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Opinião

Não basta ser pastor?

Por Kevin J. Vanhoozer

Tendo em conta o fato de que todo ministério pastoral é um ministério da igreja local, por que devemos descrever os pastores usando as palavras adicionais teólogo e público?

Teólogo. Há muito tempo trabalhamos com a dicotomia entre a academia e a igreja. Confinamos a teologia em uma ciência teórica, uma especialização, e o pastorado, em uma esfera prática, uma profissionalização. O resultado é que já não encorajamos os alunos mais inteligentes no seminário a obterem seus PhDs para que possam servir à igreja, e, ao mesmo tempo, obter um PhD para servir na academia não é visto como algo tão útil assim. Gosto da história da mãe que apresenta sua filha pequena a um doutor em teologia recém-formado. “Agora você pode operar as pessoas?”, pergunta a menina. A mãe (muito) rapidamente responde: “Ah não, ele é o tipo de doutor que não pode ajudar ninguém”. O mesmo serve para os teólogos como doutores da igreja!

Meu Deus, nós temos um problema. Por um lado, temos teólogos que não praticam a teologia. Por outro, temos pastores que fazem parte daquilo que Gerald Hiestand e Todd Wilson descrevem como “gestão intelectual mediana”: eles podem interpretar o estudo, mas eles mesmos não conseguem fazê-lo.1 Os corpos saudáveis de Cristo precisam dos glóbulos vermelhos da vitalidade pastoral e da massa cinzenta da inteligência teológica.

Nesse momento, governantes ricos – ou pastores muito pobres – podem ficar extremamente tristes, pois sempre estão muito ocupados (compare com Lc 18.23). Ser pastor já é bastante difícil: o New York Times relatou em 2010 que 50% dos pastores se sentem incapazes de atender às necessidades do trabalho, sendo que 90% afirmaram que se sentem desqualificados ou mal preparados para o ministério. Como tenho a ousadia de sugerir mais uma coisa que os pastores precisam fazer!? Levaria várias semanas para estudar Reformed Dogmatics,2 de Herman Bavinck, e pelo menos vários meses para ler Church Dogmatics,3 de Karl Barth, mesmo que não houvesse mais nada para fazer.

Andrew Wilson publicou um artigo no site da Christianity Today em setembro de 2015 intitulado “Por que ser um pastor-estudioso é praticamente impossível”.4 Nele, Wilson mostrou que o tempo é apenas um dos problemas. Ele identifica três tensões que têm contribuído para os pastores-estudiosos se tornarem uma espécie ameaçada de extinção: (1) a tensão universidade-igreja, (2) a tensão especialista-generalista e (3) a tensão teórico-prática (o que motiva os estudiosos normalmente não é a pergunta “O que devemos fazer?”).

Esses são pontos justos, mas Wilson está falando de pastores-estudiosos, não de pastores-teólogos. Ao sugerir que pastores são teólogos, não estou dizendo que eles devam ser estudiosos. Teologia é o projeto de buscar, falar e mostrar entendimento daquilo que o Deus trino está fazendo em Jesus Cristo e por meio dele pelo bem de todo o mundo, e isso é muito importante para ser deixado para os acadêmicos.

Público. Por que qualificar pastores-teólogos com outro adjetivo: público? “Público” significa ter relação com pessoas em geral ou da comunidade. Pastores são teólogos públicos porque trabalham em assembleias locais do – e para o – povo de Deus e para o bem das pessoas em todos os lugares. As pessoas são o meio com o qual o pastor trabalha para formar vidas que glorificam a Deus, tanto em indivíduos (santos) quanto em comunidades (a comunhão dos santos). Teologia é uma obra pública local; é sobretudo a obra de Deus “para trazer à existência um povo sob seu domínio em seu lugar”.5 A igreja é um templo vivo; o que a igreja realiza em sua vida coletiva é um projeto de construção teológica – a formação de um povo separado para amar a Deus e ao próximo como a si mesmo. Pastores são teólogos públicos porque trabalham com pessoas para pôr a teologia em prática. Esse é um trabalho árduo; é mais difícil trabalhar com pessoas do que com ideias. Se você quiser um desafio real, não vá estudar teologia acadêmica; vá para o pastorado. Mas o povo de Deus – as igrejas locais – são os locais públicos onde a vida de Cristo é lembrada, celebrada, examinada e exibida. Em termos simples, a tarefa do pastor é ajudar a congregação a se tornar o que ela é em Cristo.

Os pastores deveriam ser automaticamente intelectuais públicos do evangelicalismo, em contraste com os acadêmicos.6 O mandato do intelectual público é falar de maneira significativa sobre tópicos amplos de maior preocupação social e discutir questões centrais sobre o que significa avançar como ser humano e comunidade. Alexander Solzhenitsyn estava falando como intelectual público em seu discurso de formatura em 1978 na Universidade de Harvard. Foi um discurso profético, uma crítica perspicaz à espiritualidade da cultura ocidental moderna. Ele falou sobre o Mal (com M maiúsculo!) e criticou a tendência do Ocidente de postular a autonomia dos seres humanos em contraste com a responsabilidade humana para com Deus.

Existem intelectuais tanto na academia como na sociedade, mas são poucos e raros. Muitos estudiosos são especialistas que sabem muito sobre poucos assuntos, mas não sabem o que falar em se tratando das grandes questões. Os pastores discutem as grandes questões – da vida e da morte, do sentido e da falta de sentido, do físico e do espiritual – com frequência e precisam fazer isso de uma maneira que eles consigam comunicar com os não acadêmicos.

O que isso tem a ver com pastorear? Uma marca distintiva do pastor também é característica de intelectuais: “O pastor, por natureza, está ‘à frente’ [das ovelhas], não apenas as guiando, mas cuidando, de forma antecipada, do bem-estar delas”.7 O que ameaça o rebanho de Jesus Cristo não são ursos ou ursos (1Sm 17.34-35), mas a falsa religião, a doutrina incorreta e as práticas ímpias. Os que lideram precisam, em certos aspectos, estar à frente de sua congregação. Os pastores não precisam ser acadêmicos, mas precisam estar fundamentados na teologia bíblica, o quadro histórico-redentor completo que une o Antigo e o Novo Testamento e se concentra em Cristo. Ser culturalmente qualificado também ajuda. Paulo conhecia a situação cultural de Corinto, com certeza, mas estava fundamentado no evangelho: “Pois decidi nada saber entre vocês, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado” (1Co 2.2).

Pense nos pastores-teólogos também como intelectuais orgânicos.8 O intelectual orgânico não é um estudioso nem um gênio, mas alguém capaz de articular as necessidades, convicções e aspirações da comunidade à qual pertence, a mente evangélica do corpo de Cristo. O papa Francisco descreve o teólogo como, “sobretudo, um filho de seu povo. Ele não pode desejar – e não deseja – ignorá-lo. Ele conhece seu povo, a linguagem, as raízes, as histórias, a tradição desse povo”.9 O intelectual orgânico sabe que ideias são importantes – elas têm o poder de moldar certas formas de vida. Mas o intelectual orgânico é menos um teórico abstrato e mais um ativista social, alguém que organiza e preserva a integridade da igreja como a cidade de Deus, ajudando a congregação a ler as culturas e a adotar práticas adequadas aos cidadãos do evangelho.

Os pastores-teólogos não precisam ser as pessoas mais inteligentes presentes – mas, por outro lado, nem os apóstolos eram. Quando Pedro e João foram presos por pregarem o evangelho e arrastados diante do Sinédrio, eles tiveram de fazer um discurso público improvisado – e inspirado: “Este Jesus é ‘a pedra que vocês, construtores, rejeitaram, e que se tornou a pedra angular’. Não há salvação em nenhum outro” (At 4.11-12). Quando os sumos sacerdotes, os anciãos e os escribas – todos bem treinados nas escolas rabínicas – viram a ousadia de Pedro e de João, ficaram admirados, pois “[perceberam] que eram homens comuns e sem instrução” (At 4.13). Pedro e João não eram gênios, mas apóstolos: eles sabiam algo que o Sinédrio não sabia (“Ele ressuscitou!”), e sabiam disso não porque eram inteligentes, mas porque foram informados.

Os pastores-teólogos também sabem algo que os outros não sabem, e sabem disso porque a Bíblia lhes diz. O que eles sabem é algo bastante específico, mas com implicações enormes, até universais. O pastor-teólogo intelectual orgânico sabe de algo importante: o que o Deus trino está fazendo em Cristo por meio do Espírito a fim de criar um povo para sua possessão preciosa (Êx 19.5; Dt 7.6; 14.2; 26.8; Ml 3.17; Tt 2.14; 1Pe 2.9). Como Solzhenitsyn, os pastores-teólogos são generalistas que dão voz ao modo como a fé compreende o significado da vida – a vida escondida com Cristo (Cl 3.3). Sim, os pastores-teólogos sabem algo específico e concreto, mas, estritamente falando, não se trata de um conhecimento “especializado”. O pastor-teólogo é um generalista que se especializa em relacionar todas as coisas ao evangelho de Jesus Cristo. Pastores são teólogos públicos locais – intelectuais orgânicos que representam a mente de Cristo com o intuito de inspirar e proteger as assembleias locais do corpo de Cristo.

Notas
1. Veja HIESTAND, Gerald; WILSON, Todd. The Pastor Theologian: Resurrecting an Ancient Vision [O pastor-teólogo: ressuscitando uma antiga visão]. Grand Rapids: Zondervan, 2015. p. 11.
2. N. do T.: Livro publicado no Brasil com o título Dogmática reformada pela editora Cultura Cristã, 2012.
3. N. do T.: Livro publicado no Brasil com o título Dogmática eclesiástica pela editora Fonte Editorial, 2019.
4. WILSON, Andrew. “Why Being a Pastor-Scholar Is Nearly Impossible”, www.christianitytoday.com/ct/2015/september-web-only/why-being-pastor-scholar-is-nearly-impossible.html.
5. MILLAR, J. G. “People of God”. In: ALEXANDER, T. D.; ROSNER, Brian S., ed. New Dictionary of Biblical Theology. Downers Grove: InterVarsity Press, 2000. p. 684. [Novo Dicionário de Teologia Bíblica. Vida, 2009.]
6. Para obter uma tipologia útil das várias maneiras como se pode combinar os papéis de pastor e estudioso, veja KRUGER, Michael. “Should You Be a Pastor or a Professor?”, http://michaeljkruger.com/should-you-be-a-pastor-or-a-professor-thinking-through-the-options.
7. ODEN, Thomas. Pastoral Theology: Essentials of Ministry [Teologia pastoral: princípios básicos do ministério]. Nova York: HarperOne, 1983. p. 51.
8. Estou tomando emprestado o termo intelectual orgânico de Antonio Gramsci, um crítico literário e social italiano do século 20. Veja especialmente Selections from the Prison Notebooks [Seleções de anotações feitas na prisão]. Ed. Quintin Hoare e Geoffrey Newell Smith. Nova York: International Publishers, 1971.
9. “Mensagem em vídeo de Sua Santidade, o papa Francisco, aos participantes de um Congresso Teológico Internacional realizado na Pontifícia Universidade Católica da Argentina”, http://w2.vatican.va/content/francesco/en/messages/pont-messages/2015/documents/papa-francesco_20150903_videomessaggio-teologia-buenos-aires.html.

  • Kevin J. Vanhoozer (PhD, Universidade de Cambridge) é professor de pesquisa de teologia sistemática na Trinity Evangelical Divinity School em Deerfield, Illinois. Antes disso, serviu como professor de teologia da cátedra Blanchard na Wheaton College and Graduate School [faculdade e pós-graduação] (2008–2011) e como professor sênior de teologia e estudos religiosos na New College, da Universidade de Edimburgo (1990–1998), onde também serviu na Comissão de Doutrina da Igreja da Escócia. É autor de muitos livros, incluindo O Pastor Como Teólogo Público: recuperando uma visão perdida (Vida Nova, 2016).

Imagem: Unsplash.


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