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Opinião

Os valores cristãos em tempo de eleições

No dia da ressurreição, Deus não vai nos cobrar se votamos nesse ou naquele candidato, mas, sim, se fomos fiéis a Cristo

Por Paul Freston

Em épocas eleitorais, o tema “valores cristãos” e a necessidade de defendê-los na política sempre voltam à tona. Parece ponto pacífico, contestado apenas por aqueles (poucos) cristãos que ainda advogam o velho bordão “crente não se mete em política”. Mas o assunto é mais espinhoso do que parece, cabendo primeiro um esclarecimento a respeito: recomendemos, sim, os valores cristãos na política, desde que respondidas duas perguntas.

Primeiro, quais são os valores cristãos? Para mim, constituem uma lista longa, não dois ou três itens. Geralmente, as diversas candidaturas se aproximam mais de alguns desses valores e não de outros, tornando difícil dizer que “candidatura X defende os valores cristãos e candidatura Y não”.
Em segundo lugar, quais dos valores cristãos devem ser objeto de ação política, ou seja, de legislação no Congresso e implementação por governos? E quais devem ser objeto somente de ações a nível da sociedade civil, procurando, por meios não coercitivos, transformar as mentalidades e consciências da população?

Respondidas essas duas perguntas, defendamos os valores cristãos na política!

Mas, não é certo querer legislar a nossa moralidade? Sim, em parte. A moralidade deve ser um dos elementos na hora de propor legislação. A legislação totalmente divorciada da moralidade é um monstro. Ela não deve ser divorciada, mas, sim, diferenciada. Podemos ilustrar o princípio utilizando o exemplo da desaprovação do adultério (ainda há muitos países, principalmente islâmicos, em que o adultério é punido em lei, até com pena de morte). Mas, como cristãos, sabemos que nem tudo que procuramos seguir em nossa vida pessoal e recomendamos pastoralmente na igreja deve ser matéria de proposta política. Isso porque: a) há efeitos indesejados de muitas propostas legislativas, que desvirtuam e até anulam o efeito pretendido, não bastando as boas intenções; e b) vivemos numa sociedade moralmente pluralista, e a moralidade imposta perde a sua virtude. Não à toa, o maior símbolo do cristianismo é a cruz. A verdade cravada na cruz não compele ninguém. Transformar a verdade crucificada em verdade coercitiva é traição a Cristo.

Na prática, porém, o discurso dos “valores cristãos” tem servido para aumentar o voto evangélico em determinadas candidaturas. Candidatos sem propostas muito “vendáveis” do ponto de vista eleitoral lançam mão desse discurso. Cria-se um pânico moral, o qual implicitamente tem que ser resolvido por meios políticos. A tarefa do Estado agora é tornar as pessoas mais morais! Mas para isso, bastava o catolicismo da Inquisição. Hoje, no Brasil, o apelo aos “valores cristãos” virou um refúgio para muitos políticos, inclusive alguns dos mais inescrupulosos.

Um exemplo extremo disso, de outro país e outro tempo, ilustra o perigo. Para alguns cristãos, o ápice da aspiração política seria um governante que dissesse: “O meu governo tomará sob a minha proteção o cristianismo como base da nossa moralidade, e a família como o núcleo da nação”. Mas essas exatas palavras foram pronunciadas por Adolf Hitler, no seu primeiro dia de governo. E uma igreja fascinada pelo poder, idolatrando o Estado, se encantou com a ideia desse novo líder como protetor autoproclamado do cristianismo e da família.

Os desafios, então, são de defender a democracia e entender mais amplamente os valores cristãos; de distinguir aqueles valores que devem ser avançados por meios políticos; e de desenvolver mais sofisticação na compreensão da manipulação política do conceito de valores cristãos (por políticos não cristãos e cristãos!).



Há outro critério importante. O conceito de valores cristãos também deve contemplar a proporcionalidade bíblica: devemos manter as proporções bíblicas nas nossas recomendações éticas. As questões éticas que aparecem em quase todas as páginas da Bíblia (como a avareza, o orgulho, a incapacidade de perdoar, a indiferença) devem ter primazia no nosso próprio esforço ético e naquilo que recomendamos aos outros, dentro e fora da igreja. À medida que julgamos essas questões apropriadas para propostas políticas, elas devem ter uma certa prioridade nas nossas decisões eleitorais. Outras questões, de que a Bíblia fala pouco ou nada (necessitando trabalho teológico sério para inferir implicações para debates contemporâneos), podem também ser importantes, mas não devem ter peso determinante nos nossos posicionamentos políticos. E, com certeza, não devem ser elevadas em pedras de toque da fé pura.

Jesus caracterizou o problema da falta de proporcionalidade bíblica de forma memorável na sua invectiva contra os erros dos escribas e fariseus: “Coar moscas e engolir camelos” (Mt 23.24). Há pelo menos duas dimensões em que a propensão de coar moscas e engolir camelos se manifesta.Uma é na tendência de preocupar-se com alguma lei (ou proposta de lei) meramente permissiva, deixando passar outras leis impositivas. Leis (ou políticas governamentais) permissivas facultam alguma conduta, a qual talvez seja desagradável ou mesmo reprovável, do nosso ponto de vista. Por outro lado, leis (ou políticas governamentais) impositivas obrigam determinada conduta, afetando a todos ou a muitos. Estas últimas, em geral, devem pesar mais nas nossas decisões eleitorais.

Outra dimensão da propensão de coar moscas e engolir camelos se refere aos gastos envolvidos. Às vezes, os cristãos (de outros países!) se escandalizam com o custo financeiro público (relativamente pequeno) de alguma política governamental muito mais do que com o custo financeiro imenso de uma guerra, por exemplo. Sem falar da enorme discrepância entre o (real ou imaginado) dano moral daquela política e o dano moral dos bombardeios da guerra. Mas o primeiro caso é considerado determinante do voto, ao passo que a guerra recebe um passe livre!

Às vezes, porém, a “mosca” que tentamos coar sequer existe, sendo pura invenção nossa. É o caso das fake news. Procure fontes sérias de notícias, mesmo tendo de pagar. Não dependa de redes sociais para se informar. Acredite na verdade. Abandonar os fatos é abandonar a liberdade. Quem renuncia à diferença entre o que quer ouvir e o que realmente existe se submete à tirania. Investigue e seja responsável naquilo que você comunica a outros. Causamos muitos prejuízos quando retransmitimos mentiras.

As mentiras políticas não aparecem e circulam por acaso. Elas constituem parte importante de uma estratégia de construir um mundo binário em que “o outro lado” é, por exemplo, “anticristão” e “antifamília”, e o “nosso lado”, mesmo liderado por pessoas dúbias, “defende os valores cristãos”.

Os cristãos evangélicos, enraizados firmemente na teologia e na ética bíblicas, devem ser defensores convictos da democracia, do respeito aos que divergem de nós e da busca séria da verdade (o espírito bereano). Um veredito devastador: a falta de valores cristãos está na própria comunidade cristã! Infelizmente, o fenômeno não é novo. Beda, um dos grandes autores cristãos antigos (oitavo século), já o conhecia. Ao comentar o texto dos Evangelhos sobre a traição de Jesus por parte de Judas, ele diz:
“Há muitos que odeiam o crime de Judas, mas nem por isso deixam de seguir-lhe os passos. De fato, quem viola os direitos da caridade e da verdade também trai Jesus Cristo (que é a verdade e a caridade), sobretudo quando essa traição não é efeito nem da fraqueza, nem da ignorância, porque, à imitação de Judas, buscam a oportunidade para que, livres de impedimentos, transformem a verdade em mentira, a virtude em pecado.”

Quantos cristãos hoje em dia buscam livrar-se de impedimentos para transformar a verdade em mentira, e a mentira em verdade. Mas o mundo de ilusões que criamos, renunciando à diferença entre o que queremos ouvir e o que realmente existe, não durará. A luta contra as ilusões (pessoais, relacionais, sociais, políticas) é o cerne da verdadeira guerra espiritual da nossa época. No dia da ressurreição, Deus não vai nos cobrar se votamos em Lula ou Flávio Bolsonaro ou outro candidato, mas sim, se fomos, na medida do possível, fiéis a Cristo de acordo com a luz que tínhamos. E se fizemos bom uso das oportunidades de aumentar a luz que tínhamos. Entremos, então, nos debates teológicos e pastorais necessários sobre questões políticas com a alma sadia, livre de ódios e premiando a fidelidade à pessoa de Cristo.

Artigo publicado originalmente na edição 421 de Ultimato.
Imagem: Flickr.
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Autor de "Religião e Política, sim; Igreja e Estado, não" e "Nem Monge, Nem Executivo - Jesus: um modelo de espiritualidade invertida", ambos pela Editora Ultimato; e "Neemias, Um Profissional a Serviço do Reino" e "Quem Perde, Ganha", pela ABU Editora, Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é doutor em sociologia pela UNICAMP. É professor do programa de pós-graduação em ciências sociais na Universidade Federal de São Carlos e, desde 2003, professor catedrático de sociologia no Calvin College, nos Estados Unidos. É colunista da revista Ultimato.
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