceu há...
- Agenda50anos
- Arte e Cultura
- Biografia e História
- Casamento e Família
- Ciência
- Devocionário
- Espiritualidade
- Estudo Bíblico
- Evangelização e Missões
- Ética e Comportamento
- Igreja e Liderança
- Igreja em ação
- Institucional
- Juventude
- Legado e Louvor
- Meio Ambiente
- Política e Sociedade
- Reportagem
- Resenha
- Sessenta +
- Série Ciência e Fé Cristã
- Teologia e Doutrina
- Testemunho
- Vida Cristã
Revista Ultimato
+ lidos
- Paz social: uma perspectiva bíblica para a dupla cidadania do cristão em sua jornada neste mundo
- Rasgar o coração e não as vestes: o clamor além do ritual
- Outlander – o resgate de princípios, valores e virtudes
- O Evangelho é a verdade pública
- Como orar e ajudar a Venezuela
- Os nefilins voltaram: o gigantismo das IAs e sua fusão com a humanidade
- Oportunidades para julho de 2026
- “Como nós perdoamos...”. Nós perdoamos?
- Vem aí o Encontro de surdos em missões 2026
- Projeto Pérola: 45 anos do envio de um milhão de Bíblias para a China
(31)3611 8500
(31)99437 0043
Imaginação e autenticidade: C. S. Lewis e as ferramentas da fantasia
Café, leitura e revolução
O encontro com Jesus e o conflito de vontades
Quais são os 8 segmentos menos evangelizados do Brasil?






