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Por Escrito

Oração do Guerreiro e Cruz Imerecida

A solidão do ser humano encontra esperança na solidão do próprio Cristo, que, em sua dor, acolheu em si mesmo todas as angústias humanas

Por Zazo Araujo

As canções Oração do Guerreiro e Cruz Imerecida juntam-se num medley1 gravado pelo Grupo Céu na Boca em seu segundo álbum, lançado em 2002 e intitulado Velas ao Vento.

Ambas surgiram de uma angústia única: a solidão – pois vale lembrar que, não poucas vezes, também a angústia se faz canção.

O guerreiro em questão pode ser quem se identifique com os versos cantados. Mas quando escrevi a “Oração”, vi sua figura nos olhos de minha esposa. A história tem origem na perda de seu pai, no ano de 1996. Desde então, a mãe dela iniciou uma travessia dolorosa que se caracterizou por um luto prolongado e que começava a produzir efeitos profundos, por vezes devastadores, em face de um emocional em frangalhos. Isso também acontece aos filhos de Deus. E foi aí que minha esposa, a guerreira chamada Dorine, tornou-se aquela que, de forma mais profunda e comprometida, cuidaria da mãe até seu último dia nesta terra. Tal tarefa por vezes se mostra ingrata, pois nesse lidar, em muitas ocasiões, as coisas se encaminham por vias que, apesar de não saírem do controle do Pai, fogem desesperadamente ao nosso. É quando paramos de romantizar a nobreza de certas missões, nos vemos no barco ao sabor de ondas perigosas e contemplamos Jesus na popa, simplesmente dormindo, como se nada estivesse acontecendo. Foi exatamente num momento assim que ouvi um grito, um desabafo. Era o som da guerreira ao perceber-se incapaz. E como bem descreve um certo poeta do cancioneiro nacional ao tratar dessa gente, “guerreiros são pessoas, são fortes, são frágeis”. O grito é um recorte de um momento único em toda uma trajetória e poderia ser traduzido como “Senhor, não te importas que pereçamos?”. Foi desse ato solitário que saiu a Oração do Guerreiro.

Mas o medley, justamente por sua natureza, chama uma segunda composição, a Cruz Imerecida; e esta trata exatamente de alguém que se importa. E se importa de tal forma que assumiu a nossa solidão a ponto de dizer “Deus meu, por que me desamparaste?”.

O contexto de sua criação me leva de volta a certa celebração de Páscoa em nossa comunidade cristã local, ocasião em que nosso pastor nos desafiou a vivenciarmos cada momento daqueles dias, desde o Domingo de Ramos, como se estivesse ocorrendo ali, em tempo real. Salvo engano, era o ano de 2001. Assim, vivi o ínterim entre a sexta-feira em que Jesus morreu em sacrifício por nossos pecados e o domingo da ressurreição. No sábado de silêncio, dor, incerteza e medo, tais sentimentos tornaram-se muito próximos de mim. Transportei-me para aquele cenário sombrio, como se uma máquina do tempo e do espaço me levasse até ele. E daí vieram as notas, os acordes e as palavras da canção à qual dei o título de Cruz Imerecida.

A solidão do ser humano encontra esperança na solidão do próprio Cristo, que, em sua dor, acolheu em si mesmo todas as angústias humanas. E foi assim que nasceram Oração do Guerreiro e a Cruz Imerecida.

**
Oração do Guerreiro e Cruz Imerecida
Medley
Zazo, O Nego

Solidão desespera,
medo qual avestruz,
limo que criou a pedra dura
de tanto a água bater.

Solidão dilacera,
medo de se perder
e que, ao final do túnel, não venha
a tão sonhada luz.

Vem, Senhor, me sustenta
em meio à solidão,
neste dia de angústia,
segura a minha mão.

Uma dor, uma lágrima ferida,
dividida, escondida,
corre o rosto e se perde por desleixo,
corta o peito, dilacera.

Ah, solidão...
quando vem, vem só.
Ferida não sara
com o tempo, tempo...


Na lembrança, uma luz ficou perdida,
esquecida, consumida.
Na distância, uma música sofrida,
repetida, sem guarida.

Ah, solidão...
quando vem, vem só.
Ferida não sara
com o tempo, tempo...


Bem ao longe, uma cruz imerecida,
tão sofrida, dor sentida,
por alguém que morreu pra dar a vida
pra que eu viva sem ferida,
sem ferida.


  • Zazo Araujo (ou Zazo, o Nego) é membro da Igreja de Nova Vida na Asa Norte, em Brasília. É servidor público aposentado e professor de língua portuguesa. Compositor, violonista e vocalista, tem três álbuns gravados com o grupo Céu na Boca e um disco solo. É autor de As Crônicas e os Contos de Zazo, pela Editora Palavra, e é casado com Dorine Duarte, pai de Wilson Carlos e Aline e avô de Anita.
Nota
1. Ouça o medley aqui.

Imagem: Unsplash.

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A epidemia de solidão é um fenômeno global que ultrapassa fronteiras, níveis de renda, faixa etária e sofisticação tecnológica. Que consequências este cenário tem para a missão da igreja no mundo?
Talvez a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”.

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