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Opinião

Guerra novamente

Quando é necessária a esperança obstinada, aquela que não precisa de boas notícias para sobreviver

Por Rula Khoury Mansour

Março de 2026

Escrevo a você, de Nazaré, com o coração pesado.

Quando fundamos o Nazareth Center for Peace Studies, carregávamos uma esperança teimosa, do tipo que não necessita de boas notícias para sobreviver.

Ainda a carregamos. Mas, está ficando mais pesada.

Esse é o terceiro ano consecutivo que nossa região vive às sombras da guerra: a guerra devastadora em Gaza e a violência contínua na Cisjordânia, a guerra com Hezbollah no Líbano, e mais tarde com Irã. E agora, novamente, outra guerra que parece puxar todo o Oriente Médio.

Todas as vezes o mesmo padrão: imenso sofrimento humano. Centenas de mísseis caindo em casas e bairros, vidas perdidas, famílias deslocadas, destruição e trauma que permanecem até muito depois de as sirenes pararem. Escolas fecham, voos são cancelados, encontros em igrejas não acontecem. Aqueles que têm abrigos ficam próximos a eles. Muitos não têm, e não estão seguros.

Há uma exaustão particular que se acomoda quando a crise deixa de ser uma interrupção e passa a ser rotina. O medo e a incerteza não desaparecem, eles só se instalam silenciosamente, como algo permanente.

Em algum momento, desisti do otimismo. Não da fé, mas da esperança fácil que acredita que as coisas vão melhorar porque elas deveriam melhorar.

O que tomou o seu lugar foi a raiva. Não a fúria ou a amargura, mas a recusa em ver crianças mortas, escolas bombardeadas, comunidades devastadas por anos de guerra, e considerar isso aceitável. Isso está errado. Não aceitarei isso. E não aceitarei as palavras que disfarçam isso: a linguagem que invoca o nome de Deus para justificar a violência, as teologias que confundem conquista com vocação e o silêncio daqueles que poderiam falar, mas não falam.

Frequentemente pensamos na esperança como algo suave, um desejo, um sentimento ou uma confiança tranquila. Um ditado atribuído a Santo Agostinho captura algo mais verdadeiro. Diz ele: "A esperança tem duas belas filhas: a raiva e a coragem. Raiva da situação atual. Coragem para perceber que as coisas não permanecem como estão".

Li isso e percebi que minha raiva não era uma falha de fé. Era a fé se recusando a aceitar o que via.

Esta não é a esperança que nos ensinaram a admirar. Esta esperança tem dentes.

Sua primeira filha olha para o mundo e se recusa a aceitar o que está errado. Sua segunda filha é a determinação obstinada que diz: "Agirei de qualquer maneira". Essa é a esperança que nos mantém trabalhando a partir de Nazaré. É uma esperança intensa, voltada para fora, para um mundo que precisa mudar e para um reino que está por vir.

Mas há dias em que as filhas de Agostinho não são suficientes.

Há manhãs em que a coragem é escassa e a raiva se dissipou. Quando as notícias são implacáveis, a dor é pesada e nada muda. Mesmo assim, você aparece. Não porque sinta que tem algo a oferecer, mas porque não sabe o que mais fazer.

Paulo vê algo nessa manifestação. Ele escreve: “Também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança. Ora, a esperança não confunde” (Rm5.3-5).

Os dias que parecem infrutíferos não são desperdiçados. As manhãs em que chegamos pesados, as orações que parecem se dissipar no silêncio, o trabalho que avança mais devagar do que o necessário. Deus está formando algo através do próprio cansaço.

A esperança de Agostinho se volta para fora: ela se indigna, ela age. A esperança de Paulo é forjada para dentro: lenta e dolorosamente, no íntimo da pessoa que persevera.

Juntos, eles representam a esperança que eu guardo.

Deixei de chamar isso de otimismo. O que tenho agora é uma esperança obstinada. Forjada no fogo, feroz o suficiente para agir, profunda o suficiente para perdurar.

Nós trabalhamos a partir de Nazaré, onde Jesus cresceu, andou e serviu. Nós tentamos, apesar de imperfeitamente, seguir seus passos. Nos dias difíceis, confiamos que ele está caminhando conosco, que a fé persiste sem frutos visíveis e que Deus trabalha no que não podemos ver.

Estar presente em lugares de dor não é nada. Pela construção da paz vale estar presente mesmo quando a paz não vem.

Não estamos escrevendo isso para parecer resilientes. Escrevemos porque queremos que você saiba que as suas orações, as suas mensagens e a sua solidariedade, de onde quer que esteja, nos alcançam.



Por favor, ore conosco:
• Pela proteção sobre as pessoas em todos os lados desses conflitos.
• Pelo conforto das famílias enlutadas e cura aos feridos.
• Por sabedoria e moderação para aqueles cujas decisões afetam milhões de vidas.
• Por essa terra que, um dia, será conhecida por algo além dos conflitos.
• Por nosso ministério, enquanto continuamos servindo e trabalhando nesses dias dolorosos.
• Que, mesmo agora, nessa escuridão, sementes de paz estejam se enraizando.

Obrigada por suas orações, seu encorajamento e seu apoio.

A construção da paz vale a pena mesmo quando a paz não chega.

Vem, Príncipe da Paz.

Em esperança teimosa,

Rula Khoury Mansour, PhD, fundadora e diretora do Nazareth Center for Peace Studies.


Traduzido por Ana Laura Morais.


Imagem: Unsplash.
Post atualizado em 13/4/2026.



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