Opinião
08 de junho de 2026- Visualizações: 64
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Como combinar liderança com humildade e serviço com autoridade
Por John Stott
A primeira coisa que precisa ser dita sobre todos os tipos de ministros cristãos é que eles estão “abaixo” das pessoas (como servos) e não “acima” delas (como líderes, muito menos senhores). Jesus deixou isto absolutamente claro. A principal característica dos líderes cristãos, insistiu ele, é humildade e não autoridade, gentileza e não poder.
O verdadeiro exemplo
“Ministério” significa “serviço” – serviço humilde e sem interesse. Portanto, é curiosamente perverso transformá-lo em uma ocasião para se vangloriar. Jesus fez uma distinção específica entre “governo”, “autoridade”, e “serviço”, “ministério”, acrescentando que, embora o primeiro fosse característico dos pagãos, o último deveria ser uma característica de seus seguidores: “Vocês sabem que aqueles que são considerados governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. Não será assim entre vocês. Ao contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo; e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo de todos. Pois nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mt 20.25-28). Portanto, os ministros cristãos devem tomar como modelo o Cristo que veio para servir, não os gentios (ou os fariseus) que preferiram ser senhores.
Liderança, não senhorio
Liderança e senhorio são dois conceitos muito diferentes. O cristão lidera pelo exemplo, não pela força, e deve ser um modelo que convide seguidores, não um chefe que os exige.
Guardiões e arautos
Paulo tinha a firme convicção de que sua mensagem vinha de Deus e de que “seu” evangelho era, na verdade, o evangelho “de Deus”. Ele não o inventou. Era apenas o mordomo a quem o evangelho foi confiado e um arauto comissionado para proclamá-lo. Acima de tudo, ele tinha de ser fiel.
Todo ministério cristão autêntico começa aqui, com a convicção de que fomos chamados a lidar com a Palavra de Deus como guardiões e arautos... É claro que não somos apóstolos de Cristo, como foi Paulo. Mas acreditamos que o ensino dos apóstolos foi preservado no Novo Testamento e que agora nos foi legado em sua forma definitiva. Somos, portanto, administradores dessa fé apostólica, que é a Palavra de Deus e que trabalha poderosamente naqueles que creem. Cabe a nós preservá-la, estudá-la, aplicá-la e obedecer a ela.
O início da supervisão pastoral
Apesar de não haver uma ordem ministerial fixa no Novo Testamento, considera-se indispensável para o bom andamento da igreja que haja algum tipo de supervisão pastoral (episkope), sem dúvida alguma, adaptada às necessidades locais. Notamos que ela era local e coletiva – local no fato de os presbíteros serem escolhidos dentro da própria congregação, sem imposição externa; e coletiva porque o modelo moderno tão familiar de “um pastor, uma igreja” era simplesmente desconhecido. Em seu lugar, havia uma equipe pastoral, que provavelmente incluía (dependendo do tamanho da igreja) ministros de tempo integral e parcial, obreiros pagos e voluntários, presbíteros, diáconos e diaconisas. Mais tarde, Paulo formulou as suas qualificações por escrito. Na sua maioria, eram questões de integridade moral, mas a fidelidade ao ensino dos apóstolos e o dom de ensino também eram essenciais. Assim os pastores cuidariam das ovelhas de Cristo, alimentando-as. Em outras palavras, zelariam por elas, ensinando-as.

O pastor cristão
O pastor é basicamente um mestre. Esta é a razão pela qual duas qualificações para o presbitério são selecionadas nas epístolas pastorais. Primeiro, o candidato deve ser “apto para ensinar” (1Tm 3.2). Segundo, ele deve se apegar “firmemente à mensagem fiel, da maneira como foi ensinada, para que seja capaz de encorajar outros pela sã doutrina e de refutar os que se opõem a ela” (Tt 1.9). Estas duas qualificações andam juntas. Os pastores têm de ser leais ao ensino apostólico (o didache) e precisam ter o dom de ensinar (didaktikos). E, quer ensinem uma multidão ou uma congregação, um grupo ou um indivíduo (o próprio Jesus ensinou nesses três contextos), o que distingue a obra pastoral é que ela é sempre um ministério da Palavra.
Um ministério capacitador
O conceito neotestamentário de pastor não é o de uma pessoa que conserva a totalidade do ministério nas suas próprias mãos, tendo ciúmes dele, e que esmaga toda a iniciativa dos leigos, mas, sim, de uma pessoa que ajuda e encoraja todo o povo de Deus a descobrir, desenvolver e exercer seus dons. O ensino e o treinamento do pastor se dirigem para esta finalidade, para capacitar o povo de Deus a ser um povo que serve, ministrando ativa, porém humildemente, num mundo de alienação e de dor. Assim, ao invés de pessoalmente monopolizar todo o ministério, chega realmente a multiplicar os ministérios.
A prestação de contas do ministério
Nenhum segredo do ministério cristão é mais importante que sua centralidade fundamental em Deus. Os administradores do evangelho não devem essencialmente prestar contas à igreja, nem aos sínodos, nem aos líderes, mas ao próprio Deus. Por um lado, este é um fato desconcertante, pois Deus sonda nosso coração e os segredos que nele existem, e os padrões de Deus são muito altos. Por outro, isso é maravilhosamente libertador, uma vez que Deus é um juiz mais instruído, imparcial e misericordioso que qualquer ser humano, corte ou conselho eclesiástico. Prestar contas a Deus é estar livre da tirania da crítica humana.
Amor e serviço
Se amor e verdade andam juntos, e amor e dons andam juntos, então amor e serviço também andam juntos, uma vez que o verdadeiro amor sempre se expressa por meio do serviço. Amar é servir. Restam-nos, portanto, estes quatro aspectos da vida cristã que formam um anel ou um círculo que não pode ser quebrado: amor, verdade, dons e serviço. Pois o amor resulta em serviço, o qual, por sua vez, usa os dons, dentre os quais o maior é o ensino da verdade, mas a verdade deve ser transmitida em amor. Cada um deles envolve os outros e, por onde quer que comecemos, todos eles são usados. “O maior deles, porém, é o amor” (1Co 13.13).
Artigo publicado originalmente no livro Desafios da Liderança Cristã, John Stott.
Imagem: Unsplash.
REVISTA ULTIMATO – A ARTE PRECISA DE JUSTIFICATIVA?
Os artigos da edição 419 de Ultimato ressaltam a “beleza de Deus” e o fato de termos sido feitos à sua imagem e semelhança, o que torna a arte (sua apreciação ou o fazer artístico) disponível para todos – “Sejam encanadores, coletores de lixo, taxistas ou CEOs, somos chamados pelo Grande Artista a cocriar. O Artista nos chama, a nós, artistas com ‘a’ minúsculo, para cocriar, para compartilhar a ‘irrupção celestial’ na terra quebrada” (Makoto Fujimura).
Clique aqui e saiba mais. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
» Desafios da Liderança Cristã, John Stott
»Tornando-se um Pastor-teólogo – Identidades e possibilidades para a liderança da Igreja, Todd Wilson; Kevin Vanhoozer e outros
» Pastor precisa de pastor?, por José Cássio Martins
A primeira coisa que precisa ser dita sobre todos os tipos de ministros cristãos é que eles estão “abaixo” das pessoas (como servos) e não “acima” delas (como líderes, muito menos senhores). Jesus deixou isto absolutamente claro. A principal característica dos líderes cristãos, insistiu ele, é humildade e não autoridade, gentileza e não poder.
O verdadeiro exemplo“Ministério” significa “serviço” – serviço humilde e sem interesse. Portanto, é curiosamente perverso transformá-lo em uma ocasião para se vangloriar. Jesus fez uma distinção específica entre “governo”, “autoridade”, e “serviço”, “ministério”, acrescentando que, embora o primeiro fosse característico dos pagãos, o último deveria ser uma característica de seus seguidores: “Vocês sabem que aqueles que são considerados governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. Não será assim entre vocês. Ao contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo; e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo de todos. Pois nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mt 20.25-28). Portanto, os ministros cristãos devem tomar como modelo o Cristo que veio para servir, não os gentios (ou os fariseus) que preferiram ser senhores.
Liderança, não senhorio
Liderança e senhorio são dois conceitos muito diferentes. O cristão lidera pelo exemplo, não pela força, e deve ser um modelo que convide seguidores, não um chefe que os exige.
Guardiões e arautos
Paulo tinha a firme convicção de que sua mensagem vinha de Deus e de que “seu” evangelho era, na verdade, o evangelho “de Deus”. Ele não o inventou. Era apenas o mordomo a quem o evangelho foi confiado e um arauto comissionado para proclamá-lo. Acima de tudo, ele tinha de ser fiel.
Todo ministério cristão autêntico começa aqui, com a convicção de que fomos chamados a lidar com a Palavra de Deus como guardiões e arautos... É claro que não somos apóstolos de Cristo, como foi Paulo. Mas acreditamos que o ensino dos apóstolos foi preservado no Novo Testamento e que agora nos foi legado em sua forma definitiva. Somos, portanto, administradores dessa fé apostólica, que é a Palavra de Deus e que trabalha poderosamente naqueles que creem. Cabe a nós preservá-la, estudá-la, aplicá-la e obedecer a ela.
O início da supervisão pastoral
Apesar de não haver uma ordem ministerial fixa no Novo Testamento, considera-se indispensável para o bom andamento da igreja que haja algum tipo de supervisão pastoral (episkope), sem dúvida alguma, adaptada às necessidades locais. Notamos que ela era local e coletiva – local no fato de os presbíteros serem escolhidos dentro da própria congregação, sem imposição externa; e coletiva porque o modelo moderno tão familiar de “um pastor, uma igreja” era simplesmente desconhecido. Em seu lugar, havia uma equipe pastoral, que provavelmente incluía (dependendo do tamanho da igreja) ministros de tempo integral e parcial, obreiros pagos e voluntários, presbíteros, diáconos e diaconisas. Mais tarde, Paulo formulou as suas qualificações por escrito. Na sua maioria, eram questões de integridade moral, mas a fidelidade ao ensino dos apóstolos e o dom de ensino também eram essenciais. Assim os pastores cuidariam das ovelhas de Cristo, alimentando-as. Em outras palavras, zelariam por elas, ensinando-as.

O pastor cristão
O pastor é basicamente um mestre. Esta é a razão pela qual duas qualificações para o presbitério são selecionadas nas epístolas pastorais. Primeiro, o candidato deve ser “apto para ensinar” (1Tm 3.2). Segundo, ele deve se apegar “firmemente à mensagem fiel, da maneira como foi ensinada, para que seja capaz de encorajar outros pela sã doutrina e de refutar os que se opõem a ela” (Tt 1.9). Estas duas qualificações andam juntas. Os pastores têm de ser leais ao ensino apostólico (o didache) e precisam ter o dom de ensinar (didaktikos). E, quer ensinem uma multidão ou uma congregação, um grupo ou um indivíduo (o próprio Jesus ensinou nesses três contextos), o que distingue a obra pastoral é que ela é sempre um ministério da Palavra.
Um ministério capacitador
O conceito neotestamentário de pastor não é o de uma pessoa que conserva a totalidade do ministério nas suas próprias mãos, tendo ciúmes dele, e que esmaga toda a iniciativa dos leigos, mas, sim, de uma pessoa que ajuda e encoraja todo o povo de Deus a descobrir, desenvolver e exercer seus dons. O ensino e o treinamento do pastor se dirigem para esta finalidade, para capacitar o povo de Deus a ser um povo que serve, ministrando ativa, porém humildemente, num mundo de alienação e de dor. Assim, ao invés de pessoalmente monopolizar todo o ministério, chega realmente a multiplicar os ministérios.
A prestação de contas do ministério
Nenhum segredo do ministério cristão é mais importante que sua centralidade fundamental em Deus. Os administradores do evangelho não devem essencialmente prestar contas à igreja, nem aos sínodos, nem aos líderes, mas ao próprio Deus. Por um lado, este é um fato desconcertante, pois Deus sonda nosso coração e os segredos que nele existem, e os padrões de Deus são muito altos. Por outro, isso é maravilhosamente libertador, uma vez que Deus é um juiz mais instruído, imparcial e misericordioso que qualquer ser humano, corte ou conselho eclesiástico. Prestar contas a Deus é estar livre da tirania da crítica humana.
Amor e serviço
Se amor e verdade andam juntos, e amor e dons andam juntos, então amor e serviço também andam juntos, uma vez que o verdadeiro amor sempre se expressa por meio do serviço. Amar é servir. Restam-nos, portanto, estes quatro aspectos da vida cristã que formam um anel ou um círculo que não pode ser quebrado: amor, verdade, dons e serviço. Pois o amor resulta em serviço, o qual, por sua vez, usa os dons, dentre os quais o maior é o ensino da verdade, mas a verdade deve ser transmitida em amor. Cada um deles envolve os outros e, por onde quer que comecemos, todos eles são usados. “O maior deles, porém, é o amor” (1Co 13.13).
Artigo publicado originalmente no livro Desafios da Liderança Cristã, John Stott.
Imagem: Unsplash.
REVISTA ULTIMATO – A ARTE PRECISA DE JUSTIFICATIVA?Os artigos da edição 419 de Ultimato ressaltam a “beleza de Deus” e o fato de termos sido feitos à sua imagem e semelhança, o que torna a arte (sua apreciação ou o fazer artístico) disponível para todos – “Sejam encanadores, coletores de lixo, taxistas ou CEOs, somos chamados pelo Grande Artista a cocriar. O Artista nos chama, a nós, artistas com ‘a’ minúsculo, para cocriar, para compartilhar a ‘irrupção celestial’ na terra quebrada” (Makoto Fujimura).
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