Opinião
04 de agosto de 2026- Visualizações: 27
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Jesus para os curiosos: o impulso que buscamos
Clareza sem coerção, convicção sem condenação e compaixão sem concessões. Não deveríamos adotar uma postura semelhante?
Por Desmond Henry
Jesus dava importância às perguntas das pessoas e, muitas vezes, começava seus encontros fazendo as suas próprias. Ao longo dos evangelhos, suas conversas revelam um padrão divino de verdade envolta em graça.
• Ele encontrou Nicodemos sob o manto da noite, confrontando a curiosidade religiosa com a realidade espiritual: “…importa-vos nascer de novo” (Jo 3.7);
• Ele encontrou a mulher samaritana no calor do dia, passando da realidade de sua sede física para a verdade sobre a água viva, expondo seu pecado, mas restaurando sua dignidade (Jo 4.7-26);
• Jesus caminhava ao lado de dois discípulos desiludidos no caminho de Emaús, ouvindo suas decepções antes de abrir as Escrituras e se revelar a eles ao partir o pão (Lc 24.13-35).
Em cada encontro, Jesus demonstrou uma postura missionária intencional: clareza sem coerção, convicção sem condenação e compaixão sem concessões. Não deveríamos adotar uma postura semelhante?
Suas perguntas convidavam à reflexão (“E vocês, quem dizem que eu sou?” Mt16.15), suas histórias estimulavam a imaginação (“Qual destes três você acha que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” Lc 10.36) e sua presença convidava à transformação (Jo 4.28-29, 39). O evangelismo inspirado em Jesus, portanto, não é uma disputa de argumentos, mas uma comunhão de corações. É a verdade em uma jornada com amor – conversacional, corajosa e profundamente encarnacional. Temos tanto a aprender com Jesus!
Durante grande parte da história moderna, o treinamento em evangelismo nos ensinou a falar como pregadores – estruturado, confiante, persuasivo e, muitas vezes, unilateral (talvez usando aliteração ou alguma ferramenta de evangelismo – o que não é ruim). Contudo, em uma era marcada por crescente fragmentação, suspeita e fadiga religiosa, essa abordagem muitas vezes não surte efeito. Sam Chan nos convida a mudar: da proclamação como performance para a proclamação como participação (ênfase minha!). Passamos de proferir discursos para cultivar um diálogo sagrado. “Os conselheiros não ‘ganham’ uma conversa; eles a conduzem.” ¹
Quanto mais examinamos a Bíblia, mais descobrimos que o evangelismo conversacional não é uma inovação moderna, mas uma redescoberta bíblica daquilo que tantos seguidores comuns de Jesus praticavam. Embora a proclamação continue sendo central para o testemunho cristão, a Bíblia retrata repetidamente o avanço do evangelho por meio do diálogo, perguntas, raciocínio, hospitalidade, histórias e encontros guiados pelo Espírito.
O próprio Jesus frequentemente conversava com indivíduos antes de se dirigir às multidões, e a igreja primitiva seguia um padrão semelhante. Muito antes de o evangelismo ser associado a púlpitos e microfones, ele acontecia em torno de mesas, à beira das estradas, em mercados e em lares.
Vamos explorar algumas passagens que melhor exemplificam isso antes de abordarmos os aspectos práticos de como isso pode ser aplicado.
Conversas bíblicas em Atos: evangelismo como diálogo
O livro de Atos não é meramente um registro de sermões – é um estudo de interações guiadas pelo Espírito que transformaram vidas e impactaram cidades, vilas e famílias com o evangelho. O modelo de Jesus, pregando para multidões e sendo conduzido ao "único", continuou a moldar sua comunidade e sua abordagem missionária.
Sempre me impressiona a frase em Atos 2.47 que descreve a boa vontade demonstrada aos seguidores de Jesus: “louvando a Deus e tendo a simpatia de todo o povo...”
Os apóstolos raramente proclamavam sem também raciocinar, responder e se envolver com as perguntas de seus ouvintes. O evangelismo era dialógico muito antes de ser homilético.
Vamos explorar alguns exemplos das primeiras interações no conjunto de Atos.
Filipe e o eunuco etíope (Atos 8.26-40)
Este encontro começa não com uma mensagem, mas com uma simples pergunta: “O senhor entende o que está lendo?” (v.30)
Filipe não impõe uma resposta; ele se envolve com a pergunta do eunuco e caminha com ele pelas Escrituras. A inspiração do Espírito e a curiosidade de Filipe convergem em uma revelação divina: “Então Filipe explicou; e começando por esta passagem da Escritura, anunciou-lhe a Jesus” (v. 35).
Este momento exemplifica o evangelista que escuta: aquele que começa onde o buscador está, não onde o evangelista deseja começar.
Paulo e os atenienses (Atos 17.16-34)
O encontro de Paulo no Areópago é frequentemente descrito como uma aula magistral de pregação contextual – mas, em sua essência, é um exercício de apologética conversacional.
O diálogo começa antes, quando Paulo argumenta “Por isso, discutia na sinagoga com judeus e com gregos tementes a Deus, bem como na praça principal, todos os dias, com aqueles que por ali se encontravam” (v. 17). Seu envolvimento com o evangelho flui naturalmente para a praça pública – o mercado de ideias – onde filósofos debatiam o significado da vida e da verdade.
“Então, tomando-o consigo, o levaram ao Areópago, dizendo: ‘Podemos saber que novo ensino é este que você está anunciando?’” (v. 19).
Paulo inicia sua resposta não com acusação, mas com afirmação:
“Em tudo vos vejo acentuadamente religiosos” (v. 22). Ele constrói um terreno comum a partir do altar deles “a um deus desconhecido”, respondendo à curiosidade com a verdade. Ao citar os poetas atenienses e responder às suas perguntas, Paulo demonstra um ministério encarnacional e contextual – adentrando o mundo intelectual de Atenas não para condená-lo, mas para reinterpretar seus anseios à luz do Cristo ressuscitado.
Essa cena nos lembra que a evangelização prospera quando a curiosidade é dignificada em vez de rejeitada. Alguns zombaram da mensagem de Paulo, enquanto outros disseram: “Ouviremos você a esse respeito em outra ocasião.” (v. 32), e outros ainda creram (v. 34). A interação no Areópago revela que conversas genuínas sobre Jesus podem abrir portas mesmo em lugares onde a verdade parece menos bem-vinda.
O exemplo de Paulo aqui mostra que a evangelização fiel não é recuo nem confronto – é uma conversa guiada pelo Espírito, enraizada na compreensão cultural e voltada para a transformação do coração daqueles que são capazes de compreender.
Pedro e Cornélio (Atos 10.1-48)
Este encontro é um dos meus favoritos no livro de Atos, pois demonstra como o ministério pode ser uma via de mão dupla e que Deus muitas vezes está agindo nos corações, mentes e vidas das pessoas muito antes de chegarmos. Antes mesmo de Pedro falar, ele ouve a história de Cornélio. O encontro é mútuo – Pedro aprende tanto quanto ensina.
Deus orquestra uma revelação em duas vias: uma por meio da visão, a outra por meio da hospitalidade. A percepção de Pedro – “Agora percebo verdadeiramente que Deus não trata as pessoas com parcialidade” (v. 34) – surge por meio de uma conversa que transcende as diferenças. O evangelismo aqui não é uma proclamação unilateral, mas uma descoberta compartilhada da amplitude da graça de Deus e um movimento de evangelização que alcança as margens e as periferias da sociedade.
Paulo e o carcereiro de Filipos (Atos 16.25-34)
Mesmo em meio à crise, o evangelismo de Paulo começa com presença pessoal e compaixão genuína, não apenas com declarações. A pergunta angustiada do carcereiro: “Senhores, que devo fazer para ser salvo?” (v. 30) abre caminho para que o evangelho seja estendido a famílias inteiras. Paulo e Silas respondem não com um ensinamento sobre a salvação, mas com um convite relacional: “Creia no Senhor Jesus e serão salvos, você e os da sua casa” (v. 31). A fé nasce no espaço entre um clamor humano e uma resposta divina.
Do monólogo à descoberta mútua
A proclamação clássica do evangelho tende a começar com nossas respostas às perguntas reais (e às vezes percebidas) das pessoas; o evangelismo conversacional começa com perguntas e revelação direta compartilhada, moldada pela própria interação. O fundamento teológico disso reside na própria encarnação: a Palavra de Deus não bradou do céu, mas habitou entre nós (Jo1.14).
Adoro como o Evangelho de Mateus é emoldurado pelo conceito de "Deus conosco"; em Mateus 1.23, Mateus fala de Jesus como Emanuel, e em Mateus 28.19-20 ele fala da promessa "...e eis que estou convosco todos os dias..." como uma declaração teológica importante e praticamente encorajadora. Em última análise, o diálogo evangelístico reflete a natureza altamente relacional do Deus Triúno – Pai, Filho e Espírito Santo – comunicando-se eternamente em amor, desejando um relacionamento com a humanidade; habitando nela por meio da presença e do poder do Espírito Santo.
Conversar com as pessoas, então, é replicar o coração comunicativo e "habitante" de Deus. Todo diálogo divino nas Escrituras – desde o chamado de Deus no Éden até as conversas de Cristo nos evangelhos – revela um Deus missionário que fala para ser conhecido e busca pessoas para serem amadas e adoradas.
Redescobrindo o evangelho conversacional
O livro de Atos faz mais do que narrar os primórdios da Igreja – ele oferece um modelo para os nossos. Do diálogo de Filipe à beira da estrada ao encontro de Paulo no Areópago, vemos que a proclamação do Evangelho não é uma relíquia da história antiga, mas um ritmo vivo para a missão e a prática contemporâneas.
Cada encontro em Atos – fundamentado na escuta, no raciocínio e na resposta guiada pelo Espírito – nos lembra que a verdade se propaga melhor por meio do relacionamento, e o livro de Atos é uma história do povo de Deus em sua missão.
Em nossos dias, esse mesmo ritmo deve moldar nosso testemunho.
• A clareza mantém a mensagem centrada em Cristo e repleta de graça.
• A curiosidade escuta os anseios e as lealdades das pessoas – as fomes ocultas do coração que muitas vezes precedem a crença.
Evangelizar em uma era de ceticismo não se trata de proclamações mais estrondosas, mas de uma participação mais sábia: somos arautos capazes de dialogar. 2
Observações globais recentes revelam tanto desafios quanto oportunidades para esse tipo de missão. Em uma pesquisa da Mentimeter realizada para este chamado global em diversos continentes, os participantes descreveram como a evangelização é percebida em seus contextos: 60% a consideravam "boas novas" ou "esperançosa", enquanto outros a viam como "irrelevante", "ofensiva" ou "confusa".3 Esses resultados expõem uma tensão familiar à missiologia: embora a mensagem de Cristo permaneça atemporal, os métodos de seus mensageiros muitas vezes precisam ser adaptados.
De forma encorajadora, quase três quartos (73%) dos entrevistados disseram que as pessoas em suas regiões são "muito curiosas" ou "curiosas, mas cautelosas" em relação ao cristianismo. Apenas uma pequena minoria foi descrita como "resistente" ou “hostil”.4 Isso reflete as descobertas do estudo Spiritually Open de Barna (2023), que observa que a curiosidade espiritual está aumentando mesmo entre aqueles sem filiação religiosa.⁵
Em resumo, o terreno é mais fértil do que pensamos; muitas vezes é o semeador que hesita.
Os entrevistados identificaram barreiras recorrentes para conversas sobre o evangelho:
• A percepção de que o cristianismo é antiquado, intolerante ou uma fé "ocidental" desconectada da identidade local;
• O ritmo implacável e a distração da vida digital deixam pouco espaço para a reflexão;
• Desinformação sobre as Escrituras e o que o Evangelho realmente ensina;
• Dor pessoal profunda e ceticismo, frequentemente ligados a experiências religiosas passadas. 6
Essas realidades não são sinais de fracasso, mas lembretes de formação. A igreja é chamada não apenas a lamentar e rejeitar a cultura ao seu redor, mas também a ouvi-la – discernindo suas perguntas e respondendo com integridade e esperança que só se fundamentam no Evangelho. Como argumentou Lesslie Newbigin, a evangelização é mais crível quando surge de uma comunidade que incorpora as boas novas que proclama. 7
Dentro desse contexto global, quatro vias consistentes de impulso emergem – espaços relacionais onde a curiosidade espiritual muitas vezes floresce em conversas significativas.
Quatro portas onde as conversas florescem
1. Amizades do dia a dia – A plausibilidade aumenta com a proximidade
A fé se torna mais crível quando testemunhada de perto. A evangelização prospera melhor por meio da confiança relacional, e não apenas pelo alcance institucional.
Pratique: mapeie cinco relacionamentos, ore pelos nomes e dê um passo intencional por semana.
2. Atos de serviço – O amor abre espaço para as palavras
A credibilidade da mensagem depende da compaixão do mensageiro.
Pratique: sirva primeiro, depois nomeie a Fonte – “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1João 4.19).
3. Presença digital – presença pastoral em um mundo de rolagem infinita
O campo missionário está agora tão perto quanto nossos telefones. A comunicação constante e cristã online é a hospitalidade moderna.
Pratique: envie breves mensagens de oração, responda prontamente e compartilhe as Escrituras com sabedoria.
4. Crise e transição – A dor e a mudança abrem portas
Momentos de perda ou ruptura muitas vezes criam um espaço sagrado para a verdade.
Pratique: pergunte: "Como você está realmente se sentindo?" – ouça, ofereça uma oração e demonstre compaixão.

Da conversa ao movimento
Quando perguntados sobre qual prática transforma a curiosidade em conversa de forma mais eficaz, os participantes classificaram "fazer boas perguntas" em primeiro lugar, seguido por "compartilhar histórias pessoais" , "viver o amor de Cristo" e "apontar para as Escrituras".⁸ O padrão é revelador: a curiosidade abre a porta e a história pessoal gira a chave.
O ímpeto, portanto, não é gerado por programas, mas por pessoas – por crentes comuns que personificam a graça e a verdade em espaços cotidianos.
O Espírito Santo se move onde a igreja é ousada e humilde, verdadeira e terna. Ganhamos ímpeto quando nossa clareza sobre Cristo é acompanhada por nossa curiosidade sobre aqueles que Ele veio salvar.
Se A missão que estamos cumprindo nos lembra que evangelizar é participar da missio Dei, então O Impulso Que Buscamos nos convida a discernir como esse movimento divino continua através de nós hoje. Impulso não é medido em números, mas em proximidade – quando a igreja se aproxima das perguntas, esperanças e angústias do mundo que Deus ama. Ele nasce não da ambição, mas do alinhamento, à medida que o Espírito impulsiona crentes comuns a espaços comuns com graça extraordinária – para alcançar o mundo para Cristo.
O momento em que estamos exige um testemunho humilde e esperançoso: um testemunho que escuta atentamente, fala com sinceridade e ama de forma palpável. Quando a clareza sobre Cristo encontra a curiosidade sobre os outros, o evangelho avança – não por meio de programas, mas por meio da presença. Este é o ímpeto do Reino: silencioso, relacional, resiliente e guiado pelo Espírito. E enquanto a igreja de Cristo permanecer curiosa sobre as pessoas e confiante no evangelho, a missão que cumprimos jamais perderá o ímpeto – até que todos ouçam.
Notas
1. Sam Chan e Desmond Henry, Webinar “Jesus para os Curiosos”, 11 de setembro de 2025. Um diálogo ao vivo explorando o evangelismo conversacional em um mundo cético, destacando a curiosidade, a hospitalidade e o diálogo guiado pelo Espírito como elementos essenciais para o testemunho do evangelho.
2. A abordagem dialógica de Jesus (João 3-4; Lucas 24) modela a evangelização como um convite em vez de uma imposição – a verdade que caminha lado a lado com a investigação.
3. Pesquisa Mentimeter 2025, “Percepções sobre Evangelismo”. Dados agregados de 30 participantes globais no webinar "Jesus para os Curiosos" com Sam Chan e Desmond Henry.
4. Ibid., “Níveis de Curiosidade Espiritual”.
5. Barna Group (2023) Espiritualmente Aberto: O que as Conversas Espirituais Revelam sobre o Mundo de Hoje. Ventura, CA: Barna.
6. Pesquisa Mentimeter 2025: “Barreiras para conversas sobre o Evangelho”.
7. Newbigin, L. (1989) The Gospel in a Pluralist Society. Londres: SPCK, p. 122 – “A credibilidade surge da realidade vivida da comunidade cristã”.
8. Pesquisa Mentimeter 2025: "Transformando a curiosidade em conversa".
Nota do editor
Este artigo faz parte de uma série adaptada com o auxílio de inteligência artificial a partir do webinário da Proclamation Evangelism Issue Network, " Jesus para os Curiosos: Iniciando uma Conversa que Leva à Fé", realizado em setembro de 2025. Esta série de três partes abordará os seguintes temas: O momento em que estamos (Parte 1), A missão que estamos cumprindo (Parte 2) e o impulso que buscamos (Parte 3).
Fonte: Site Lausanne.
REVISTA ULTIMATO – PERDOA-NOS, COMO NÓS PERDOAMOS
A mais comprometedora petição ensinada por Jesus é essa: Deus pede de nós aquilo que pedimos a ele.
O tema do perdão se espalha por toda a Escritura e rege a relação do ser humano com Deus. É provavelmente o conceito que mais realiza conexões com temas da teologia. Sem a menção ao perdão não se discursa sobre o acesso a Deus, a obra da salvação, o objetivo da graça divina nem sobre Jesus encarnado, o amor de Deus, o resgate, a restauração, a missão da igreja etc.
Este é o assunto da matéria de capa da Ultimato 420. Clique aqui e saiba mais. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
» O Evangelho – Uma mensagem que transforma a vida, John Stott e Tim Chester
» A Pessoa Mais Importante do Mundo, Elben César
» O Evangelho é a verdade pública, por Stephen White
Por Desmond Henry
Jesus dava importância às perguntas das pessoas e, muitas vezes, começava seus encontros fazendo as suas próprias. Ao longo dos evangelhos, suas conversas revelam um padrão divino de verdade envolta em graça. • Ele encontrou Nicodemos sob o manto da noite, confrontando a curiosidade religiosa com a realidade espiritual: “…importa-vos nascer de novo” (Jo 3.7);
• Ele encontrou a mulher samaritana no calor do dia, passando da realidade de sua sede física para a verdade sobre a água viva, expondo seu pecado, mas restaurando sua dignidade (Jo 4.7-26);
• Jesus caminhava ao lado de dois discípulos desiludidos no caminho de Emaús, ouvindo suas decepções antes de abrir as Escrituras e se revelar a eles ao partir o pão (Lc 24.13-35).
Em cada encontro, Jesus demonstrou uma postura missionária intencional: clareza sem coerção, convicção sem condenação e compaixão sem concessões. Não deveríamos adotar uma postura semelhante?
Suas perguntas convidavam à reflexão (“E vocês, quem dizem que eu sou?” Mt16.15), suas histórias estimulavam a imaginação (“Qual destes três você acha que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” Lc 10.36) e sua presença convidava à transformação (Jo 4.28-29, 39). O evangelismo inspirado em Jesus, portanto, não é uma disputa de argumentos, mas uma comunhão de corações. É a verdade em uma jornada com amor – conversacional, corajosa e profundamente encarnacional. Temos tanto a aprender com Jesus!
Durante grande parte da história moderna, o treinamento em evangelismo nos ensinou a falar como pregadores – estruturado, confiante, persuasivo e, muitas vezes, unilateral (talvez usando aliteração ou alguma ferramenta de evangelismo – o que não é ruim). Contudo, em uma era marcada por crescente fragmentação, suspeita e fadiga religiosa, essa abordagem muitas vezes não surte efeito. Sam Chan nos convida a mudar: da proclamação como performance para a proclamação como participação (ênfase minha!). Passamos de proferir discursos para cultivar um diálogo sagrado. “Os conselheiros não ‘ganham’ uma conversa; eles a conduzem.” ¹
Quanto mais examinamos a Bíblia, mais descobrimos que o evangelismo conversacional não é uma inovação moderna, mas uma redescoberta bíblica daquilo que tantos seguidores comuns de Jesus praticavam. Embora a proclamação continue sendo central para o testemunho cristão, a Bíblia retrata repetidamente o avanço do evangelho por meio do diálogo, perguntas, raciocínio, hospitalidade, histórias e encontros guiados pelo Espírito.
O próprio Jesus frequentemente conversava com indivíduos antes de se dirigir às multidões, e a igreja primitiva seguia um padrão semelhante. Muito antes de o evangelismo ser associado a púlpitos e microfones, ele acontecia em torno de mesas, à beira das estradas, em mercados e em lares.
Vamos explorar algumas passagens que melhor exemplificam isso antes de abordarmos os aspectos práticos de como isso pode ser aplicado.
Conversas bíblicas em Atos: evangelismo como diálogoO livro de Atos não é meramente um registro de sermões – é um estudo de interações guiadas pelo Espírito que transformaram vidas e impactaram cidades, vilas e famílias com o evangelho. O modelo de Jesus, pregando para multidões e sendo conduzido ao "único", continuou a moldar sua comunidade e sua abordagem missionária.
Sempre me impressiona a frase em Atos 2.47 que descreve a boa vontade demonstrada aos seguidores de Jesus: “louvando a Deus e tendo a simpatia de todo o povo...”
Os apóstolos raramente proclamavam sem também raciocinar, responder e se envolver com as perguntas de seus ouvintes. O evangelismo era dialógico muito antes de ser homilético.
Vamos explorar alguns exemplos das primeiras interações no conjunto de Atos.
Filipe e o eunuco etíope (Atos 8.26-40)
Este encontro começa não com uma mensagem, mas com uma simples pergunta: “O senhor entende o que está lendo?” (v.30)
Filipe não impõe uma resposta; ele se envolve com a pergunta do eunuco e caminha com ele pelas Escrituras. A inspiração do Espírito e a curiosidade de Filipe convergem em uma revelação divina: “Então Filipe explicou; e começando por esta passagem da Escritura, anunciou-lhe a Jesus” (v. 35).
Este momento exemplifica o evangelista que escuta: aquele que começa onde o buscador está, não onde o evangelista deseja começar.
Paulo e os atenienses (Atos 17.16-34)
O encontro de Paulo no Areópago é frequentemente descrito como uma aula magistral de pregação contextual – mas, em sua essência, é um exercício de apologética conversacional.
O diálogo começa antes, quando Paulo argumenta “Por isso, discutia na sinagoga com judeus e com gregos tementes a Deus, bem como na praça principal, todos os dias, com aqueles que por ali se encontravam” (v. 17). Seu envolvimento com o evangelho flui naturalmente para a praça pública – o mercado de ideias – onde filósofos debatiam o significado da vida e da verdade.
“Então, tomando-o consigo, o levaram ao Areópago, dizendo: ‘Podemos saber que novo ensino é este que você está anunciando?’” (v. 19).
Paulo inicia sua resposta não com acusação, mas com afirmação:
“Em tudo vos vejo acentuadamente religiosos” (v. 22). Ele constrói um terreno comum a partir do altar deles “a um deus desconhecido”, respondendo à curiosidade com a verdade. Ao citar os poetas atenienses e responder às suas perguntas, Paulo demonstra um ministério encarnacional e contextual – adentrando o mundo intelectual de Atenas não para condená-lo, mas para reinterpretar seus anseios à luz do Cristo ressuscitado.
Essa cena nos lembra que a evangelização prospera quando a curiosidade é dignificada em vez de rejeitada. Alguns zombaram da mensagem de Paulo, enquanto outros disseram: “Ouviremos você a esse respeito em outra ocasião.” (v. 32), e outros ainda creram (v. 34). A interação no Areópago revela que conversas genuínas sobre Jesus podem abrir portas mesmo em lugares onde a verdade parece menos bem-vinda.
O exemplo de Paulo aqui mostra que a evangelização fiel não é recuo nem confronto – é uma conversa guiada pelo Espírito, enraizada na compreensão cultural e voltada para a transformação do coração daqueles que são capazes de compreender.
Pedro e Cornélio (Atos 10.1-48)
Este encontro é um dos meus favoritos no livro de Atos, pois demonstra como o ministério pode ser uma via de mão dupla e que Deus muitas vezes está agindo nos corações, mentes e vidas das pessoas muito antes de chegarmos. Antes mesmo de Pedro falar, ele ouve a história de Cornélio. O encontro é mútuo – Pedro aprende tanto quanto ensina.
Deus orquestra uma revelação em duas vias: uma por meio da visão, a outra por meio da hospitalidade. A percepção de Pedro – “Agora percebo verdadeiramente que Deus não trata as pessoas com parcialidade” (v. 34) – surge por meio de uma conversa que transcende as diferenças. O evangelismo aqui não é uma proclamação unilateral, mas uma descoberta compartilhada da amplitude da graça de Deus e um movimento de evangelização que alcança as margens e as periferias da sociedade.
Paulo e o carcereiro de Filipos (Atos 16.25-34)
Mesmo em meio à crise, o evangelismo de Paulo começa com presença pessoal e compaixão genuína, não apenas com declarações. A pergunta angustiada do carcereiro: “Senhores, que devo fazer para ser salvo?” (v. 30) abre caminho para que o evangelho seja estendido a famílias inteiras. Paulo e Silas respondem não com um ensinamento sobre a salvação, mas com um convite relacional: “Creia no Senhor Jesus e serão salvos, você e os da sua casa” (v. 31). A fé nasce no espaço entre um clamor humano e uma resposta divina.
Do monólogo à descoberta mútua
A proclamação clássica do evangelho tende a começar com nossas respostas às perguntas reais (e às vezes percebidas) das pessoas; o evangelismo conversacional começa com perguntas e revelação direta compartilhada, moldada pela própria interação. O fundamento teológico disso reside na própria encarnação: a Palavra de Deus não bradou do céu, mas habitou entre nós (Jo1.14).
Adoro como o Evangelho de Mateus é emoldurado pelo conceito de "Deus conosco"; em Mateus 1.23, Mateus fala de Jesus como Emanuel, e em Mateus 28.19-20 ele fala da promessa "...e eis que estou convosco todos os dias..." como uma declaração teológica importante e praticamente encorajadora. Em última análise, o diálogo evangelístico reflete a natureza altamente relacional do Deus Triúno – Pai, Filho e Espírito Santo – comunicando-se eternamente em amor, desejando um relacionamento com a humanidade; habitando nela por meio da presença e do poder do Espírito Santo.
Conversar com as pessoas, então, é replicar o coração comunicativo e "habitante" de Deus. Todo diálogo divino nas Escrituras – desde o chamado de Deus no Éden até as conversas de Cristo nos evangelhos – revela um Deus missionário que fala para ser conhecido e busca pessoas para serem amadas e adoradas.
Redescobrindo o evangelho conversacionalO livro de Atos faz mais do que narrar os primórdios da Igreja – ele oferece um modelo para os nossos. Do diálogo de Filipe à beira da estrada ao encontro de Paulo no Areópago, vemos que a proclamação do Evangelho não é uma relíquia da história antiga, mas um ritmo vivo para a missão e a prática contemporâneas.
Cada encontro em Atos – fundamentado na escuta, no raciocínio e na resposta guiada pelo Espírito – nos lembra que a verdade se propaga melhor por meio do relacionamento, e o livro de Atos é uma história do povo de Deus em sua missão.
Em nossos dias, esse mesmo ritmo deve moldar nosso testemunho.
• A clareza mantém a mensagem centrada em Cristo e repleta de graça.
• A curiosidade escuta os anseios e as lealdades das pessoas – as fomes ocultas do coração que muitas vezes precedem a crença.
Evangelizar em uma era de ceticismo não se trata de proclamações mais estrondosas, mas de uma participação mais sábia: somos arautos capazes de dialogar. 2
Observações globais recentes revelam tanto desafios quanto oportunidades para esse tipo de missão. Em uma pesquisa da Mentimeter realizada para este chamado global em diversos continentes, os participantes descreveram como a evangelização é percebida em seus contextos: 60% a consideravam "boas novas" ou "esperançosa", enquanto outros a viam como "irrelevante", "ofensiva" ou "confusa".3 Esses resultados expõem uma tensão familiar à missiologia: embora a mensagem de Cristo permaneça atemporal, os métodos de seus mensageiros muitas vezes precisam ser adaptados.
De forma encorajadora, quase três quartos (73%) dos entrevistados disseram que as pessoas em suas regiões são "muito curiosas" ou "curiosas, mas cautelosas" em relação ao cristianismo. Apenas uma pequena minoria foi descrita como "resistente" ou “hostil”.4 Isso reflete as descobertas do estudo Spiritually Open de Barna (2023), que observa que a curiosidade espiritual está aumentando mesmo entre aqueles sem filiação religiosa.⁵
Em resumo, o terreno é mais fértil do que pensamos; muitas vezes é o semeador que hesita.
Os entrevistados identificaram barreiras recorrentes para conversas sobre o evangelho:
• A percepção de que o cristianismo é antiquado, intolerante ou uma fé "ocidental" desconectada da identidade local;
• O ritmo implacável e a distração da vida digital deixam pouco espaço para a reflexão;
• Desinformação sobre as Escrituras e o que o Evangelho realmente ensina;
• Dor pessoal profunda e ceticismo, frequentemente ligados a experiências religiosas passadas. 6
Essas realidades não são sinais de fracasso, mas lembretes de formação. A igreja é chamada não apenas a lamentar e rejeitar a cultura ao seu redor, mas também a ouvi-la – discernindo suas perguntas e respondendo com integridade e esperança que só se fundamentam no Evangelho. Como argumentou Lesslie Newbigin, a evangelização é mais crível quando surge de uma comunidade que incorpora as boas novas que proclama. 7
Dentro desse contexto global, quatro vias consistentes de impulso emergem – espaços relacionais onde a curiosidade espiritual muitas vezes floresce em conversas significativas.
Quatro portas onde as conversas florescem1. Amizades do dia a dia – A plausibilidade aumenta com a proximidade
A fé se torna mais crível quando testemunhada de perto. A evangelização prospera melhor por meio da confiança relacional, e não apenas pelo alcance institucional.
Pratique: mapeie cinco relacionamentos, ore pelos nomes e dê um passo intencional por semana.
2. Atos de serviço – O amor abre espaço para as palavras
A credibilidade da mensagem depende da compaixão do mensageiro.
Pratique: sirva primeiro, depois nomeie a Fonte – “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1João 4.19).
3. Presença digital – presença pastoral em um mundo de rolagem infinita
O campo missionário está agora tão perto quanto nossos telefones. A comunicação constante e cristã online é a hospitalidade moderna.
Pratique: envie breves mensagens de oração, responda prontamente e compartilhe as Escrituras com sabedoria.
4. Crise e transição – A dor e a mudança abrem portas
Momentos de perda ou ruptura muitas vezes criam um espaço sagrado para a verdade.
Pratique: pergunte: "Como você está realmente se sentindo?" – ouça, ofereça uma oração e demonstre compaixão.

Da conversa ao movimento
Quando perguntados sobre qual prática transforma a curiosidade em conversa de forma mais eficaz, os participantes classificaram "fazer boas perguntas" em primeiro lugar, seguido por "compartilhar histórias pessoais" , "viver o amor de Cristo" e "apontar para as Escrituras".⁸ O padrão é revelador: a curiosidade abre a porta e a história pessoal gira a chave.
O ímpeto, portanto, não é gerado por programas, mas por pessoas – por crentes comuns que personificam a graça e a verdade em espaços cotidianos.
O Espírito Santo se move onde a igreja é ousada e humilde, verdadeira e terna. Ganhamos ímpeto quando nossa clareza sobre Cristo é acompanhada por nossa curiosidade sobre aqueles que Ele veio salvar.
Se A missão que estamos cumprindo nos lembra que evangelizar é participar da missio Dei, então O Impulso Que Buscamos nos convida a discernir como esse movimento divino continua através de nós hoje. Impulso não é medido em números, mas em proximidade – quando a igreja se aproxima das perguntas, esperanças e angústias do mundo que Deus ama. Ele nasce não da ambição, mas do alinhamento, à medida que o Espírito impulsiona crentes comuns a espaços comuns com graça extraordinária – para alcançar o mundo para Cristo.
O momento em que estamos exige um testemunho humilde e esperançoso: um testemunho que escuta atentamente, fala com sinceridade e ama de forma palpável. Quando a clareza sobre Cristo encontra a curiosidade sobre os outros, o evangelho avança – não por meio de programas, mas por meio da presença. Este é o ímpeto do Reino: silencioso, relacional, resiliente e guiado pelo Espírito. E enquanto a igreja de Cristo permanecer curiosa sobre as pessoas e confiante no evangelho, a missão que cumprimos jamais perderá o ímpeto – até que todos ouçam.
Notas
1. Sam Chan e Desmond Henry, Webinar “Jesus para os Curiosos”, 11 de setembro de 2025. Um diálogo ao vivo explorando o evangelismo conversacional em um mundo cético, destacando a curiosidade, a hospitalidade e o diálogo guiado pelo Espírito como elementos essenciais para o testemunho do evangelho.
2. A abordagem dialógica de Jesus (João 3-4; Lucas 24) modela a evangelização como um convite em vez de uma imposição – a verdade que caminha lado a lado com a investigação.
3. Pesquisa Mentimeter 2025, “Percepções sobre Evangelismo”. Dados agregados de 30 participantes globais no webinar "Jesus para os Curiosos" com Sam Chan e Desmond Henry.
4. Ibid., “Níveis de Curiosidade Espiritual”.
5. Barna Group (2023) Espiritualmente Aberto: O que as Conversas Espirituais Revelam sobre o Mundo de Hoje. Ventura, CA: Barna.
6. Pesquisa Mentimeter 2025: “Barreiras para conversas sobre o Evangelho”.
7. Newbigin, L. (1989) The Gospel in a Pluralist Society. Londres: SPCK, p. 122 – “A credibilidade surge da realidade vivida da comunidade cristã”.
8. Pesquisa Mentimeter 2025: "Transformando a curiosidade em conversa".
Nota do editor
Este artigo faz parte de uma série adaptada com o auxílio de inteligência artificial a partir do webinário da Proclamation Evangelism Issue Network, " Jesus para os Curiosos: Iniciando uma Conversa que Leva à Fé", realizado em setembro de 2025. Esta série de três partes abordará os seguintes temas: O momento em que estamos (Parte 1), A missão que estamos cumprindo (Parte 2) e o impulso que buscamos (Parte 3).
- Desmond Henry é um líder missionário, professor de missiologia, autor, palestrante e profissional comprometido com o avanço do evangelismo global. Por meio de sua liderança em Global Network of Evangelists for Palau, Lausanne Proclamation Evangelism Network e outros lugares, o Dr. Henry ajuda a moldar o futuro das estratégias de evangelização, garantindo que o evangelismo permaneça ousado, inovador e biblicamente fiel. Ele é casado com Lara e tem três filhas: Gabriella, Annabella e Olivia.
Fonte: Site Lausanne.
REVISTA ULTIMATO – PERDOA-NOS, COMO NÓS PERDOAMOSA mais comprometedora petição ensinada por Jesus é essa: Deus pede de nós aquilo que pedimos a ele.
O tema do perdão se espalha por toda a Escritura e rege a relação do ser humano com Deus. É provavelmente o conceito que mais realiza conexões com temas da teologia. Sem a menção ao perdão não se discursa sobre o acesso a Deus, a obra da salvação, o objetivo da graça divina nem sobre Jesus encarnado, o amor de Deus, o resgate, a restauração, a missão da igreja etc.
Este é o assunto da matéria de capa da Ultimato 420. Clique aqui e saiba mais. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
» O Evangelho – Uma mensagem que transforma a vida, John Stott e Tim Chester
» A Pessoa Mais Importante do Mundo, Elben César
» O Evangelho é a verdade pública, por Stephen White
04 de agosto de 2026- Visualizações: 27
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