Opinião
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A ternura humana na era da inteligência artificial
Um pastor evangélico lê a encíclica Magnifica humanitas do Papa Leão XIV
Por Harold Segura
A rápida expansão da inteligência artificial e das tecnologias digitais está transformando não apenas nossas formas de comunicação e trabalho, mas também como entendemos as relações humanas e até mesmo nossa própria identidade. Por trás dessa grande mudança tecnológica reside uma profunda transformação antropológica, como alertou o padre jesuíta Antonio Spadaro há alguns anos em seu livro Ciberteologia: pensando o cristianismo na era da rede 1. A questão não é mais simplesmente o que as máquinas podem fazer, mas o que está acontecendo com os seres humanos em meio a elas.
Nesse contexto, a Magnifica Humanitas, primeira encíclica do Papa Leão XIV, foi publicada em 25 de maio de 2026. Uma de suas maiores contribuições reside na compreensão de que a inteligência artificial não é meramente uma questão técnica ou econômica, mas também uma questão ética, espiritual e profundamente humana. Essa encíclica ecoa o espírito da Rerum Novarum, publicada por Leão XIII durante a Revolução Industrial (1891), e busca discernir os desafios da nova revolução tecnológica. Ela reconhece as possibilidades positivas da inteligência artificial, mas alerta para os riscos de uma sociedade onde a vida humana se subordina à lógica do controle, da eficiência e do mercado.
Como pastor evangélico, encontro diversos elementos neste texto que merecem a atenção de nossas comunidades de fé, pois a questão que ele levanta toca em um cerne profundamente bíblico. Como podemos preservar a humanidade das pessoas criadas à imagem de Deus em culturas cada vez mais hipertecnológicas? A questão certamente vem da Igreja Católica, mas desafia convicções que compartilhamos como seguidores de Jesus, assim como nossa responsabilidade deve ser compartilhada diante de tudo que afeta a vida e a dignidade humana.
A preocupação torna-se ainda mais urgente quando pensamos nas novas gerações. Crianças e adolescentes crescem em ecossistemas digitais que moldam emoções, relacionamentos e formas de habitar o mundo. Nesse contexto, Magnifica Humanitas torna-se também um convite ao discernimento e à responsabilidade compartilhada entre as igrejas cristãs.
Tecnologia, poder e dignidade humana
Uma das maiores contribuições de Magnifica Humanitas é a sua lembrança de que a tecnologia nunca é completamente neutra. Por trás de cada plataforma, algoritmo ou sistema digital, existem visões de mundo, interesses econômicos, prioridades culturais e dinâmicas de poder. A obra insiste que o verdadeiro debate gira não apenas em torno das capacidades técnicas da inteligência artificial, mas também em torno do modelo de sociedade que estamos construindo por meio dela.
Durante muito tempo, o discurso tecnológico foi apresentado como sinônimo automático de progresso. Cada inovação parecia prenunciar um futuro inevitavelmente melhor. No entanto, a experiência contemporânea revela uma realidade mais ambígua. As mesmas ferramentas capazes de ampliar o acesso ao conhecimento também podem manipular informações, gerar dependência emocional, aprofundar desigualdades sociais e enfraquecer os laços humanos. A tecnologia pode contribuir para a preservação da vida, mas também pode se tornar um mecanismo de controle e exclusão.
Leão XIV percebeu claramente esse risco. Por isso, alertou sobre a concentração do poder tecnológico nas mãos de algumas corporações capazes de influenciar o comportamento social, os mercados, os processos políticos e até mesmo a percepção da realidade. Nunca antes tantos dados pessoais haviam sido acumulados, processados e utilizados com tamanho alcance global. A informação tornou-se uma nova forma de poder.
A encíclica critica particularmente a ideia de que tudo o que é tecnicamente possível deve necessariamente ser feito. Esse princípio, muito prevalente em certos setores tecnológicos contemporâneos, acaba subordinando a ética à eficiência. Se algo pode ser feito, então é feito. Mas a tradição cristã sempre insistiu em uma questão diferente. Não basta perguntar se podemos fazer algo; devemos perguntar se devemos fazê-lo e quais as consequências humanas isso produz.
Esta reflexão lembra, em certa medida, as advertências do filósofo alemão de origem sul-coreana, Byung-Chul Han, a respeito das sociedades da fadiga2 e da hiperconectividade. Vivemos rodeados por estímulos constantes, informações instantâneas e exigências de desempenho contínuo. A velocidade tecnológica promete conexão, mas frequentemente produz exaustão, distração e perda da profundidade interior. O problema não reside apenas no excesso de máquinas, mas também na crescente dificuldade em manter relações humanas autênticas e espaços para a reflexão interior.
De uma perspectiva evangélica, essa preocupação é extremamente relevante. A Bíblia afirma que os seres humanos não foram criados para se tornarem engrenagens em máquinas econômicas ou tecnológicas, mas para viver em comunhão com Deus, com os outros e com a criação. Quando a lógica da produtividade absoluta permeia todos os aspectos da existência, até mesmo o descanso, a contemplação e a generosidade começam a ser percebidos como sem sentido.
Nesse contexto, a tarefa das igrejas assume uma dimensão pastoral e profética. Não se trata simplesmente de aprender a usar tecnologias, mas de ajudar as pessoas a preservar sua humanidade em meio a sistemas que frequentemente recompensam a superficialidade, a agressividade e o individualismo. A questão crucial permanece profundamente ética e espiritual: estamos construindo tecnologias para servir à vida humana ou, ao contrário, estamos construindo seres humanos para servir à tecnologia?

Uma perspectiva evangélica (protestante)
Lida sob a perspectiva protestante evangélica, a encíclica oferece reflexões valiosas, embora também deixe algumas questões sem resposta; ela aborda um tema que as igrejas não podem mais ignorar. A revolução tecnológica contemporânea não está apenas transformando a economia ou as comunicações; está alterando a própria experiência humana e, portanto, desafiando diretamente a fé cristã.
Embora o Papa utilize principalmente uma linguagem social, uma intuição profundamente bíblica subjaz à sua mensagem: os seres humanos possuem um valor que não depende da sua produtividade, utilidade ou capacidade de desempenho. Na tradição protestante, essa convicção encontra um dos seus pilares em Gênesis 1.26-27. A afirmação de que homens e mulheres foram criados à imagem de Deus impede a redução da vida humana a meros dados, mercadorias ou uma engrenagem funcional dentro do sistema tecnológico.
A encíclica também se alinha com uma preocupação histórica do pensamento evangélico mais crítico e profético. Autores como o sociólogo, teólogo e pensador protestante francês Jacques Ellul3 alertaram décadas atrás que a tecnologia poderia se tornar um poder cultural capaz de reorganizar toda a sociedade em torno da eficiência e do controle. A tecnologia, então, deixa de ser uma ferramenta e se transforma em uma lógica que determina os ritmos da vida, as prioridades sociais e as formas de relacionamento entre as pessoas.
Na América Latina, essa discussão assume nuances ainda mais complexas. Nossas sociedades vivenciam profundas desigualdades econômicas, sistemas educacionais frágeis e vastas exclusões digitais. A inteligência artificial pode ampliar oportunidades, mas também pode aprofundar as exclusões existentes. A preocupação cristã com a justiça social nos leva a questionar quem terá acesso real aos benefícios tecnológicos e quem será ainda mais marginalizado.
Essa reflexão torna-se ainda mais urgente quando pensamos nas crianças e nas novas gerações. Muitas comunidades religiosas continuam a educar crianças e adolescentes para um mundo que já não existe, enquanto plataformas digitais e algoritmos moldam diariamente suas sensibilidades, emoções e compreensão da realidade. Uma parte significativa da formação espiritual e cultural das novas gerações já não ocorre exclusivamente no seio da família, da escola ou da igreja, mas sim em espaços digitais regidos por interesses comerciais.
Neste ponto, a encíclica nos ajuda a recordar algo essencial. A missão da Igreja não é apenas usar a tecnologia para evangelizar, mas também discernir criticamente o tipo de humanidade que essas tecnologias estão promovendo. Não basta transmitir serviços religiosos online ou multiplicar conteúdo digital. O desafio é formar pessoas capazes de viver com liberdade interior, pensamento crítico, sensibilidade ética e relações humanas saudáveis em meio a culturas cada vez mais fragmentadas e aceleradas.
De uma perspectiva evangélica, talvez se pudesse dar uma ênfase mais explícita à necessidade de transformação espiritual. Porque o problema contemporâneo não é apenas tecnológico ou cultural. É também profundamente moral e espiritual. Nenhuma regulamentação digital pode substituir a necessidade urgente de conversão do coração humano, tanto do coração individual como das suas estruturas sociais e culturais (evangelização da cultura4).
Infância e novas gerações na cultura digital
Um dos aspectos mais importantes da Magnifica Humanitas é a sua preocupação com o impacto das tecnologias digitais nas crianças e nas novas gerações. E este não é um alarme exagerado. Nunca antes na história crianças e adolescentes foram expostos tão cedo, intensamente e permanentemente a sistemas capazes de moldar emoções, hábitos, percepções e formas de se relacionar com o mundo.
As plataformas digitais não são simplesmente espaços neutros para entretenimento. Elas operam através de economias da atenção, concebidas para capturar o tempo, gerar dependência e produzir consumo constante. Por trás de muitos aplicativos, existem algoritmos que aprendem com o comportamento humano e buscam manter as pessoas conectadas pelo maior tempo possível. Quando isso acontece com adultos, já representa um desafio sério. Quando acontece com cérebros, emoções e espiritualidades em desenvolvimento, a questão assume uma dimensão ainda mais delicada.
A preocupação cristã com as crianças não deriva apenas de razões psicológicas ou pedagógicas. Ela também surge de uma convicção teológica. Jesus colocou as crianças no centro da comunidade do Reino, num contexto em que ocupavam posições sociais marginalizadas. Portanto, o desafio contemporâneo não é apenas proteger crianças e adolescentes de certos conteúdos digitais, mas também discernir que tipo de humanidade estamos cultivando como sociedade.
Nesse contexto, as igrejas têm uma enorme responsabilidade pastoral e educacional. Durante anos, muitas comunidades cristãs debateram se deveriam ou não usar a tecnologia. Hoje, a questão é outra:como acompanhar espiritualmente as gerações que naturalmente habitam o mundo digital? Não basta proibir telas ou demonizar a internet. Tampouco é útil abraçar ingenuamente todas as novas tecnologias. O desafio reside em desenvolver discernimento.
Isso significa ajudar as novas gerações a desenvolverem o pensamento crítico diante da cultura digital, promover conexões humanas genuínas e cultivar espaços interiores em meio a sociedades saturadas de ruído. Significa também resgatar práticas espirituais que o cristianismo sempre considerou essenciais e que hoje parecem quase contraculturais. O silêncio, a oração, a conversa presencial, a escuta atenta, o descanso e a vida em comunidade assumem um novo valor em nossos tempos hiperconectados.
A encíclica também estabelece, acertadamente, a ligação entre tecnologia e bem-estar integral. O esgotamento emocional, a ansiedade, o isolamento e a fragilidade de muitas relações humanas não podem ser analisados separadamente da dinâmica digital contemporânea. Em resposta, a Igreja é chamada a oferecer mais do que apenas atividades religiosas. Ela deve se tornar um espaço humano de acolhimento, diálogo, pertencimento e esperança. Talvez uma das contribuições mais importantes do cristianismo nesta nova era esteja precisamente em nos lembrar que a ternura, a escuta e a comunhão continuam sendo profundamente transformadoras.
Uma humanidade mais humana, uma igreja mais unida
A revolução tecnológica que estamos vivenciando não precisa levar à desumanização. Mas exige que as igrejas despertem pastoral, ética e espiritualmente para os desafios desta nova era. Um dos maiores riscos seria reagir de forma extrema. Algumas comunidades reagem com medo a toda inovação tecnológica. Outras, por outro lado, abraçam acriticamente cada novidade digital como se o progresso técnico fosse automaticamente sinônimo de desenvolvimento humano. Nenhuma das duas posições parece suficiente.
A inteligência artificial pode contribuir para o bem-estar humano, facilitar os processos educacionais e expandir as oportunidades de comunicação. No entanto, também pode intensificar as desigualdades, corroer os laços humanos e consolidar novas formas de controle social. Portanto, a questão crucial não é tecnológica, mas espiritual e ética. Que tipo de humanidade queremos cultivar? Talvez uma das expressões mais urgentes do mandato cultural5 (Gn 1.26-28; 2.15) em nosso tempo consista precisamente em aprender a cultivar a humanidade.
De uma perspectiva cristã, a resposta não pode ser reduzida à eficiência, produtividade ou crescimento econômico. O Evangelho enfatiza repetidamente a centralidade da pessoa humana, especialmente daqueles que vivem em situações de vulnerabilidade. Enquanto o mercado normalmente mede o valor pelo desempenho, Jesus coloca as crianças, os doentes, os pobres e os excluídos no centro. Essa lógica do Reino permanece profundamente contracultural.
Nesse contexto, as igrejas têm uma responsabilidade que vai muito além da adaptação tecnológica. Elas são chamadas a formar comunidades capazes de escutar, dialogar, compartilhar refeições, acompanhar o sofrimento humano e construir relacionamentos marcados pela graça e pela ternura. Em um mundo saturado de conexões digitais, a autêntica comunhão humana pode se tornar um dos testemunhos mais poderosos do Evangelho.
Magnifica humanitas também representa uma oportunidade ecumênica. Para além das diferenças doutrinais e históricas, as igrejas cristãs partilham a convicção de que cada pessoa possui uma dignidade sagrada por ter sido criada à imagem de Deus. Diante de culturas que tendem a reduzir a vida humana ao consumo, à produtividade ou a meras estatísticas, esta afirmação adquire uma força profundamente profética. Talvez aí resida a possibilidade de reinventar o ecumenismo. Não apenas com base naquilo em que acreditamos — um caminho já bem trilhado —, mas também naquilo que almejamos e buscamos em conjunto. Desejar o que Deus deseja: uma humanidade mais humana, responsável e terna.
A fé cristã não olha para o futuro a partir de um lugar de medo, mas de esperança e discernimento. Em meio a culturas cada vez mais automatizadas, o Evangelho continua a afirmar algo essencial: nenhuma tecnologia criada por nossas próprias mãos poderá jamais substituir a dignidade da pessoa humana, a profundidade da comunhão ou o poder transformador (revolucionário) da ternura.6
Notas
1. Antonio Spádaro, Ciberteologia: pensando o cristianismo em tempos de rede, Barcelona, Editora Herder, 2014.
2.Byung-Chul-Han, The Burnout Society Barcelona, Herder, 2025.
3. Jacques Ellul, Vivendo como cristãos em uma sociedade tecnológica, Quito, Oveja Perdida Ediciones, 2002.
4. Cipriano Díaz Marcos, Evangelizando a cultura: a inserção do cristão na transformação social, Cantábria, Sal Terrae, 1995.
5.O chamado mandato cultural vem principalmente de Gênesis 1:26-28 e Gênesis 2:15, onde Deus confia à humanidade o cultivo, o cuidado e o desenvolvimento da criação. Na tradição protestante, essa expressão se refere à responsabilidade humana de participar eticamente na construção da vida social, cultural e material do mundo sob o senhorio de Deus.
6. Anna C. Grellert e Harold Segura (ed.), Ternura, la revolución pendiente, Terrasa, Editorial Clie, 2019
Fonte: Site Protestante Digital. Reproduzido com permissão.
REVISTA ULTIMATO – PERDOA-NOS, COMO NÓS PERDOAMOS
A mais comprometedora petição ensinada por Jesus é essa: Deus pede de nós aquilo que pedimos a ele.
O tema do perdão se espalha por toda a Escritura e rege a relação do ser humano com Deus. É provavelmente o conceito que mais realiza conexões com temas da teologia. Sem a menção ao perdão não se discursa sobre o acesso a Deus, a obra da salvação, o objetivo da graça divina nem sobre Jesus encarnado, o amor de Deus, o resgate, a restauração, a missão da igreja etc.
Este é o assunto da matéria de capa da Ultimato 420.
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Saiba mais:
» Para Que Serve a Espiritualidade?, Harold Segura Carmona
» Fé, Esperança e Tecnologia – Ciência e fé cristã em uma cultura tecnológica, Egbert Schuurman
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Por Harold Segura
A rápida expansão da inteligência artificial e das tecnologias digitais está transformando não apenas nossas formas de comunicação e trabalho, mas também como entendemos as relações humanas e até mesmo nossa própria identidade. Por trás dessa grande mudança tecnológica reside uma profunda transformação antropológica, como alertou o padre jesuíta Antonio Spadaro há alguns anos em seu livro Ciberteologia: pensando o cristianismo na era da rede 1. A questão não é mais simplesmente o que as máquinas podem fazer, mas o que está acontecendo com os seres humanos em meio a elas.Nesse contexto, a Magnifica Humanitas, primeira encíclica do Papa Leão XIV, foi publicada em 25 de maio de 2026. Uma de suas maiores contribuições reside na compreensão de que a inteligência artificial não é meramente uma questão técnica ou econômica, mas também uma questão ética, espiritual e profundamente humana. Essa encíclica ecoa o espírito da Rerum Novarum, publicada por Leão XIII durante a Revolução Industrial (1891), e busca discernir os desafios da nova revolução tecnológica. Ela reconhece as possibilidades positivas da inteligência artificial, mas alerta para os riscos de uma sociedade onde a vida humana se subordina à lógica do controle, da eficiência e do mercado.
Como pastor evangélico, encontro diversos elementos neste texto que merecem a atenção de nossas comunidades de fé, pois a questão que ele levanta toca em um cerne profundamente bíblico. Como podemos preservar a humanidade das pessoas criadas à imagem de Deus em culturas cada vez mais hipertecnológicas? A questão certamente vem da Igreja Católica, mas desafia convicções que compartilhamos como seguidores de Jesus, assim como nossa responsabilidade deve ser compartilhada diante de tudo que afeta a vida e a dignidade humana.
A preocupação torna-se ainda mais urgente quando pensamos nas novas gerações. Crianças e adolescentes crescem em ecossistemas digitais que moldam emoções, relacionamentos e formas de habitar o mundo. Nesse contexto, Magnifica Humanitas torna-se também um convite ao discernimento e à responsabilidade compartilhada entre as igrejas cristãs.
Tecnologia, poder e dignidade humana
Uma das maiores contribuições de Magnifica Humanitas é a sua lembrança de que a tecnologia nunca é completamente neutra. Por trás de cada plataforma, algoritmo ou sistema digital, existem visões de mundo, interesses econômicos, prioridades culturais e dinâmicas de poder. A obra insiste que o verdadeiro debate gira não apenas em torno das capacidades técnicas da inteligência artificial, mas também em torno do modelo de sociedade que estamos construindo por meio dela.
Durante muito tempo, o discurso tecnológico foi apresentado como sinônimo automático de progresso. Cada inovação parecia prenunciar um futuro inevitavelmente melhor. No entanto, a experiência contemporânea revela uma realidade mais ambígua. As mesmas ferramentas capazes de ampliar o acesso ao conhecimento também podem manipular informações, gerar dependência emocional, aprofundar desigualdades sociais e enfraquecer os laços humanos. A tecnologia pode contribuir para a preservação da vida, mas também pode se tornar um mecanismo de controle e exclusão.
Leão XIV percebeu claramente esse risco. Por isso, alertou sobre a concentração do poder tecnológico nas mãos de algumas corporações capazes de influenciar o comportamento social, os mercados, os processos políticos e até mesmo a percepção da realidade. Nunca antes tantos dados pessoais haviam sido acumulados, processados e utilizados com tamanho alcance global. A informação tornou-se uma nova forma de poder.
A encíclica critica particularmente a ideia de que tudo o que é tecnicamente possível deve necessariamente ser feito. Esse princípio, muito prevalente em certos setores tecnológicos contemporâneos, acaba subordinando a ética à eficiência. Se algo pode ser feito, então é feito. Mas a tradição cristã sempre insistiu em uma questão diferente. Não basta perguntar se podemos fazer algo; devemos perguntar se devemos fazê-lo e quais as consequências humanas isso produz.
Esta reflexão lembra, em certa medida, as advertências do filósofo alemão de origem sul-coreana, Byung-Chul Han, a respeito das sociedades da fadiga2 e da hiperconectividade. Vivemos rodeados por estímulos constantes, informações instantâneas e exigências de desempenho contínuo. A velocidade tecnológica promete conexão, mas frequentemente produz exaustão, distração e perda da profundidade interior. O problema não reside apenas no excesso de máquinas, mas também na crescente dificuldade em manter relações humanas autênticas e espaços para a reflexão interior.
De uma perspectiva evangélica, essa preocupação é extremamente relevante. A Bíblia afirma que os seres humanos não foram criados para se tornarem engrenagens em máquinas econômicas ou tecnológicas, mas para viver em comunhão com Deus, com os outros e com a criação. Quando a lógica da produtividade absoluta permeia todos os aspectos da existência, até mesmo o descanso, a contemplação e a generosidade começam a ser percebidos como sem sentido.
Nesse contexto, a tarefa das igrejas assume uma dimensão pastoral e profética. Não se trata simplesmente de aprender a usar tecnologias, mas de ajudar as pessoas a preservar sua humanidade em meio a sistemas que frequentemente recompensam a superficialidade, a agressividade e o individualismo. A questão crucial permanece profundamente ética e espiritual: estamos construindo tecnologias para servir à vida humana ou, ao contrário, estamos construindo seres humanos para servir à tecnologia?

Uma perspectiva evangélica (protestante)
Lida sob a perspectiva protestante evangélica, a encíclica oferece reflexões valiosas, embora também deixe algumas questões sem resposta; ela aborda um tema que as igrejas não podem mais ignorar. A revolução tecnológica contemporânea não está apenas transformando a economia ou as comunicações; está alterando a própria experiência humana e, portanto, desafiando diretamente a fé cristã.
Embora o Papa utilize principalmente uma linguagem social, uma intuição profundamente bíblica subjaz à sua mensagem: os seres humanos possuem um valor que não depende da sua produtividade, utilidade ou capacidade de desempenho. Na tradição protestante, essa convicção encontra um dos seus pilares em Gênesis 1.26-27. A afirmação de que homens e mulheres foram criados à imagem de Deus impede a redução da vida humana a meros dados, mercadorias ou uma engrenagem funcional dentro do sistema tecnológico.
A encíclica também se alinha com uma preocupação histórica do pensamento evangélico mais crítico e profético. Autores como o sociólogo, teólogo e pensador protestante francês Jacques Ellul3 alertaram décadas atrás que a tecnologia poderia se tornar um poder cultural capaz de reorganizar toda a sociedade em torno da eficiência e do controle. A tecnologia, então, deixa de ser uma ferramenta e se transforma em uma lógica que determina os ritmos da vida, as prioridades sociais e as formas de relacionamento entre as pessoas.
Na América Latina, essa discussão assume nuances ainda mais complexas. Nossas sociedades vivenciam profundas desigualdades econômicas, sistemas educacionais frágeis e vastas exclusões digitais. A inteligência artificial pode ampliar oportunidades, mas também pode aprofundar as exclusões existentes. A preocupação cristã com a justiça social nos leva a questionar quem terá acesso real aos benefícios tecnológicos e quem será ainda mais marginalizado.
Essa reflexão torna-se ainda mais urgente quando pensamos nas crianças e nas novas gerações. Muitas comunidades religiosas continuam a educar crianças e adolescentes para um mundo que já não existe, enquanto plataformas digitais e algoritmos moldam diariamente suas sensibilidades, emoções e compreensão da realidade. Uma parte significativa da formação espiritual e cultural das novas gerações já não ocorre exclusivamente no seio da família, da escola ou da igreja, mas sim em espaços digitais regidos por interesses comerciais.
Neste ponto, a encíclica nos ajuda a recordar algo essencial. A missão da Igreja não é apenas usar a tecnologia para evangelizar, mas também discernir criticamente o tipo de humanidade que essas tecnologias estão promovendo. Não basta transmitir serviços religiosos online ou multiplicar conteúdo digital. O desafio é formar pessoas capazes de viver com liberdade interior, pensamento crítico, sensibilidade ética e relações humanas saudáveis em meio a culturas cada vez mais fragmentadas e aceleradas.
De uma perspectiva evangélica, talvez se pudesse dar uma ênfase mais explícita à necessidade de transformação espiritual. Porque o problema contemporâneo não é apenas tecnológico ou cultural. É também profundamente moral e espiritual. Nenhuma regulamentação digital pode substituir a necessidade urgente de conversão do coração humano, tanto do coração individual como das suas estruturas sociais e culturais (evangelização da cultura4).
Infância e novas gerações na cultura digitalUm dos aspectos mais importantes da Magnifica Humanitas é a sua preocupação com o impacto das tecnologias digitais nas crianças e nas novas gerações. E este não é um alarme exagerado. Nunca antes na história crianças e adolescentes foram expostos tão cedo, intensamente e permanentemente a sistemas capazes de moldar emoções, hábitos, percepções e formas de se relacionar com o mundo.
As plataformas digitais não são simplesmente espaços neutros para entretenimento. Elas operam através de economias da atenção, concebidas para capturar o tempo, gerar dependência e produzir consumo constante. Por trás de muitos aplicativos, existem algoritmos que aprendem com o comportamento humano e buscam manter as pessoas conectadas pelo maior tempo possível. Quando isso acontece com adultos, já representa um desafio sério. Quando acontece com cérebros, emoções e espiritualidades em desenvolvimento, a questão assume uma dimensão ainda mais delicada.
A preocupação cristã com as crianças não deriva apenas de razões psicológicas ou pedagógicas. Ela também surge de uma convicção teológica. Jesus colocou as crianças no centro da comunidade do Reino, num contexto em que ocupavam posições sociais marginalizadas. Portanto, o desafio contemporâneo não é apenas proteger crianças e adolescentes de certos conteúdos digitais, mas também discernir que tipo de humanidade estamos cultivando como sociedade.
Nesse contexto, as igrejas têm uma enorme responsabilidade pastoral e educacional. Durante anos, muitas comunidades cristãs debateram se deveriam ou não usar a tecnologia. Hoje, a questão é outra:como acompanhar espiritualmente as gerações que naturalmente habitam o mundo digital? Não basta proibir telas ou demonizar a internet. Tampouco é útil abraçar ingenuamente todas as novas tecnologias. O desafio reside em desenvolver discernimento.
Isso significa ajudar as novas gerações a desenvolverem o pensamento crítico diante da cultura digital, promover conexões humanas genuínas e cultivar espaços interiores em meio a sociedades saturadas de ruído. Significa também resgatar práticas espirituais que o cristianismo sempre considerou essenciais e que hoje parecem quase contraculturais. O silêncio, a oração, a conversa presencial, a escuta atenta, o descanso e a vida em comunidade assumem um novo valor em nossos tempos hiperconectados.
A encíclica também estabelece, acertadamente, a ligação entre tecnologia e bem-estar integral. O esgotamento emocional, a ansiedade, o isolamento e a fragilidade de muitas relações humanas não podem ser analisados separadamente da dinâmica digital contemporânea. Em resposta, a Igreja é chamada a oferecer mais do que apenas atividades religiosas. Ela deve se tornar um espaço humano de acolhimento, diálogo, pertencimento e esperança. Talvez uma das contribuições mais importantes do cristianismo nesta nova era esteja precisamente em nos lembrar que a ternura, a escuta e a comunhão continuam sendo profundamente transformadoras.
Uma humanidade mais humana, uma igreja mais unida
A revolução tecnológica que estamos vivenciando não precisa levar à desumanização. Mas exige que as igrejas despertem pastoral, ética e espiritualmente para os desafios desta nova era. Um dos maiores riscos seria reagir de forma extrema. Algumas comunidades reagem com medo a toda inovação tecnológica. Outras, por outro lado, abraçam acriticamente cada novidade digital como se o progresso técnico fosse automaticamente sinônimo de desenvolvimento humano. Nenhuma das duas posições parece suficiente.
A inteligência artificial pode contribuir para o bem-estar humano, facilitar os processos educacionais e expandir as oportunidades de comunicação. No entanto, também pode intensificar as desigualdades, corroer os laços humanos e consolidar novas formas de controle social. Portanto, a questão crucial não é tecnológica, mas espiritual e ética. Que tipo de humanidade queremos cultivar? Talvez uma das expressões mais urgentes do mandato cultural5 (Gn 1.26-28; 2.15) em nosso tempo consista precisamente em aprender a cultivar a humanidade.
De uma perspectiva cristã, a resposta não pode ser reduzida à eficiência, produtividade ou crescimento econômico. O Evangelho enfatiza repetidamente a centralidade da pessoa humana, especialmente daqueles que vivem em situações de vulnerabilidade. Enquanto o mercado normalmente mede o valor pelo desempenho, Jesus coloca as crianças, os doentes, os pobres e os excluídos no centro. Essa lógica do Reino permanece profundamente contracultural.
Nesse contexto, as igrejas têm uma responsabilidade que vai muito além da adaptação tecnológica. Elas são chamadas a formar comunidades capazes de escutar, dialogar, compartilhar refeições, acompanhar o sofrimento humano e construir relacionamentos marcados pela graça e pela ternura. Em um mundo saturado de conexões digitais, a autêntica comunhão humana pode se tornar um dos testemunhos mais poderosos do Evangelho.
Magnifica humanitas também representa uma oportunidade ecumênica. Para além das diferenças doutrinais e históricas, as igrejas cristãs partilham a convicção de que cada pessoa possui uma dignidade sagrada por ter sido criada à imagem de Deus. Diante de culturas que tendem a reduzir a vida humana ao consumo, à produtividade ou a meras estatísticas, esta afirmação adquire uma força profundamente profética. Talvez aí resida a possibilidade de reinventar o ecumenismo. Não apenas com base naquilo em que acreditamos — um caminho já bem trilhado —, mas também naquilo que almejamos e buscamos em conjunto. Desejar o que Deus deseja: uma humanidade mais humana, responsável e terna.
A fé cristã não olha para o futuro a partir de um lugar de medo, mas de esperança e discernimento. Em meio a culturas cada vez mais automatizadas, o Evangelho continua a afirmar algo essencial: nenhuma tecnologia criada por nossas próprias mãos poderá jamais substituir a dignidade da pessoa humana, a profundidade da comunhão ou o poder transformador (revolucionário) da ternura.6
Notas
1. Antonio Spádaro, Ciberteologia: pensando o cristianismo em tempos de rede, Barcelona, Editora Herder, 2014.
2.Byung-Chul-Han, The Burnout Society Barcelona, Herder, 2025.
3. Jacques Ellul, Vivendo como cristãos em uma sociedade tecnológica, Quito, Oveja Perdida Ediciones, 2002.
4. Cipriano Díaz Marcos, Evangelizando a cultura: a inserção do cristão na transformação social, Cantábria, Sal Terrae, 1995.
5.O chamado mandato cultural vem principalmente de Gênesis 1:26-28 e Gênesis 2:15, onde Deus confia à humanidade o cultivo, o cuidado e o desenvolvimento da criação. Na tradição protestante, essa expressão se refere à responsabilidade humana de participar eticamente na construção da vida social, cultural e material do mundo sob o senhorio de Deus.
6. Anna C. Grellert e Harold Segura (ed.), Ternura, la revolución pendiente, Terrasa, Editorial Clie, 2019
- Harold Segura é um pastor batista colombiano-costarriquenho, teólogo, escritor e palestrante. Atualmente, atua como Diretor de Fé e Desenvolvimento para a América Latina e o Caribe na World Vision. É membro da Comissão de Ecumenismo da Conferência Episcopal Latino-Americana (CELAM). É autor de diversos livros sobre espiritualidade cristã, missão integral, teologia da infância, liderança e a relação entre Igreja e sociedade.
Fonte: Site Protestante Digital. Reproduzido com permissão.
REVISTA ULTIMATO – PERDOA-NOS, COMO NÓS PERDOAMOSA mais comprometedora petição ensinada por Jesus é essa: Deus pede de nós aquilo que pedimos a ele.
O tema do perdão se espalha por toda a Escritura e rege a relação do ser humano com Deus. É provavelmente o conceito que mais realiza conexões com temas da teologia. Sem a menção ao perdão não se discursa sobre o acesso a Deus, a obra da salvação, o objetivo da graça divina nem sobre Jesus encarnado, o amor de Deus, o resgate, a restauração, a missão da igreja etc.
Este é o assunto da matéria de capa da Ultimato 420.
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Saiba mais:
» Para Que Serve a Espiritualidade?, Harold Segura Carmona
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A liberdade cristã na era digital






