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Opinião

A unidade da igreja em tempos de algoritmos

Por Theo Pemberton

Vivemos em uma era de fragmentação, polarização, tribalismo e plataformas digitais movidas por algoritmos que lucram com audiência ao amplificar discussões, impulsividade e superficialidade; e a igreja não está imune a isso. Nunca tivemos tanto acesso a conteúdo teológico e, paradoxalmente, tanta hostilidade, cancelamento e ataques insensíveis nas redes. Isso revela não apenas orgulho e falta de amor (Gl 5.19-21; 1Co 3.3-4), mas uma formação mais moldada pela liturgia digital e pela cultura da reação instantânea do que pela Palavra de Deus.

Cristo e o que ele conquistou
O evangelho não anuncia apenas o perdão de pecados individuais ou a reconciliação do homem com Deus. Pela cruz, Cristo forma para si um novo povo reconciliado, unido pelo mesmo Senhor, pela mesma fé e pelo mesmo Espírito. Em Efésios 2, Paulo declara que Cristo “é a nossa paz” e que, por meio da cruz, derrubou “a parede de separação” entre judeus e gentios, criando “em si mesmo uma nova humanidade” (Ef 2.14-15). Os que antes estavam distantes foram aproximados pelo sangue de Cristo, formando “um só corpo” (Ef 2.13-16).

João afirma que Jesus morreria “para reunir em um só corpo os filhos de Deus que andam dispersos” (Jo 11.52), e o próprio Senhor declarou: “haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10.16). Paulo completa: há “um só corpo e um só Espírito... um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Ef 4.4-6). A unidade da igreja, portanto, não nasce de afinidades naturais, mas da obra reconciliadora de Cristo.

Essa verdade redefine o povo de Deus. Em Pentecostes, Pedro proclamou salvação a “todo aquele que invocar o nome do Senhor” (At 2.21) diante de pessoas “de todas as nações debaixo do céu” (At 2.5). Enquanto em Babel o orgulho dispersou as nações e confundiu as línguas, em Pentecostes o Espírito reverte essa maldição: o evangelho reúne em Cristo o que o pecado havia separado, sem apagar diferenças legítimas, mas superando-as em uma unidade no Espírito.

Mesmo assim, as primeiras igrejas enfrentaram divisões, rivalidades e favoritismos (1Co 1.12; Tg 2.1-4), cuja raiz era orgulho e vanglória (Fp 2.3). Por isso, a unidade exige humildade produzida pelo evangelho. Paulo aponta para o exemplo de Cristo: “tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Fp 2.5), considerando “os outros superiores a nós mesmos” (Fp 2.3), suportando uns aos outros em amor (Ef 4.2) e “seguindo a verdade em amor” (Ef 4.15). A igreja existe para testemunhar ao mundo a reconciliação operada por Cristo, razão pela qual Jesus orou para que seu povo fosse um “a fim de que o mundo creia” (Jo 17.21).

Exegese, humildade, oração e comunhão cristã
A unidade da igreja não pode ser construída sobre “achismos” teológicos. Em uma era marcada por opiniões rápidas, debates impulsivos e interpretações fragmentadas das Escrituras, precisamos redescobrir a importância da maturidade bíblica, da humildade intelectual e do estudo sério da Palavra de Deus.

Isso envolve:
Exegese: compreender corretamente o que o autor bíblico quis comunicar em seu contexto, considerando gênero literário, gramática e argumento do texto.

Teologia bíblica: enxergar como toda a Escritura desenvolve a história da redenção e encontra seu clímax em Cristo.

Teologia histórica: aprender como a igreja, ao longo dos séculos, compreendeu e defendeu as doutrinas bíblicas diante de erros e falsas interpretações.

Teologia sistemática: organizar coerentemente tudo o que a Bíblia ensina sobre determinados temas.

Teologia prática: aplicar essas verdades à vida pessoal, à igreja e ao mundo.



Também vale distinguir estudo de leitura devocional: precisamos dos dois. Devemos estudar a Bíblia cuidadosamente e lê-la também devocionalmente, mas em ambos os casos com oração, humildade e dependência do Espírito Santo. Vale mais estudar quatro horas ou orar quatro minutos? Pergunta errada. Precisamos dos dois. Talvez a melhor resposta seja: “estude quatro horas de joelhos”.

Passos construtivos rumo à unidade e à comunhão
O passo mais importante para a unidade da igreja é crescer em comunhão com Deus. Outras considerações importantes incluem:
Ame uns aos outros: O amor verdadeiro é paciente, não é egoísta, não retalia, busca o bem do outro, ora pelos outros, serve, perdoa, encoraja, evita maledicência e persevera.

Construa confiança: Relacionamentos fortes dependem de confiança. Pequenos atos de bondade e incentivo podem iniciar excelentes relacionamentos. Conversas produtivas exigem ouvir antes de responder, fazer perguntas e tentar compreender a lógica do outro.

Busque entendimento: Muitos conflitos surgem por falhas de comunicação e interpretações precipitadas. Portanto, precisamos ouvir cuidadosamente, interpretar com caridade e evitar presumir motivações. O objetivo deve ser entendimento e verdade, não destruição do adversário.

Valorize as diferenças: Divergências não precisam destruir relacionamentos. Mesmo em debates intensos, preservar a dignidade da pessoa importa. Discussões construtivas podem gerar amizade, aprendizado, influência e respeito mútuo.

Seja gentil: Bondade pode abrir portas inesperadas. Um único ato gracioso pode iniciar processos longos de confiança. Demonstrar apreço e encorajamento fortalece comunidades.

Se relacione com as pessoas: Os ministérios da igreja não se resumem a pregação, programas e administração. Pessoas são infinitamente mais importantes que estruturas (Mc 2.27, Jo 21.15-17, 1Co 13.1-3, 1Pe 5.2-3). Uma liderança saudável exige cuidado pessoal intencional e profunda atenção relacional; i.e., pastorear almas, não apenas gerir atividades.

A unidade consumada
Em um mundo marcado por rivalidade, orgulho e divisão, os cristãos são chamados a preservar “a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Ef 4.3). Afinal, a unidade da igreja não é um projeto meramente humano, mas fruto da obra reconciliadora de Cristo. No fim, o povo de Deus estará unido diante do trono do Cordeiro que, por seu sangue, comprou para Deus pessoas “de toda tribo, língua, povo e nação” (Ap 5.9).

“Que Deus, que é quem dá paciência e coragem, ajude-nos a vivermos bem uns com os outros, seguindo o exemplo de Cristo Jesus. E isso para que todos juntos, como se fosse uma só pessoa, louvem ao Deus e Pai do nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 15.5-6).

  • Theo Pemberton é administrador, mestre pelo RTS e doutorando em Teologia, com foco em Novo Testamento, pela North-West University, na África do Sul. Ele também atua no ensino em diferentes ministérios da Igreja Presbiteriana de Pinheiros.


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Os artigos da edição 419 de Ultimato ressaltam a “beleza de Deus” e o fato de termos sido feitos à sua imagem e semelhança, o que torna a arte (sua apreciação ou o fazer artístico) disponível para todos – “Sejam encanadores, coletores de lixo, taxistas ou CEOs, somos chamados pelo Grande Artista a cocriar. O Artista nos chama, a nós, artistas com ‘a’ minúsculo, para cocriar, para compartilhar a ‘irrupção celestial’ na terra quebrada” (Makoto Fujimura).

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