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Por Escrito

Entre o laboratório e a fé

A fé não exige que todas as perguntas desapareçam. O que não combina com ela é o medo que impede de perguntar e buscar a verdade

Por David Livingstone Alves Figueiredo


Aos 17 anos, vindo de uma família de recursos modestos, ingressei na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP). Entrar na USP significava descobrir um mundo que até então parecia muito distante. E foi apaixonante.

Ali, a ciência fazia parte da vida cotidiana: professores, laboratórios, livros e, sobretudo, perguntas. Quanto mais aprendíamos sobre o organismo humano, maior parecia sua complexidade. E, quanto mais a ciência me fascinava, menos sentia necessidade de escolher entre ela e a fé.

Durante os seis anos de medicina, não foram apenas os laboratórios que me formaram. Com amigos cristãos, participei do início de um pequeno grupo da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB) naquele lugar. Enquanto estudava medicina, descobria C. S. Lewis, John Stott e Paul Tournier. Eles me ajudaram a compreender que a fé cristã não exigia abandonar a razão. Pelo contrário: convidava-me a pensar.

Foi também ali que conheci a revista Ultimato, da qual me tornei leitor e assinante há mais de três décadas.

Depois vieram a residência em cirurgia de cabeça e pescoço e os pacientes com câncer. A relação entre ciência e fé ganhou outra dimensão. Diante de uma doença grave, as perguntas deixam de ser apenas intelectuais: “Por que pessoas boas sofrem? Onde está Deus diante da dor?”

A medicina explica mecanismos, estima prognósticos e oferece tratamentos. Mas não responde sozinha à pergunta de Jó. Foi convivendo com o sofrimento que compreendi melhor o centro da fé cristã. O cristianismo não apresenta um Deus distante da dor, mas o Deus que entra na história e, em Cristo, participa dela. A cruz não elimina nossas perguntas, mas impede que imaginemos um Deus indiferente ao sofrimento.

Minha carreira seguiu também pela ciência: mestrado, doutorado e pesquisa em biologia molecular do câncer e genômica. Para aquele garoto de 17 anos, isso era muito além do imaginado. Tive o privilégio de conviver com grandes pesquisadores, entre eles o professor Marco Antonio Zago, que viria a ser reitor da USP, presidente do CNPq e da Fapesp. Sua trajetória foi exemplo do rigor que a ciência exige.

Hoje sou professor de uma universidade pública e trabalho com genômica. Em Guarapuava, PR, participamos do Genomas SUS, um grande esforço brasileiro de genômica populacional, em parceria com instituições como USP, UFMG e Fiocruz.

É curioso pensar no caminho. Aquele estudante fascinado pela fisiologia humana hoje trabalha com bilhões de letras do DNA. A genômica nos permite ler o código da vida com uma precisão antes inimaginável. Mas cada resposta abre novas perguntas. Para mim, o conhecimento tornou a realidade ainda mais extraordinária.

Por isso nunca enxerguei ciência e fé como adversárias. A ciência pergunta como a natureza funciona e exige evidências, experimentação, crítica e revisão. A fé não deve competir com esse método nem preencher aquilo que a ciência ainda não explicou. O “Deus das lacunas” é uma compreensão pequena demais de Deus.



Francis Collins, geneticista que liderou o Projeto Genoma Humano, expressou algo que minha caminhada também me ensinou: há uma maravilhosa harmonia entre as verdades da fé e da ciência. “O Deus da Bíblia é também o Deus do genoma.”.

Minha fé não depende daquilo que a ciência ainda desconhece. Ela está fundamentada em Cristo. Por isso posso entrar no laboratório sem medo das perguntas. Se uma interpretação científica estiver errada, devo abandoná-la; se minha interpretação de um texto bíblico precisar ser revista, também não devo temer. A verdade não precisa ser protegida da investigação honesta.

Depois de mais de três décadas entre hospitais, universidades e laboratórios, nunca precisei deixar minha fé na porta do laboratório nem minha razão na porta da igreja.

A ciência me ensinou a humildade de reconhecer quanto ainda não sabemos. A fé, uma humildade ainda mais profunda: não preciso compreender tudo para confiar naquele que sustenta todas as coisas.

A fé não é o contrário da dúvida. A Bíblia não esconde pessoas de fé que perguntaram e hesitaram: Jó questionou, os salmistas clamaram “até quando?”, Tomé duvidou, e um pai confessou diante de Jesus: “Eu creio! Ajuda-me na minha falta de fé” (Mc 9.24). A fé não exige que todas as perguntas desapareçam. O que não combina com ela é o medo que impede de perguntar e buscar a verdade. João escreve que “o perfeito amor lança fora o medo” (1Jo 4.18). Esse amor tem sua origem em Deus e sua expressão suprema em Cristo.

Quanto mais conheço a complexidade da vida, menos espaço encontro para a arrogância das certezas fáceis. E quanto mais conheço a Cristo, mais compreendo que fé não é ausência de perguntas, mas confiança mesmo quando nem todas encontram resposta.

Depois de tantos anos estudando a vida – da anatomia ao genoma –, continuo maravilhado. E convencido de que o Deus cujas obras procuro compreender no laboratório é o mesmo que se revelou em Cristo.

Por isso continuo perguntando. Continuo pesquisando. Continuo crendo.

Sem medo.
  • David Livingstone Alves Figueiredo é médico cirurgião de cabeça e pescoço, docente, pesquisador e membro da Igreja Metodista de Guarapuava, PR.

Imagem: Unsplash.
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aqui.
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