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Opinião

Sonhos de trem e a beleza das coisas simples

Indicado ao Oscar 2026 de Melhor fotografia, Melhor filme, Melhor roteiro adaptado e Melhor canção original

Por Carlos Caldas


Sonhos de trem (Train Dreams no original), filme de 2025 do diretor Clint Bentley, disponível na plataforma Netflix, é um dos melhores filmes dos últimos tempos. O roteiro é de Greg Kwedar, baseado no livro homônimo do escritor estadunidense Denis Johnson, publicado em 2011.

O filme acompanha a trajetória de vida de um lenhador chamado Robert Grainier. De quando em quando ouve-se a voz do que em teoria literária é chamado de “narrador onisciente” (o ator Will Patton) acrescentando informações ou dando detalhes sobre Grainier. De fato, algumas vezes tem-se a nítida impressão que se está ouvindo alguém lendo um livro. Grainier vive no início do século 20 em uma região do noroeste dos Estados Unidos. Robert Grainier é um homem simples, com pouca instrução formal, que leva uma vida solitária até encontrar Gladys, uma moça que demonstra interesse por ele, interesse este que é correspondido, e os dois se casam. Uma companhia está construindo uma grande linha ferroviária, e para tanto, é necessário que árvores sejam derrubadas para que a estrada de ferro seja estabelecida. Ele é um dos muitos lenhadores que trabalham para esta companhia, mas é um trabalho ocasional, o que lhe permite passar um tempo em casa com sua esposa Gladys e com Kate, a filhinha do casal. Os três vivem na mais completa harmonia e felicidade, uma vida simples, sem luxo ou ostentação.

Como é um trabalho sazonal, há rotatividade nas turmas de lenhadores, o que impede a formação de amizades duradouras, mas de quando em quando Grainier reencontra alguns dos companheiros de outras temporadas de derrubada de árvores. Um destes é Arn Peeples, o mais veterano e mais resmungão de todos os lenhadores. Ele é um especialista em explosivos, e se faz amigo de Robert (há que se destacar a atuação do sempre muito bom William H. Macy, no papel de Peeples).

A narrativa do filme vai mostrando o cotidiano dos lenhadores, no qual algumas coisas “diferentes”, por assim dizer, podem acontecer: certa feita o grupo foi surpreendido por um homem negro que matou o lenhador que anos antes havia matado o irmão dele. De outra feita, uma árvore muito grande caiu, rolou morro abaixo, matando alguns deles. Em outra ocasião, Robert viu perplexo um grupo de lenhadores jogar um deles, um imigrante chinês, do alto de uma ponte, por razões que não ficaram muito claras.

Um aspecto importante do filme é sua fotografia, dirigida pelo brasileiro Adolpho Veloso, que fez um trabalho belíssimo. As árvores são praticamente personagens no filme. A propósito, o filme traz uma crítica sutil (talvez não tão sutil assim) ao desejo humano pelo progresso a qualquer custo, que leva à destruição do meio ambiente1. Nesta mesma linha, outra crítica que o filme apresenta (igualmente, não tão sutil) é o descaso da companhia ferroviária pela vida dos seus empregados lenhadores: os donos da empresa nunca aparecem no filme, e pode-se concluir, sem “forçar a barra”, que estão tranquilos e confortáveis em suas casas enquanto os lenhadores, homens simples e pobres, enfrentam os rigores de longas temporadas ao relento no noroeste americano. Os lenhadores são apenas peões no tabuleiro. Se caírem, outros serão contratados. Suas vidas, bem como a vida das árvores, pouco (ou nada) importa. O que importa é que a ferrovia seja construída, em nome do “progresso”. E do lucro que eles obterão, claro.



E assim, entre idas e vindas de Robert, a vida segue, até que uma desgraça acontece, e o pobre homem perde o que tem de mais precioso, a saber, Gladys e Kate. Ele sofre a ponto de quase enlouquecer, mas segue a vida, até morrer, idoso, na mesma simplicidade com que vivera.

Quando vi o filme eu me lembrei de um verso de William Blake, poeta e pintor inglês que viveu na virada do século 18 para o 19:
Ver um mundo num grão de areia
E um céu numa flor silvestre,
Ter o infinito na palma da sua mão
E a eternidade numa hora
2.

Poetas têm sensibilidade o bastante para ver o mundo num grão de areia, o céu numa flor silvestre e ter a eternidade em uma hora. Robert Grainier tinha tal sensibilidade, sem saber que a tinha. Pois o filme mostra exatamente isso, a beleza, o encanto, o maravilhamento diante do simples, que pessoas insensíveis ou anestesiadas pelas distrações da vida simplesmente irão desconsiderar e ignorar. Sonhos de trem não é uma história de vingança, nem de aventura, nem de uma viagem para o passado, ou para o futuro ou para uma terra fantástica, nem de uma grande reviravolta, nem de superação ou de redenção. Quase todas as histórias que os humanos contam há milhares de anos giram em um torno de um destes temas. Sonhos de trem consegue fugir deste padrão. Por isso, está longe de ser um blockbuster. Pode ser que justamente por isso algumas pessoas não consigam ver a beleza da narrativa fílmica de Bentley e Kwedar. Sonhos de trem mostra que uma vida simples, sem riqueza, pode ser completa e bela, desde que haja olhos para ver, ouvidos para ouvir, e coração para sentir.

O filme recebeu quatro indicações para o Oscar 2026 – Melhor fotografia, Melhor filme, Melhor roteiro adaptado e Melhor canção original. Estas breves linhas foram escritas em fevereiro, faltando pouco menos de um mês para a cerimônia (marcada para 15 de março). Com certeza ganhará, no mínimo, uma delas. Como brasileiro, torço para o conterrâneo Adolpho Veloso, que de fato fez um trabalho magnífico na fotografia do filme de Clint Blentley. Mas será justo se ganhar em outras categorias.

Notas
1. Neste sentido, vale a pena considerar as críticas do filósofo inglês Roger Scruton em seu livro Filosofia verde. Como pensar seriamente o planeta. São Paulo: É Realizações, 2016. Para Scruton, tanto a sociedade capitalista quanto a socialista são culpadas do crime de devastação ambiental e destruição da natureza.

2. William Blake foi uma das influências no pensamento de Rubem Alves em uma fase mais “madura”, por assim dizer, de sua vida. A partir da inspiração deste verso de Blake, Alves escreveu Um mundo num grão de areia. O ser humano e seu universo. Campinas: Verus, 2009.



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é professor no Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da PUC Minas, onde lidera o Grupo de Pesquisa sobre Protestantismo, Religião e Arte. É autor de Dietrich Bonhoeffer e a teologia pública no Brasil (São Paulo: Garimpo Editorial, 2016), vice-presidente da Sociedade Bonhoeffer Brasil e autor de vários artigos sobre Bonhoeffer.
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