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Opinião

Quem cuida de quem cuida?

O sofrimento silencioso dos pastores brasileiros e uma conversa que a igreja não pode mais adiar

Por Abner Morillas

Era uma segunda-feira de manhã. O culto de domingo havia sido um sucesso. A igreja estava crescendo, os ministérios funcionando e as pessoas comentavam com entusiasmo a mensagem pregada na noite anterior. Quando entrou na sala, aquele pastor parecia carregar um peso que não combinava com os elogios que vinha recebendo. Sentou-se, permaneceu alguns segundos em silêncio, olhou para mim e disse: “Doutor Abner, se eu pedir afastamento hoje, as pessoas vão achar que estou em pecado. A verdade é que estou apenas totalmente esgotado. Mas num sistema assim, esgotamento e fracasso parecem ser a mesma coisa”.

Não havia escândalo. Não havia crise doutrinária. Não havia pecado oculto.

Havia apenas pura exaustão.

Ao longo dos anos como pastor, psicólogo e pesquisador, ouvi diferentes versões dessa mesma frase. Algumas vieram carregadas de lágrimas. Outras apareceram disfarçadas de irritação, insônia, ansiedade, tristeza ou desesperança. Em muitos casos, a dor não estava apenas no sofrimento em si, mas na sensação de que não existia um lugar seguro para compartilhá-lo.

Todos conhecem o pastor do púlpito. Reconhecem a voz que prega, aconselha, visita enfermos, celebra uniões e conduz funerais. Conhecem o líder que ora por outros, motiva os desanimados e oferece orientações em tempos desafiadores. O que é raramente notado é a pessoa que volta para casa após um dia inteiro imerso em relatos de sofrimento; o homem que tenta exercer a paternidade enquanto lida com mensagens de urgência; a mulher que apoia famílias em crise enquanto batalha para manter sua própria saúde emocional; o líder que investe uma parte significativa de sua vida no cuidado dos outros, sem deixar de lidar com suas próprias vulnerabilidades.

Durante décadas falamos muito sobre a missão da igreja, sobre a necessidade de líderes bem preparados e sobre o desafio de alcançar uma sociedade cada vez mais complexa; isso é totalmente legítimo, no entanto, em algum momento precisamos falar sobre aqueles que carregam essa responsabilidade todos os dias e perguntar não apenas como está a igreja, mas também como estão seus pastores.

A questão não é que pastores sofram, afinal todo ser humano sofre. O que merece nossa atenção é que, em muitos ambientes cristãos, aprendemos a admirar a entrega de nossos líderes sem nos perguntarmos qual o preço dessa dedicação. Aplaudimos a disponibilidade constante, elogiamos a capacidade de suportar pressão e, às vezes, chamamos de fidelidade aquilo que já se transformou em exaustão.



Espera-se que o pastor esteja disponível quando alguém adoece, quando um casamento entra em crise, quando surge um conflito na igreja ou quando uma família enfrenta um luto. Aos poucos, cria-se a expectativa de que ele esteja sempre pronto, sempre equilibrado, sempre capaz de oferecer direção e esperança. Nesse corre-corre da vida ministerial, uma pergunta simples é esquecida: quem cuida do pastor enquanto ele cuida de tantas pessoas?

Talvez, por isso, a solidão pastoral seja um tema tão recorrente nas conversas reservadas entre líderes cristãos. Não é sobre a ausência de pessoas ao redor. Trata-se de uma solidão produzida pela própria função. Eles carregam responsabilidades que não conseguem compartilhar livremente, conhecem histórias que não podem expor e, frequentemente, sentem que demonstrar determinadas fragilidades poderá ser interpretado como fraqueza espiritual ou incapacidade ministerial.

Quem convive com pastores sabe que essa não é uma preocupação nova. O que mudou é que, nos últimos anos, pesquisas realizadas em diferentes países começaram a confirmar aquilo que muitos já percebiam na prática: um número significativo de líderes cristãos enfrentando níveis altíssimos de estresse, desgaste emocional e desânimo com o próprio ministério, revelando que aqueles que dedicam a vida a cuidar de pessoas também estão adoecendo.

Uma das ironias da igreja contemporânea é esperar de seus líderes algo que a própria Bíblia jamais esperou.

Moisés chegou ao limite e pediu para morrer. Elias, depois do maior triunfo de seu ministério, colapsou debaixo de um zimbreiro. Jeremias lamentou com uma brutalidade poética que incomoda quem espera profetas serenos. Paulo escreveu sobre aflições que ultrapassavam suas forças. O próprio Cristo escolheu não viver sozinho: escolheu doze e permitiu que três caminhassem mais perto dele.

As Escrituras não escondem a fragilidade dos servos de Deus porque a fragilidade nunca foi o problema. O problema surge quando ela deixa de encontrar espaço para ser acolhida.

Talvez uma das distorções mais sutis da cultura cristã contemporânea seja a crença de que maturidade espiritual reduz a necessidade de cuidado. Como se proximidade com Deus eliminasse limites humanos. Como se vocação fosse sinônimo de resistência ilimitada. Como se pedir ajuda fosse sinal de fracasso. Não é.

A graça de Deus nunca foi construída sobre a negação da fragilidade humana. Ela foi construída justamente para alcançá-la.

Por isso, a conversa sobre saúde mental pastoral não é apenas uma questão clínica –
é também uma questão espiritual, comunitária e eclesiológica. A forma como tratamos aqueles que lideram revela muito sobre a compreensão que temos do próprio evangelho.

Enquanto discutimos crescimento, influência e formação de líderes, uma pergunta permanece diante de nós: estamos cuidando daqueles que dedicaram a vida a cuidar de outras pessoas?

A resposta não será encontrada apenas em sermões, conferências ou documentos. Ela aparecerá na forma como tratamos nossos pastores quando estiverem cansados, feridos ou vulneráveis.

Afinal, uma igreja que não aprende a cuidar de seus cuidadores corre o risco de perder exatamente aqueles que foram chamados para ajudá-la a permanecer saudável.

Nota
Este artigo integra a
Pesquisa Nacional sobre Saúde Mental dos Pastores Evangélicos Brasileiros, desenvolvida no âmbito do pós-doutorado em Psicologia na Universidade de São Paulo (USP). A pesquisa é conduzida pelo Dr. Abner Morillas, sob a orientação do Prof. Dr. Francisco Lotufo Neto.

  • Abner Morillas é pastor, psicólogo, teólogo, professor e escritor. Mestre em Ciências Médicas e doutor em Ciências, com concentração em Psiquiatria, pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), é fundador do Grupo de Apoio Integral à Pessoa (GAIP) e atua na integração entre teologia, psicologia, psiquiatria, neurociência e cuidado pastoral. A pesquisa conta com o apoio da Aliança Cristã Evangélica Brasileira e da SEPAL, por meio do Aliança LAB – laboratório de pesquisa e inteligência missional, que há anos produz dados sérios sobre o cenário religioso brasileiro. É uma parceria entre rigor científico e enraizamento eclesial. Exatamente o tipo de diálogo que o tema exige..

Artigo publicado originalmente na edição 420 de Ultimato.

Imagem: Unsplash.
REVISTA ULTIMATO – PERDOA-NOS, COMO NÓS PERDOAMOS
A mais comprometedora petição ensinada por Jesus é essa: Deus pede de nós aquilo que pedimos a ele.
O tema do perdão se espalha por toda a Escritura e rege a relação do ser humano com Deus. É provavelmente o conceito que mais realiza conexões com temas da teologia. Sem a menção ao perdão não se discursa sobre o acesso a Deus, a obra da salvação, o objetivo da graça divina nem sobre Jesus encarnado, o amor de Deus, o resgate, a restauração, a missão da igreja etc.
Este é o assunto da matéria de capa da Ultimato 420.
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» Desafios da Liderança Cristã, John Stott
» Saúde Emocional e Vida Cristã – Curando s feridas do coração, Esly Regina Carvalho
» Pessoas: Humanas e Divinas – Ensaios sobre a natureza e o valor das pessoas, Peter van Inwagen
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