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Opinião

Outlander – o resgate de princípios, valores e virtudes

Por Carlos Caldas

Outlander é uma série de livros da escritora estadunidense Diana Gabaldon. Até o momento, nove já foram publicados, e anunciou-se que a autora está trabalhando no décimo e último livro da sequência. Os livros foram adaptados para a televisão, em uma série com oito temporadas, sendo que a primeira foi ao ar em 2014 e a última, no primeiro semestre de 2026.

A trama imaginada por Gabaldon se mostrou um grande sucesso, em seus dois formatos. Nunca li nenhum dos livros, portanto não posso comentar sobre sua qualidade literária. Mas como vi todas as temporadas da adaptação televisiva, vou compartilhar minhas impressões a respeito. Confesso a você que lê estas linhas que fiquei surpreso comigo mesmo porque, a princípio, eu tinha tudo para não gostar, porque parecia ser apenas uma história de um romance romântico, gênero que não é o meu preferido. Mas pouco a pouco fui surpreendido com alguns elementos da obra que me conquistaram completamente. Logo bem no início da primeira temporada descobre-se que a série é um híbrido de romance romântico sim, mas também romance histórico e literatura de fantasia. A partir daí, minha resistência começou a ceder.

A trama é centrada em Claire Randall, uma enfermeira inglesa, durante a (ou pouco depois da) Segunda Guerra Mundial. Ela e o marido, Frank, um historiador, estão de férias na Escócia, especificamente, em um lugar chamado Craig Na Duhn1, onde há um círculo de menires, semelhante ao famoso monumento de Stonehenge, na Inglaterra. Ao tocar uma daquelas pedras, ela é misteriosamente transportada para o século 18. Este é o elemento de literatura de fantasia da obra. Em nenhum momento há uma explicação de como ou porquê as pedras são um portal para viajar no tempo. Aí começa uma longa narrativa, que se desenrolará em décadas. Ela conhecerá James – “Jaimie” – Fraser, e uma improvável história de amor e de aventuras terá início. Mas antes de prosseguir, um alerta importante, para quem viu o último episódio da oitava temporada - não vou comentar a respeito e nem vou dar spoiler. Só direi o seguinte: a equipe de roteiristas lideradas por Ronald D. Moore, o produtor da série, deixou um final mais ou menos aberto que, a meu ver, destoou bastante de tudo que até então foi apresentado. Portanto, logo após o lançamento do último episódio o YouTube foi invadido por vídeos, nos EUA e no Brasil, com teorias tentando explicar o estranho fim2.



Vou apresentar os pontos da série que me conquistaram: primeiro, o fato de ser uma narrativa que tem a ver com a Escócia, sendo quase todos os atores escoceses, e eu gosto de ouvir o sotaque escocês, que é absolutamente único, nitidamente distinto do sotaque inglês padrão e mais ainda do norte-americano. Depois, duas belezas, a humana e a natural. O elenco tem atores e atrizes muito bonitos, e a fotografia focaliza muito bem o encanto dos cenários da natureza: a história acontece em quatro países: Escócia, França, Jamaica e Estados Unidos, e a fotografia é simplesmente deslumbrante. As cenas passadas na França são em sua maioria urbanas, mas as da Escócia e dos EUA são de tirar o fôlego. Comento também o figurino, evidentemente muito diferente do atual, mas roupas muito bonitas e elegantes. E por fim, os personagens: há vilões, claro, pessoas horríveis, mas em sua maioria os personagens do núcleo principal são interessantes e bem construídos. O elemento religioso é apresentado de maneira respeitosa, sem estereótipos negativos. Curiosamente, quase todos os personagens escoceses são católicos. Há apenas um deles que é presbiteriano, Roger Mackenzie (a propósito, o nome Mackenzie é tão tipicamente escocês como Oliveira, Silva, Ribeiro ou Souza são portugueses). Roger é genro do casal Claire e Jaimie, ele próprio filho adotivo de um pastor presbiteriano, e mais tarde, entendendo ser aquela a sua vocação, é também ordenado como o seu pai.

Mas agora o ponto que considerei o mais importante de toda a longa narrativa da série: ao contrário de muitas outras produções contemporâneas, Outlander valoriza princípios e valores morais e éticos, e o faz sem traços de um moralismo chato e piegas (quem é moralista vai ficar escandalizado com a série, que apresenta o amor entre Clairie e Jaimie bem ao estilo do livro bíblico de Cântico dos Cânticos – quem lê, entenda). As ações de Jaimie e Claire, e também as do núcleo de personagens auxiliares ou secundários ao redor do casal principal são orientadas por valores como honra, verdade, justiça, autossacrifício, respeito com quem pensa diferente, solidariedade para com quem está em situação de sofrimento. Fazia tempo que séries televisivas não mostravam tantos personagens de caráter nobre como se vê em Outlander. Os mais velhos vão se lembrar de Daniel Boone e Bonanza, nas quais os mesmos valores eram apresentados. Em algumas (muitas?) produções mais recentes observa-se uma apresentação de personagens de caráter ambíguo, situações de zona cinzenta, um lusco-fusco no qual não dá para saber direito se é dia ou noite, se o que está acontecendo é certo ou errado. A tendência contemporânea é apresentar situações nas quais os fins justificam os meios e não vale a pena ter honestidade ou justiça. Tais produções, deliberadamente ou não, divulgam uma mensagem que não vale a pena ser bom ou agir de maneira correta.

Aliás, há na sociedade contemporânea uma tendência de criticar produções literárias ou artísticas que apresentam de maneira nítida o bem e o mal. Muitos criticam O Senhor dos Aneis, de J. R. R. Tolkien, justamente pelo fato do seu enredo deixar claro que o certo, é certo, e o errado, é errado. Simples assim. Desafiador assim.

Outlander valoriza a família. O relacionamento de Claire e Jaimie dura décadas, e, a propósito, está é a meu ver uma falha no roteiro: os dois nunca brigam, não se desentendem, não ficam “de mal” um com o outro, não passam tempo sem se falar. Isso não acontece com casal nenhum do mundo. Mas é uma falha de pequena monta, que não desmerece o todo da obra. Claire e Jaimie tem filhos naturais e adotivos, e é bonito ver a família ampliada que constituíram, com netos biológicos e do coração, e o respeito, o carinho e a ternura que permeiam as relações entre irmão e irmã, sobrinho e tio, primos e primas, avô e avó e netos e netas.

Amizade e reconciliação são outros temas importantes em Outlander. Um dos núcleos da trama apresenta o relacionamento de amizade entre Jaimie e o nobre inglês Sir John Gray. Lord Gray criou William, filho biológico de Jaimie. O rapaz só vai descobrir que seu pai biológico é outro no início da idade adulta (curioso é que o ator canadense Charles Vandervaart, que interpreta William, e o ator australiano David Berry, que faz Lord Gray, são tão parecidos que qualquer um acreditaria que são pai e filho de verdade) e tem um choque com a descoberta. Tempos depois acontece de maneira emocionante a reconciliação do jovem William com seus dois pais.

Em tempos como o atual, no qual há um esforço deliberado de alguns para divulgar uma mentalidade relativista, que apregoa que não existe nem o certo e nem o errado, que o que é certo para um pode ser errado para o outro, e vice-versa, uma produção como Outlander é como uma lufada de ar fresco.

Notas
1. As pedras de Craig Na Duhn, conforme se vê na série, não existem, mas são inspiradas em círculo de pedras que existe de fato na Ilha de Lewis, no extremo norte da Escócia. Para detalhes, consultar The Real Mystery of Outlander’s Craig Na Duhn. Story Lamp Reviews. Disponível aqui. Acesso: 17 jun 2026.
2. Sugestão: assista o vídeo Você entendeu o final de Outlander? do canal Fé & Café, no YouTube.



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é professor no Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da PUC Minas, onde lidera o Grupo de Pesquisa sobre Protestantismo, Religião e Arte. É autor de Dietrich Bonhoeffer e a teologia pública no Brasil (São Paulo: Garimpo Editorial, 2016), vice-presidente da Sociedade Bonhoeffer Brasil e autor de vários artigos sobre Bonhoeffer.
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