Opinião
30 de abril de 2026- Visualizações: 46
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Os mineiros de Lota e o sentido de existir
Feliz aquele que, vivendo, vive, existindo, existe, podendo, faz, tendo, reparte
Por Artur César
O sentido da vida é viver
o sentido da existência é existir
Os mineiros de Lota e sua vida subterrânea.
O capacete, a lanterna, a bateria,
os protocolos, entrada, saída, o telefone magnético.
A mina, o carvão, as escoras que sustentam o túnel.
Companhias silenciosas de jornadas intermináveis.
A vida dura, sofrida, limitada à escuridão da mina de dia,
e à luz das estrelas e o frio da casa de madeira de noite.
Sim, também estes, devem ter e têm, algum sentido.
O sentido falado – pão, filhos, mulher, condições, teto.
E o sentido sentido – concentrar-se nas pedras,
operar a furadeira, abrir túneis, livrar-se de acidentes.
Sim, parto do pressuposto de que
em qualquer lugar, em qualquer tempo,
em qualquer condição, e para qualquer ser humano,
é possível, e necessário, que a vida tenha algum sentido.
Não aceito que este seja só permitido a quem tem casa,
comida, despensa, conforto.
Ou apenas a quem saiba as palavras certas e orações precisas,
e receba de sacerdotes humanos a validação ou condição de seu sentido.
Não, não aceito, e não creio que seja assim.
O Deus da existência não fez assim.
Ela também, teimosa, não o deixaria fazê-lo.
Vendo os mineiros de Lota, concluo que não é mesmo assim.
Sim, rejeito a aristocracia de propósitos em favor da vocação universal.
A dádiva, a vida, a graça, o sentido, o bem,
só podem existir, se forem universais,
como o ar que se respira, a luz e as trevas, o sol e a chuva, o calor e o frio.
Fôlego de vida dados a todos, sem distinção.
Por isso, o sentido não está no que se pode saber,
do que se pode dizer com palavras elaboradas,
ou no que se pode ter, possuir, tomar, ou conhecer.
Do contrário, seria de poucos.
Está, de fato, entretecido no próprio existir,
disponível no viver, pulsar e respirar.
Acessível em palácios e palafitas, no lar e na calçada, no templo e na mina.
Pois não disse Deus “muito bom” ao homem
depois deste fazer qualquer coisa ou prestar-lhe reverência, mas antes,
simplesmente quando existiu, sua imagem e semelhança,
pó da terra entretecido com o sopro de seu espírito.
Assim, é a priori que se dá o sentido,
a graça da existência, a qualificação do que nos dá propósito.
Portanto, em cada e para todo ser humano,
há de haver um sentido, intrínseco à vida,
tão vinculado e anterior à existência,
que nunca lhe será inacessível mesmo no maior sofrimento.
Algo no qual o sopro de seu criador nele se alegrará e ele também.
Seu respirar, caminhar ou sobreviver, lhe farão ouvir, no silêncio, “muito bom”.
Sim, estará sempre lá, sentido precursor da existência e disponível.
Não podendo, contudo, ser nomeado, tangido, descoberto.
Sim, sentido universal, mas palavra oculta,
mistério no qual se mergulha todo, ao viver e existir.
Mas como?
Fazendo o que tem de ser feito.
Abrindo os olhos, levantando-se do leito,
Dando ordem ao caos, sentido às coisas.
Sim, de certa maneira,
o sentido da vida é dar sentido a ela.
Não por meio de narrativas cósmicas,
mas pelas mãos que trabalham, amassam o pão e o repartem.
Afinal de contas, não é isso – dar sentido ao que se faz - o
ser imagem e semelhança dEle?
Assim, cada um, e todo ser humano,
é senhor de uma microexistência,
responsável por ordená-la, regê-la,
concedê-la sentido.
Cuidar de sua marreta, limpar seu capacete,
checar o cinto de proteção,
amealhar pão para os seus, suar o rosto.
Sua esperança não é uma tese,
mas checar a bateria da lanterna
e voltar para casa na escuridão do túnel.
Mesmo que não lhe seja dada a devida paga,
o devido soldo e o devido preço,
nunca roubarão a ele o sentido, mineiro da existência.
Cavando nas profundidades da escuridão,
inalando gases tóxicos, comendo com as mãos de carvão,
terá ele, eu creio, e preciso crer,
um sentido disponível, por que lhe precedente,
um entender sem expressar, propósito tácito que não se nomeia,
um algo existente, o qual, ao buscar, ao fazer, ao tentar, ao provar,
lhe será a recompensa do viver, e ele, mesmo em meio à injustiça humana,
mesmo que alegre-triste, encontrará seu sentido.
Pode chamar-lhe utopia, distração, discordar.
Mas não é esta a única verdadeira possibilidade que entrevemos?
Do contrário, que restaria aos bilhões que restam e restaram?
Condenados ao não ser, pela hierarquia do sentido material ou das palavras?
Não, do contrário, que outro sentido teria o absurdo?
Não justifico que a existência de sentido do mineiro isente o patrão.
Pelo contrário, pois o Sentido está vinculado, para cada um,
ao fazer o que deve ser feito.
Este princípio, valendo para o patrão,
lhe trará escolhas, consequenciais e inevitáveis.
Ao crescer e acumular, que escolherá ele?
Repartir, ou o sentido para si somente,
em castelos e jardins exclusivos?
Sim, pois como ao pai que nega pão aos filhos
é negado o sentido, não como castigo,
mas como consequência fenomenológica da estrutura das coisas,
o mesmo vale ao patrão que nega ao mineiro sua dignidade.
Pois resta, contra ele, a implacabilidade do “fazer o que tem de ser feito”.
De modo que a injustiça é filha do casamento entre
o não fazer o que deve ser feito,
com fazer o que não se deve ser feito.

Assim, ao mesmo tempo em que o sentido preexiste cada um,
ele é também consequentemente qualificado
pelas qualidades dos vínculos de cada um com seu redor.
Sendo revelado (concedido) ou ocultado (retirado)
conforme faz cada um, ou não faz, o que deve ser feito, com relação ao outro.
Por isso, o Sentido é implacável àquele a quem,
em lhe sendo pedido um copo d’água, o nega,
em tendo pão para repartir, não o faz,
em vendo o ferido no caminho, passa de largo,
e em contemplando o sofrimento, não vê o outro como a si mesmo.
A estes, vai desaparecendo o sentido,
enquanto aumentam sua fome e desespero,
mesmo em meio a fartura, palavras e rituais.
Pois nega este à existência a forma natural das coisas,
e à vida a continuidade.
Assim, cada um está também, inevitavelmente,
amarrado aos vínculos que lhe cercam.
Ninguém existe em si, sem chão comum - terra, sem o mesmo teto - céu.
Mas existe, e participa, do todo.
De forma que o sentido é antecedente e individual,
Mas também consequente e indissociável do todo.
E aquele que, não enxergando o outro,
nem lhe fazendo o que deve ser feito,
mata o outro em si, e mata a si mesmo,
e, negando a si próprio seu sentido,
desvincula-se do todo, que a todos liga,
e a todos concede individualmente seu sentido na interação com as partes.
A ele, sozinho, só resta o vazio do isolamento,
a separação do Sentido pelo abismo intransponível que construiu,
através do qual Lázaro não poderá lhe atravessar
uma refrescante gota d’água que antes negou.
Assim, ai do patrão, não porque é rico, mas porque pode mais e,
em podendo fazer o que deve ser feito, pode não querer.
Isto não concede, contudo, desculpa ao mineiro que,
em lhe sendo tirada sua dignidade,
amaldiçoa a existência e do sentido se desvincula,
pois se é isto que faz, é isto que ocorre.
De modo que, nem um, nem outro,
estão livres de armadilhas.
Portanto, feliz aquele que, vivendo, vive,
existindo, existe, podendo, faz, tendo, reparte.
Não deve, portanto, importar muito ao homem,
o que quer que seja que se faça,
desde que seja o que deve ser feito,
o que o momento pede, e a vida demanda.
A existência assim fez e necessita.
Assim, pois, o sentido é universal, e,
podendo estar oculto, é
encontrado quando concedido,
visto quando impresso,
vivido quando marcado na existência.
Semelhantemente à mina, que existe
mas se desnuda quando se lhe tira o carvão
assim é o todo:
ao mesmo tempo um sentido oculto,
antecedente a tudo e gracioso a todos,
e também a obra visível, construída a muitas mãos,
daqueles que o procuram, revelam, concedem e encontram.
Por fim, que dizer sobre aquele que assim fez estas coisas?
Que deu a todos, a existência, o sentido, o fôlego, o nome?
Que dá, a bons e maus, iguais, chuva e sol?
Que lhes dá a mina para que procurem nela seu sentido?
Precisa Ele de defesa, ser lembrado ou nomeado?
Do nascente ao poente, em toda terra,
lhe são oferecidas existências que não sabem seu nome.
Que ames a justiça, pratiques a misericórdia,
e assim andes humildemente com ele,
é isto algo diferente de fazer o que deve ser feito?
Portanto, em cada vida,
em cada encontro humano
e em cada trabalho humano,
há um Algo, um sagrado.
Mesmo que não consagrado,
com ritual consciente e letrado,
o que se fez, quando é o que deveria ser feito,
já está consagrado, consignado pela teologia do cotidiano.
Pois, o expressar exato daquele que a tudo assim fez
não é um nome, ritual ou uma consciência
pretensamente santificada por palavras humanas,
mas um modo de viver e existir,
ser pão para a vida, água para a sede.
Um modo de encarnar.
A própria encarnação do próprio sentido das coisas.
Nota do autor:
Foi uma visita à cidade de Lota e à sua mina que inspiraram este texto.
Lota fica no sul do Chile, na Região do Biobío, e foi por mais de um século o coração da indústria carbonífera chilena. A mina mais famosa – e mais temida – é chamada de Chiflón del Diablo. Chiflón vem do espanhol e designa uma corrente de ar fria e penetrante que sopra pelos túneis subterrâneos. O nome era, ao mesmo tempo, uma descrição e um presságio.
A exploração do carvão começou em 1852, quando o empresário Matías Cousiño iniciou as operações. Por décadas, Lota foi símbolo do progresso industrial chileno – a primeira cidade do país a ter ferrovia e luz elétrica, além da primeira hidrelétrica da América do Sul. Mas esse progresso foi construído sobre o trabalho de homens que desciam centenas de metros abaixo do nível do mar, muitas vezes de joelhos, em túneis escavados sob o próprio oceano Pacífico.
O guia que nos conduziu pela mina era um ex-mineiro. Falava do antigo trabalho com uma mistura de orgulho e melancolia que só quem viveu aquilo por dentro consegue transmitir. E foi ele quem me fez perceber algo que o texto tenta articular: que, apesar de toda a opressão e dureza, havia ali um sentido – uma dignidade irredutível que nem as condições mais brutais conseguiam extinguir.
Em 1997, a mina foi fechada de um dia para o outro, quando a empresa estatal declarou o fim das operações. Sem transição, sem alternativa, sem futuro imediato. O que se seguiu foi uma catástrofe social silenciosa: desemprego em massa, êxodo, desintegração de uma identidade coletiva construída ao longo de cinco gerações. A população, que chegou a 80 mil habitantes nos anos 1980, caiu para menos de 40 mil nos anos seguintes.
Desde então, Lota tenta se reinventar – pelo turismo, pela memória, pelo reconhecimento do seu patrimônio histórico. A mina hoje é monumento nacional e atração turística. Mas a cidade ainda carrega as marcas de quem perdeu não apenas o emprego, mas o eixo em torno do qual toda uma forma de vida se organizava.
Foi desse lugar – e dessa conversa com um homem que amou um trabalho que o mundo decidiu que não valia mais – que nasceu este texto.
Imagem: Flickr.
REVISTA ULTIMATO – A ARTE PRECISA DE JUSTIFICATIVA?
“Arte” pode tornar-se um tema elitista, mas não é o caso da matéria de capa oferecida na edição 419 de Ultimato.
Os artigos ressaltam a “beleza de Deus” e o fato de termos sido feitos à sua imagem e semelhança, o que torna a arte (sua apreciação ou o fazer artístico) disponível para todos – “Sejam encanadores, coletores de lixo, taxistas ou CEOs, somos chamados pelo Grande Artista a cocriar. O Artista nos chama, a nós, artistas com ‘a’ minúsculo, para cocriar, para compartilhar a ‘irrupção celestial’ na terra quebrada” (Makoto Fujimura).
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Saiba mais:
» Pessoas: Humanas e Divinas – Ensaios sobre a natureza e o valor das pessoas, Peter van Inwagen
» Deus em Questão – C. S. Lewis e Freud debatem Deus, amor, sexo e o sentido da vida, Armand M. Nicholi
» Conhecendo a Deus ao Longo do Ano – Meditações diárias, J. I. Packer
Por Artur César
O sentido da vida é vivero sentido da existência é existir
Os mineiros de Lota e sua vida subterrânea.
O capacete, a lanterna, a bateria,
os protocolos, entrada, saída, o telefone magnético.
A mina, o carvão, as escoras que sustentam o túnel.
Companhias silenciosas de jornadas intermináveis.
A vida dura, sofrida, limitada à escuridão da mina de dia,
e à luz das estrelas e o frio da casa de madeira de noite.
Sim, também estes, devem ter e têm, algum sentido.
O sentido falado – pão, filhos, mulher, condições, teto.
E o sentido sentido – concentrar-se nas pedras,
operar a furadeira, abrir túneis, livrar-se de acidentes.
Sim, parto do pressuposto de que
em qualquer lugar, em qualquer tempo,
em qualquer condição, e para qualquer ser humano,
é possível, e necessário, que a vida tenha algum sentido.
Não aceito que este seja só permitido a quem tem casa,
comida, despensa, conforto.
Ou apenas a quem saiba as palavras certas e orações precisas,
e receba de sacerdotes humanos a validação ou condição de seu sentido.
Não, não aceito, e não creio que seja assim.
O Deus da existência não fez assim.
Ela também, teimosa, não o deixaria fazê-lo.
Vendo os mineiros de Lota, concluo que não é mesmo assim.
Sim, rejeito a aristocracia de propósitos em favor da vocação universal.
A dádiva, a vida, a graça, o sentido, o bem,
só podem existir, se forem universais,
como o ar que se respira, a luz e as trevas, o sol e a chuva, o calor e o frio.
Fôlego de vida dados a todos, sem distinção.
Por isso, o sentido não está no que se pode saber,
do que se pode dizer com palavras elaboradas,
ou no que se pode ter, possuir, tomar, ou conhecer.
Do contrário, seria de poucos.
Está, de fato, entretecido no próprio existir,
disponível no viver, pulsar e respirar.
Acessível em palácios e palafitas, no lar e na calçada, no templo e na mina.
Pois não disse Deus “muito bom” ao homem
depois deste fazer qualquer coisa ou prestar-lhe reverência, mas antes,
simplesmente quando existiu, sua imagem e semelhança,
pó da terra entretecido com o sopro de seu espírito.
Assim, é a priori que se dá o sentido,
a graça da existência, a qualificação do que nos dá propósito.
Portanto, em cada e para todo ser humano,
há de haver um sentido, intrínseco à vida,
tão vinculado e anterior à existência,
que nunca lhe será inacessível mesmo no maior sofrimento.
Algo no qual o sopro de seu criador nele se alegrará e ele também.
Seu respirar, caminhar ou sobreviver, lhe farão ouvir, no silêncio, “muito bom”.
Sim, estará sempre lá, sentido precursor da existência e disponível.
Não podendo, contudo, ser nomeado, tangido, descoberto.
Sim, sentido universal, mas palavra oculta,
mistério no qual se mergulha todo, ao viver e existir.
Mas como?
Fazendo o que tem de ser feito.
Abrindo os olhos, levantando-se do leito,
Dando ordem ao caos, sentido às coisas.
Sim, de certa maneira,
o sentido da vida é dar sentido a ela.
Não por meio de narrativas cósmicas,
mas pelas mãos que trabalham, amassam o pão e o repartem.
Afinal de contas, não é isso – dar sentido ao que se faz - o
ser imagem e semelhança dEle?
Assim, cada um, e todo ser humano,
é senhor de uma microexistência,
responsável por ordená-la, regê-la,
concedê-la sentido.
Cuidar de sua marreta, limpar seu capacete,
checar o cinto de proteção,
amealhar pão para os seus, suar o rosto.
Sua esperança não é uma tese,
mas checar a bateria da lanterna
e voltar para casa na escuridão do túnel.
Mesmo que não lhe seja dada a devida paga,
o devido soldo e o devido preço,
nunca roubarão a ele o sentido, mineiro da existência.
Cavando nas profundidades da escuridão,
inalando gases tóxicos, comendo com as mãos de carvão,
terá ele, eu creio, e preciso crer,
um sentido disponível, por que lhe precedente,
um entender sem expressar, propósito tácito que não se nomeia,
um algo existente, o qual, ao buscar, ao fazer, ao tentar, ao provar,
lhe será a recompensa do viver, e ele, mesmo em meio à injustiça humana,
mesmo que alegre-triste, encontrará seu sentido.
Pode chamar-lhe utopia, distração, discordar.
Mas não é esta a única verdadeira possibilidade que entrevemos?
Do contrário, que restaria aos bilhões que restam e restaram?
Condenados ao não ser, pela hierarquia do sentido material ou das palavras?
Não, do contrário, que outro sentido teria o absurdo?
Não justifico que a existência de sentido do mineiro isente o patrão.
Pelo contrário, pois o Sentido está vinculado, para cada um,
ao fazer o que deve ser feito.
Este princípio, valendo para o patrão,
lhe trará escolhas, consequenciais e inevitáveis.
Ao crescer e acumular, que escolherá ele?
Repartir, ou o sentido para si somente,
em castelos e jardins exclusivos?
Sim, pois como ao pai que nega pão aos filhos
é negado o sentido, não como castigo,
mas como consequência fenomenológica da estrutura das coisas,
o mesmo vale ao patrão que nega ao mineiro sua dignidade.
Pois resta, contra ele, a implacabilidade do “fazer o que tem de ser feito”.
De modo que a injustiça é filha do casamento entre
o não fazer o que deve ser feito,
com fazer o que não se deve ser feito.

Assim, ao mesmo tempo em que o sentido preexiste cada um,
ele é também consequentemente qualificado
pelas qualidades dos vínculos de cada um com seu redor.
Sendo revelado (concedido) ou ocultado (retirado)
conforme faz cada um, ou não faz, o que deve ser feito, com relação ao outro.
Por isso, o Sentido é implacável àquele a quem,
em lhe sendo pedido um copo d’água, o nega,
em tendo pão para repartir, não o faz,
em vendo o ferido no caminho, passa de largo,
e em contemplando o sofrimento, não vê o outro como a si mesmo.
A estes, vai desaparecendo o sentido,
enquanto aumentam sua fome e desespero,
mesmo em meio a fartura, palavras e rituais.
Pois nega este à existência a forma natural das coisas,
e à vida a continuidade.
Assim, cada um está também, inevitavelmente,
amarrado aos vínculos que lhe cercam.
Ninguém existe em si, sem chão comum - terra, sem o mesmo teto - céu.
Mas existe, e participa, do todo.
De forma que o sentido é antecedente e individual,
Mas também consequente e indissociável do todo.
E aquele que, não enxergando o outro,
nem lhe fazendo o que deve ser feito,
mata o outro em si, e mata a si mesmo,
e, negando a si próprio seu sentido,
desvincula-se do todo, que a todos liga,
e a todos concede individualmente seu sentido na interação com as partes.
A ele, sozinho, só resta o vazio do isolamento,
a separação do Sentido pelo abismo intransponível que construiu,
através do qual Lázaro não poderá lhe atravessar
uma refrescante gota d’água que antes negou.
Assim, ai do patrão, não porque é rico, mas porque pode mais e,
em podendo fazer o que deve ser feito, pode não querer.
Isto não concede, contudo, desculpa ao mineiro que,
em lhe sendo tirada sua dignidade,
amaldiçoa a existência e do sentido se desvincula,
pois se é isto que faz, é isto que ocorre.
De modo que, nem um, nem outro,
estão livres de armadilhas.
Portanto, feliz aquele que, vivendo, vive,
existindo, existe, podendo, faz, tendo, reparte.
Não deve, portanto, importar muito ao homem,
o que quer que seja que se faça,
desde que seja o que deve ser feito,
o que o momento pede, e a vida demanda.
A existência assim fez e necessita.
Assim, pois, o sentido é universal, e,
podendo estar oculto, é
encontrado quando concedido,
visto quando impresso,
vivido quando marcado na existência.
Semelhantemente à mina, que existe
mas se desnuda quando se lhe tira o carvão
assim é o todo:
ao mesmo tempo um sentido oculto,
antecedente a tudo e gracioso a todos,
e também a obra visível, construída a muitas mãos,
daqueles que o procuram, revelam, concedem e encontram.
Por fim, que dizer sobre aquele que assim fez estas coisas?
Que deu a todos, a existência, o sentido, o fôlego, o nome?
Que dá, a bons e maus, iguais, chuva e sol?
Que lhes dá a mina para que procurem nela seu sentido?
Precisa Ele de defesa, ser lembrado ou nomeado?
Do nascente ao poente, em toda terra,
lhe são oferecidas existências que não sabem seu nome.
Que ames a justiça, pratiques a misericórdia,
e assim andes humildemente com ele,
é isto algo diferente de fazer o que deve ser feito?
Portanto, em cada vida,
em cada encontro humano
e em cada trabalho humano,
há um Algo, um sagrado.
Mesmo que não consagrado,
com ritual consciente e letrado,
o que se fez, quando é o que deveria ser feito,
já está consagrado, consignado pela teologia do cotidiano.
Pois, o expressar exato daquele que a tudo assim fez
não é um nome, ritual ou uma consciência
pretensamente santificada por palavras humanas,
mas um modo de viver e existir,
ser pão para a vida, água para a sede.
Um modo de encarnar.
A própria encarnação do próprio sentido das coisas.
Nota do autor:
Foi uma visita à cidade de Lota e à sua mina que inspiraram este texto.
Lota fica no sul do Chile, na Região do Biobío, e foi por mais de um século o coração da indústria carbonífera chilena. A mina mais famosa – e mais temida – é chamada de Chiflón del Diablo. Chiflón vem do espanhol e designa uma corrente de ar fria e penetrante que sopra pelos túneis subterrâneos. O nome era, ao mesmo tempo, uma descrição e um presságio.
A exploração do carvão começou em 1852, quando o empresário Matías Cousiño iniciou as operações. Por décadas, Lota foi símbolo do progresso industrial chileno – a primeira cidade do país a ter ferrovia e luz elétrica, além da primeira hidrelétrica da América do Sul. Mas esse progresso foi construído sobre o trabalho de homens que desciam centenas de metros abaixo do nível do mar, muitas vezes de joelhos, em túneis escavados sob o próprio oceano Pacífico.
O guia que nos conduziu pela mina era um ex-mineiro. Falava do antigo trabalho com uma mistura de orgulho e melancolia que só quem viveu aquilo por dentro consegue transmitir. E foi ele quem me fez perceber algo que o texto tenta articular: que, apesar de toda a opressão e dureza, havia ali um sentido – uma dignidade irredutível que nem as condições mais brutais conseguiam extinguir.
Em 1997, a mina foi fechada de um dia para o outro, quando a empresa estatal declarou o fim das operações. Sem transição, sem alternativa, sem futuro imediato. O que se seguiu foi uma catástrofe social silenciosa: desemprego em massa, êxodo, desintegração de uma identidade coletiva construída ao longo de cinco gerações. A população, que chegou a 80 mil habitantes nos anos 1980, caiu para menos de 40 mil nos anos seguintes.
Desde então, Lota tenta se reinventar – pelo turismo, pela memória, pelo reconhecimento do seu patrimônio histórico. A mina hoje é monumento nacional e atração turística. Mas a cidade ainda carrega as marcas de quem perdeu não apenas o emprego, mas o eixo em torno do qual toda uma forma de vida se organizava.
Foi desse lugar – e dessa conversa com um homem que amou um trabalho que o mundo decidiu que não valia mais – que nasceu este texto.
- Artur César é professor de matemática na Universidade Federal de Itajubá. Casado com Andréia e pai de Ana, Elisa, Olívia e Josué. É membro da Primeira Igreja Presbiteriana de Itajubá, MG.
Imagem: Flickr.
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“Arte” pode tornar-se um tema elitista, mas não é o caso da matéria de capa oferecida na edição 419 de Ultimato.Os artigos ressaltam a “beleza de Deus” e o fato de termos sido feitos à sua imagem e semelhança, o que torna a arte (sua apreciação ou o fazer artístico) disponível para todos – “Sejam encanadores, coletores de lixo, taxistas ou CEOs, somos chamados pelo Grande Artista a cocriar. O Artista nos chama, a nós, artistas com ‘a’ minúsculo, para cocriar, para compartilhar a ‘irrupção celestial’ na terra quebrada” (Makoto Fujimura).
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