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Opinião

Rasgar o coração e não as vestes: o clamor além do ritual

Deus sempre mirou mais fundo do que qualquer ritual consegue alcançar

Por Hideide Brito Torres

Você já viu alguém rasgar a própria roupa de dor? Na Bíblia, isso não era um gesto espontâneo. Era um ritual. No mundo hebraico antigo, rasgar as vestes era uma linguagem social codificada. Tinha hora certa, tinha público, tinha regras. Fazia parte do luto, do arrependimento, da humilhação diante de Deus e dos homens. Todos reconheciam o gesto. Todos sabiam o que significava. Era o equivalente a um comunicado oficial da alma. Chegava-se a ter pessoas que faziam isso profissionalmente. Eram as carpideiras. Elas choravam e gritavam, especialmente em enterros. Era uma questão de status contratar pessoas para chorar em funerais. Jogar poeira para o alto, balançar as cabeças de modo frenético, gritar e lamentar.

O problema é que, com o tempo, o gesto virou performance. As pessoas rasgavam as vestes porque era esperado, porque era o protocolo, porque era o que se fazia e não porque o coração estava partido. A forma persistia, mas sem conteúdo.

Então, houve um momento de grande tragédia, com a praga dos gafanhotos. E as pessoas voltaram aos antigos rituais, achando que fazendo por fora direitinho ia resolver o problema e comover o coração de Deus pelo tempo difícil. Elas queriam escape, não queriam transformação. E foi exatamente aí que Deus interveio pela boca de Joel: parem de rasgar o tecido. Rasguem o que está dentro.

Deus não se impressiona com gestos corretos feitos quando o interior está vazio. Ele sempre mirou mais fundo do que qualquer ritual consegue alcançar. Por isso, precisamos entender o sentido perdido, porque no começo o ritual era didático, era pra explicar, era para ensinar. Quando se perde essa dimensão, os rituais ficam sem sentido.

Rasgar: um verbo teológico

Rasgar as vestes muitas vezes foi um gesto usado como ato profético. Era para se ver com os olhos algo que estava determinado no coração de Deus. Ou para exemplificar uma dor tão grande que o gesto sinalizava a dor. Quando Salomão se perde na idolatria e se afasta de Deus, o profeta Aías vai ao encontro de um homem chamado Jeroboão. Ele afirma que o reino de Israel será dividido e que Deus vai permitir um pequeno remanescente, para que a casa de Davi não se perca. Ele rasga seu manto em doze partes e dá dez pedaços para Jeroboão. Era um gesto definitivo de que Israel nunca mais seria o mesmo como povo.

Em outro momento, Elias lança o manto sobre Eliseu, como seu sucessor. Eliseu rasga-o pelo meio, para nunca mais voltar para sua casa, para seu antigo ofício. Ali, o poder de Deus vem em dobro sobre ele, como prometido.

Outro momento é quando o véu do templo se rasga do alto a baixo no instante da morte de Jesus. Nunca mais haveria um lugar secreto só para os sacerdotes de Israel. Agora, o acesso ao santíssimo é para todo aquele que crê em Jesus.

E aparece em Joel 2.13, quando Deus diz: rasgue o coração, não as vestes. Cada vez que essa palavra aparece, algo irreversível acontece. O reino dividido nunca se reunificou. Eliseu nunca voltou. O véu nunca foi remendado. E o coração rasgado por Deus não volta a ser o mesmo.

Eu tinha um amigo que costumava dizer: “Eu vou rasgando, e se não der certo, eu volto costurando”. E eu falava pra ele que a metáfora estava muito errada. Não se pode costurar o que foi rasgado. No máximo, é possível remendar. Mas algo que foi rasgado nunca volta a ser como antes. É uma ruptura profunda e total. Por isso, quando Deus pede que você rasgue o coração, ele não está pedindo uma emoção passageira. Está pedindo uma ruptura permanente com o que você era antes.



Como podemos rasgar o coração? O que isso significa?
Quando a gente lê "Rasguem o coração" em Joel, provavelmente pensa em emoção. Em choro. Em sentimento. Mas no hebraico bíblico, coração não é isso. A palavra é lev – e no pensamento hebraico, o coração não é a sede dos sentimentos. É a sede da vontade, da razão e da decisão. É onde você decide quem você é. Onde se forma o caráter. Onde se escolhe o caminho. Os gregos colocaram a razão na cabeça e a emoção no peito. Os hebreus colocaram tudo no lev e chamaram isso de coração.

Por isso, quando Deus diz "rasguem o lev", “rasguem o coração”, ele não está pedindo ao povo de Israel que chore mais, ou lamente mais ou se expresse em palavras bonitas. Tudo isso seria o mesmo que rasgar as vestes: algo para se ver, mas que poderia passar. A roupa rasgada poderia ser jogada fora e outra nova colocada no lugar. Mas um coração rasgado é algo muito mais permanente.

É como quando Jesus afirma: “Negue-se a si mesmo”. Deus está pedindo algo muito mais radical: que você rasgue a sua própria vontade. Que você abra mão do controle. Que você deixe Deus reorganizar não o que você sente, mas o que você decide, o que você pensa, quem você escolhe ser como filho, filha e servo de Deus.

O clamor de um coração rasgado
O posicionamento é uma postura necessária para que o coração seja rasgado. Tudo começa com a gente se colocando diante de Deus, como todos os profetas bíblicos nos ensinam. É perto de Deus que vemos nossa real necessidade, é perto de Deus que vivemos aquela tristeza que leva à mudança. Porque o posicionamento é a postura do arrependimento. E na Bíblia, este posicionamento não começa nos olhos: no que a gente pode ver, ou nos rituais que pode seguir, nos lugares a que pode ir. Começa no lev, no coração.

No tempo de Joel, o povo estava clamando por causa dos gafanhotos. Era o problema da vez. Uma vez superado o problema, a vida tende a se acomodar no que nós já sabemos. Eu clamo quando meu casamento está em crise, ou quando a igreja passa por problemas, ou quando preciso de um emprego, ou quando algo dá errado. Pode ser uma causa legítima, pode ser uma causa honesta, mas ainda assim, muitas vezes, é uma causa egoísta. Ela tem a ver com eu querer que a dor cesse, que o problema suma. Tem a ver com eu querer o meu conforto numa situação. E embora isso seja legítimo, e algo desejado, não é a totalidade do que Deus quer para mim. Com um coração inteiro, nesse sentido, um coração não quebrantado, um coração não humilde, eu posso voltar rapidamente ao meu egoísmo.

Deus quer mais pra mim. Deus quer que o meu coração seja rasgado porque só um coração quebrado sente a dor coletiva. Eu saio do egoísmo, do egocentrismo e da egolatria quando eu me quebranto. Eu posso sentir a tristeza que é para a salvação. Eu posso profetizar vida na morte de quem está ao meu redor.

Quero dizer que às vezes isso pode se manifestar em choro. Em quebrantamento emocional. Faz parte. Talvez seja até necessário, mas não é só isso. É um coração quebrado que só Deus pode consertar e ele quer consertar de outro jeito. Jeremias disse que era um coração de pedra que, só sendo quebrado, pode voltar a ser de carne. É ser vulnerável ao que Deus está falando a todo o momento. Gafanhotos vêm e vão de nossas vidas a todo o tempo. Problemas vêm e vão. Um coração rasgado não tem lugar para guardar resistências, nem violências, nem dureza. Um coração rasgado é permeável. Como diz a canção de Leonard Cohen: “Há uma rachadura em tudo. É assim que a luz entra”. Deixe-se rasgar e quebrar nas mãos de Deus. É assim que a luz dele entra.

  • Hideide Brito Torres é pastora da Igreja Metodista há 25 anos. Bispa há oito anos, exerce o episcopado em Goiás, no Distrito Federal, em Tocantins e no Rio Grande do Norte, onde lidera um corpo pastoral de cerca de 95 integrantes. É doutora em estudos literários, mestre em comunicação social, jornalista, teóloga e escritora com mais de quarenta livros publicados.
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