Opinião
09 de setembro de 2026- Visualizações: 73
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Muito além dos templos: evangélicos no acolhimento a migrantes
Talvez seja esta uma das contribuições menos percebidas das igrejas evangélicas no campo migratório: elas oferecem redes sociais às quais o migrante pode pertencer. Acolhimento não é apenas provisão material; é também produção de vínculos, sociabilidade e pertencimento.
Igor Shimura
Há alguns anos, quando participei, como um dos coordenadores, da acolhida inicial a refugiados ucranianos no Brasil, tive uma experiência que me fez refletir sobre a presença evangélica no campo humanitário. Integrava um grupo formado por diferentes agentes políticos, ativistas e lideranças comunitárias. Os evangélicos eram uma pequena minoria naquele grupo. Ali, minha identidade religiosa sequer estava em questão, e eu era respeitado pelo trabalho que desenvolvia à frente de projetos voltados à população refugiada.
Naquele período, participei também da elaboração da Cartilha de Direitos Humanos para Ucranianos Migrantes e Refugiados no Brasil, material publicado pela
Organização Internacional para as Migrações (OIM), em parceria com o Governo
Federal, e que contou com a participação do Instituto que presido. Foi nesse contexto
que uma situação me chamou particularmente a atenção. Uma organização evangélica
internacional, a GKPN, juntamente com diferentes igrejas do Paraná, atuou na vinda e
no acolhimento de algumas centenas de refugiados ucranianos, oferecendo uma
estrutura que incluía moradia, alimentação, recursos financeiros e apoio para inserção
no mercado de trabalho. A iniciativa, no entanto, passou a ser alvo de críticas dentro do grupo do qual eu participava.
Uma delas dizia respeito à opção da GKPN por desenvolver grande parte de suas ações sem estabelecer determinadas parcerias externas, sobretudo com organizações da sociedade civil. Como dispunha de estrutura, recursos e de uma extensa rede de igrejas, preferia organizar internamente boa parte da operação. O que me chamou a atenção, porém, foi perceber como uma discussão que poderia permanecer no campo das
escolhas institucionais começou, em determinados momentos, a se transformar em
críticas aos próprios evangélicos. Em certa ocasião, um dos críticos mais ativos
escreveu, em tom de indignação: “Numa guerra, temos dois tipos de gente nas
fronteiras esperando refugiados: traficantes de pessoas e igrejas evangélicas.” Naquele momento, decidi me manifestar. Revelei minha identidade evangélica e procurei mostrar a importância do trabalho desenvolvido por igrejas e organizações evangélicas no acolhimento de refugiados e migrantes no Brasil. Posteriormente, retirei-me do grupo e continuei apoiando a iniciativa da GKPN. O episódio também contribuiu para que eu me envolvesse ainda mais com a pauta migratória. Desde então, ampliamos nossa atuação junto a haitianos, venezuelanos, cubanos, afegãos, senegaleses, sírios, congoleses e ciganos migrantes europeus.
Há poucos dias, entre 19 e 21 de agosto, participei do X Fórum Refugiados, promovido pela Associação Casa, nas dependências da UniEvangélica, em Anápolis (GO). Tive a oportunidade de falar no evento ao lado de representantes de organismos internacionais, como o ACNUR, do poder público, como o Ministério da Justiça e Segurança Pública, além de organizações e igrejas evangélicas que atuam diretamente com refugiados e migrantes.
Ao observar o auditório, lembrei-me imediatamente do episódio ocorrido anos antes. Afinal, qual é o tamanho da participação evangélica no acolhimento de refugiados e migrantes no Brasil? Embora essa presença seja pouco discutida no debate público, igrejas e organizações evangélicas formam uma rede capilarizada que alcança comunidades migrantes em diferentes regiões do país. São templos que se transformam em espaços de acolhida, famílias que recebem estrangeiros, voluntários que arrecadam alimentos, roupas e móveis, lideranças que ajudam na busca por emprego, documentação e moradia.
Durante o Fórum, chamou-me a atenção ouvir também de participantes não evangélicos avaliações positivas sobre essa atuação. Uma percepção apareceu mais de uma vez: a capilaridade das igrejas permite que os evangélicos cheguem a lugares onde o Estado nem sempre consegue chegar. Em determinadas situações, oferecem algo que a própria estrutura estatal dificilmente poderia suprir sozinha: vínculos comunitários, convivência cotidiana, redes de solidariedade e, sobretudo, pertencimento.
O Estado pode – e deve – oferecer documentação, políticas públicas, assistência social, regularização migratória e saúde. A igreja, para além dos serviços sociais, tem condições de acrescentar outra dimensão: uma rede de relações. É a pessoa que acompanha o haitiano ao médico, o irmão da igreja que indica um emprego ao venezuelano, a família que doa uma cama, o voluntário que ajuda o recém-chegado com o português. Talvez esteja justamente aí uma das contribuições menos percebidas das igrejas evangélicas no campo migratório: elas não oferecem apenas assistência; oferecem redes sociais às quais o migrante pode pertencer. Acolhimento não é apenas provisão material; é também produção de vínculos, sociabilidade e pertencimento.
Reconhecer essa contribuição, contudo, não significa afirmar que as igrejas devam substituir o Estado, muito menos que estejam acima de críticas. Há desafios a serem enfrentados. Ao poder público e à sociedade civil cabe reconhecer a capilaridade das organizações religiosas e incorporá-las, quando possível, às redes de proteção e às políticas de acolhimento. Precisamos construir um tecido social capaz de reunir diferentes atores em torno da causa migratória, sem excluir aqueles que efetivamente contribuem para ela. Também a academia pode colaborar, ampliando pesquisas e estudos de caso sobre a participação de igrejas e organizações cristãs no acolhimento de refugiados e migrantes.
Às igrejas evangélicas, por sua vez, cabe reconhecer, valorizar e dar maior visibilidade à rede de solidariedade que já existe em seu interior, mas também ampliá-la e qualificá-la. Abrir as portas dos templos deve significar também abrir espaço na vida cotidiana das comunidades: receber famílias refugiadas, ajudá-las na reconstrução de suas redes sociais, integrá-las à comunidade e, para aquelas que assim desejarem, oferecer também acompanhamento espiritual e discipulado. Tudo isso exige capacitação, conhecimento da legislação migratória, sensibilidade intercultural e absoluto respeito à liberdade religiosa.
O desafio, portanto, não é perguntar se Estado, sociedade civil ou igrejas devem acolher, mas como podem acolher juntos. Para a sociedade, isso significa não desprezar nenhuma rede capaz de contribuir para o acolhimento. Para as igrejas, significa compreender que o refugiado não deve ser apenas objeto de uma campanha ocasional, mas alguém que pode fazer parte da vida cotidiana da comunidade. Afinal, acolher não é apenas ajudar alguém a chegar; é ajudá-lo a encontrar um lugar onde possa reconstruir a vida e pertencer.
REVISTA ULTIMATO – VIVEMOS UMA EPIDEMIA DE SOLIDÃO?
A epidemia de solidão é um fenômeno global que ultrapassa fronteiras, níveis de renda, faixa etária e sofisticação tecnológica. Que consequências este cenário tem para a missão da igreja no mundo?
Talvez a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Saiba mais aqui.
Saiba mais:
» Missão Integral – O Reino de Deus e a Igreja, C. René Padilla
» Evento celebra dez anos, reafirmando a “cidadania plena” do refugiado e migrante, Lissânder Dias
Igor Shimura
Há alguns anos, quando participei, como um dos coordenadores, da acolhida inicial a refugiados ucranianos no Brasil, tive uma experiência que me fez refletir sobre a presença evangélica no campo humanitário. Integrava um grupo formado por diferentes agentes políticos, ativistas e lideranças comunitárias. Os evangélicos eram uma pequena minoria naquele grupo. Ali, minha identidade religiosa sequer estava em questão, e eu era respeitado pelo trabalho que desenvolvia à frente de projetos voltados à população refugiada.Naquele período, participei também da elaboração da Cartilha de Direitos Humanos para Ucranianos Migrantes e Refugiados no Brasil, material publicado pela
Organização Internacional para as Migrações (OIM), em parceria com o Governo
Federal, e que contou com a participação do Instituto que presido. Foi nesse contexto
que uma situação me chamou particularmente a atenção. Uma organização evangélica
internacional, a GKPN, juntamente com diferentes igrejas do Paraná, atuou na vinda e
no acolhimento de algumas centenas de refugiados ucranianos, oferecendo uma
estrutura que incluía moradia, alimentação, recursos financeiros e apoio para inserção
no mercado de trabalho. A iniciativa, no entanto, passou a ser alvo de críticas dentro do grupo do qual eu participava.
Uma delas dizia respeito à opção da GKPN por desenvolver grande parte de suas ações sem estabelecer determinadas parcerias externas, sobretudo com organizações da sociedade civil. Como dispunha de estrutura, recursos e de uma extensa rede de igrejas, preferia organizar internamente boa parte da operação. O que me chamou a atenção, porém, foi perceber como uma discussão que poderia permanecer no campo das
escolhas institucionais começou, em determinados momentos, a se transformar em
críticas aos próprios evangélicos. Em certa ocasião, um dos críticos mais ativos
escreveu, em tom de indignação: “Numa guerra, temos dois tipos de gente nas
fronteiras esperando refugiados: traficantes de pessoas e igrejas evangélicas.” Naquele momento, decidi me manifestar. Revelei minha identidade evangélica e procurei mostrar a importância do trabalho desenvolvido por igrejas e organizações evangélicas no acolhimento de refugiados e migrantes no Brasil. Posteriormente, retirei-me do grupo e continuei apoiando a iniciativa da GKPN. O episódio também contribuiu para que eu me envolvesse ainda mais com a pauta migratória. Desde então, ampliamos nossa atuação junto a haitianos, venezuelanos, cubanos, afegãos, senegaleses, sírios, congoleses e ciganos migrantes europeus.
Há poucos dias, entre 19 e 21 de agosto, participei do X Fórum Refugiados, promovido pela Associação Casa, nas dependências da UniEvangélica, em Anápolis (GO). Tive a oportunidade de falar no evento ao lado de representantes de organismos internacionais, como o ACNUR, do poder público, como o Ministério da Justiça e Segurança Pública, além de organizações e igrejas evangélicas que atuam diretamente com refugiados e migrantes.
Ao observar o auditório, lembrei-me imediatamente do episódio ocorrido anos antes. Afinal, qual é o tamanho da participação evangélica no acolhimento de refugiados e migrantes no Brasil? Embora essa presença seja pouco discutida no debate público, igrejas e organizações evangélicas formam uma rede capilarizada que alcança comunidades migrantes em diferentes regiões do país. São templos que se transformam em espaços de acolhida, famílias que recebem estrangeiros, voluntários que arrecadam alimentos, roupas e móveis, lideranças que ajudam na busca por emprego, documentação e moradia.
Durante o Fórum, chamou-me a atenção ouvir também de participantes não evangélicos avaliações positivas sobre essa atuação. Uma percepção apareceu mais de uma vez: a capilaridade das igrejas permite que os evangélicos cheguem a lugares onde o Estado nem sempre consegue chegar. Em determinadas situações, oferecem algo que a própria estrutura estatal dificilmente poderia suprir sozinha: vínculos comunitários, convivência cotidiana, redes de solidariedade e, sobretudo, pertencimento.
O Estado pode – e deve – oferecer documentação, políticas públicas, assistência social, regularização migratória e saúde. A igreja, para além dos serviços sociais, tem condições de acrescentar outra dimensão: uma rede de relações. É a pessoa que acompanha o haitiano ao médico, o irmão da igreja que indica um emprego ao venezuelano, a família que doa uma cama, o voluntário que ajuda o recém-chegado com o português. Talvez esteja justamente aí uma das contribuições menos percebidas das igrejas evangélicas no campo migratório: elas não oferecem apenas assistência; oferecem redes sociais às quais o migrante pode pertencer. Acolhimento não é apenas provisão material; é também produção de vínculos, sociabilidade e pertencimento.
Reconhecer essa contribuição, contudo, não significa afirmar que as igrejas devam substituir o Estado, muito menos que estejam acima de críticas. Há desafios a serem enfrentados. Ao poder público e à sociedade civil cabe reconhecer a capilaridade das organizações religiosas e incorporá-las, quando possível, às redes de proteção e às políticas de acolhimento. Precisamos construir um tecido social capaz de reunir diferentes atores em torno da causa migratória, sem excluir aqueles que efetivamente contribuem para ela. Também a academia pode colaborar, ampliando pesquisas e estudos de caso sobre a participação de igrejas e organizações cristãs no acolhimento de refugiados e migrantes.
Às igrejas evangélicas, por sua vez, cabe reconhecer, valorizar e dar maior visibilidade à rede de solidariedade que já existe em seu interior, mas também ampliá-la e qualificá-la. Abrir as portas dos templos deve significar também abrir espaço na vida cotidiana das comunidades: receber famílias refugiadas, ajudá-las na reconstrução de suas redes sociais, integrá-las à comunidade e, para aquelas que assim desejarem, oferecer também acompanhamento espiritual e discipulado. Tudo isso exige capacitação, conhecimento da legislação migratória, sensibilidade intercultural e absoluto respeito à liberdade religiosa.
O desafio, portanto, não é perguntar se Estado, sociedade civil ou igrejas devem acolher, mas como podem acolher juntos. Para a sociedade, isso significa não desprezar nenhuma rede capaz de contribuir para o acolhimento. Para as igrejas, significa compreender que o refugiado não deve ser apenas objeto de uma campanha ocasional, mas alguém que pode fazer parte da vida cotidiana da comunidade. Afinal, acolher não é apenas ajudar alguém a chegar; é ajudá-lo a encontrar um lugar onde possa reconstruir a vida e pertencer.
- Igor Shimura é cientista social e teólogo. Membro do Conselho Estadual dos Direitos dos Refugiados, Migrantes e Apátridas (CERMA-PR/SEJU). Presidente do Movimento PluriPovos, organização que atua na acolhida de refugiados e migrantes no Brasil.
REVISTA ULTIMATO – VIVEMOS UMA EPIDEMIA DE SOLIDÃO?A epidemia de solidão é um fenômeno global que ultrapassa fronteiras, níveis de renda, faixa etária e sofisticação tecnológica. Que consequências este cenário tem para a missão da igreja no mundo?
Talvez a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Saiba mais aqui.
Saiba mais:
» Missão Integral – O Reino de Deus e a Igreja, C. René Padilla
» Evento celebra dez anos, reafirmando a “cidadania plena” do refugiado e migrante, Lissânder Dias
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