Opinião
13 de julho de 2026- Visualizações: 65
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Fé, ciência e a vocação de pensar bem
Em vez de perguntar se o cristão pode fazer ciência, devemos a perguntar: como o cristão deve fazer ciência?
Por Gustavo Assi
De tempos em tempos, alguém ainda pergunta se um cristão pode fazer ciência. A pergunta aparece em rodas de conversa, em salas de aula, em igrejas, em famílias e, às vezes, no íntimo de jovens que se sentem divididos entre a fé que professam e a curiosidade intelectual que carregam. Por trás dela existe uma inquietação legítima: será que investigar o mundo, estudar com rigor, pesquisar e produzir conhecimento são atividades compatíveis com a vida cristã?
Minha convicção é simples: não apenas são compatíveis, como fazem parte de uma vida de adoração a Deus.
Durante muito tempo, muitos cristãos viveram como se existissem dois compartimentos separados da existência. De um lado, a vida espiritual: culto, oração, devoção, igreja. De outro, a vida “real”: trabalho, estudo, profissão, universidade, ciência, tecnologia. Como se uma parte pertencesse a Deus e a outra funcionasse de maneira autônoma.
Mas o ser humano não é assim compartimentado. Somos integrais. A pessoa que ora é a mesma que estuda. A pessoa que canta no culto é a mesma que entra no laboratório, redige um parecer jurídico, atende um paciente, ensina numa escola ou desenvolve uma pesquisa. Não há duas almas dentro de nós, uma religiosa e outra secular. Há uma só vida, vivida diante da face de Deus.
Se isso é verdade, então a pergunta muda. Em vez de perguntar se o cristão pode fazer ciência, passamos a perguntar: como o cristão deve fazer ciência?
Essa mudança é profunda. A ciência, entendida como busca disciplinada do conhecimento sobre a realidade natural, é uma das expressões mais fascinantes da vocação humana. Observar, medir, comparar, testar hipóteses, organizar dados, reconhecer padrões, corrigir erros, maravilhar-se diante da ordem do mundo. Tudo isso toca dimensões nobres da existência humana. Há humildade em admitir que não sabemos. Há disciplina em investigar. Há coragem em revisar convicções. Há alegria em descobrir.
Não por acaso, tantos cristãos ao longo da história participaram intensamente desse empreendimento.
No entanto, muitos ainda enxergam a relação entre fé e ciência apenas pelos seus conflitos mais famosos. Criação e evolução biológica. Milagres e leis naturais. Bíblia e cosmologia. Igreja e universidade. São temas relevantes, sem dúvida. Mas, quando o diálogo inteiro fica reduzido a controvérsias, produzimos caricaturas. E caricaturas cansam rápido, empobrecem a conversa e não nos alimentam.
Uma relação madura entre fé e ciência precisa de fundamentos mais profundos. Precisamos de alimento nutritivo, e não viver nas controvérsias de tira-gosto.
Precisamos pensar teologicamente sobre o trabalho intelectual. Precisamos refletir filosoficamente sobre conhecimento, verdade, método e limites da ciência. Precisamos pastoralmente cuidar de jovens que ingressam na universidade cheios de perguntas. Precisamos comunitariamente conectar pessoas que imaginam estar intelectual e vocacionalmente sozinhas.
Muita gente vive exatamente essa solidão. O estudante cristão entra num curso exigente e pensa que é o único a carregar certas convicções. O professor imagina que precisa esconder sua fé para ser levado a sério. O pesquisador sente que precisa escolher entre honestidade intelectual e fidelidade espiritual. O profissional de qualquer área se pergunta se seu trabalho cotidiano possui valor diante de Deus.
Essas angústias não se resolvem apenas com slogans. Elas exigem comunidade, formação e conversa séria.
Por isso, iniciativas que reúnem cristãos interessados em ciência cumprem um papel importante. Não para criar guetos intelectuais, mas para lembrar algo fundamental: ninguém precisa caminhar sozinho. Há outros fazendo perguntas semelhantes. Há bibliografia séria. Há tradições de pensamento robustas. Há espaço para dúvida honesta, para investigação rigorosa e para fé sincera.
Também há um equívoco recorrente que precisa ser evitado. Alguns imaginam que valorizar a ciência significa idolatrá-la. Outros pensam que defender a fé exige suspeitar de todo conhecimento acadêmico. Ambos erram.
A ciência é valiosa, mas não é salvadora. Ela explica mecanismos, amplia capacidades, cura doenças, melhora processos, organiza conhecimento. Mas não substitui sabedoria, não perdoa pecados, não define sentido último da vida e não resolve sozinha o problema moral humano.
Ao mesmo tempo, a fé cristã não teme a realidade. Se toda verdade é verdade de Deus, não precisamos recear descobertas honestas sobre o mundo criado. O cristão pode investigar com coragem justamente porque crê que o universo não é caos absoluto, mas criação dotada de ordem, inteligibilidade e sentido.
Em tempos de superficialidade, talvez uma das tarefas mais urgentes seja reaprender a pensar bem. Pensar com rigor e com reverência. Pensar com método e com humildade. Pensar cientificamente, sem reduzir o ser humano a números. Pensar teologicamente, sem desprezar evidências. Pensar integralmente.
No fim das contas, fé e ciência não precisam ser inimigas. O conflito entre elas, muitas vezes, nasce menos da realidade e mais de visões estreitas de ambos os lados.
Há outro caminho. O caminho de quem entra numa biblioteca, num laboratório, numa sala de aula ou num campo de pesquisa sabendo que estudar também pode ser uma forma de gratidão e adoração. O caminho de quem usa a mente como dom. O caminho de quem busca a verdade com honestidade. E isso, longe de afastar alguém de Deus, pode ser uma maneira de servi-lo com todo o entendimento.
Artigo publicado originalmente no site Unus Mundus. Reproduzido com permissão.
Imagem: Unsplash.
REVISTA ULTIMATO – PERDOA-NOS, COMO NÓS PERDOAMOS
A mais comprometedora petição ensinada por Jesus é essa: Deus pede de nós aquilo que pedimos a ele.
O tema do perdão se espalha por toda a Escritura e rege a relação do ser humano com Deus. É provavelmente o conceito que mais realiza conexões com temas da teologia. Sem a menção ao perdão não se discursa sobre o acesso a Deus, a obra da salvação, o objetivo da graça divina nem sobre Jesus encarnado, o amor de Deus, o resgate, a restauração, a missão da igreja etc.
Este é o assunto da matéria de capa da edição 420.
Clique aqui e saiba mais. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
» Série Ciência e Fé Cristã
» O Teste da Fé – Os cientistas também creem, Francis Collins
» A Grande História – Um Convite para Professores Cristãos, Rick Hove, Heather Holleman
» Sou cristão e cientista. Onde entra a minha fé?, Painel
» A ciência modifica a fé?, por Bill Newsome
» Mulheres na ciência: como elas têm lutado por oportunidades em meio aos desafios, Notícia
Por Gustavo Assi
De tempos em tempos, alguém ainda pergunta se um cristão pode fazer ciência. A pergunta aparece em rodas de conversa, em salas de aula, em igrejas, em famílias e, às vezes, no íntimo de jovens que se sentem divididos entre a fé que professam e a curiosidade intelectual que carregam. Por trás dela existe uma inquietação legítima: será que investigar o mundo, estudar com rigor, pesquisar e produzir conhecimento são atividades compatíveis com a vida cristã?Minha convicção é simples: não apenas são compatíveis, como fazem parte de uma vida de adoração a Deus.
Durante muito tempo, muitos cristãos viveram como se existissem dois compartimentos separados da existência. De um lado, a vida espiritual: culto, oração, devoção, igreja. De outro, a vida “real”: trabalho, estudo, profissão, universidade, ciência, tecnologia. Como se uma parte pertencesse a Deus e a outra funcionasse de maneira autônoma.
Mas o ser humano não é assim compartimentado. Somos integrais. A pessoa que ora é a mesma que estuda. A pessoa que canta no culto é a mesma que entra no laboratório, redige um parecer jurídico, atende um paciente, ensina numa escola ou desenvolve uma pesquisa. Não há duas almas dentro de nós, uma religiosa e outra secular. Há uma só vida, vivida diante da face de Deus.
Se isso é verdade, então a pergunta muda. Em vez de perguntar se o cristão pode fazer ciência, passamos a perguntar: como o cristão deve fazer ciência?
Essa mudança é profunda. A ciência, entendida como busca disciplinada do conhecimento sobre a realidade natural, é uma das expressões mais fascinantes da vocação humana. Observar, medir, comparar, testar hipóteses, organizar dados, reconhecer padrões, corrigir erros, maravilhar-se diante da ordem do mundo. Tudo isso toca dimensões nobres da existência humana. Há humildade em admitir que não sabemos. Há disciplina em investigar. Há coragem em revisar convicções. Há alegria em descobrir.
Não por acaso, tantos cristãos ao longo da história participaram intensamente desse empreendimento.
No entanto, muitos ainda enxergam a relação entre fé e ciência apenas pelos seus conflitos mais famosos. Criação e evolução biológica. Milagres e leis naturais. Bíblia e cosmologia. Igreja e universidade. São temas relevantes, sem dúvida. Mas, quando o diálogo inteiro fica reduzido a controvérsias, produzimos caricaturas. E caricaturas cansam rápido, empobrecem a conversa e não nos alimentam.
Uma relação madura entre fé e ciência precisa de fundamentos mais profundos. Precisamos de alimento nutritivo, e não viver nas controvérsias de tira-gosto.
Precisamos pensar teologicamente sobre o trabalho intelectual. Precisamos refletir filosoficamente sobre conhecimento, verdade, método e limites da ciência. Precisamos pastoralmente cuidar de jovens que ingressam na universidade cheios de perguntas. Precisamos comunitariamente conectar pessoas que imaginam estar intelectual e vocacionalmente sozinhas.
Muita gente vive exatamente essa solidão. O estudante cristão entra num curso exigente e pensa que é o único a carregar certas convicções. O professor imagina que precisa esconder sua fé para ser levado a sério. O pesquisador sente que precisa escolher entre honestidade intelectual e fidelidade espiritual. O profissional de qualquer área se pergunta se seu trabalho cotidiano possui valor diante de Deus.
Essas angústias não se resolvem apenas com slogans. Elas exigem comunidade, formação e conversa séria.
Por isso, iniciativas que reúnem cristãos interessados em ciência cumprem um papel importante. Não para criar guetos intelectuais, mas para lembrar algo fundamental: ninguém precisa caminhar sozinho. Há outros fazendo perguntas semelhantes. Há bibliografia séria. Há tradições de pensamento robustas. Há espaço para dúvida honesta, para investigação rigorosa e para fé sincera.
Também há um equívoco recorrente que precisa ser evitado. Alguns imaginam que valorizar a ciência significa idolatrá-la. Outros pensam que defender a fé exige suspeitar de todo conhecimento acadêmico. Ambos erram.
A ciência é valiosa, mas não é salvadora. Ela explica mecanismos, amplia capacidades, cura doenças, melhora processos, organiza conhecimento. Mas não substitui sabedoria, não perdoa pecados, não define sentido último da vida e não resolve sozinha o problema moral humano.
Ao mesmo tempo, a fé cristã não teme a realidade. Se toda verdade é verdade de Deus, não precisamos recear descobertas honestas sobre o mundo criado. O cristão pode investigar com coragem justamente porque crê que o universo não é caos absoluto, mas criação dotada de ordem, inteligibilidade e sentido.
Em tempos de superficialidade, talvez uma das tarefas mais urgentes seja reaprender a pensar bem. Pensar com rigor e com reverência. Pensar com método e com humildade. Pensar cientificamente, sem reduzir o ser humano a números. Pensar teologicamente, sem desprezar evidências. Pensar integralmente.
No fim das contas, fé e ciência não precisam ser inimigas. O conflito entre elas, muitas vezes, nasce menos da realidade e mais de visões estreitas de ambos os lados.
Há outro caminho. O caminho de quem entra numa biblioteca, num laboratório, numa sala de aula ou num campo de pesquisa sabendo que estudar também pode ser uma forma de gratidão e adoração. O caminho de quem usa a mente como dom. O caminho de quem busca a verdade com honestidade. E isso, longe de afastar alguém de Deus, pode ser uma maneira de servi-lo com todo o entendimento.
- Gustavo Assi, engenheiro naval e oceânico, professor universitário, pesquisador e presidente da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC2).
Artigo publicado originalmente no site Unus Mundus. Reproduzido com permissão.
Imagem: Unsplash.
REVISTA ULTIMATO – PERDOA-NOS, COMO NÓS PERDOAMOSA mais comprometedora petição ensinada por Jesus é essa: Deus pede de nós aquilo que pedimos a ele.
O tema do perdão se espalha por toda a Escritura e rege a relação do ser humano com Deus. É provavelmente o conceito que mais realiza conexões com temas da teologia. Sem a menção ao perdão não se discursa sobre o acesso a Deus, a obra da salvação, o objetivo da graça divina nem sobre Jesus encarnado, o amor de Deus, o resgate, a restauração, a missão da igreja etc.
Este é o assunto da matéria de capa da edição 420.
Clique aqui e saiba mais. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
» Série Ciência e Fé Cristã
» O Teste da Fé – Os cientistas também creem, Francis Collins
» A Grande História – Um Convite para Professores Cristãos, Rick Hove, Heather Holleman
» Sou cristão e cientista. Onde entra a minha fé?, Painel
» A ciência modifica a fé?, por Bill Newsome
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