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Notícias

Educação de qualidade é tema da próxima live do grupo Ethica, Sola Gratia

Como promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todas as pessoas?

Por Oseas Heckert

O Objetivo do Desenvolvimento Sustentável nº 4 (ODS 4) visa promover uma educação de qualidade, em consonância com a missão da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) de “assegurar a educação inclusiva, equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todas as pessoas”. Na mesma direção, o Fórum Mundial de Educação em 2015 publicou a Declaração de Incheon, visando a uma educação não discriminatória, com igualdade de gênero nas condições de acesso.

Sabemos que a educação é indissociável dos demais ODS, como saúde, oportunidades de trabalho, crescimento econômico, consumo e produção sustentáveis, etc.

Mas, o que é educação de qualidade? Quem tem autoridade para decidir sobre isso?

Mais de 80 países têm submetido alunos de 15 anos ao Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), que visa avaliar conhecimentos de matemática, leitura e ciências. Em 2022 (último resultado trienal divulgado1), o Brasil ficou em 65º lugar (sendo que 73% dos nossos estudantes não atingiram o nível básico em matemática). Mas, seria este um instrumento adequado para avaliar a eficácia do sistema de ensino? Alguns criticam o PISA por ignorar contextos locais e reforçar colonialismo educacional, por negligenciar aspectos como habilidades socioemocionais e a formação para cidadania e ética. Além disso, é sabido que alguns governos moldam seu programa de ensino apenas para obter melhores resultados no teste.

No livro Porque Deus Amou o Mundo – Igreja & ODS 2, Gabriele Greggersen, uma das autoras, analisa o tema da educação segundo uma perspectiva cristã. E recorre à C. S. Lewis, autor profundamente estudado por ela: “Quem são os manipuladores e como combatê-los?” 3

Numa sociedade marcada por competitividade, falar em “não deixar ninguém para trás” é uma piada sádica. O sistema todo faz o oposto, particularmente em países vitimados pelo o imperialismo e onde impera o “capitalismo selvagem”.



Quem é o ser humano que queremos formar? Educação sim, mas qual educação? Na Agenda 2030 não há uma reflexão capaz de traçar uma antropologia filosófica, uma visão construtiva do homem, de sua vida e de sua natureza. Como pensar teologicamente a educação para o século 21? Gabriele apresenta 5 teses teológicas sobre a educação como cooperadora no desenvolvimento sustentável e no aperfeiçoamento do ser humano e sua vida em sociedade e no planeta.

Tese 1 – Criando, contando e reconciliando histórias
A Bíblia é um livro de narrativas. A educação deveria ter uma prática narrativa, baseada em histórias e experiências compartilhadas, e não apenas em conteúdos sistemáticos. Ensinar significa conectar pessoas, ideias, sentimentos e ações. Contudo, as histórias humanas também revelam conflitos, desigualdades e formas de dominação. Nesse contexto, religião e educação são chamadas a exercer um papel reconciliador: reconstruir relações, promover justiça, superar inimizades e permitir a convivência plural entre diferentes sonhos, crenças e projetos de vida. A lógica da narrativa na educação permite quebrar barreiras sujeito-objeto, teoria-prática, transformando-as em movimentos dinâmicos entre pessoas e ideias, métodos, conceitos e ações, teorias e sentimentos.

Tese 2 – Imaginando futuros possíveis
Os contadores de histórias inventam futuros possíveis. A futuridade é antecipação do futuro imaginado nas ações presentes que visam construí-lo. O futuro rompe com o dualismo entre educação depositária e educação libertadora. Rompe com a noção de criança como ser incompleto, um adulto imperfeito que deve ser moldado em um futuro já existente. Crianças e adultos passam a ser vistos como diferentes fases da pessoa que caminha em direção a diferentes futuros possíveis. Educar na futuridade exige romper com a dimensão instrumental da racionalidade, para a multiplicidade da razão em suas dimensões instrumental, expressiva e normativa. Educar a pessoa holisticamente, para construir conhecimento, gerar relações sociais, criar artes e ofícios, reconectar-se e ser reconectada. Um reencontro onde a religião se torna possível e desejável. “fé é a posse antecipada do que se espera, meio para demonstrar realidades invisíveis” (Hb 11.1 BJ). A fé é "uma vida na antecipação do vindouro, em expectativa criadora. Homens não vivem apenas de tradições, mas também de antecipações. Em temores e esperanças antecipam seu futuro ainda desconhecido e orientam suas vidas de acordo, e adaptam a ele sua vida" (Moltmann)4.

Tese 3 – Construindo liberdades criativas e responsáveis
A modernidade associou liberdade à razão autônoma, excluindo a religião. A liberdade nasce do relacionamento humano, da responsabilidade compartilhada e da capacidade criativa de transformar a realidade. Educação e religião devem abrir espaços de emancipação, diálogo e construção conjunta da vida social. A educação popular de Paulo Freire exemplifica diálogos entre educação e religião na busca pela liberdade e humanização. Liberdade e responsabilidade devem permanecer em uma nova descrição da educação, mas de maneira diferente. A liberdade como resultado do bom relacionamento, do agir, do crer e do pensar no encontro face a face (responsivo).

Tese 4 – Desconstruindo o saber idólatra e irresponsável
O conhecimento quando submetido aos imperativos do dinheiro, do poder, da mídia e da tecnologia, desumaniza as pessoas. A educação deve exercer uma função crítica e emancipadora, desconstruindo “ídolos” modernos – sistemas, imagens e tecnologias que servem mais à morte do que à vida. Uma educação voltada à renovação da mente, à humanização, à amizade, à preservação ecológica e ao amor pela vida, subordinando a técnica às necessidades humanas e ao bem comum. A educação, “como prática de liberdade”, é um processo de construção de conhecimento emancipatório e humanizador, com o objetivo de construir relações humanas e sociais mais justas e amorosas. A pessoa que vive pela fé não se acomoda ao conhecimento secular, mas é continuamente transformada pela renovação de sua mente (Romanos 12). Na resistência contra os ídolos da morte, as filosofias da educação e da religião se encontram na construção de um conhecimento humanizador, democratizador e gerador de amizade.

A vitalidade como amor à vida.

Tese 5 – Vivenciando e aperfeiçoando as relações democráticas
Educação e democracia são processos permanentes, inacabados e participativos. A educação em uma sociedade democrática é baseada em diálogo, crescimento contínuo e participação mútua. A fé é um aprendizado permanente (Fp 3.13,14) e uma esperança ativa na reconstrução da sociedade. A educação é uma tarefa essencial para proteger a pluralidade, fortalecer a cidadania e promover encontros entre diferentes crenças, visões e projetos de vida. O prazer pelo social pode ser traduzido como prazer pela construção e aperfeiçoamento constantes da democracia, como um projeto permanente e uma utopia de boa vida. A educação só tem significado se concebida como uma atividade democrática e democratizante. O objetivo da educação é capacitar o indivíduo a continuar sua educação. O objeto e a recompensa da aprendizagem é a capacidade contínua de crescimento.

Em A  Abolição do Homem, C. S. Lewis defendeu uma educação integral, holística. Lewis defendeu a educação entendida como paideia, um conceito de educação grego e também judaico. Ela abrange o ser humano em sua totalidade, envolvendo mais do que os dois hemisférios do cérebro: incluindo todo o corpo, toda a mente e a ponte que se abre entre esses dois aspectos do ser, que é a imaginação.

Em um país como o Brasil, a reafirmação de uma utopia democrática é uma tarefa importante da educação que se encontra com a religião, e vice-versa. Educar e praticar a religião democraticamente, sempre promovendo novos encontros no espaço da cidadania, fazendo convergir as cidadanias celeste e terrena. Este é o encontro democrático da irredutível pluralidade de sonhos e visões, teorias e noções, crenças e certezas; de histórias que são contadas, recontadas e reescritas dialogicamente.

Para conhecer mais sobre o ODS 4 - Educação de Qualidade, não perca a próxima live do grupo ESG (Ethica, Sola Gratia), no dia 10 de junho de 2026, quarta-feira, 20h, pelo canal https://www.youtube.com/@juliocesarcanal81

Convidada
Gabriele Greggersen
, com graduações em Pedagogia (USP) e Teologia (FTSA), Mestrado e Doutorado em Educação (USP), Doutorado em Estudos da Tradução (UFSC), Pós-doc em História (IEA-USP), Especialista em C.S. Lewis (http://cslewis.com.br)
Notas:
1.
https://pisa2022-maths.oecd.org/pt/
2. Porque Deus Amou o Mundo – Igreja & ODS, org. Jorge H. Barro et ali, Ed. Descoberta.
3. A Abolição do Homem, C.S.Lewis, Ed. Thomas Nelson.
4. O Caminho de Jesus Cristo, Jürgen Moltmann, Ed. Voze
s.
**
ESG – Ethica, Sola Gratia, promotor da live, é um grupo formado por cristãos de diversas áreas de atuação profissional que acreditam que a ética apresentada na Bíblia e encarnada em Jesus de Nazaré é o melhor referencial para o cuidado com o meio ambiente (E), as questões sociais (S) e a governança nas organizações (G); e que acreditam que Só Pela Graça e pela ação do Espírito serão capazes de praticar o que creem.

Confira lives anteriores
» O que a Bíblia tem a dizer sobre os ODS e a COP30?
» Consumo e produção responsáveis são assuntos da próxima live do grupo Ethica, Sola Gratia
» Energia limpa e acessível para todos?
» Saúde integral para o bem-estar

  • Oseas Heckert é engenheiro de pessoas (ele mesmo aqui incluído, em reengenharia permanente), apreendedor da vida abundante, poetrainee. Sazonalmente escreve para assimilar/compartilhar as ideias: http://www.antropogogia.net/aprender.php

**
Serviço:
Live da série de conversas “O que a Bíblia tem a dizer sobre os ODS?”
Objetivo do Desenvolvimento Sustentável 4 (ODS 4) –Educação de qualidade
Quando
: 10 de junho de 2026, às 20 horas
Onde: Canal Júlio César no YouTube


Imagem:
Unsplash.

REVISTA ULTIMATO – A ARTE PRECISA DE JUSTIFICATIVA?
Os artigos da edição 419 de Ultimato ressaltam a “beleza de Deus”  e o fato de termos sido feitos à sua imagem e semelhança, o que torna a arte (sua apreciação ou o fazer artístico) disponível para todos – “Sejam encanadores, coletores de lixo, taxistas ou CEOs, somos chamados pelo Grande Artista a cocriar. O Artista nos chama, a nós, artistas com ‘a’ minúsculo, para cocriar, para compartilhar a ‘irrupção celestial’ na terra quebrada” (Makoto Fujimura).

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» A Grande História – Um Convite para Professores Cristãos, Rick Hove, Heather Holleman
» Série “Ciência e Fé Cristã”
» Para Que Serve a Teologia? – Sabedoria, significado e beleza, Alister McGrath

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