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01 de setembro de 2026- Visualizações: 52
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Evento celebra dez anos, reafirmando a “cidadania plena” do refugiado e migrante
O X Fórum Refugiados evento reuniu acadêmicos, líderes de organizações cristãs e igrejas evangélicas, ACNUR, Ministério da Justiça e refugiados e migrantes.
Por Lissânder Dias/Verbum Jornalismo
A décima edição do Fórum Refugiados, ocorrida de 19 a 21 de agosto, na UniEvangélica, em Anápolis (GO), celebrou uma década da iniciativa, reafirmando a “cidadania plena” do refugiado e migrante, conectando fé, missão e o cenário social contemporâneo. Participaram acadêmicos, universitários, líderes de organizações cristãs e igrejas evangélicas, além dos mais afetados nos fenômenos migratórios: os próprios refugiados e migrantes. Estiveram presentes ainda representantes da ACNUR (Alto (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados) e do Ministério da Justiça.
O X Fórum teve a presença de cerca de 130 pessoas ao longo do evento (chegando a 400 no primeiro dia), mas também pode ser assistido no formato online na plataforma do Youtube. A representação geográfica foi surpreendente: gente de 13 estados brasileiros e de 10 outros países (Angola, Bangladesh, Bolívia, Colômbia, Cuba, Guiné Bissau, Iraque, Paquistão, Síria e Venezuela).
Tema de debate e diálogo
Organizado pela Associação Casa, com apoio de várias organizações, entre elas, a UniEvangélica, o evento levou como tema para debate e diálogo as "Novas dimensões do acolhimento - do direito à cidadania plena”. Divididos em seis trilhas temáticas, preletores e especialistas desenvolveram os assuntos em torno do Direito, da História e das histórias reais de quem vive na pele (e no passaporte) as consequências e desafios de ter saído de sua casa, de sua terra, de sua cultura e de seu trabalho.
Antes do Fórum, no entanto, foi realizado na tarde do dia 19, um diálogo acadêmico com temas ligados à migração, refúgio e acolhimento. Cerca de 30 pessoas participaram, entre eles, pesquisadores, docentes, estudantes, lideranças religiosas e organizações da sociedade civil, com o objetivo de consolidar uma rede de conhecimento e cooperação, valorizando tanto a produção científica quanto às práticas sociais que emergem no contexto do acolhimento a pessoas em mobilidade.
Abertura: “refugiado também é uma questão teológica”
A palavra de abertura do X Fórum Refugiados foi proferida, no dia 19, por volta das 19h30, pelo capelão da UniEvangélica, Rev. Heliel Gomes de Carvalho. “Há quatro grupos de pessoas mencionadas exaustivamente na Bíblia: órfãos, viúvas, pobres e estrangeiros/refugiados. A questão do refugiado, portanto, não é apenas político, humanitário/migratório. É uma questão teológica, de dignidade humana, hospitalidade, justiça, missão e amor ao próximo”, disse ele. Falaram também o Dr. Ernei de Oliveira Pina, Presidente da Associação Educativa Evangélica e Chanceler da UniEvangélica, enfatizando a importância de trabalharmos juntos, e o presidente da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), Rev. Erni Walter Seibert, destacando que “a Bíblia é o maior livro de histórias de refugiados”. Esteve presente também o Pr. Rocindes José Correa, Coordenador Institucional do Programa UniMissões.
Os diretores da Associação Casa, Tércio Sá Freire e Débora Fahur, apresentaram a organização e a trajetória do Fórum até aqui. Na ocasião, o público assistiu a um vídeo que traçou uma linha do tempo dos 10 anos de realização deste evento. “Mais que recordar datas e acontecimentos, a retrospectiva permitiu reconhecer pessoas, iniciativas e relações que ajudaram a construir essa história e que continuam dando sentido à missão do Fórum”, explica Sandra de Medeiros Campos, mobilizadora do Fórum. A noite ainda contou com a apresentação do Programa Jovens Líderes, uma iniciativa da Associação Casa que investe na formação e no protagonismo de novas gerações comprometidas com a temática da migração, do refúgio e do acolhimento.
Em seguida, o Prof. Carlos Hassel Mendes da Silva, Reitor da UniEvangélica, abriu a edição comemorativa, destacando a alegria de receber o evento e a importância de realizá-lo em uma cidade do interior do Brasil.
Direitos em Trânsito: Desafios e Possibilidades (Trilha 1)
Direito Internacional Migratório
Uma aula magna em formato de painel, abordou o tema “Direito Internacional Migratório”, com a moderação de Mariana Costa, supervisora do CAJE (Centro de Atendimento Jurídico ao Estrangeiro) da UniEvangélica. Participaram Maria Eliana Barona, representante Adjunta do ACNUR no Brasil, e o professor João Henrique Ribeiro Roriz, coordenador de pesquisa da Cátedra Sérgio Vieira de Mello (UFG).
Maria Eliana lembrou que 75 anos depois da Convenção das Nações Unidas relativa ao Estatuto do Refugiado (1951), “o sistema internacional de proteção continua sendo necessário e precisa ser defendido”. Segundo ela, a proteção efetiva vem somada aos direitos exercidos. “Proteger significa garantir direitos”, resume ela. Maria trouxe ainda uma questão atual, que é deslocamento prolongado. “A proteção não só na chegada, mas a longo prazo”. Segundo ela, 25 milhões de refugiados vivem em deslocamento prolongado. “Nossa meta é reduzir o deslocamento prologando em 50% até 2035”.
Já o professor João Roriz (UFG) esclareceu que o conceito de “refúgio” é diferente de “asilo”. “Nem todo mundo pode escolher ser refugiado, mas todos podem solicitar refúgio”, explica. Ele alertou ainda que o conceito de refúgio foi elaborado em 1951, pensando em homens europeus, fugindo do comunismo. Hoje em dia, segundo ele, há situações de refúgio, como os refugiados climáticos, que não são considerados legalmente refugiados.
Análise de Cenário Geopolítico Migratório Brasileiro (Trilha 2)
O segundo dia (20/08) do X Fórum Refugiados começou com a Trilha 2 “Análise de Cenário Geopolítico Migratório Brasileiro”. Iniciou logo pela manhã com uma reflexão inspirativa do presidente da Sociedade Bíblica do Brasil, Rev. Erni Walter Seibert. Ele ressaltou que a fé cristã é contracultural, mas convive com todas as culturas. “Desta fé, extraímos princípios de vida revelados quando Deus, por exemplo, socorre refugiados, e um dos refugiados era o seu filho Jesus. A mensagem de reconciliação a partir de uma família de refugiados que está no centro da nossa fé”, afirma.
A Realidade Atual da Migração no Brasil
No primeiro painel do dia, o tema foi “A Realidade Atual da Migração no Brasil”, com Débora Fahur, diretora de programas da Associação Casa (mediadora), Maria Eliana Barona, representante adjunta do ACNUR no Brasil, Leonardo Lino, do Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE) e Andréa Vettorassi, da Cátedra Sergio Vieira de Melo (UFG).
Maria Eliana Barona, cuja família veio do Líbano, apresentou um panorama geral do refúgio no Brasil, destacando a necessidade de garantir que a base de proteção construída seja mantida. “Hoje, o Brasil acolhe mais de 1 milhão de pessoas em necessidade de proteção internacional, provenientes de mais de 163 nacionalidades (mais de 70% vindos da Venezuela)”. Na integração com o público, Maria propôs um exercício em 10 segundos: “pense em cinco coisas que você levaria em uma mala se tivesse que sair agora para salvar a própria vida”. A dinâmica fez o público refletir sobre a situação emergencial dos refugiados.
Leonardo Lino, do CONARE, explicou qual o organograma deste órgão federal submetido ao Ministério da Justiça e, em seguida, ele expôs como funciona o Programa Nacional de Acolhida, uma iniciativa do Governo Federal em parceria com a sociedade civil para acolher pessoas em situação de vulnerabilidade. Os pontos fundamentais do programa são: 1) acolhimento, 2) proteção, 3) integração, 4) parceria, 5) presença local e 6) resultados baseados na transformação de vidas. Segundo Leonardo, o número de processos de refúgio tem aumentado bastante. “Hoje temos 160 mil processos (90.000 são de cubanos)”.
Andréa Vettorassi explicou como funciona a Cátedra Sergio Vieira de Melo (são 43 delas no Brasil) e compartilhou sua experiência dentro da universidade pensando a migração e o refúgio. “Comecei a estudar a migração há 20 anos. Para pensar a migração, não apenas acolher, mas também identificarmos quantos de nós somos frutos desses sistemas migratórios”. Ela compartilhou um ditado árabe que marcou o público: “A árvore quando está sendo cortada observa com tristeza que o cabo do machado é de madeira”. Para Andréa, as duas palavras-chaves para entender a situação de um refugiado são: redes e vulnerabilidade. “Quais redes eles conseguiram manter e quais foram quebradas? Como podemos ser agentes efetivos para construção de novas redes para eles? Quando a vulnerabilidade vira algo institucionalizado, ele se torna ‘vulneração’”.
Vozes em movimento: narrativas do deslocamento (Trilha 3)
O painel seguinte (dentro da Trilha 3 “Vozes em Movimento: Narrativas do Deslocamento”) trouxe o tema “Vivência do Migrante e Refugiado no contexto brasileiro”, com a participação do professor Flávio Veras, da UniEvangélica (mediador), do angolano (etnia pacomo) Benvindo Manima, pesquisador na área de Migração Forçada e Direitos Humanos, da venezuelana Lérderis Guerra, do Instituto Robson Cavalcanti, e do bangladês Partha Sarathi Sarker, da Calvary Church.
Benvindo lembrou sua trajetória desde a infância e seus desafios de adaptação no Brasil, bem como os preconceitos sofridos. “A migração da angolanos para o Brasil começou na década de 90. Eu cheguei em 1995 com 12 anos de idade. A migração de uma criança é ainda mais forçada que de um adulto, porque ela não tem idade de fazer decisões e de saber para onde e por que você está indo”.
Já a venezuelana Lérderis Guerra mora há oito anos no Brasil. “Tenho certeza de que a vivência do migrante no Brasil é bem variada. Não existe uma única experiência migratória: ela é atravessada pelo território, pela origem, pelo idioma e pela forma como somos percebidos”.
Partha Sarathi Sarker descreve que antes de vir para o Brasil, morou em quatro países: Bangladesh, Índia, Noruega e Austrália. “Eu estudei engenharia na Índia e continuei estudando na Noruega, onde conheci Jesus. Vivi oito anos na Austrália onde trabalhei. Meu país infelizmente continuava sendo um lugar perigoso para eu voltar. Então decidir viajar pela América do Sul e cheguei ao Brasil em 2014. Ao pisar no Brasil, foi imediato. Eu disse: é aqui que eu pertenço. E 12 anos depois, eu continuo pensando da mesma forma. Mas estar longe da minha família é a parte da minha história que ainda não terminou”.
Vozes no caminho da multiculturalidade (Trilha 4)
Na parte da tarde, o terceiro painel tratou do tema “A Multiculturalidade e o Acolhimento”, com moderação do Pr. Rocindes José Correa, consultor da UniEvangélica e participação do antropólogo Igor Shimura, da Pluripovos, da educadora Kênia Rodrigues, da Iglesia Presbiteriana Hispana do Brasil, e da missionária e publicitária Jennifer Soares, coordenadora da instituição Vila Minha Pátria, da Junta de Missões Mundiais da Convenção Batista Brasileira.
Igor Shimura ressaltou a diversidade cultural do brasileiro, mas alertou para um paradoxo. “Nunca estivemos tão conectados pela tecnologia e, ao mesmo tempo, tantas pessoas, inclusive os migrantes, experimentam a solidão, a depressão, o desespero. Precisamos redescobrir que nenhuma tecnologia substitui a presença, o olhar, o abraço, a escuta e o vínculo”.
Kênia relatou a experiência de acolhimento de refugiados por parte da sua igreja local. “Trabalhamos como missionários no Peru por 22 anos, mas tivemos que voltar ao Brasil. No retorno, assumimos o desafio de acolher refugiados hispanos em São Paulo. Descobrimos onde vivia a maioria deles, alugamos uma casa e a reformamos para transformá-la em um templo. Começamos a convidar os migrantes, mas eles não queriam entrar. Foi então que criamos uma ‘ponte’ com as aulas de português gratuitas. Vieram os aconselhamentos, discipulados e as conversões. Nosso objetivo não é somente ganhá-los para Cristo, mas realizar um acolhimento de verdade”.
“Falar de acolhimento em uma igreja multicultural é falar de muito mais do que receber pessoas na porta. É criar um ambiente em que cada um possa sentir que é visto, respeitado, amado e participante de uma família. Acolhimento é pertencer”, conclui ela.
“A gente acolhe e aprende a viver nesse universo multicultural”, resume Jennifer Soares, da Vila Minha Pátria. “Trabalhamos com refugiados há 4 anos e meio. Acolher, para nós, é criar condições para que a pessoa possa reconstruir a sua vida, sem abrir mão da sua identidade”.
Sessões formativas
Após o painel, o público foi dividido em três sessões formativas: 1) Infância migrante (Dra. Silvana Bezerra, da Visão Mundial), 2) Naturalização e Residência no Brasil (Profa. Mariana Costa e Prof. Marcos André, da UniEvangélica) e 3) Pesquisa de deslocamento interno na Colômbia (Dr. Milton Acosta, da Mesa Global). Em espaços diferentes, o público teve a oportunidade de uma interação mais próxima, com perguntas e respostas.
Memória e Futuro: Reconstruindo sentidos (Trilha 5)
À noite, o X Fórum realizou dois painéis, cujos respectivos temas foram: “Os direitos e a Regularização dos imigrantes no Brasil” e “Origens e destinos: Cultura, Memória e Pertencimento”, além de uma celebração emocionante pelos 10 anos do Fórum Refugiados.
Os direitos e a regularização dos imigrantes no Brasil
O primeiro painel da noite foi composto pela mediadora Maxilene Soares Correa, da Faculdade Evangélica Raízes, a haitiana doutoranda em educação Manael Bem Elshad e a doutora em Direito, Mariana Costa, da UniEvangélica.
Manael abordou o tema de sua pesquisa relacionado ao direito da educação das crianças imigrantes e refugiadas na cidade de Anápolis. “São crianças que carregam na pele memórias de deslocamentos e buscam possibilidades para construir um futuro com dignidade”. Usando dois teóricos da educação (o francês Edgar Morin e a brasileira Vera Candau), a doutoranda criticou o reducionismo burocrático nas instituições de ensino e o acolhimento da incerteza. Para ela, a escola deve ser um espaço de hibridização e negociação cultural, e não de assimilação forçada. “A escola precisa valorizar as memórias, narrativas e línguas de origem das crianças imigrantes”.
Já a professora Mariana abordou o tema da desinformação sobre o refugiado. “Muitos pensam que eles vieram para roubar nossos empregos”. Ela lembrou a história de uma médica ginecologista venezuelana que estava trabalhando como auxiliar de cozinheira no Brasil. “Infelizmente, uma lei não muda mentalidade”. Pessoas são tudo. São as que curam e as que ferem”, afirma ela.
10 anos do Fórum
Antes do último painel da noite, aconteceu um momento especial de celebração pelos 10 anos do Fórum Refugiados, com muitos depoimentos em vídeo emocionados e louvor a Deus por esta jornada. Débora Fahur e Tércio Freire, idealizadores e líderes do Fórum, foram homenageados.
Origens e destinos: Cultura, Memória e Pertencimento
A painel que encerrou a noite foi mediado por Haniele Laurindo, coordenador do programa de Jovens Líderes da Associação CASA, com a participação do angolano educador e músico Geraldino Kanhanga, do músico cubano Reinaldo Marcelino A. Silva, da venezuelana Germany Nazareth C. Millán, do casal de comerciantes sírios Lucia Nassar e Barrak Salah Aji, e de duas irmãs adolescentes iraquianas da Família Saad.
Cada um contou sua trajetória como imigrante, ressaltando ações de acolhimento e desafios de adaptação cultural no Brasil. “É difícil deixar tudo para trás. Você deixa uma parte de você aonde você vai”, diz Germany. “Eu sofria bullying por causa do meu sobrenome”, afirma Geraldino Kanhanga. “É muito complicado você vir ainda criança para um país que você nem sabia que existia”, confessa uma das irmãs iraquianas. “Minha família veio para cá sem falar português e os brasileiros nos ajudaram muito. O brasileiro é muito acolhedor”, agradece Lucia Nassar.
Novos Caminhos - Direção para o presente (Trilha 6)
O último dia do X Fórum foi marcado para um olhar profundo sobre modelos de acolhimento e integração.
Começou com um momento de oração presencial e online, com irmãos de outros lugares. Após a oração, o Pr. Valdir Steuernagel, inspirado pelo salmo 146, nos lembrou que “não somos apenas o povo da realidade, mas da vocação. Recebemos um chamado de Deus. O fórum nos faz lembrar qual a nossa vocação, como resposta ao sopro do Espírito. São essas palavras que proporcionam o enraizamento. Sem a Palavra, estamos abandonados no deserto da complexidade da vida”.
Ele convidou a estar com ele o jovem Antony, filho de pais palestinos, que nasceu em Honduras, mas com 10 anos de idade foi morar em Belém, na Palestina. “Sou de uma família de refugiados desde a década de 70”. Antony é cristão e estudou Teologia em Belém. “Encontrei minha vocação na Teologia e no trabalho com refugiados. Eu já trabalhei com refugiados no México, nos EUA, na Jordânia e em muitos outros lugares do mundo”.
Modelos de acolhimento e integração Mediação
No último painel do fórum Débora Fahur mediou a conversa com a advogada Sindy Nobre, do programa de Patrocínio Comunitário da organização Panahgah (em persa, “lugar seguro”), e com Paulo Illes, do programa de Acolhimento Integrado às Políticas Públicas, do CDHIC (Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante). Participou também do painel, em vídeo gravado, Niusarete Margarida de Lima, da Operação Acolhida do Ministério Desenvolvimento Social.
Niusarete lembrou que “acolher não é só dar um prato de comida e um teto. Acolher de verdade é garantir direitos. Cidadania começa por chamarmos pelo nome, e não pela nacionalidade”.
Sindy compara o Salmo 2 com Apocalipse 11 e ressalta que “somos convidados a caminhar com esses peregrinos em direção a Cristo, porque Deus dá o pão e a água ao peregrino por meio da igreja”. Ela explica que o “patrocínio comunitário” é uma via complementar de acolhida e detalha que atualmente o visto humanitário está obrigatoriamente ligado ao patrocínio comunitário, o que, segundo ela, transforma este programa de acolhimento em uma “política de barreira”. Sindy conclui dizendo que a igreja precisa estar à frente do acolhimento. “A igreja foi chamada para estar na frente, e não atrás”.
Paulo abordou o tema do acolhimento ao refugiado atrelado às políticas públicas. “É você entender que este acolhimento na vizinhança precisa estar ligado a uma política pública. Tive a oportunidade de criar a primeira política pública local de acolhimento ao refugiado. Foi em São Paulo. A estrutura da política migratória brasileira não está pensada na ótica da integração, mas sim na ótica do controle migratório. Mas o principal objetivo do visto humanitário é salvar vidas. De outra forma, você acaba deturpando uma política que era pensava para salvar vidas”. “Não há como construir um estado democrático sem a inclusão dos refugiados e imigrantes”, conclui ele.
Carta dos 10 anos
Após o painel, tivemos um momento especial de leitura da versão resumida da “Carta dos 10 anos” do Fórum Refugiados que celebra essa jornada e, ao mesmo tempo, desafia a igreja a acolher integralmente o migrante e refugiado. “Sonhamos com uma sociedade que não exclui, com uma igreja que acolhe e com um governo que promove estrutura social justa para todos”, diz um trecho da carta.
Uma mesa, um só povo unido pela cruz
Foi montada uma linda mesa com os elementos da Santa Ceia. Silêda Steuernagel conduziu o momento inicial da celebração, lembrando o salmo 137 e o valor dos objetos que carregam nossas histórias. Tal salmo descreve a tristeza do povo exilado em não poder cantar em Jerusalém. Eles penduraram suas liras nas árvores e choraram. Silêda lembrou quando morava nos Estados Unidos e, na despedida, ganhou uma pequena harpa de presente da igreja. “Eu não poderia deixar lá a harpa porque ela era um fator de ligação da identidade construída da relação que criamos com as pessoas do lugar. Eles me deram a harpa porque sabiam que eu gostava de cantar”.
Em seguida, Haniele Laurindo declamou um poema que ela escreveu quando morava em Lesbos, Grécia, como missionária trabalhando com refugiados.
O X Fórum terminou com a singela e bonita cerimônia de Santa Ceia, em que todos puderam participar da “mesa do Senhor” em comunhão e adoração. Conduzida pelos pastores Rocindes Correa e Alécio Silva, a Santa Ceia nos lembrou que “somos um só povo pelo poder da cruz”.
REVISTA ULTIMATO – VIVEMOS UMA EPIDEMIA DE SOLIDÃO?
A epidemia de solidão é um fenômeno global que ultrapassa fronteiras, níveis de renda, faixa etária e sofisticação tecnológica. Que consequências este cenário tem para a missão da igreja no mundo?
Talvez a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Saiba mais aqui.
Saiba mais:
» Unidade da Igreja e Cooperação na Missão
» Quando a Igreja Abraça a Cidade, Leandro Silva
Por Lissânder Dias/Verbum Jornalismo
A décima edição do Fórum Refugiados, ocorrida de 19 a 21 de agosto, na UniEvangélica, em Anápolis (GO), celebrou uma década da iniciativa, reafirmando a “cidadania plena” do refugiado e migrante, conectando fé, missão e o cenário social contemporâneo. Participaram acadêmicos, universitários, líderes de organizações cristãs e igrejas evangélicas, além dos mais afetados nos fenômenos migratórios: os próprios refugiados e migrantes. Estiveram presentes ainda representantes da ACNUR (Alto (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados) e do Ministério da Justiça.O X Fórum teve a presença de cerca de 130 pessoas ao longo do evento (chegando a 400 no primeiro dia), mas também pode ser assistido no formato online na plataforma do Youtube. A representação geográfica foi surpreendente: gente de 13 estados brasileiros e de 10 outros países (Angola, Bangladesh, Bolívia, Colômbia, Cuba, Guiné Bissau, Iraque, Paquistão, Síria e Venezuela).
Tema de debate e diálogo
Organizado pela Associação Casa, com apoio de várias organizações, entre elas, a UniEvangélica, o evento levou como tema para debate e diálogo as "Novas dimensões do acolhimento - do direito à cidadania plena”. Divididos em seis trilhas temáticas, preletores e especialistas desenvolveram os assuntos em torno do Direito, da História e das histórias reais de quem vive na pele (e no passaporte) as consequências e desafios de ter saído de sua casa, de sua terra, de sua cultura e de seu trabalho.
Antes do Fórum, no entanto, foi realizado na tarde do dia 19, um diálogo acadêmico com temas ligados à migração, refúgio e acolhimento. Cerca de 30 pessoas participaram, entre eles, pesquisadores, docentes, estudantes, lideranças religiosas e organizações da sociedade civil, com o objetivo de consolidar uma rede de conhecimento e cooperação, valorizando tanto a produção científica quanto às práticas sociais que emergem no contexto do acolhimento a pessoas em mobilidade.
Abertura: “refugiado também é uma questão teológica”
A palavra de abertura do X Fórum Refugiados foi proferida, no dia 19, por volta das 19h30, pelo capelão da UniEvangélica, Rev. Heliel Gomes de Carvalho. “Há quatro grupos de pessoas mencionadas exaustivamente na Bíblia: órfãos, viúvas, pobres e estrangeiros/refugiados. A questão do refugiado, portanto, não é apenas político, humanitário/migratório. É uma questão teológica, de dignidade humana, hospitalidade, justiça, missão e amor ao próximo”, disse ele. Falaram também o Dr. Ernei de Oliveira Pina, Presidente da Associação Educativa Evangélica e Chanceler da UniEvangélica, enfatizando a importância de trabalharmos juntos, e o presidente da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), Rev. Erni Walter Seibert, destacando que “a Bíblia é o maior livro de histórias de refugiados”. Esteve presente também o Pr. Rocindes José Correa, Coordenador Institucional do Programa UniMissões.
Os diretores da Associação Casa, Tércio Sá Freire e Débora Fahur, apresentaram a organização e a trajetória do Fórum até aqui. Na ocasião, o público assistiu a um vídeo que traçou uma linha do tempo dos 10 anos de realização deste evento. “Mais que recordar datas e acontecimentos, a retrospectiva permitiu reconhecer pessoas, iniciativas e relações que ajudaram a construir essa história e que continuam dando sentido à missão do Fórum”, explica Sandra de Medeiros Campos, mobilizadora do Fórum. A noite ainda contou com a apresentação do Programa Jovens Líderes, uma iniciativa da Associação Casa que investe na formação e no protagonismo de novas gerações comprometidas com a temática da migração, do refúgio e do acolhimento.
Em seguida, o Prof. Carlos Hassel Mendes da Silva, Reitor da UniEvangélica, abriu a edição comemorativa, destacando a alegria de receber o evento e a importância de realizá-lo em uma cidade do interior do Brasil.
Direitos em Trânsito: Desafios e Possibilidades (Trilha 1)
Direito Internacional Migratório
Uma aula magna em formato de painel, abordou o tema “Direito Internacional Migratório”, com a moderação de Mariana Costa, supervisora do CAJE (Centro de Atendimento Jurídico ao Estrangeiro) da UniEvangélica. Participaram Maria Eliana Barona, representante Adjunta do ACNUR no Brasil, e o professor João Henrique Ribeiro Roriz, coordenador de pesquisa da Cátedra Sérgio Vieira de Mello (UFG).
Maria Eliana lembrou que 75 anos depois da Convenção das Nações Unidas relativa ao Estatuto do Refugiado (1951), “o sistema internacional de proteção continua sendo necessário e precisa ser defendido”. Segundo ela, a proteção efetiva vem somada aos direitos exercidos. “Proteger significa garantir direitos”, resume ela. Maria trouxe ainda uma questão atual, que é deslocamento prolongado. “A proteção não só na chegada, mas a longo prazo”. Segundo ela, 25 milhões de refugiados vivem em deslocamento prolongado. “Nossa meta é reduzir o deslocamento prologando em 50% até 2035”.
Já o professor João Roriz (UFG) esclareceu que o conceito de “refúgio” é diferente de “asilo”. “Nem todo mundo pode escolher ser refugiado, mas todos podem solicitar refúgio”, explica. Ele alertou ainda que o conceito de refúgio foi elaborado em 1951, pensando em homens europeus, fugindo do comunismo. Hoje em dia, segundo ele, há situações de refúgio, como os refugiados climáticos, que não são considerados legalmente refugiados.
Análise de Cenário Geopolítico Migratório Brasileiro (Trilha 2)
O segundo dia (20/08) do X Fórum Refugiados começou com a Trilha 2 “Análise de Cenário Geopolítico Migratório Brasileiro”. Iniciou logo pela manhã com uma reflexão inspirativa do presidente da Sociedade Bíblica do Brasil, Rev. Erni Walter Seibert. Ele ressaltou que a fé cristã é contracultural, mas convive com todas as culturas. “Desta fé, extraímos princípios de vida revelados quando Deus, por exemplo, socorre refugiados, e um dos refugiados era o seu filho Jesus. A mensagem de reconciliação a partir de uma família de refugiados que está no centro da nossa fé”, afirma.A Realidade Atual da Migração no Brasil
No primeiro painel do dia, o tema foi “A Realidade Atual da Migração no Brasil”, com Débora Fahur, diretora de programas da Associação Casa (mediadora), Maria Eliana Barona, representante adjunta do ACNUR no Brasil, Leonardo Lino, do Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE) e Andréa Vettorassi, da Cátedra Sergio Vieira de Melo (UFG).
Maria Eliana Barona, cuja família veio do Líbano, apresentou um panorama geral do refúgio no Brasil, destacando a necessidade de garantir que a base de proteção construída seja mantida. “Hoje, o Brasil acolhe mais de 1 milhão de pessoas em necessidade de proteção internacional, provenientes de mais de 163 nacionalidades (mais de 70% vindos da Venezuela)”. Na integração com o público, Maria propôs um exercício em 10 segundos: “pense em cinco coisas que você levaria em uma mala se tivesse que sair agora para salvar a própria vida”. A dinâmica fez o público refletir sobre a situação emergencial dos refugiados.
Leonardo Lino, do CONARE, explicou qual o organograma deste órgão federal submetido ao Ministério da Justiça e, em seguida, ele expôs como funciona o Programa Nacional de Acolhida, uma iniciativa do Governo Federal em parceria com a sociedade civil para acolher pessoas em situação de vulnerabilidade. Os pontos fundamentais do programa são: 1) acolhimento, 2) proteção, 3) integração, 4) parceria, 5) presença local e 6) resultados baseados na transformação de vidas. Segundo Leonardo, o número de processos de refúgio tem aumentado bastante. “Hoje temos 160 mil processos (90.000 são de cubanos)”.
Andréa Vettorassi explicou como funciona a Cátedra Sergio Vieira de Melo (são 43 delas no Brasil) e compartilhou sua experiência dentro da universidade pensando a migração e o refúgio. “Comecei a estudar a migração há 20 anos. Para pensar a migração, não apenas acolher, mas também identificarmos quantos de nós somos frutos desses sistemas migratórios”. Ela compartilhou um ditado árabe que marcou o público: “A árvore quando está sendo cortada observa com tristeza que o cabo do machado é de madeira”. Para Andréa, as duas palavras-chaves para entender a situação de um refugiado são: redes e vulnerabilidade. “Quais redes eles conseguiram manter e quais foram quebradas? Como podemos ser agentes efetivos para construção de novas redes para eles? Quando a vulnerabilidade vira algo institucionalizado, ele se torna ‘vulneração’”.
Vozes em movimento: narrativas do deslocamento (Trilha 3)
O painel seguinte (dentro da Trilha 3 “Vozes em Movimento: Narrativas do Deslocamento”) trouxe o tema “Vivência do Migrante e Refugiado no contexto brasileiro”, com a participação do professor Flávio Veras, da UniEvangélica (mediador), do angolano (etnia pacomo) Benvindo Manima, pesquisador na área de Migração Forçada e Direitos Humanos, da venezuelana Lérderis Guerra, do Instituto Robson Cavalcanti, e do bangladês Partha Sarathi Sarker, da Calvary Church.Benvindo lembrou sua trajetória desde a infância e seus desafios de adaptação no Brasil, bem como os preconceitos sofridos. “A migração da angolanos para o Brasil começou na década de 90. Eu cheguei em 1995 com 12 anos de idade. A migração de uma criança é ainda mais forçada que de um adulto, porque ela não tem idade de fazer decisões e de saber para onde e por que você está indo”.
Já a venezuelana Lérderis Guerra mora há oito anos no Brasil. “Tenho certeza de que a vivência do migrante no Brasil é bem variada. Não existe uma única experiência migratória: ela é atravessada pelo território, pela origem, pelo idioma e pela forma como somos percebidos”.
Partha Sarathi Sarker descreve que antes de vir para o Brasil, morou em quatro países: Bangladesh, Índia, Noruega e Austrália. “Eu estudei engenharia na Índia e continuei estudando na Noruega, onde conheci Jesus. Vivi oito anos na Austrália onde trabalhei. Meu país infelizmente continuava sendo um lugar perigoso para eu voltar. Então decidir viajar pela América do Sul e cheguei ao Brasil em 2014. Ao pisar no Brasil, foi imediato. Eu disse: é aqui que eu pertenço. E 12 anos depois, eu continuo pensando da mesma forma. Mas estar longe da minha família é a parte da minha história que ainda não terminou”.
Vozes no caminho da multiculturalidade (Trilha 4)
Na parte da tarde, o terceiro painel tratou do tema “A Multiculturalidade e o Acolhimento”, com moderação do Pr. Rocindes José Correa, consultor da UniEvangélica e participação do antropólogo Igor Shimura, da Pluripovos, da educadora Kênia Rodrigues, da Iglesia Presbiteriana Hispana do Brasil, e da missionária e publicitária Jennifer Soares, coordenadora da instituição Vila Minha Pátria, da Junta de Missões Mundiais da Convenção Batista Brasileira.
Igor Shimura ressaltou a diversidade cultural do brasileiro, mas alertou para um paradoxo. “Nunca estivemos tão conectados pela tecnologia e, ao mesmo tempo, tantas pessoas, inclusive os migrantes, experimentam a solidão, a depressão, o desespero. Precisamos redescobrir que nenhuma tecnologia substitui a presença, o olhar, o abraço, a escuta e o vínculo”.
Kênia relatou a experiência de acolhimento de refugiados por parte da sua igreja local. “Trabalhamos como missionários no Peru por 22 anos, mas tivemos que voltar ao Brasil. No retorno, assumimos o desafio de acolher refugiados hispanos em São Paulo. Descobrimos onde vivia a maioria deles, alugamos uma casa e a reformamos para transformá-la em um templo. Começamos a convidar os migrantes, mas eles não queriam entrar. Foi então que criamos uma ‘ponte’ com as aulas de português gratuitas. Vieram os aconselhamentos, discipulados e as conversões. Nosso objetivo não é somente ganhá-los para Cristo, mas realizar um acolhimento de verdade”.
“Falar de acolhimento em uma igreja multicultural é falar de muito mais do que receber pessoas na porta. É criar um ambiente em que cada um possa sentir que é visto, respeitado, amado e participante de uma família. Acolhimento é pertencer”, conclui ela.
“A gente acolhe e aprende a viver nesse universo multicultural”, resume Jennifer Soares, da Vila Minha Pátria. “Trabalhamos com refugiados há 4 anos e meio. Acolher, para nós, é criar condições para que a pessoa possa reconstruir a sua vida, sem abrir mão da sua identidade”.
Sessões formativas
Após o painel, o público foi dividido em três sessões formativas: 1) Infância migrante (Dra. Silvana Bezerra, da Visão Mundial), 2) Naturalização e Residência no Brasil (Profa. Mariana Costa e Prof. Marcos André, da UniEvangélica) e 3) Pesquisa de deslocamento interno na Colômbia (Dr. Milton Acosta, da Mesa Global). Em espaços diferentes, o público teve a oportunidade de uma interação mais próxima, com perguntas e respostas.
Memória e Futuro: Reconstruindo sentidos (Trilha 5)
À noite, o X Fórum realizou dois painéis, cujos respectivos temas foram: “Os direitos e a Regularização dos imigrantes no Brasil” e “Origens e destinos: Cultura, Memória e Pertencimento”, além de uma celebração emocionante pelos 10 anos do Fórum Refugiados.Os direitos e a regularização dos imigrantes no Brasil
O primeiro painel da noite foi composto pela mediadora Maxilene Soares Correa, da Faculdade Evangélica Raízes, a haitiana doutoranda em educação Manael Bem Elshad e a doutora em Direito, Mariana Costa, da UniEvangélica.
Manael abordou o tema de sua pesquisa relacionado ao direito da educação das crianças imigrantes e refugiadas na cidade de Anápolis. “São crianças que carregam na pele memórias de deslocamentos e buscam possibilidades para construir um futuro com dignidade”. Usando dois teóricos da educação (o francês Edgar Morin e a brasileira Vera Candau), a doutoranda criticou o reducionismo burocrático nas instituições de ensino e o acolhimento da incerteza. Para ela, a escola deve ser um espaço de hibridização e negociação cultural, e não de assimilação forçada. “A escola precisa valorizar as memórias, narrativas e línguas de origem das crianças imigrantes”.
Já a professora Mariana abordou o tema da desinformação sobre o refugiado. “Muitos pensam que eles vieram para roubar nossos empregos”. Ela lembrou a história de uma médica ginecologista venezuelana que estava trabalhando como auxiliar de cozinheira no Brasil. “Infelizmente, uma lei não muda mentalidade”. Pessoas são tudo. São as que curam e as que ferem”, afirma ela.
10 anos do Fórum
Antes do último painel da noite, aconteceu um momento especial de celebração pelos 10 anos do Fórum Refugiados, com muitos depoimentos em vídeo emocionados e louvor a Deus por esta jornada. Débora Fahur e Tércio Freire, idealizadores e líderes do Fórum, foram homenageados.
Origens e destinos: Cultura, Memória e Pertencimento
A painel que encerrou a noite foi mediado por Haniele Laurindo, coordenador do programa de Jovens Líderes da Associação CASA, com a participação do angolano educador e músico Geraldino Kanhanga, do músico cubano Reinaldo Marcelino A. Silva, da venezuelana Germany Nazareth C. Millán, do casal de comerciantes sírios Lucia Nassar e Barrak Salah Aji, e de duas irmãs adolescentes iraquianas da Família Saad.
Cada um contou sua trajetória como imigrante, ressaltando ações de acolhimento e desafios de adaptação cultural no Brasil. “É difícil deixar tudo para trás. Você deixa uma parte de você aonde você vai”, diz Germany. “Eu sofria bullying por causa do meu sobrenome”, afirma Geraldino Kanhanga. “É muito complicado você vir ainda criança para um país que você nem sabia que existia”, confessa uma das irmãs iraquianas. “Minha família veio para cá sem falar português e os brasileiros nos ajudaram muito. O brasileiro é muito acolhedor”, agradece Lucia Nassar.
Novos Caminhos - Direção para o presente (Trilha 6)
O último dia do X Fórum foi marcado para um olhar profundo sobre modelos de acolhimento e integração.Começou com um momento de oração presencial e online, com irmãos de outros lugares. Após a oração, o Pr. Valdir Steuernagel, inspirado pelo salmo 146, nos lembrou que “não somos apenas o povo da realidade, mas da vocação. Recebemos um chamado de Deus. O fórum nos faz lembrar qual a nossa vocação, como resposta ao sopro do Espírito. São essas palavras que proporcionam o enraizamento. Sem a Palavra, estamos abandonados no deserto da complexidade da vida”.
Ele convidou a estar com ele o jovem Antony, filho de pais palestinos, que nasceu em Honduras, mas com 10 anos de idade foi morar em Belém, na Palestina. “Sou de uma família de refugiados desde a década de 70”. Antony é cristão e estudou Teologia em Belém. “Encontrei minha vocação na Teologia e no trabalho com refugiados. Eu já trabalhei com refugiados no México, nos EUA, na Jordânia e em muitos outros lugares do mundo”.
Modelos de acolhimento e integração Mediação
No último painel do fórum Débora Fahur mediou a conversa com a advogada Sindy Nobre, do programa de Patrocínio Comunitário da organização Panahgah (em persa, “lugar seguro”), e com Paulo Illes, do programa de Acolhimento Integrado às Políticas Públicas, do CDHIC (Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante). Participou também do painel, em vídeo gravado, Niusarete Margarida de Lima, da Operação Acolhida do Ministério Desenvolvimento Social.
Niusarete lembrou que “acolher não é só dar um prato de comida e um teto. Acolher de verdade é garantir direitos. Cidadania começa por chamarmos pelo nome, e não pela nacionalidade”.
Sindy compara o Salmo 2 com Apocalipse 11 e ressalta que “somos convidados a caminhar com esses peregrinos em direção a Cristo, porque Deus dá o pão e a água ao peregrino por meio da igreja”. Ela explica que o “patrocínio comunitário” é uma via complementar de acolhida e detalha que atualmente o visto humanitário está obrigatoriamente ligado ao patrocínio comunitário, o que, segundo ela, transforma este programa de acolhimento em uma “política de barreira”. Sindy conclui dizendo que a igreja precisa estar à frente do acolhimento. “A igreja foi chamada para estar na frente, e não atrás”.
Paulo abordou o tema do acolhimento ao refugiado atrelado às políticas públicas. “É você entender que este acolhimento na vizinhança precisa estar ligado a uma política pública. Tive a oportunidade de criar a primeira política pública local de acolhimento ao refugiado. Foi em São Paulo. A estrutura da política migratória brasileira não está pensada na ótica da integração, mas sim na ótica do controle migratório. Mas o principal objetivo do visto humanitário é salvar vidas. De outra forma, você acaba deturpando uma política que era pensava para salvar vidas”. “Não há como construir um estado democrático sem a inclusão dos refugiados e imigrantes”, conclui ele.
Carta dos 10 anos
Após o painel, tivemos um momento especial de leitura da versão resumida da “Carta dos 10 anos” do Fórum Refugiados que celebra essa jornada e, ao mesmo tempo, desafia a igreja a acolher integralmente o migrante e refugiado. “Sonhamos com uma sociedade que não exclui, com uma igreja que acolhe e com um governo que promove estrutura social justa para todos”, diz um trecho da carta.
Uma mesa, um só povo unido pela cruz
Foi montada uma linda mesa com os elementos da Santa Ceia. Silêda Steuernagel conduziu o momento inicial da celebração, lembrando o salmo 137 e o valor dos objetos que carregam nossas histórias. Tal salmo descreve a tristeza do povo exilado em não poder cantar em Jerusalém. Eles penduraram suas liras nas árvores e choraram. Silêda lembrou quando morava nos Estados Unidos e, na despedida, ganhou uma pequena harpa de presente da igreja. “Eu não poderia deixar lá a harpa porque ela era um fator de ligação da identidade construída da relação que criamos com as pessoas do lugar. Eles me deram a harpa porque sabiam que eu gostava de cantar”.
Em seguida, Haniele Laurindo declamou um poema que ela escreveu quando morava em Lesbos, Grécia, como missionária trabalhando com refugiados.
O X Fórum terminou com a singela e bonita cerimônia de Santa Ceia, em que todos puderam participar da “mesa do Senhor” em comunhão e adoração. Conduzida pelos pastores Rocindes Correa e Alécio Silva, a Santa Ceia nos lembrou que “somos um só povo pelo poder da cruz”.
REVISTA ULTIMATO – VIVEMOS UMA EPIDEMIA DE SOLIDÃO?A epidemia de solidão é um fenômeno global que ultrapassa fronteiras, níveis de renda, faixa etária e sofisticação tecnológica. Que consequências este cenário tem para a missão da igreja no mundo?
Talvez a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Saiba mais aqui.
Saiba mais:
» Unidade da Igreja e Cooperação na Missão
» Quando a Igreja Abraça a Cidade, Leandro Silva
01 de setembro de 2026- Visualizações: 52
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