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Opinião

Por que não escutamos a Igreja Palestina?

 Não há Igreja de Cristo sem a Igreja na Palestina, assim como não há sem a Igreja em Israel, no Brasil ou nos Estados Unidos.

Por Lissânder Dias

Escutar é mais do que ouvir. É perceber a presença real do outro e o som de sua voz – grito, riso, choro e até o silêncio. 

A bonita metáfora do “Corpo de Cristo” é mais do que apropriada para o que vivemos. “Corpo” é a junção complementar de muitas partes; um tipo de ecossistema de quem somos. Excluir uma dessas partes – por menor que seja - é prejudicar o funcionamento do todo. E ser igreja é ser presença encarnada em suas mais diversas formas.
Portanto, não há Igreja de Cristo sem a Igreja na Palestina, assim como não há sem a Igreja em Israel, no Brasil ou nos Estados Unidos. Porque somos o povo de Deus que não é definido pela geografia, mas pelo amor e a misericórdia do Senhor.
Nesta quarta-feira, dia 02/09, eu estive em um “fórum de escuta” da Igreja Palestina. Pela primeira vez, pude ouvir dois teólogos e pastores palestinos que moram em Belém: Rev. Dr. Munther Isaac e Anthony Jeer. Issac é autor do livro Cristo nos Escombros (Thomas Nelson Brasil). O ambiente da reunião era simples, com cerca de 50 pessoas juntas na Calvary Church, em Curitiba, PR. O “Fórum de Escuta – A Voz da Igreja Palestina” faz parte de uma espécie de “jornada” de 10 dias que eles estão trilhando em várias cidades do Brasil, iniciativa promovida pelo ministério “Mesa Preparada”.

O público teve a oportunidade ainda de fazer perguntas francas e diretas sobre temas como terrorismo, Hamas, profecias, dispensacionalismo escatológico etc. Ao final, preparamos uma carta pedindo perdão à Igreja Palestina e orando juntos pelo povo de Deus.

Igreja descartada
Ao longo da programação, ouvimos depoimentos emocionantes sobre a dura realidade da Igreja em uma região tão violenta e sofrida. Mais do que defender um lado político e ideológico, aprendemos a ouvir com atenção e olhar de frente para um rosto da igreja de Cristo que está sendo descartado, invisibilizado e “cancelado” pelo próprio Corpo de Cristo. Então começou a ecoar dentro de mim a seguinte pergunta: por que não escutamos a Igreja Palestina?
Isso acontece, primeiro, porque somos seletivos sobre quem é a Igreja. Achamos que temos o poder de decidir e escolher o “irmão”. Assim como só Jesus irá separar o joio do trigo, apenas Ele tem o poder para julgar em definitivo e, no fim dos tempos, dizer: “muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor” (Mt 25.21).

Segundo, porque somos influenciados (mais do que podemos admitir) por pressupostos apenas humanos. A História é prova de que nenhuma “visão de mundo” é capaz de matar a Igreja – e não será desta vez. Ajudar a Igreja na Palestina não significa ser “contra Israel”, mas sim agir como povo de Deus – frágil, imperfeito, mas eterno – que não ignora nem abandona.

Terceiro, porque somos ignorantes sobre a realidade. É inadmissível fecharmos os olhos para o fato de que 60% da Igreja na Palestina ou foi morta ou se tornou refugiada longe do lugar onde nasceu. É revoltante saber que 20 mil crianças palestinas foram assassinadas desde outubro de 2023. Onde estávamos quando tudo isso aconteceu? O conflito na Faixa de Gaza é o retrato de uma realidade complexa, e é muito difícil de ser solucionado. A Igreja de Cristo precisa admitir isso e então entender qual o seu papel, com as armas de Cristo, não dos homens.

Quarto, porque não questionamos nossa própria Teologia. É preciso admitir que a teologia não é um “cheque em branco”, isenta de escrutínios. Será mesmo que nossa escatologia é correta? Que nossa interpretação sobre as profecias é totalmente bíblica? Mesmo com boas intenções de zelo pela Palavra, podemos ter percepções erradas e incompletas sobre uma realidade. É saudável refletirmos profundamente sobre como a Teologia tem sido usada, para que ela não se torne um caminho ao engano e à insensatez. 



A Teologia de Cristo deve apontar para Cristo, e não para outra coisa. Ela não deveria ser refém de interesses particulares, mas ter como Fonte de Vida o Evangelho – aquele que salva, redime, restaura e reconcilia todas as coisas (2 Co 5.17-18). A partir do Evangelho, a Teologia ganha vida, forma e coragem.

Outra bonita metáfora bíblica para a Igreja é que somos uma “família”. E uma família verdadeira é leal e não abandona nenhum de seus filhos e irmãos.
Eu sei que ouvir o Dr. Munther Isaac e o Anthony é só parte de um exercício muito maior: o de aprender a ser igreja num mundo quebrado. Somos o instrumento de Deus para juntar os cacos. 

 
Nota:
Fórum de Escuta – A Voz da Igreja Palestina é promovido pela “Mesa Preparada”, com o apoio da Aliança Cristã Evangélica Brasileira, SEPAL, Martureo, Centro Cristão de Estudos, Editora Ultimato, Tearfund, CETI, Seminário Jovens da Verdade, Editora Thomas Nelson Brasil, Instituto de Belém para a Paz e a Justiça, Efeito Prisma e MENA (Middle East e North Africa Evangelical Alliance).

REVISTA ULTIMATO – VIVEMOS UMA EPIDEMIA DE SOLIDÃO?
A epidemia de solidão é um fenômeno global que ultrapassa fronteiras, níveis de renda, faixa etária e sofisticação tecnológica. Que consequências este cenário tem para a missão da igreja no mundo?
Talvez
a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Saiba mais
aqui.
Saiba mais:
» De Quem é a Terra Santa?, de Colin Chapman
»Palestina: o Holocausto dos Filhos de Ismael, Robinson Cavalcanti
»Israel e Palestina: eis a questão, Ultimatoonline
Lissânder Dias do Amaral é jornalista, blogueiro, poeta e editor de livros. Integra o Conselho Nacional da Interserve Brasil e o Conselho da Unimissional. É autor de “O Cotidiano Extraordinário – a vida em pequenas crônicas” e responsável pelo blog Fatos e Correlatos do Portal Ultimato. É um dos fundadores do Movimento Vocare e ajudou a criar as organizações cristãs de cooperação Rede Mãos Dadas e Rede Evangélica Nacional de Ação Social (RENAS).

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