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Opinião

A universidade não precisa ser uma ameaça

A universidade pode ser um lugar de crise, sim. Mas crises também lapidam

Por Gustavo Assi


Existe um medo silencioso em muitas famílias cristãs. Ele aparece quando os filhos se aproximam da vida adulta, prestam vestibular, escolhem um curso e atravessam os portões de uma universidade. Para alguns pais, esse momento é visto quase como o início de uma batalha espiritual inevitável. Como se a universidade fosse, por definição, um lugar hostil à fé, um ambiente onde convicções serão destruídas e valores, corroídos.

Entendo esse receio. Ele não surge do nada. Há histórias difíceis, ambientes ideologizados, professores dogmáticos, experiências negativas e jovens que de fato se desorientam nesse processo. Tudo isso existe, e seria ingenuidade negar. Mas entendo que essa ameaça se deva muito mais ao momento de incertezas e questionamentos na transição para a vida adulta, pela exposição a comportamentos contrastantes, do que a uma suposta ameaça intelectual do ensino superior ou do ambiente acadêmico.

Mas, ainda assim, eu diria: a universidade não precisa ser uma ameaça à fé. Ela pode ser, inclusive, um dos lugares onde a fé amadurece de maneira mais profunda e floresce no relacionamento com a cultura.

O primeiro ponto é reconhecer que nenhum espaço da vida humana está fora do senhorio de Cristo. Não existe uma área neutra da realidade onde Deus não tenha nada a dizer. Família, arte, política, economia, educação, ciência, direito, tecnologia, cultura… Tudo pertence ao Criador, e, portanto, a universidade também pertence a esse mundo sobre o qual Cristo reina.

Se isso é verdade, então o cristão não entra na universidade como invasor e nem como estrangeiro sem direitos, mas sim como alguém chamado a testemunhar fielmente naquele ambiente.

Isso muda completamente a postura. Em vez de perguntar “como me esconder?”, passamos a perguntar “como servir?”. Em vez de pensar “como sobreviver cinco anos sem perder a fé?”, começamos a pensar “como crescer em sabedoria, excelência e caráter nesse tempo decisivo da vida?”.

A universidade, em seu melhor sentido, é um espaço onde ideias se encontram, são testadas, criticadas, refinadas e confrontadas. É um lugar de perguntas difíceis, e perguntas difíceis não deveriam assustar o cristão preparado. A fé cristã nasceu dialogando com perguntas profundas sobre verdade, sentido, justiça, sofrimento, razão, beleza, poder e esperança. O problema não são as perguntas. O problema é entrar despreparado para enfrentá-las.



Muitos jovens chegam à universidade com convicções herdadas, mas pouco elaboradas. Repetem frases corretas, porém frágeis. Conhecem conclusões, mas não os fundamentos. Foram ensinados no que crer, mas não necessariamente por que crer. Quando encontram argumentos mais sofisticados, sentem o chão tremer.

Isso não significa que a fé seja fraca. Muitas vezes, significa apenas que ela ainda estava imatura. Falta-lhes musculatura intelectual e espiritual nesse aspecto da fé que se desenvolve como um exercício.

Existe uma diferença importante entre fé infantil e fé madura. A fé infantil pode ser sincera, bela e genuína, mas ainda depende muito de proteção externa. A fé madura aprende a permanecer de pé no meio do vento, uma vez que já atravessou dúvidas, enfrentou tensões, ouviu críticas, pensou com mais profundidade e saiu fortalecida. A fé madura exige exposição, e não confinamento. Ninguém alcança esse tipo de maturidade vivendo numa redoma.

Por isso, não me parece sábio educar jovens como se a melhor estratégia fosse escondê-los do mundo real. Em algum momento, eles encontrarão visões de mundo contrárias ao cristianismo. Se não for na universidade, será no ambiente profissional, na cultura digital, na mídia, nos círculos sociais, na política, na arte ou nas relações pessoais. O mundo contemporâneo conversa o tempo todo, e muitas vezes conversa alto.

A tarefa dos pais, das igrejas e das comunidades cristãs não deveria ser construir bolhas perfeitas, mas formar pessoas robustas, capazes de discernir, dialogar, argumentar, ouvir, responder e permanecer fiel sem medo.

Isso exige preparação anterior. Em outras palavras, a formação para a universidade começa bem antes do vestibular. Começa quando ensinamos uma criança a amar a verdade. Quando mostramos que perguntas honestas não são pecado. Quando incentivamos a leitura diversificada, sob orientação. Quando ensinamos humildade intelectual. Quando demonstramos que fé e razão não são inimigas. Quando mostramos, pelo exemplo, que Cristo governa toda a vida e não apenas o domingo.

Também exige acompanhamento durante essa fase. Os anos entre adolescência e juventude adulta são decisivos. É tempo de identidade sendo moldada, vocação sendo discernida, afetos sendo reorganizados e convicções sendo testadas. Jovens precisam de mentoria, amizade, discipulado e conversas sérias. Precisam de adultos presentes, não apenas alarmados.

Há outro erro comum: tratar toda universidade como se fosse uma entidade única e homogênea. Não existe “a fala da universidade”; existem pessoas falando dentro dela. Professores, alunos, pesquisadores e gestores, todos com pressupostos distintos. Há pluralidade, tensões internas, disputas de narrativa e, também, excelentes oportunidades. Entrar nesse ambiente com visão caricatural empobrece a leitura da realidade.

Claro, haverá momentos difíceis. Haverá aulas ruins, ideias frágeis apresentadas com arrogância, modismos intelectuais e ambientes cansativos. Haverá também novos amigos, com comportamentos diferentes, além de tentações desconhecidas, mas isso acontece em qualquer esfera humana. O cristão não é chamado a fugir de toda imperfeição institucional. Se fosse assim, teria de fugir do mundo inteiro.

É justamente em contextos imperfeitos que testemunhos fiéis se tornam mais necessários. Nós não somos deste mundo, mas estamos nele e seremos guardados do mal.

Penso que muitos dos melhores professores, pesquisadores, médicos, juristas, engenheiros, artistas e gestores cristãos do futuro estão hoje sentados em alguma sala de aula, talvez inseguros, talvez silenciosos, talvez achando que estão sozinhos. Por isso, precisamos dizer a eles: vocês não estão sozinhos, e sua vocação importa.

A universidade pode ser um lugar de crise, sim. Mas crises também lapidam. Pode ser lugar de confronto, mas confrontos podem amadurecer. Pode ser lugar de perda, mas também de descoberta. Pode ser um lugar de provações, que produzirão perseverança e a esperança de uma fé testada e aprovada.

Descoberta de dons. Descoberta de limites. Descoberta da complexidade do mundo. Descoberta de que a verdade resiste ao exame honesto. Descoberta de que a fé, quando aprofundada, pode ser mais sólida do que parecia.

Por isso, eu insistiria: a universidade não precisa ser uma ameaça. Ela pode ser uma oficina de formação, desde que entremos nela não com ingenuidade, nem com medo, mas com coragem humilde, inteligência atenta e fé enraizada.

  • Gustavo Assi, engenheiro naval e oceânico, professor universitário, pesquisador e presidente da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC2).

Artigo publicado originalmente no site Unus Mundus. Reproduzido com permissão.

Imagem:
Unsplash.
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