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Por Escrito

Paulo no Pacaembu

O apóstolo não se limitou a pregar no Pacaembu. Em entrevista a Ultimato recordou com detalhes o seu encontro pessoal com Jesus Cristo e a transformação que se deu em sua vida a partir de então

Por Elben César

Inaugurado em 27 de abril de 1940 pelo então presidente Getúlio Vargas, o Estádio do Pacaembu superou em fins de janeiro de 1984 o recorde anterior de 72.582 espectadores marcado no jogo do Corinthians contra Ponte Preta em agosto de 1977. Cedido graciosamente pela prefeitura de São Paulo para abrigar os paulistas que desejassem ouvir a palavra do apóstolo que deu nome à cidade e ao Estado, o Pacaembu teve a presença de nada menos que 73.877 pessoas. Por ser Paulo um patrimônio comum a católicos e protestantes, a reunião foi promovida sem muita dificuldade pelas igrejas cristãs da Grande São Paulo. Com alguma relutância, as sinagogas israelitas também participaram do extraordinário evento.

Paulo veio a São Paulo a convite do sr. Amador Aguiar, presidente do Conselho de Administração do Bradesco, exatamente na semana do 430º aniversário do Colégio de São Paulo, aquele simples barracão levantado pelos jesuítas em 24 de janeiro de 1554 para catequizar os índios guaianás, que se tornou o marco inicial da cidade de São Paulo. O apóstolo foi recebido no Aeroporto de Congonhas por uma comissão de sete Paulos: Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns (Arcebispo católico de São Paulo), Bispo Paulo Ayres (do Colégio de Bispos da Igreja Metodista do Brasil), dr. Paulo Breda Filho (presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil), Rev. Paulo Cintra Damião (Redator de O Estandarte, órgão oficial da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil), Rev. Paulo Hasse (pastor da Paróquia Bom Pastor, na Lapa, da Igreja Evangélica Luterana do Brasil), Rev. Paulo Moreira Filho (pastor da Igreja Batista do Morumbi) e sr. Paul Overholt (do Missionary Information Bureau, órgão que trata dos interesses dos missionários estrangeiros residentes no Brasil). Juntou-se também ao grupo recepcionista o Deputado Paulo Salim Maluf, que se apresentou como o único governador do Estado de São Paulo a chamar-se Paulo, esquecendo-se de seu antecessor Paulo Egydio Martins.

O apóstolo não se limitou a pregar no Pacaembu. No dia seguinte, 25 de janeiro, dia de sua dramática conversão ao cristianismo à entrada de Damasco, na Síria, há quase dois milênios, Paulo concedeu uma entrevista, que Ultimato publica com exclusividade. À noite falou a todo o país por meio de uma cadeia nacional de televisão. O som e a imagem foram transmitidos pela TV Bandeirantes exatamente do local onde os jesuítas construíram o Colégio de São Paulo. Nesta fala, Paulo recordou com detalhes o seu encontro pessoal com Jesus Cristo e a transformação que se deu em sua vida a partir de então.

Em seguida transcrevemos o discurso de Paulo no Pacaembu, de acordo com a gravação feita pela COMEV – Comunicações Evangélicas, com sede em São Paulo.

Três níveis de religiosidade

Paulistas e paulistanos!

Em tudo vos vejo acentuadamente religiosos. Não só porque destes a esta grande cidade e a este não menos grande Estado o nome de um dos apóstolos de Jesus Cristo – se bem que eu não sou digno de ser chamado apóstolo, pois persegui a Igreja de Deus – mas também fizestes questão de coincidir a data da fundação da cidade com a data de minha conversão a Cristo, quando deixei de me chamar Saulo, o perseguidor, para adotar o nome de Paulo, o perseguido. Passando pela cidade e observando o máximo que me foi possível, percebi, por exemplo, no percurso norte-sul de vosso excelente metrô, estações que têm nomes relacionados com o cristianismo: Santana, Luz, São Bento, Sé, Liberdade, São Joaquim, Paraíso, Vila Mariana, Santa Cruz, São Judas e Conceição. Se possível, gostaria até de aproveitar estas palavras para vos levar a um encontro mais real e positivo com Deus, como aconteceu comigo. Eu vos diria que é necessário passar por Santa Cruz para alcançar Luz, Liberdade e Paraíso!

Nesta noite, porém, desejo falar-vos sobre três níveis de religiosidade, explicando melhor o que escrevi na Epístola aos Romanos, 2.25-29. Daqui para frente, peço vossa permissão para tratar-vos na terceira pessoa do singular, no propósito de ser mais pessoal e menos protocolar.

Nível 1
O nível 1 se resume nisto: Você pratica os ritos, mas não a essência do cristianismo.

Você se batiza, você batiza os filhos, você se crisma, você se confirma, você professa a fé, você se confessa, você comunga, você se casa na Igreja, você tem uma cerimônia fúnebre no dia de seu sepultamento, você manda rezar missa de 7º dia. Você discute e briga por causa da forma e do tempo do batismo. Mas você não se arrepende de seus pecados e nem os abandona. Você não é capaz de negar-se a si mesmo, de tomar a cada dia a sua cruz e seguir a Jesus Cristo, de acordo com a essência do cristianismo. Você faz de Jesus seu Salvador, seu protetor e sua varinha de condão, mas não o faz seu Senhor. Esta situação, embora generalizada, é perigosamente grave e dela você deve se libertar. Profetas e apóstolos sempre levantaram a voz contra esta fuga de responsabilidade e crassa hipocrisia.

Ouça, por exemplo, o protesto veemente de Samuel quando o rei Saul incorreu em desobediência e, para compensá-la, alegou a necessidade de oferecer holocaustos a Deus: “Tem, porventura, o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios quanto em que se obedeça à sua palavra? Eis que obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender melhor do que a gordura de carneiros” (1Sm 15.22).

Foi Deus mesmo quem instituiu as cerimônias mencionadas no primeiro capítulo de Isaías – sacrifícios, holocaustos, incenso, luas novas, sábados e festas – mas ele declara enfaticamente: “Já não suporto mais os seus sacrifícios. Chega! Não quero mais os seus gordos carneiros, nem o sangue dos animais que vocês me oferecem. Para que serve os sacrifícios, se vocês nem sentem tristeza quando pecam? O incenso que vocês queimam para mim cheira mal. Suas festas não passam de grossas mentiras! E não há nada que eu odeie tanto quanto uma religião fingida! Eu não aguento mais todas estas festas. Eu sofro com elas; já nem posso olhar para essas cerimônias!” (Is 1.11-14). Protesto semelhante a este, você encontrará no profeta Amós (Am 5.21-27).

Paulistas e paulistanos, deixem-me dizer-lhes francamente: este nível de religiosidade não lhes convém. Vocês não conseguem fugir da ira vindoura buscando apenas o batismo, como muito bem declarou João Batista (Lc 3.7-9). Nosso Senhor demonstrou que não são sepulcros caiados aqueles que limitam o seu cristianismo às cerimônias religiosas (Mt 23.27).

Nível 2
O nível 2 é o oposto do nível 1: Você não pratica os ritos, mas observa a essência do cristianismo.

Naturalmente houve extraordinário progresso. Você não se circuncida, não se batiza, não professa a fé, não toma a Ceia do Senhor, não frequenta o culto, não participa de cerimônias religiosas, mas observa os preceitos da lei e do evangelho. Você não é a raça de víboras, fariseu cego nem sepulcro caiado. Você entende que a circuncisão física é menos importante que a circuncisão do espírito. Você diz que o batismo é menos importante que o arrependimento. Você faz questão de ter o seu nome registrado no livro da vida e não no rol de membros. Você se proclama membro da “universal assembleia e igreja dos primogênitos arrolados nos céus” (Hb 12.23) e não liga para a igreja visível. Você é discreto e não quer assentar-se nas primeiras cadeiras das sinagogas nem exercer a justiça diante dos homens, com o fim de ser visto e notado por eles. Mas você se isola, arrisca-se a ficar orgulhoso e não cumpre toda a justiça. Você exagera e se põe no outro extremo, esquecendo-se levianamente dos sacramentos e ordenanças. Você despreza as cerimônias instituídas pelo próprio Deus. Você deveria observar a essência do cristianismo sem omitir o culto organizado.

Paulistas e paulistanos, ouçam o que lhes digo: este nível de religiosidade é semelhante ao comportamento daquele rapaz e daquela moça que resolveram viver juntos fielmente, mas sem se submeterem ao ritual do casamento. Mesmo que a ausência de infidelidade entre eles os torne melhores e superiores aos casais casados perante a lei, mas infiéis entre si, este estado não expressa a inteira vontade de Deus.

Nível 3

O nível 3 consiste nisto: Você pratica os ritos e a essência do cristianismo.

Você se arrepende e se se batiza, você crê e professa a fé. Você é ouvinte e praticante da palavra. Você se examina e assim come do pão e bebe do vinho. Você limpa o interior e o exterior do copo. Você ora com o espírito, mas também com a mente. Você crê e mostra a sua fé por meio de obras. Você fala e age. Você ora o Pai Nosso e não se isola de seus irmãos. Para você Jesus é Salvador e também Senhor.

Neste nível holocaustos e obediência se encontram, teoria e prática se unem, culto e transbordamento do espírito se completam. Disto resulta justa e perfeita harmonia. Este equilíbrio não deixa lugar para a omissão e você consegue valorizar tanto os ritos realmente legítimos do cristianismo como a observância de seus fundamentos. Você se aproxima de Jesus Cristo e se identifica com ele. Porque Jesus foi circuncidado ao oitavo dia de acordo com a lei de Moisés. Foi apresentado e consagrado ao Senhor exatamente no 40º dia, conforme está escrito: “Todo primogênito ao Senhor será consagrado” (Lc 2.21-24). Foi batizado porque lhe convinha “cumprir toda a justiça”, apesar do protesto de João – “Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?” – e apesar de não ter pecado, nem sequer o pecado denominado original (Mt 3.13-17). Jesus participou das festas religiosas de Jerusalém, especialmente da Páscoa (Mt 26.17-19). E foi ele quem ordenou o batismo cristão – “Ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28.19). E quem instituiu a celebração da Ceia do Senhor – o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim (1Co 11.23-24).

Portanto, meus amados, eu os exorto a considerar o que acabo de lhes dizer. Deus os convida ao arrependimento, porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos. Vocês sabem que eu me refiro ao próprio Jesus Cristo, a quem sirvo desde quando ele me perguntou: “Saulo, Saulo, por que me persegues?”.

E, agora, a palavra final: na convicção de que Deus me tem vocacionado para levar o nome de Jesus perante as autoridades deste mundo, alegro-me com a presença do governador Franco Montoro aqui no Pacaembu e desejo-lhe a graça do nível três. Assim seja!

Artigo publicado originalmente na edição 152 de março de 1984, de Ultimato.

Imagem:
Werner Haberkorn - Vista pontual do Estádio Paulo Machado de Carvalho (Pacaembu). São Paulo-SP 2
REVISTA ULTIMATO – PERDOA-NOS, COMO NÓS PERDOAMOS
A mais comprometedora petição ensinada por Jesus é essa: Deus pede de nós aquilo que pedimos a ele.
O tema do perdão se espalha por toda a Escritura e rege a relação do ser humano com Deus. É provavelmente o conceito que mais realiza conexões com temas da teologia. Sem a menção ao perdão não se discursa sobre o acesso a Deus, a obra da salvação, o objetivo da graça divina nem sobre Jesus encarnado, o amor de Deus, o resgate, a restauração, a missão da igreja etc.
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