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Opinião

Uma resposta missional à epidemia de solidão

O fenômeno global transcende fronteiras, níveis de renda e sofisticação tecnológica. E a solução requer pessoas de carne e osso, em lugares reais, compartilhando tempo e espaço de verdade
 
Por Jason Leong


A Comissão de Conexão Social da Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a solidão afeta um em cada quatro idosos e entre 5% e 15% dos adolescentes.

A gravidade do problema levou a comissão a estabelecer uma agenda global dedicada a melhorar a conexão social nas comunidades. Ao reconhecer o estado de solidão, a OMS a declarou como uma "preocupação global de saúde pública". A experiência da falta de conexão social autêntica, resultando em sentimentos de isolamento social, tem impactos psicossociais adversos na saúde individual e comunitária. Informações sobre a solidão indicam que sentimentos intensos relacionados a ela e isolamento social podem exacerbar problemas subjacentes associados à saúde mental.

Uma pesquisa da Meta-Gallup realizada em mais de 140 países, o que equivale a um bilhão de pessoas em todo o mundo, revelou que 25% dos adultos se sentem "muito ou bastante solitários".1 Mas o mais preocupante foi que os dados mostraram que foram os jovens adultos (de 19 a 29 anos) quem apresentaram os níveis mais altos de solidão.2 O agravamento da epidemia de solidão ocorre após anos de relações físicas desconectadas como consequência da pandemia de Covid-19, que limitou o contato presencial.

Essas estatísticas da OMS e da pesquisa da Meta-Gallup refletem um fenômeno global que transcende fronteiras, níveis de renda e sofisticação tecnológica. Parece haver uma "epidemia da solidão", e a igreja, chamada a encarnar a presença de Cristo no mundo, precisa responder com mais do que programas ou clichês. Este momento exige a recuperação da presença encarnada como elemento central da missão cristã.

Em um sentido irônico, existe uma "solidão em meio à multidão", porque hoje estamos mais "conectados" do que nunca, mas muitos se sentem mais isolados nas áreas que mais importam — parece que estamos cercados por pessoas, mas desconectados em nível espiritual. Esta é uma crise espiritual.

Quando Deus disse em Gênesis: “Não é bom que o homem esteja só” (2.18), ele revelou uma verdade sobre o ideal para o florescimento humano: que fomos feitos para a comunhão — com Deus e uns com os outros. O problema da epidemia da solidão, portanto, representa a profunda ruptura desse plano divino, deixando as pessoas vulneráveis à depressão e a outras doenças que nem mesmo a internet consegue suprir. O isolamento pode levar ao desespero e separa as pessoas de um propósito significativo, podendo até mesmo minar a natureza relacional do próprio Evangelho.

Portanto, a resposta cristã à solidão deve ser diferente, pois deve estar fundamentada no fato mais importante da nossa fé: a encarnação.

O princípio da encarnação

Nosso Deus não escolheu remediar o problema da alienação por meio de decretos remotos. Jesus – o Verbo – “se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1.14). Deus, de fato, entrou em nossa solidão e se tornou um de nós como sinal de amor divino.

Esse princípio encarnacional traz profundas implicações para a missão cristã em uma era de isolamento. Assim como Cristo injetou sua presença no isolamento humano, a igreja é chamada a ser a presença encarnada de Cristo em um mundo desconectado. Não podemos ministrar de maneira eficaz à solidão apenas por meio de plataformas digitais, por mais úteis que essas ferramentas possam ser e por maior que seja seu alcance. A solução requer pessoas de carne e osso, em lugares reais, compartilhando tempo e espaço de verdade.

Em seu ministério terreno, Jesus tocou leprosos, acolheu crianças em seus braços, comeu à mesa com pecadores e chorou com amigos enlutados. Sua presença era real, ainda que temporal, mas específica para atender às necessidades das pessoas. Quando os discípulos tentaram criar eficiência, dispensando a multidão, Jesus insistiu em estar presente para alimentá-la. Quando Maria e Marta estavam de luto, ele apareceu e chorou com elas, mesmo sabendo exatamente o que faria: ressuscitar Lázaro. Nesse sentido muito real, a boa nova do Evangelho é inseparável da presença encarnada que a transmite.



Praticando a presença corporal
Em primeiro lugar, é necessária uma mudança de paradigma: a compreensão de que presença e estar presente não são complementos à missão, mas sim parte integrante do próprio evangelho. As igrejas devem criar o ministério da presença, concentrando-se na presença encarnada em vez de eventos programados. Em vez de mobilizar campanhas de visitas pontuais, as igrejas poderiam adotar um ritmo em que seus fiéis se engajassem regularmente com seus vizinhos isolados, compartilhando refeições, ouvindo suas histórias, oferecendo companhia e o calor da amizade.

Em segundo lugar, as igrejas devem repensar sua abordagem para alcançar os millennials e a Geração Z, os nativos digitais, pois eles também precisam de comunidades presenciais que se reúnam regularmente, pratiquem a hospitalidade e criem oportunidades para relacionamentos significativos. Encontros em pequenos grupos nas casas das pessoas, mentoria, conversas e refeições são revolucionários diante da tendência cultural à solidão.

Em terceiro lugar, precisamos entender que presença consistente, estabilidade e disponibilidade podem construir e plantar igrejas. Cristãos que se aventuram intencionalmente na comunidade podem incorporar e fomentar um espírito de pessoas que valorizam o princípio de simplesmente estar presentes uns para os outros e para sua vizinhança imediata. Isso pode significar que pastores e líderes religiosos optam intencionalmente por morar nos mesmos bairros que seus fiéis, preferem mercados locais físicos a compras online e entregas, e preferem caminhar pelos seus bairros em vez de dirigir por eles.

Superando barreiras e conquistando inovações
Ser uma presença física pode, por vezes, significar lidar com questões culturais e estruturais complexas. Em sociedades economicamente competitivas, o tempo exigido pelos horários de trabalho dificulta a construção de relacionamentos duradouros. A densidade populacional, sinônimo da vida urbana, paradoxalmente, aumenta a acessibilidade, mas reduz a interação. A facilidade da comunicação eletrônica leva as pessoas a acreditarem que estão conectadas, ao mesmo tempo que diminui a capacidade de interação interpessoal.

Contudo, essas dificuldades também revelam oportunidades para o Evangelho. Em culturas cada vez mais marcadas por relacionamentos transacionais e onde o tempo é comprado e vendido, os cristãos que demonstram uma presença não transacional apontam para um outro reino, um reino superior, por meio de sua própria existência. Ao escolherem relacionamentos de qualidade em vez de quantidade, moderando o uso das redes sociais para priorizar os relacionamentos presenciais e abrindo suas casas para receber a hospitalidade, os cristãos podem demonstrar um estilo de vida e valores do reino diferentes.

O desafio e o chamado

Essa epidemia de solidão é menos um problema que clama por novos programas do que uma oportunidade espiritual que exige uma fidelidade renovada ao padrão encarnacional da nossa fé. Não se trata de inovações, mas sim de recuperar práticas antigas: reunir-se regularmente para o culto, partilhar o pão, praticar a hospitalidade, acompanhar os vizinhos em seus sofrimentos e estar fisicamente presente nos ritmos cotidianos da vida comunitária.

Para culturas que valorizam a produtividade e a velocidade, as comunidades cristãs são chamadas a modelar um caminho diferente: o trabalho lento da presença, o cultivo paciente de relacionamentos profundos.

O chamado é claro: em uma era de isolamento, a estratégia missionária mais fundamental da igreja deve ser uma questão de presença encarnada – não como uma técnica, mas como uma participação fiel na obra encarnacional contínua de Cristo na Terra. Quando os crentes vivem tão presentes uns para os outros e para suas comunidades quanto Deus esteve presente para eles em Cristo, eles oferecem ao mundo algo de que ele precisa desesperadamente, mas que não pode fabricar: a experiência de ser verdadeiramente conhecido, genuinamente amado e nunca estar sozinho.

Notas:

1. Maese, Ellyn. “Almost a Quarter of the World Feels Lonely.” Gallup, 24 de outubro de 2023.
2.
https://news.gallup.com/opinion/gallup/512618/almost-quarter-world-feels-lonely.aspx

  • Jason Leong é o fundador da Bettermind Sdn Bhd, uma empresa de consultoria ESG focada no pilar social, particularmente na saúde mental no local de trabalho. Ele é consultor estratégico em relações governamentais, reputação corporativa e comunicação, assessorando empresas multinacionais e organizações líderes na Malásia. É autor de Workplace Mental Health in ESG Strategy and the 2030 Sustainable Development Goals (SDG): A Practical Guide for Companies e palestrante.

Artigo publicado originalmente no site Lausanne. Reproduzido com permissão.

Imagem: Unsplash.

Tradução: Ana Laura Morais.
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Saiba mais:
» O Evangelho – Uma mensagem que transforma a vida, John Stott e Tim Chester
» O incômodo da solidão, por Elben César
» Por você, mil vezes!, por Jorge Camargo

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