Apoie com um cafezinho
Olá visitante!
Cadastre-se

Esqueci minha senha

  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.
Seja bem-vindo Visitante!
  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.

Opinião

A igreja e a ebulição tecnológica

Como as tecnologias afetam a vida humana? Como a igreja pode atuar neste cenário tão desafiador?

Por Davi Lago

“No futuro, o homem vai falar com as paredes. E, o pior, elas irão entendê-lo”, disse certa vez o engenheiro brasileiro Jean-Paul Jacob. Estes dias, de fato, já chegaram. Hoje, a internet está incorporada até mesmo a pertences pessoais, como relógios, óculos e roupas (tecnologias vestíveis), além de utensílios, mobiliários e todo tipo de itens domésticos, como máquinas de lavar e armários (casas inteligentes). Há “geladeiras inteligentes” que realizam pedidos de alimentos que estejam em falta ou acabando em seu interior. Drones já realizam serviços delivery para entrega de encomendas. A presença de robôs e inteligências artificiais (IA) está cada vez mais comum em nosso dia a dia. O início do século 21 depois de Cristo é caracterizado pela aceleração sem precedentes da inovação tecnológica. Os feitos da tecnologia contemporânea são inigualáveis em termos qualitativos e quantitativos em relação às gerações anteriores. Habitamos em um mundo onde se desenvolvem de úteros artificiais a chatbots psicoterapeutas, de nanotecnologias a viagens interplanetárias. Como essas tecnologias afetam a vida humana? Como a igreja pode atuar neste cenário tão desafiador? O objetivo deste texto é apresentar uma breve introdução dessas questões.

Nosso ponto de partida para a reflexão pode ser a constatação de que a tecnologia se tornou ubíqua, isto é, está em toda parte e impactou todas as atividades humanas. O filósofo Peter-Paul Verbeek, por exemplo, elaborou uma lista didática dos diferentes tipos de relação que seres humanos mantém hoje com a tecnologia:

Relações de incorporação: nas quais a tecnologia não chama a atenção para si mesma, mas para aspectos do mundo dados por meio dela (por exemplo, óculos);

Relações hermenêuticas: nas quais a tecnologia representa um determinado aspecto do mundo (por exemplo, um termômetro);

Relações de fundo: nas quais a tecnologia molda o contexto experiencial, indo além da experiência consciente (por exemplo, temperatura ambiente alterada pelo aparelho de ar-condicionado);

Relações de alteridade: nas quais a tecnologia se apresenta como quase outra ao sujeito (por exemplo, um caixa eletrônico);

Relações ciborgues: nas quais a tecnologia se funde com o humano (por exemplo, implantes cerebrais);

Relações de imersão: nas quais a tecnologia forma um contexto interativo (por exemplo, casas inteligentes);

Relações de aumento: nas quais a tecnologia medeia e altera nossa experiência do mundo (por exemplo, óculos de realidade virtual).

Este novo cenário interessa aos cristãos por razões óbvias: vivemos no tempo e espaço, e é nesta realidade concreta que devemos amar a Deus e ao próximo, carregar a cruz e testemunhar o evangelho. Se habitamos em um mundo caído e, agora, saturado de tecnologia, todas as dimensões da vida cristã estão inevitavelmente imersas nesse contexto, a começar pela própria fé em Deus. Habitamos um tempo no qual crenças e posturas extremistas diante da tecnologia se erguem como novos “evangelhos”. A convergência das novas biotecnologias, da robótica, das inteligências artificiais abriu caminho, por um lado, aos tecnoprofetas e suas utopias transumanistas, que culminam na crença de que o aprimoramento tecnológico será capaz de nos libertar das limitações da condição humana imperfeita e mortal. O filósofo Gilles Lipovetsky afirma que “nesta corrente de pensamento, trata-se nada menos do que vencer a mortalidade biológica produzindo uma ciber-humanidade imortal graças à transferência, em breve tecnologicamente possível, dizem-nos, do ‘conteúdo informacional do cérebro’ para redes informáticas” 1. No outro extremo, existem os tecnófobos, que vivem ansiosos com o avanço tecnológico e resgatam certa postura do conhecido movimento ludista (trabalhadores que quebraram as máquinas que “tomaram” seus postos de trabalho no contexto das revoluções industriais).

Idolatria ou ansiedade tecnológica?
Neste período de ebulição tecnocientífica, a igreja não pode sucumbir nem à idolatria tecnológica nem à ansiedade tecnológica. É necessário refletir sobre o contexto tecnológico no qual estamos inseridos com prudência, sem precipitação e exageros. A Escritura ensina que “o ingênuo acredita em qualquer coisa, mas o prudente presta atenção onde pisa” (Pv 14.15). De fato, é inequívoco que a tecnologia alterou drasticamente várias dimensões da vida humana; contudo, devemos perceber que o maior problema humano continua o mesmo: o ser humano é pecador e está destituído da glória de Deus. A tecnologia não tem poder de salvar o ser humano de seus pecados, Jesus Cristo é o único Salvador e Mediador entre Deus e os seres humanos. Em seu ensaio Sincero mas Errado (1951), D. Martyn Lloyd-Jones destaca exatamente este ponto: o evangelho continua relevante em uma sociedade tecnológica porque o maior problema do ser humano continua o mesmo (o pecado) e sua solução continua a mesma (Jesus). Não somos capazes de cobrir nossa vergonha com vestimentas de folhas de figueira, feitas por nossa própria engenhosidade. Somente Deus pode nos vestir de justiça em Cristo. Um animal foi morto para que Deus vestisse o primeiro casal com sua pele, assim como o Cordeiro de Deus foi morto para purificação de nossos pecados. Nossa fé deve estar em Deus, sem ansiedade por coisa alguma, nem mesmo os avanços tecnológicos.

Inovação tecnológica e a relação humana
Outro ponto de atenção para a igreja é que a crescente inovação tecnológica complexificou as formas de relação humana. Hoje, aplicativos baseados em IA são capazes de clonar a voz de uma pessoa a partir de um registro de apenas quinze segundos. Como saber se o que vemos e ouvimos em ambientes virtuais é verdadeiro? Às vezes nem é necessária a voz, basta um bate-papo virtual em texto para ludibriar alguém. O fenômeno de mulheres emocionalmente carentes que caem em golpes financeiros em espaços virtuais é característico de nosso tempo: elas pensam estar conversando virtualmente com um homem apaixonado por elas, mas é apenas um criminoso do outro lado. Muitos estudiosos da questão identificaram também o aumento do individualismo e da dessincronização familiar possibilitado por novas tecnologias. Diferentemente do século passado, quando muitas famílias possuíam um ou nenhum aparelho de telefone e televisão em suas casas, hoje cada membro da família tem sua própria tela e telefone e não precisa esperar o outro para assistir algo que queira ou fazer uma ligação. Em 2023, o número de aparelhos celulares inteligentes no Brasil era de 249 milhões – 1,2 por habitante; e o número de usuários da internet em todo o mundo ultrapassou cinco bilhões. Nesta sociedade integrada e midiatizada, muitos buscam “seguidores” e likes a todo custo; receber atenção, mesmo que negativa. A igreja, no entanto, não é chamada a falar de si, mas de seu Senhor e Salvador. Os cristãos são chamados repetidamente nas Escrituras a uma vida atenta, sóbria, vigilante, de partilha e comunhão verdadeiras. A igreja, enquanto comunidade concreta de fé, amor e serviço não pode deteriorar seus vínculos relacionais viscerais pelos ambientes assépticos das redes digitais. Um corpo é um corpo, não um aglomerado de pixels. Uma das ironias desta era tecnológica é que as tecnologias que podem nos conectar acabam nos isolando de relacionamentos genuinamente pessoais.

Dilemas éticos da inovação tecnológica
Por fim, podemos destacar que, diante da inovação tecnológica, novos dilemas éticos, políticos e jurídicos emergem e velhos dilemas são repaginados. Por exemplo, há discussões com implicações muito práticas para políticos e legisladores em nações democráticas: como regular a liberdade de imprensa na era digital? Como garantir direitos autorais na web? Como equilibrar o desenvolvimento tecnológico e o desemprego em massa? Quais as balizas éticas e regulatórias para cientistas que desenvolvem tecnologias perigosas? Como realizar a partilha de benefícios dos avanços científicos? Como garantir a privacidade dos cidadãos diante da captura e comércio ilegal de dados sensíveis no ambiente virtual? Em outro eixo, podemos citar dilemas ético-filosóficos enigmáticos que se levantam: robôs podem ser agentes morais? É aceitável desenvolver inteligências artificiais sencientes capazes de sofrer? Qual é o estatuto moral de nossas ações virtuais? A igreja é chamada para salgar a terra e iluminar o mundo, o que envolve participar ativamente das discussões que vinculam as comunidades humanas. É preciso entrar nesses debates específicos e intrincados de modo polivalente, solidário e complementar. Não será um único “gênio cristão”, um “novo Jacques Ellul” quem vai “resolver” todos os dilemas atuais. Há uma camada técnico-conceitual, que demanda a produção técnica e acadêmica de mestres na Palavra que sejam teológica/espiritualmente qualificados e filosoficamente competentes. Mas há uma camada de ordem mais prática, que demanda servos e servas de Deus nas mais variadas áreas: da ação legislativa à gestão educacional, da elaboração de políticas públicas à estruturação de diretrizes éticas na produção tecnológica. E não podemos esquecer da importância dos artistas. É interessante ressaltar que muitos destes debates tecnoéticos ocorrem a partir de obras de ficção. Ou seja, filósofos e eticistas contemporâneos não esperam que determinada tecnologia venha a existir concretamente, ainda que de modo rudimentar, para que iniciem suas reflexões. Júlio Verne escreveu a obra Da Terra à Lua em 1865, mais de um século antes da alunissagem de Neil Armstrong e Buzz Aldrin. Deste modo, há diversas questões que emergem do horizonte especulativo apresentado em obras ficcionais. Até mesmo a imaginação moral dos artistas contemporâneos influencia direta e indiretamente os grandes temas da interface ética e tecnologia.

Que o Senhor nos capacite nesses desafios. Não devemos ter uma postura medrosa diante da tecnologia, como se ela, por si só, fosse capaz de “perverter” a fé. Jesus ensinou que não é o que vem de fora que nos contamina, mas o que vem de dentro: do coração humano é que vem o pecado. Que a graça do Senhor nos conserve até aquele dia em que as tecnologias de morte se transformarão em ferramentas de vida: “Eles farão de suas espadas arados” (Is 2.4).

Nota
1. LIPOVETSKY, Gilles. Da leveza: para uma civilização do ligeiro. Lisboa: Edições 70, 2015, p. 132-133.


  • Davi Lago é pesquisador do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo (PUC-SP), capelão da Primeira Igreja Batista de São Paulo e membro do conselho coordenador da Aliança Cristã Evangélica do Brasil.

Artigo publicado originalmente na edição 407 de Ultimato.

Imagem:
Unsplash.
REVISTA ULTIMATO – A ARTE PRECISA DE JUSTIFICATIVA?
Os artigos da edição 419 de Ultimato ressaltam a “beleza de Deus” e o fato de termos sido feitos à sua imagem e semelhança, o que torna a arte (sua apreciação ou o fazer artístico) disponível para todos – “Sejam encanadores, coletores de lixo, taxistas ou CEOs, somos chamados pelo Grande Artista a cocriar. O Artista nos chama, a nós, artistas com ‘a’ minúsculo, para cocriar, para compartilhar a ‘irrupção celestial’ na terra quebrada” (Makoto Fujimura).

Clique
aqui e saiba mais. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
» Fé, Esperança e Tecnologia – Ciência e fé cristã em uma cultura tecnológica, Egbert Schuurmann
» Pessoas: Humanas e Divinas – Ensaios sobre a natureza e o valor das pessoas, Peter van Inwagen
» Inteligência Artificial no contexto cristão, por Elis Amâncio
» ChatGPT: o que é e os desafios para o cristão, por Tiago Garros e Fernando Pasquini

Leia mais em Opinião

Opinião do leitor

Para comentar é necessário estar logado no site. Clique aqui para fazer o login ou o seu cadastro.
Ainda não há comentários sobre este texto. Seja o primeiro a comentar!
Escreva um artigo em resposta

Ainda não há artigos publicados na seção "Palavra do leitor" em resposta a este texto.