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Opinião

Perdão tamanho família

Por que temos tanta dificuldade para perdoar? Por que preferimos nos manter prisioneiros das correntes da amargura e do ressentimento?

Por Karin Wondracek


A parábola do credor sem compaixão
[Mateus 18.23-35]


Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? (v. 21.)

O que você faria se estivesse condenado à prisão perpétua e soubesse que sua pena foi revogada?

Você certamente não seria tolo de permanecer na cadeia. Mas, quando se trata de relações pessoais, muitos preferem continuar prisioneiros do ressentimento e da amargura, que sufocam os afetos. Isso acontece principalmente no contexto familiar, onde erguermos prisões que nos afastam das pessoas que nos feriram. Como podemos sair dessa prisão e alcançar a liberdade?

Só o perdão pode nos libertar dessa prisão. As pessoas falam muito sobre perdão, mas praticam pouco. Mesmo aqueles que se dizem religiosos muitas vezes não sabem perdoar, principalmente quando se trata de pessoas da família.

Por que temos tanta dificuldade para perdoar? Por que preferimos nos manter prisioneiros das correntes da amargura e do ressentimento? Por que retemos o perdão? Jesus abordou esse tema na parábola do credor incompassivo, narrada em Mateus 18.23-35. A parábola conta a história de um homem que foi perdoado de uma grande dívida, mas não soube perdoar aquele que lhe devia uma pequena quantia.

Queremos ser perdoados, mas não estendemos o benefício do perdão para aqueles com quem nos relacionamos no dia a dia. Usufruímos da graça, mas permanecemos na posição de crianças mimadas, interessadas apenas em receber presentes: comida, carinho e perdão dos pecados. Desejamos a presença do Pai, mas não queremos nos revestir da identidade perdoadora do Pai. Perdoar implica mudar de rumo, de prioridades. É um ato de entrega. Somos como o povo da Galileia, sedento de pão e milagres, mas sem disposição para trilhar os passos de Jesus.1

Quais são esses passos?
O primeiro passo é saber que uma vez perdoados por Deus em Jesus Cristo, ele quer agora recriar em nós sua imagem e semelhança. Por meio de Jesus temos comunhão com Deus e perdão dos pecados, porém Deus quer mais do que isso, ele quer que sejamos semelhantes a ele. Isso implica uma mudança de identidade: passamos a nos identificar como filhos de Deus, cuja característica principal é a misericórdia. Essa palavra se origina da expressão hebraica que significa útero ou matriz. O que significa ser matriz para os outros? Segundo o tradutor André Chouraqui, ser matriz é assumir entre seus irmãos a função principal de Deus, que é matriz do universo. A matriz recebe, mantém e dá a vida, oferecendo ao feto tudo que ele precisa para viver. Deus tem função de matriz para o universo e para cada uma de suas criaturas. Aquele que ama a Deus também deve ser assim, e viver para matriciar o mundo.2

Se agirmos assim, consequentemente seremos mais misericordiosos e nos libertaremos do padrão humano de ação e reação, ofensa e vingança. Jesus nos deu um novo mandamento: amai-vos uns aos outros (Jo 13.34). Porém, isso não significa que devemos amar somente aqueles que nos amam, pois ele também disse: “amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”.3

Cabe aqui uma palavra de advertência. Esse mandamento não deve ser usado como desculpa para impedir que as pessoas que sofreram agressões físicas ou verbais denunciem seus agressores. A violência deve ser denunciada e os agressores punidos. Talvez a melhor solução seja a combinação de uma ação afirmativa para impedir que a agressão se repita, incluindo desde estudos bíblicos até denúncias às autoridades competentes, principalmente quando se trata de violência contra mulheres e crianças.4

Resolvida esta questão, agora é a vez de aprendermos a perdoar. Jesus ensinou que não há exceção para o perdão. O caminho do perdão nem sempre é fácil. É o caminho da cruz, aberto por Jesus.

O segundo passo para aprendermos a perdoar é procurar fazer o que Jesus faria se estivesse em nosso lugar. Muitas vezes, procuramos agir como Jesus, mas apenas dentro da igreja. Quando saímos dali, queremos viver do nosso jeito, e não abrimos mão do direito de colocar na prisão aqueles que nos devem. Porém, não percebemos que nós também estamos presos. As grades que nos mantêm aprisionados não são de ferro nem de concreto; são as grades do ressentimento e do desejo de vingança. Quando não liberamos o perdão, não permitimos que a ofensa se torne algo libertador, diz o psiquiatra Carlos Hernández.5

Como isso afeta as relações familiares?

No ambiente familiar não há como usar máscaras; é dentro de casa que somos nós mesmos, com nossos defeitos e virtudes. São nossos familiares que nos causam as mais profundas feridas e as maiores decepções, justamente porque alimentamos grandes expectativas em relação a eles. É na família que descobrimos que aqueles que mais amamos falham e nos decepcionam. Isto provoca raiva, desânimo e amargura.

Se não praticamos o perdão, esses sentimentos vão se acumulando e, pouco a pouco, se transformam em muralhas que nos separam uns dos outros e nos paralisam.

Para Carlos Hernández, perdoar é consentir num mandato de Deus para assistir ao milagre da sua graça. Perdoar é ter a chance de escolher de novo e livrar-se da repetição. É reconhecer que os outros não são responsáveis pela nossa infelicidade.

Perdoar é não cair na armadilha de culpar o outro. O papel de vítima aparentemente nos livra de responsabilidade, mas nos imobiliza, pois nos sentimos incapazes e dignos de pena.

Hernández segue dizendo que perdoar é voltar a experimentar a ferida causada pelo ofensor, mas em um contexto diferente.

Todas essas reflexões conduzem a um conceito fundamental: perdoar é aceitar. Aceitar que vivemos debaixo da graça de Deus, aceitar que ele já nos perdoou. Perdoar significa tornar a escolher; perceber que o mundo está aberto a diferentes pontos de vista; descobrir novas percepções da multiforme graça de Deus.



Uma mulher relatou que não conseguia esquecer as ofensas que seu marido lhe infligira. As lembranças das discussões e dos mal-entendidos não saíam de sua cabeça. Ela se sentia presa ao passado e destinada a viver amargamente o resto dos seus dias.

Certo dia, ao ler a Bíblia, ela se deu conta de que para ser perdoada, teria que perdoar também. Resolveu experimentar e orou ali mesmo, entregando aquele sentimento negativo e pedindo que o Espírito Santo colocasse em seu coração a disposição para perdoar.

Pouco tempo depois, para seu espanto, ela percebeu que sentia falta do marido. A mágoa que aprisionava seu coração foi substituída pelo desejo de estar perto dele!

De acordo com Hernández,
O perdão desativa a reação defensiva da pessoa e dissolve o desejo de “fazer justiça”, livrando-a assim do ressentimento [...] É por isso que o perdão distende, relaxa, põe um bálsamo curativo na ferida e estimula a capacidade curativa. Ainda mais: o perdão é um milagre porque transforma algo que foi negativo em uma possibilidade de recriação. Através do perdão podemos ouvir a pulsação do Senhor Jesus e aprender o ritmo divino de viver — um andamento por vezes difícil de acompanhar e quase impossível de captar pela razão.

O caminho da fé passa pelo Gólgota e pela cruz; os apóstolos falam da glória paradoxal de participar dos sofrimentos de Cristo!6 Mas o mundo atual, marcado pela aversão ao sofrimento, nos leva a rejeitar esse trecho da caminhada com Cristo. Assim como os discípulos no Getsêmani se esconderam quando os guardas vieram buscar Jesus e o negaram, nós também o negamos quando nos deixamos levar pela vaidade ou pelo desejo de vingança. Não perdoar é negar a Jesus como Pedro, é ocultar que pertencemos a Cristo. Pedro permitiu que Jesus transformasse sua negação em devoção...

E nós, permitimos que Jesus transforme nossa negação em devoção, assim como fez com Pedro?7

Famílias que praticam o perdão soam como música aos nossos ouvidos, a música do amor de Deus. O que Deus deseja de nós, como seus filhos, é que nos tornemos cada vez mais semelhantes a Jesus, nosso irmão mais velho, quer em palavras, quer em ações.

O poeta e pastor Wilson Tonioli expressou de forma poética as perdas que sofremos com o aprendizado do perdão.

Perda grande
Perdão é só uma perda grande.
Se abres mão de tuas razões em favor do outro,
Grande perda terás: Perdão.
Se esqueces teus direitos por querer o próximo,
Grande perda terás: Perdão.
Se entregas algo sem um retorno mínimo,
Grande perda: Perdão.
Se vês, ouves, sentes, mas não guardas no íntimo,
Perda grande: Perdão.
Se traído, negado, confrangido e ainda dás o máximo,
Ganharás nada, perderás grande: Perdão.
Quando crucificado na cruz de outro recobras o ânimo...
Perdão... que é só uma perda grande.8

O perdão nos liberta da nossa própria prisão e nos torna leves – leveza conquistada junto à cruz de Jesus Cristo. Quando perdoamos, nosso semblante reflete que somos feitos à imagem de Deus.

Que o Senhor tenha misericórdia de nós e nos ajude a transmitir graça em nossas palavras e atitudes de perdão!9

Notas
1. João 6.26ss.
2. CHOURAQUI, André. Matyah (o evangelho segundo Mateus). Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 87.
3. Mateus 5.44.
4. Informações sobre auxílio em caso de violência familiar: Disque violência contra a mulher: 180. Secretaria Especial de Políticas para Mulheres: www.presidencia.gov.br/spmulheres; spmulheres@spmulheres.gov.br. Anistia internacional: www.amnesty.orgONG Themis – Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero: www.themis.org.br themispj@matrix.com.br. Portal da violência contra a mulher: www.copodeleite.rits.org.br. Isis Internacional: www.isis.cl. CLADEM (Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher): www.cladem.org. Núcleo de Pesquisas de Gênero da EST: npg@est.com.br. Textos: As igrejas dizem não à violência contra a mulher. Plano de ação para as igrejas. Federação Luterana Mundial. Departamento de missão e Desenvolvimento. São Leopoldo: Sinodal, 2005. RIBLA n. 41. As mulheres e a violência sexista. Petrópolis: Vozes. 2002. Marcadas a ferro – violência contra a mulher: uma visão multidisciplinar. Organizado por Márcia Castilho-Martin e Suely Oliveira, publicado pela Universidade de Pernambuco. Disponível no site www.ufpe.br/historia/ publicacoes.html . Sobre masculinidade e questões de gênero: <www.papai.org.br>
5. HERNÁNDEZ, Carlos. Alcançar a paz através do perdão. Boletim Psicoteologia, São Paulo, ano VI, n. 14. Também disponível no site
<www.cppc.org.br/textos>.
6. Cf. 1 Pedro 3.8-22; 4.12-14.
7. Ver mais adiante, no capítulo 15, a metamorfose na vida de Pedro.
8. Poema de W. Tonioli, gentilmente cedido pelo autor.
9. Sobre o tema do perdão, consulte: LUSKIN, F. O poder do perdão. Campinas: W11 Editora, 2002; STEVENS, P. Disciplinas para um coração faminto. São Paulo: Abba Press; WONDRACEK, K., HERNÁNDEZ, C. Aprendendo a lidar com crises. São Leopoldo: Sinodal, 2004; A opção do perdão. Avatar Journal, v.18, n. 2, primavera de 2004.

  • Karin Hellen Kepler Wondracek é psicóloga e psicanalista, e mestra em teologia. É tradutora de Cartas entre Freud e Pfister (Editora Ultimato), organizadora de O Futuro e a Ilusão (Editora Vozes) e co-autora de Aprendendo a Lidar com Crises (Editora Sinodal).
Artigo publicado originalmente na revista Visão Missionária, Rio de Janeiro, 1999.

Imagem: Unsplash.

REVISTA ULTIMATO – PERDOA-NOS, COMO NÓS PERDOAMOS
A mais comprometedora petição ensinada por Jesus é essa: Deus pede de nós aquilo que pedimos a ele.
O tema do perdão se espalha por toda a Escritura e rege a relação do ser humano com Deus. É provavelmente o conceito que mais realiza conexões com temas da teologia. Sem a menção ao perdão não se discursa sobre o acesso a Deus, a obra da salvação, o objetivo da graça divina nem sobre Jesus encarnado, o amor de Deus, o resgate, a restauração, a missão da igreja etc.
Este é o assunto da matéria de capa da edição 420. Clique aqui e saiba mais. Para assinar, clique aqui.

Saiba mais:
» A Vida Em Cristo, John Stott
» Culpa e Graça, Paul Tournier
» Acontece nas Melhores Famílias - amílias da Bíblia à luz da terapia familiar, Carlos "Catito" Grzybowski e Jorge Maldonado
» O perdão anuncia coisas estupendas, blog Ultimato
» A marca suprema: o perdão, por Stanley Jones

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