Opinião
14 de abril de 2026- Visualizações: 982
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Preparando o coração para as eleições de 2026
Em 2022, trocamos Deus por suas promessas. Este ano, precisamos reordenar nossos desejos e reencontrar a fé
Por Mariana Albuquerque
Estou escrevendo este texto em abril de 2026. Este tem sido um ano de muitos eventos: conflitos na América Latina, mais guerras no Oriente Médio, escândalos de corrupção no Brasil que desafiam nossa imaginação e colocam seus tentáculos na Igreja. Não estamos nem no meio do ano e ainda temos pela frente uma Copa do Mundo e eleições. Esta última, talvez, será a mais desafiadora para nós, individualmente como seguidores de Cristo e coletivamente como corpo de Cristo.
Honestamente, a eleição presidencial de 2022 provocou alguns ferimentos na minha alma que custaram a cicatrizar. Precisei de bons momentos de oração e comunhão para apaziguar pensamentos e desejos; precisei ser honesta comigo mesma sobre o tamanho do meu ego; precisei me confrontar sobre meus pecados para poder olhar para meus irmãos, especialmente aqueles a quem não conheço pessoalmente, com mais empatia e compreensão.
Será que 2026 será pior que 2022? Eu oro para que não. Oro para que tenhamos aprendido algo com nossa experiência passada. Estamos claramente cansados, exaustos do caos e da polarização. Alguns irmãos que antes sentavam na mesma mesa, hoje não conseguem mais dialogar – mesmo sobre temas teológicos, já que muitos assuntos foram sequestrados por lados políticos. Alguns líderes tornaram-se irreconhecíveis e não conseguem mais fazer uma pregação se quer sem pensar sobre viralização de conteúdo e mobilização política.
Como ter bom ânimo diante de tudo isso? Como juntar os cacos de um coração destroçado pelo medo e pelo ressentimento? Como ter esperança?
Nós não temos como controlar absolutamente nada. Das eleições à reputação da igreja, nosso poder de ação é quase insignificante. Certo dia, depois de um período de fortes chuvas em Recife, PE, eu decidi sair para passear com minha cadela. No meio do caminho, me deparei com um grupo grande formigas, todas ordenadas, todas carregando pedacinhos de folhas ou frutos pequenos. Essas formigas, através do instinto e da habilidade de ler o tempo, sabem que o inverno está chegando e que precisam se preparar. Elas sabem que precisam de uma ação coletiva para atingir seu objetivo e reconhecem que individualmente elas podem muito pouco, mas juntas elas sobreviverão a mais um inverno.
Parece que as formigas têm mais fé do que nós, seres dotados de consciência e inteligência, temos. Ainda que a tarefa pareça ser impossível, elas creem. Creem contra toda esperança.
É desse tipo de fé que precisamos, o tipo de fé que Paulo aponta quando fala sobre Abraão: “Abraão, contra toda esperança, em esperança creu” (Rm 4.18). Talvez, seja aqui, observando as formigas e a história de Abraão, que encontremos nosso principal problema: nós precisamos crer contra toda a esperança. Ainda que carregar um pedacinho de folha pareça ser algo muito pequeno, ainda que não tenhamos sinal algum do cumprimento da promessa.

Parece que ano após ano, nesta sociedade movida pelo status e pela comparação, esperamos ver para crer. Queremos estádios cheios, estatísticas que apontam crescimento, políticos e influenciadores que se declaram cristãos, tudo isso para que possamos acreditar que a promessa de Deus está se cumprindo, que somos um povo abençoado e que há mérito em nossos atos. Parecemos mais com fariseus do que com Abraão.
O que aconteceria se abríssemos mão daquilo que achamos que é a promessa? E se abríssemos mão dos nossos templos lotados? Da nossa influência? Do nosso desejo de estarmos sempre certos? E se a nossa promessa não fosse um objetivo a ser alcançado ou uma realidade a ser concretizada? E se nossa promessa fosse uma pessoa?
Se considerássemos estar com Deus e viver para a sua glória como a nossa maior promessa, não ficaríamos tão desesperados quando as coisas saem do nosso controle, porque ainda teríamos conosco o mais importante: o próprio Deus. No entanto, a promessa de Deus nos parece ser muito mais interessante do que o Deus da promessa. Nossos corações estão viciados em adorar a si mesmos.
Queremos um país evangélico, queremos políticos evangélicos e mais influência porque, no fim, queremos ser adorados. Achamos que fazer a nossa própria vontade a qualquer custo nos fará alcançar a paz da qual necessitamos. Esquecemos muito rápido da nossa natureza caída, dos nossos pecados que nos colocam exatamente no mundo em que vivemos hoje: um mundo que vira a cara para Deus. Se pregamos por aí (vocalmente ou não) que vale tudo para alcançar o que queremos, em que exatamente nos diferenciamos daqueles que odeiam o evangelho?
Israel tentou seguir por esse caminho. Eles tentaram pegar atalhos e adorar outros deuses para que as promessas de Deus fossem cumpridas. Nada funcionou, a não ser a vida fiel, muitas vezes dolorosa, mas de confiança imutável no Deus todo poderoso.
Se este ano decidirmos colocar nossas paixões e desejos em ordem, se decidirmos cada um levar um pequeno pedaço de folha, se decidirmos nos preparar para o inverno, se decidirmos crer contra toda a esperança, chegaremos em dezembro satisfeitos não porque Deus foi fiel à “promessa”, mas porque Deus é fiel e nós colocamos nossa esperança nele.
REVISTA ULTIMATO – GENEROSIDADE - "HÁ MAIOR FELICIDADE EM DAR DO QUE EM RECEBER! (ATOS 20.35)
A generosidade é paradoxal! Que dá recebe em troca. E é multifacetada, podendo apresentar-se de muitas formas, e não apenas na doação de recursos materiais e dinheiro.
Deus conta com a generosidade na relações humanas e nas relações dentro da igreja. Ela é um elemento previsto por ele para o bem comum e para o avanço de sua obra.
É disso que trata a edição 418. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
» Cristianismo Antigo para Tempos Novos – Amor à Bíblia, Vida Intelectual e Fé Pública, Paul Freston
» Cristianismo e Política – Teoria bíblica e prática histórica, Robinson Cavalcanti
» Box John Stott – O Cristão Contemporâneo
» Entre a crise e a esperança: fé e migração na fronteira Colômbia-Venezuela, Entrevista, por Mariana Albuquerque
» Guerra novamente, por Rula Khoury Mansour
Por Mariana Albuquerque
Estou escrevendo este texto em abril de 2026. Este tem sido um ano de muitos eventos: conflitos na América Latina, mais guerras no Oriente Médio, escândalos de corrupção no Brasil que desafiam nossa imaginação e colocam seus tentáculos na Igreja. Não estamos nem no meio do ano e ainda temos pela frente uma Copa do Mundo e eleições. Esta última, talvez, será a mais desafiadora para nós, individualmente como seguidores de Cristo e coletivamente como corpo de Cristo.Honestamente, a eleição presidencial de 2022 provocou alguns ferimentos na minha alma que custaram a cicatrizar. Precisei de bons momentos de oração e comunhão para apaziguar pensamentos e desejos; precisei ser honesta comigo mesma sobre o tamanho do meu ego; precisei me confrontar sobre meus pecados para poder olhar para meus irmãos, especialmente aqueles a quem não conheço pessoalmente, com mais empatia e compreensão.
Será que 2026 será pior que 2022? Eu oro para que não. Oro para que tenhamos aprendido algo com nossa experiência passada. Estamos claramente cansados, exaustos do caos e da polarização. Alguns irmãos que antes sentavam na mesma mesa, hoje não conseguem mais dialogar – mesmo sobre temas teológicos, já que muitos assuntos foram sequestrados por lados políticos. Alguns líderes tornaram-se irreconhecíveis e não conseguem mais fazer uma pregação se quer sem pensar sobre viralização de conteúdo e mobilização política.
Como ter bom ânimo diante de tudo isso? Como juntar os cacos de um coração destroçado pelo medo e pelo ressentimento? Como ter esperança?
Nós não temos como controlar absolutamente nada. Das eleições à reputação da igreja, nosso poder de ação é quase insignificante. Certo dia, depois de um período de fortes chuvas em Recife, PE, eu decidi sair para passear com minha cadela. No meio do caminho, me deparei com um grupo grande formigas, todas ordenadas, todas carregando pedacinhos de folhas ou frutos pequenos. Essas formigas, através do instinto e da habilidade de ler o tempo, sabem que o inverno está chegando e que precisam se preparar. Elas sabem que precisam de uma ação coletiva para atingir seu objetivo e reconhecem que individualmente elas podem muito pouco, mas juntas elas sobreviverão a mais um inverno.
Parece que as formigas têm mais fé do que nós, seres dotados de consciência e inteligência, temos. Ainda que a tarefa pareça ser impossível, elas creem. Creem contra toda esperança.
É desse tipo de fé que precisamos, o tipo de fé que Paulo aponta quando fala sobre Abraão: “Abraão, contra toda esperança, em esperança creu” (Rm 4.18). Talvez, seja aqui, observando as formigas e a história de Abraão, que encontremos nosso principal problema: nós precisamos crer contra toda a esperança. Ainda que carregar um pedacinho de folha pareça ser algo muito pequeno, ainda que não tenhamos sinal algum do cumprimento da promessa.

Parece que ano após ano, nesta sociedade movida pelo status e pela comparação, esperamos ver para crer. Queremos estádios cheios, estatísticas que apontam crescimento, políticos e influenciadores que se declaram cristãos, tudo isso para que possamos acreditar que a promessa de Deus está se cumprindo, que somos um povo abençoado e que há mérito em nossos atos. Parecemos mais com fariseus do que com Abraão.
O que aconteceria se abríssemos mão daquilo que achamos que é a promessa? E se abríssemos mão dos nossos templos lotados? Da nossa influência? Do nosso desejo de estarmos sempre certos? E se a nossa promessa não fosse um objetivo a ser alcançado ou uma realidade a ser concretizada? E se nossa promessa fosse uma pessoa?
Se considerássemos estar com Deus e viver para a sua glória como a nossa maior promessa, não ficaríamos tão desesperados quando as coisas saem do nosso controle, porque ainda teríamos conosco o mais importante: o próprio Deus. No entanto, a promessa de Deus nos parece ser muito mais interessante do que o Deus da promessa. Nossos corações estão viciados em adorar a si mesmos.
Queremos um país evangélico, queremos políticos evangélicos e mais influência porque, no fim, queremos ser adorados. Achamos que fazer a nossa própria vontade a qualquer custo nos fará alcançar a paz da qual necessitamos. Esquecemos muito rápido da nossa natureza caída, dos nossos pecados que nos colocam exatamente no mundo em que vivemos hoje: um mundo que vira a cara para Deus. Se pregamos por aí (vocalmente ou não) que vale tudo para alcançar o que queremos, em que exatamente nos diferenciamos daqueles que odeiam o evangelho?
Israel tentou seguir por esse caminho. Eles tentaram pegar atalhos e adorar outros deuses para que as promessas de Deus fossem cumpridas. Nada funcionou, a não ser a vida fiel, muitas vezes dolorosa, mas de confiança imutável no Deus todo poderoso.
Se este ano decidirmos colocar nossas paixões e desejos em ordem, se decidirmos cada um levar um pequeno pedaço de folha, se decidirmos nos preparar para o inverno, se decidirmos crer contra toda a esperança, chegaremos em dezembro satisfeitos não porque Deus foi fiel à “promessa”, mas porque Deus é fiel e nós colocamos nossa esperança nele.
- Mariana Albuquerque é jornalista, casada com Mateus e gerente de projetos das traduções da Christianity Today.
REVISTA ULTIMATO – GENEROSIDADE - "HÁ MAIOR FELICIDADE EM DAR DO QUE EM RECEBER! (ATOS 20.35)A generosidade é paradoxal! Que dá recebe em troca. E é multifacetada, podendo apresentar-se de muitas formas, e não apenas na doação de recursos materiais e dinheiro.
Deus conta com a generosidade na relações humanas e nas relações dentro da igreja. Ela é um elemento previsto por ele para o bem comum e para o avanço de sua obra.
É disso que trata a edição 418. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
» Cristianismo Antigo para Tempos Novos – Amor à Bíblia, Vida Intelectual e Fé Pública, Paul Freston
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