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Opinião

Educação metodista no Brasil

De uma contribuição histórica a tempos de aflição

Por Alderi Souza de Matos

Surgido na Inglaterra sob a liderança dos irmãos Wesley durante o Avivamento Evangélico do século 18, o movimento metodista floresceu extraordinariamente do outro lado do Atlântico, graças ao trabalho incansável do bispo Francis Asbury, pai do metodismo americano. Nas primeiras décadas do século 19, no contexto do chamado Segundo Grande Despertamento, a Igreja Metodista Episcopal tornou-se uma das maiores e mais pujantes da nova nação americana. No final dos anos 1830, essa igreja enviou ao Rio de Janeiro uma pequena missão composta pelos reverendos Fountain Pitts, Justin Spaulding e Daniel Parish Kidder – este último autor de um valioso livro sobre o Brasil.

Devido a uma série de dificuldades, essa missão pioneira foi encerrada em 1841, sendo quatro anos depois criada nos Estados Unidos a Igreja Metodista Episcopal do Sul. Duas décadas mais tarde (1867), a nova denominação enviou ao Brasil o seu primeiro obreiro, o reverendo Junius Eastham Newman, para trabalhar entre os imigrantes sulistas que se estabeleciam na província de São Paulo. Finalmente, em 1876, há exatos 150 anos, chegou o reverendo John James Ransom, o primeiro missionário do metodismo permanente, que dois anos depois organizou uma igreja no Rio de Janeiro. A partir de 1880, a Igreja Metodista Episcopal (Norte) também passou a atuar em duas regiões – Pará e Rio Grande do Sul. Finalmente, em 1886, foi organizada a Conferência Anual Brasileira, com apenas três missionários: James L. Kennedy, John W. Tarboux e Hugh C. Tucker.

A partir dessa origem humilde, a nova agremiação religiosa experimentou grande progresso e passou a investir de maneira crescente na educação, em especial na região Sudeste do Brasil e no Rio Grande do Sul. Em 1881, a missionária recém-chegada Martha Hite Watts criou uma escola para moças em Piracicaba, SP, dando início à grande obra educacional metodista no Brasil. Foi a origem do Colégio Piracicabano, com seus belos edifícios no centro dessa cidade paulista. Poucos anos após, surgiu o Colégio Americano de Porto Alegre (1885), depois Colégio Metodista Americano. A seguir, passaram a funcionar quase simultaneamente duas notáveis instituições: o Instituto Metodista Bennett (1888) e o Instituto Metodista Granbery (1889), respectivamente no Rio de Janeiro e em Juiz de Fora, MG. Uma década mais tarde, ainda no século 19, teve início o Instituto e Colégio Metodista de Ribeirão Preto, SP (1899).

Nas primeiras décadas do século 20, multiplicaram-se as escolas metodistas em vários estados: Instituto Metodista Izabela Hendrix, em Belo Horizonte (1904); Instituto União de Uruguaiana da Igreja Metodista (1908); Instituto Noroeste de Birigui, SP (1918); Instituto Porto Alegre (1919); Instituto Educacional Metodista de Passo Fundo, RS (1920); Colégio Metodista Centenário, em Santa Maria, RS (1922); e Instituto Americano de Lins, SP (1928). Mais tarde, vieram à luz o Instituto Metodista Educacional de Altamira, PA (1972) e a Faculdade Metodista de Santa Maria (1988). Finalmente, nos anos 1970, surgiram duas grandes universidades: a Universidade Metodista de São Paulo – UMESP, em São Bernardo do Campo (1971) – e a Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP (1975). A história dessas organizações está narrada no Dicionário Enciclopédico de Instituições Protestantes no Brasil – Instituições Educacionais, publicado pela Editora Mackenzie em 2019.

Ao longo de mais de um século, as escolas metodistas deram contribuições marcantes à sociedade brasileira. Várias delas se tornaram célebres em âmbito nacional e internacional, tendo contribuído para a formação de indivíduos destacados em diversas esferas. Porém, um complexo educacional tão vasto corria sérios perigos, como reflexo das dificuldades enfrentadas pelo próprio país. A partir de 2015, a Rede Metodista de Educação (RME) passou a se defrontar com profunda crise financeira e administrativa, agravada pela pandemia de Covid-19, alterações no Fundo de Financiamento Estudantil (FIES) e recessão econômica. As dívidas trabalhistas e com fornecedores se acumularam de modo gigantesco, alcançando centenas de milhões de reais. Em abril de 2026, a recuperação judicial da Rede Metodista de Educação, cujo plano havia sido homologado em 2022, foi encerrada em caráter definitivo por decisão do Superior Tribunal de Justiça. Com isso, os mais de 11 mil credores de uma dívida superior a 700 milhões de reais foram autorizados a retomar as execuções individuais.



Ao longo da recuperação judicial, a RME pagou mais de 200 milhões de reais até o final de 2025. Para tanto, muitas das antigas escolas acima foram fechadas e procedeu-se à alienação de imóveis históricos, como a magnífica propriedade do Colégio Bennett, no bairro do Flamengo, que foi vendida a uma incorporadora e deverá ser transformada em um residencial de alto padrão. Somente o casarão original será preservado. O Instituto Presbiteriano Mackenzie tentou adquirir esse imóvel, mas ele infelizmente já estava prometido a essa construtora. O Colégio e o Centro Universitário Izabela Hendrix encerraram suas atividades e seu campus histórico foi vendido à PUC Minas. O Centro Esportivo do Instituto Granbery foi arrematado em leilão e o campus Taquaral da UNIMEP em Piracicaba também foi alienado. O campus Vergueiro da UMESP foi desativado e entregue à prefeitura de São Bernardo do Campo para amortizar dívidas tributárias.

Em maio de 2026, o bispo Roberto Alves de Souza, presidente do Colégio Episcopal e principal líder da denominação, gravou um pronunciamento oficial reconhecendo as dificuldades, informando as medidas que estão sendo tomadas e procurando tranquilizar os fiéis. Este é um momento de amarga provação para a Igreja Metodista do Brasil, com todo o seu rico histórico de realizações. Os últimos anos também têm sido angustiosos para as centenas de professores e funcionários privados de seus direitos trabalhistas. Não é hora de procurar culpados, mas de interceder junto a Deus pela solução dessa dolorosa crise e fazer séria reflexão sobre as lições que esse episódio traz para a educação confessional no Brasil.

Artigo publicado originalmente na edição 420 de Ultimato.

Imagem: Primeiro prédio erguido no campus da Universidade Metodista do Estado de São Paulo (UMESP), em 1942, localizado em São Bernardo do Campo, SP. Crédito: UMESP.


REVISTA ULTIMATO – PERDOA-NOS, COMO NÓS PERDOAMOS
A mais comprometedora petição ensinada por Jesus é essa: Deus pede de nós aquilo que pedimos a ele.
O tema do
perdão se espalha por toda a Escritura e rege a relação do ser humano com Deus. É provavelmente o conceito que mais realiza conexões com temas da teologia. Sem a menção ao perdão não se discursa sobre o acesso a Deus, a obra da salvação, o objetivo da graça divina nem sobre Jesus encarnado, o amor de Deus, o resgate, a restauração, a missão da igreja etc.
Este é o assunto da matéria de capa da
edição 420. Clique aqui e saiba mais. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
» A Caminhada Cristã na História – A Bíblia, a Igreja e a sociedade ontem e hoje, Alderi Souza de Matos
» A Grande História – Um Convite para Professores Cristãos, Rick Hove, Heather Holleman
» A contribuição protestante à educação superior, por Marcone Bezerra Carvalho
 Autor de A Caminhada Cristã na História, Alderi Souza de Matos é pastor presbiteriano e professor no Centro de Pós-Graduação Andrew Jumper, em São Paulo. É bacharel em teologia, filosofia e direito, mestre em Novo Testamento (S.T.M.) e doutor em História da Igreja (Th.D.). É também o historiador da Igreja Presbiteriana do Brasil e escreve a coluna “História” da revista Ultimato.
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