Opinião
01 de setembro de 2026- Visualizações: 74
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Enfrentando a solidão na era dos companheiros de IA
Embora a IA traga novas ameaças, o problema da solidão não é novo. Como cristãos devemos nos unir para investir em um ministério de proximidade
Por Felicia Wu Song
A tecnologia está nos tornando mais solitários?
Parece uma pergunta natural, visto que as notícias sobre a epidemia de solidão persistem após a pandemia de Covid-19 e livros como A Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt, soam o alarme sobre o impacto negativo das redes sociais nos jovens.
Ou talvez a questão seja a nossa maneira de intelectualizar a ansiedade pulsante que sentimos ao ver nossos pais idosos ou filhos adolescentes passarem muito tempo isolados em seus quartos, tendo como única companhia suas telas – e, cada vez mais, seus companheiros de inteligência artificial.
Assim como a companhia de IA para idosos está se tornando rapidamente um grande negócio em uma nova economia da solidão, um estudo recente da Common Sense Media relatou que quase três quartos dos adolescentes já usaram um assistente virtual. Desse grupo, um terço considera conversas sérias com IA tão ou mais satisfatórias do que conversas com amigos humanos.
Ou talvez façamos essa pergunta porque, quando Mark Zuckerberg afirma que os amigos da Meta AI resolverão nosso problema de solidão, um futuro onde os seres humanos dependem em grande parte de chatbots de IA para companhia simplesmente nos deixa apavorados.
Seja qual for a motivação que nos leva a fazer essa pergunta, talvez devamos deixar que ela nos guie. Como cristãos, devemos nos unir para investir em um ministério de proximidade – um ministério que possa servir de fonte de esperança e consolo em um mundo cada vez mais estruturado para a solidão.
Reconsiderando a solidão
Para entender como a IA pode contribuir para a solidão na sociedade, primeiro precisamos tomar consciência das suposições que temos sobre o que é a solidão e como a estudamos.
O que faz da solidão uma epidemia?
Um estudo global recente revelou que quase 40% dos adultos relatam sentir-se sozinhos. Quase 50% dos jovens adultos (entre 18 e 24 anos) relatam solidão, em comparação com aproximadamente 30% dos adultos mais velhos (acima de 55 anos).
Embora seja razoável pensar que a solidão esteja aumentando devido aos recentes desenvolvimentos mundiais e tecnológicos, as estatísticas sobre a solidão são, na verdade, preocupantes há bastante tempo.
Em 2004, um quarto dos americanos relatou não ter ninguém com quem discutir assuntos importantes, um aumento em relação aos apenas 10% registrados em 1984.
Ainda mais atrás, na década de 1980, foi declarada uma “epidemia nacional de solidão”, quando se descobriu que a solidão estava correlacionada com o tabagismo, o alcoolismo, a hipertensão e a insônia.
A declaração de 2023 sobre a epidemia de solidão baseou-se em grande parte num estudo de 2017 que estabeleceu a solidão crônica como um claro fator causal na redução da expectativa de vida. Também foi constatado que ela acelera doenças cardíacas, diabetes tipo 2 e exacerba a ansiedade e a depressão.
Como medimos a solidão?
Qualquer aula de ciências sociais sobre métodos de pesquisa ensinará aos alunos a importância da "operacionalização": o processo de desenvolvimento de indicadores para medir e refletir empiricamente um fenômeno abstrato, como a solidão.
Isso é importante por dois motivos. Primeiro, a forma como operacionalizamos a solidão em nossos estudos molda o que imaginamos que seja a solidão. Segundo, isso influencia as soluções que buscamos.
Grande parte do que é referido como “estudos sobre solidão” seria melhor denominado “estudos sobre isolamento social”. As pesquisas frequentemente perguntam: Pense nos últimos seis meses e nas pessoas com quem você discutiu os assuntos mais importantes para você. Quantas eram?
Um indicador objetivo como o número de confidentes que uma pessoa tem é um indicador razoavelmente bom de solidão. Mas, ao mesmo tempo, isso mede apenas um aspecto dela.
Outros estudos sobre solidão fazem perguntas mais subjetivas: Você se sente compreendido por alguém em sua vida? Você se sente satisfeito com suas amizades?
Aqui, a solidão é em grande parte uma experiência sentida que reflete a distância entre a expectativa e a realidade percebida dos relacionamentos de uma pessoa. Duas pessoas podem ter o mesmo número de confidentes, mas seu nível de solidão pode diferir de acordo com sua avaliação subjetiva desses relacionamentos.
O que impulsiona a companhia em IA?
Essa distinção entre solidão como isolamento social e solidão como experiência sentida é importante ao avaliar o que motiva a busca por companhia em IA.
Se definirmos a solidão como um problema de isolamento social, podemos estar alinhados com os psicólogos que veem as tecnologias digitais como forças que substituem as experiências presenciais necessárias para o desenvolvimento saudável da adolescência.
Essa definição mostra que a socialização presencial está perdendo espaço para os feeds de mídias sociais impulsionados por algoritmos, causando mais solidão, depressão e ansiedade. Os chatbots de IA, então, se tornam muletas sociais para jovens que permanecem fisicamente isolados.
No entanto, se entendermos a solidão como uma lacuna sentida entre a expectativa e a realidade percebida, a história muda. É reconhecer que as redes sociais têm alimentado os jovens com conteúdo hiper-realista. Esse conteúdo aumenta suas expectativas sobre o que constitui uma vida que valha a pena e cultiva a percepção subjetiva de que todos os outros são mais conectados e felizes do que eles próprios.
Essa constante comparação social leva a uma avaliação da própria vida orientada para as deficiências, resultando em sentimentos de solidão, independentemente do grau de sociabilidade que a pessoa realmente possua.
Nessa perspectiva, mais do que isolar os adolescentes em seus quartos, as tecnologias digitais levam à solidão porque distorcem as expectativas dos jovens. A companhia virtual, então, serve como um paliativo conveniente para esses sentimentos de insatisfação.
A solidão como característica da vida moderna
Quer a encaremos como isolamento social ou como uma experiência pessoal, corremos o risco de interpretar erroneamente a questão social da solidão se a considerarmos simplesmente um problema individual exacerbado pela tecnologia. A solidão é uma questão pública intrínseca à estrutura da vida moderna.
A solidão não é apenas um problema pessoal
O sociólogo C. Wright Mills argumentou, de forma memorável, que quando um problema afeta um número crescente de pessoas em um determinado momento, é um erro culpar apenas o indivíduo. É preciso examinar as estruturas da sociedade.
Com o crescente número de pessoas relatando experiências de solidão, é um erro buscar respostas apenas nas circunstâncias individuais. Precisamos reconhecer como a sociedade se tornou sistematicamente estruturada para a solidão.
A solidão vai além da IA
Ao longo dos últimos duzentos anos, nossa sociedade desmantelou os arranjos institucionais que historicamente protegiam as pessoas em contextos de pertencimento contínuo.
Considere como os americanos modernos abandonaram as normas de famílias multigeracionais vivendo juntas em bairros unidos. Trocamos isso pelo sonho idealizado de uma família nuclear vivendo em uma casa isolada com gramados cercados por sebes que garantem privacidade.
O caminho moderno para o sucesso financeiro também é pavimentado pela mobilidade geográfica em busca de melhor educação e melhores empregos, o que exige redes de laços sociais mais flexíveis do que estar enraizado e ser conhecido em um só lugar.
Hoje em dia, serviços digitais como DoorDash, Amazon e Netflix nos permitem evitar o incômodo de interagir com pessoas e espaços públicos após um longo dia de trabalho.
Nesse sentido, nosso mundo moderno está estruturado para fomentar produtividade, eficiência, consumo e descarte – não lentidão, senso de pertencimento, estabilidade e presença. E para que não nos deixemos levar pela nostalgia dos tempos passados, sejamos honestos sobre o quanto valorizamos a autonomia, as escolhas e as liberdades proporcionadas pela evolução da nossa sociedade.
Mas o preço a se pagar por esses bens é muito real. A solidão não é uma deficiência ou fracasso pessoal; é um subproduto natural da modernização. Nosso mundo atual está construído para nos deixar órfãos.
Formando um ministério de proximidade
Antes de deixar seus discípulos, Jesus fez uma promessa: não os deixaria órfãos. Ele prometeu enviar o Consolador, o Espírito de Deus que permanece e habita conosco.
A manifestação pentecostal do Espírito Santo seria mais tarde o sopro animador que formou a Igreja primitiva, uma lembrança de que a encarnação de Jesus iniciou um ministério de proximidade divina que somos chamados a continuar.
Esse apelo torna-se ainda mais evidente no mundo solitário de hoje.
O que é um ministério de proximidade?
A proximidade se assemelha ao que a psicóloga Lisa Damour chama de presença constante e sem intenções definidas.
Damour escreve que uma boa parentalidade envolve oferecer uma presença consistente, estável e próxima. Ela recomenda que o amor e o cuidado sejam expressos através da gentileza de uma presença centrada e sem julgamentos, em vez de enfatizar palavras de orientação ou conselhos.
Os encontros diários de Jesus com as pessoas ofereciam consistentemente solidariedade por meio de uma postura semelhante de presença constante e sem segundas intenções. Seu ministério expressava às pessoas que elas eram vistas e valorizadas, e que ele não tinha medo de se aproximar de seu sofrimento.
Da mesma forma, um ministério de proximidade reconhece o significado divino de oferecer a própria presença corpórea ao outro. É como uma comunidade ativamente engajada no bem do entorno local, sempre disponível e reconhecida por ter recursos para oferecer quando estes não se encontram em nenhum outro lugar da sociedade.
Um ministério da proximidade investe esforço e recursos para melhor compreender como raça, educação, classe social, gênero, sexualidade, idade, situação imigratória, deficiência e outras circunstâncias formativas da vida podem moldar a luta de alguém contra a sensação de solidão e invisibilidade.
Em vez de minimizar as diferenças genuínas que existem entre nós, um ministério de proximidade reconhece que muitas vezes desconhecemos e até mesmo tememos as diferenças uns dos outros. Requer aprender a ter curiosidade, em vez de nos sentirmos ameaçados, pela estranheza dos outros, e até mesmo pela nossa própria estranheza.
Em vez de nos isolarmos numa postura de autoproteção, um ministério de proximidade está enraizado na convicção divina de que nós, em todas as nossas diferenças, estamos de alguma forma interligados. Todos compartilhamos uma semelhança com o Deus que nos criou e todos dependemos uns dos outros para a cura e a plenitude coletivas.
Como é um ministério de proximidade?
Um ministério de proximidade pode significar uma reunião semanal de meditação silenciosa aberta aos moradores locais, um ombro amigo para um pai ou mãe sobrecarregado(a) ou uma sacola de mantimentos entregue a um vizinho imigrante necessitado.
Essas são todas maneiras tangíveis de compartilhar o amor de um Deus que não nos deixou órfãos. Elas podem servir como o ponto simples, porém necessário, que gradualmente nos reintegra ao tecido social.
Quando isso acontece, elas estabilizam nosso senso de identidade e bem-estar. Elas nos fazem sentir felizes por sermos humanos.
Tradução: Ana Laura Morais
Imagem: Unsplash
REVISTA ULTIMATO – VIVEMOS UMA EPIDEMIA DE SOLIDÃO?
A epidemia de solidão é um fenômeno global que ultrapassa fronteiras, níveis de renda, faixa etária e sofisticação tecnológica. Que consequências este cenário tem para a missão da igreja no mundo?
Talvez a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Saiba mais aqui.
Saiba mais:
» Solidão: Estamos diante de uma nova epidemia?, Peng Ming Huang, Lin I Ter, Wu Tu Hsing
» A solidão dos conectados – Millennials e geração z são os mais propensos a se declarar solitários, Lissânder Diasz
» Um Novo Dia – Deixando para trás ansiedade, fome, controle, vergonha, ira e desespero, Emma Scrivener
» Pensamentos Transformados, Emoções Redimidas, Ricardo Barbosa de Sousa
Por Felicia Wu Song
A tecnologia está nos tornando mais solitários?Parece uma pergunta natural, visto que as notícias sobre a epidemia de solidão persistem após a pandemia de Covid-19 e livros como A Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt, soam o alarme sobre o impacto negativo das redes sociais nos jovens.
Ou talvez a questão seja a nossa maneira de intelectualizar a ansiedade pulsante que sentimos ao ver nossos pais idosos ou filhos adolescentes passarem muito tempo isolados em seus quartos, tendo como única companhia suas telas – e, cada vez mais, seus companheiros de inteligência artificial.
Assim como a companhia de IA para idosos está se tornando rapidamente um grande negócio em uma nova economia da solidão, um estudo recente da Common Sense Media relatou que quase três quartos dos adolescentes já usaram um assistente virtual. Desse grupo, um terço considera conversas sérias com IA tão ou mais satisfatórias do que conversas com amigos humanos.
Ou talvez façamos essa pergunta porque, quando Mark Zuckerberg afirma que os amigos da Meta AI resolverão nosso problema de solidão, um futuro onde os seres humanos dependem em grande parte de chatbots de IA para companhia simplesmente nos deixa apavorados.
Seja qual for a motivação que nos leva a fazer essa pergunta, talvez devamos deixar que ela nos guie. Como cristãos, devemos nos unir para investir em um ministério de proximidade – um ministério que possa servir de fonte de esperança e consolo em um mundo cada vez mais estruturado para a solidão.
Reconsiderando a solidão
Para entender como a IA pode contribuir para a solidão na sociedade, primeiro precisamos tomar consciência das suposições que temos sobre o que é a solidão e como a estudamos.
O que faz da solidão uma epidemia?
Um estudo global recente revelou que quase 40% dos adultos relatam sentir-se sozinhos. Quase 50% dos jovens adultos (entre 18 e 24 anos) relatam solidão, em comparação com aproximadamente 30% dos adultos mais velhos (acima de 55 anos).
Embora seja razoável pensar que a solidão esteja aumentando devido aos recentes desenvolvimentos mundiais e tecnológicos, as estatísticas sobre a solidão são, na verdade, preocupantes há bastante tempo.
Em 2004, um quarto dos americanos relatou não ter ninguém com quem discutir assuntos importantes, um aumento em relação aos apenas 10% registrados em 1984.
Ainda mais atrás, na década de 1980, foi declarada uma “epidemia nacional de solidão”, quando se descobriu que a solidão estava correlacionada com o tabagismo, o alcoolismo, a hipertensão e a insônia.
A declaração de 2023 sobre a epidemia de solidão baseou-se em grande parte num estudo de 2017 que estabeleceu a solidão crônica como um claro fator causal na redução da expectativa de vida. Também foi constatado que ela acelera doenças cardíacas, diabetes tipo 2 e exacerba a ansiedade e a depressão.
Como medimos a solidão?
Qualquer aula de ciências sociais sobre métodos de pesquisa ensinará aos alunos a importância da "operacionalização": o processo de desenvolvimento de indicadores para medir e refletir empiricamente um fenômeno abstrato, como a solidão.
Isso é importante por dois motivos. Primeiro, a forma como operacionalizamos a solidão em nossos estudos molda o que imaginamos que seja a solidão. Segundo, isso influencia as soluções que buscamos.
Grande parte do que é referido como “estudos sobre solidão” seria melhor denominado “estudos sobre isolamento social”. As pesquisas frequentemente perguntam: Pense nos últimos seis meses e nas pessoas com quem você discutiu os assuntos mais importantes para você. Quantas eram?
Um indicador objetivo como o número de confidentes que uma pessoa tem é um indicador razoavelmente bom de solidão. Mas, ao mesmo tempo, isso mede apenas um aspecto dela.
Outros estudos sobre solidão fazem perguntas mais subjetivas: Você se sente compreendido por alguém em sua vida? Você se sente satisfeito com suas amizades?
Aqui, a solidão é em grande parte uma experiência sentida que reflete a distância entre a expectativa e a realidade percebida dos relacionamentos de uma pessoa. Duas pessoas podem ter o mesmo número de confidentes, mas seu nível de solidão pode diferir de acordo com sua avaliação subjetiva desses relacionamentos.
O que impulsiona a companhia em IA?
Essa distinção entre solidão como isolamento social e solidão como experiência sentida é importante ao avaliar o que motiva a busca por companhia em IA.
Se definirmos a solidão como um problema de isolamento social, podemos estar alinhados com os psicólogos que veem as tecnologias digitais como forças que substituem as experiências presenciais necessárias para o desenvolvimento saudável da adolescência.
Essa definição mostra que a socialização presencial está perdendo espaço para os feeds de mídias sociais impulsionados por algoritmos, causando mais solidão, depressão e ansiedade. Os chatbots de IA, então, se tornam muletas sociais para jovens que permanecem fisicamente isolados.
No entanto, se entendermos a solidão como uma lacuna sentida entre a expectativa e a realidade percebida, a história muda. É reconhecer que as redes sociais têm alimentado os jovens com conteúdo hiper-realista. Esse conteúdo aumenta suas expectativas sobre o que constitui uma vida que valha a pena e cultiva a percepção subjetiva de que todos os outros são mais conectados e felizes do que eles próprios.
Essa constante comparação social leva a uma avaliação da própria vida orientada para as deficiências, resultando em sentimentos de solidão, independentemente do grau de sociabilidade que a pessoa realmente possua.
Nessa perspectiva, mais do que isolar os adolescentes em seus quartos, as tecnologias digitais levam à solidão porque distorcem as expectativas dos jovens. A companhia virtual, então, serve como um paliativo conveniente para esses sentimentos de insatisfação.
A solidão como característica da vida moderna
Quer a encaremos como isolamento social ou como uma experiência pessoal, corremos o risco de interpretar erroneamente a questão social da solidão se a considerarmos simplesmente um problema individual exacerbado pela tecnologia. A solidão é uma questão pública intrínseca à estrutura da vida moderna.
A solidão não é apenas um problema pessoal
O sociólogo C. Wright Mills argumentou, de forma memorável, que quando um problema afeta um número crescente de pessoas em um determinado momento, é um erro culpar apenas o indivíduo. É preciso examinar as estruturas da sociedade.
Com o crescente número de pessoas relatando experiências de solidão, é um erro buscar respostas apenas nas circunstâncias individuais. Precisamos reconhecer como a sociedade se tornou sistematicamente estruturada para a solidão.
A solidão vai além da IA
Ao longo dos últimos duzentos anos, nossa sociedade desmantelou os arranjos institucionais que historicamente protegiam as pessoas em contextos de pertencimento contínuo.
Considere como os americanos modernos abandonaram as normas de famílias multigeracionais vivendo juntas em bairros unidos. Trocamos isso pelo sonho idealizado de uma família nuclear vivendo em uma casa isolada com gramados cercados por sebes que garantem privacidade.
O caminho moderno para o sucesso financeiro também é pavimentado pela mobilidade geográfica em busca de melhor educação e melhores empregos, o que exige redes de laços sociais mais flexíveis do que estar enraizado e ser conhecido em um só lugar.
Hoje em dia, serviços digitais como DoorDash, Amazon e Netflix nos permitem evitar o incômodo de interagir com pessoas e espaços públicos após um longo dia de trabalho.
Nesse sentido, nosso mundo moderno está estruturado para fomentar produtividade, eficiência, consumo e descarte – não lentidão, senso de pertencimento, estabilidade e presença. E para que não nos deixemos levar pela nostalgia dos tempos passados, sejamos honestos sobre o quanto valorizamos a autonomia, as escolhas e as liberdades proporcionadas pela evolução da nossa sociedade.
Mas o preço a se pagar por esses bens é muito real. A solidão não é uma deficiência ou fracasso pessoal; é um subproduto natural da modernização. Nosso mundo atual está construído para nos deixar órfãos.
Formando um ministério de proximidade
Antes de deixar seus discípulos, Jesus fez uma promessa: não os deixaria órfãos. Ele prometeu enviar o Consolador, o Espírito de Deus que permanece e habita conosco.
A manifestação pentecostal do Espírito Santo seria mais tarde o sopro animador que formou a Igreja primitiva, uma lembrança de que a encarnação de Jesus iniciou um ministério de proximidade divina que somos chamados a continuar.
Esse apelo torna-se ainda mais evidente no mundo solitário de hoje.
O que é um ministério de proximidade?
A proximidade se assemelha ao que a psicóloga Lisa Damour chama de presença constante e sem intenções definidas.
Damour escreve que uma boa parentalidade envolve oferecer uma presença consistente, estável e próxima. Ela recomenda que o amor e o cuidado sejam expressos através da gentileza de uma presença centrada e sem julgamentos, em vez de enfatizar palavras de orientação ou conselhos.
Os encontros diários de Jesus com as pessoas ofereciam consistentemente solidariedade por meio de uma postura semelhante de presença constante e sem segundas intenções. Seu ministério expressava às pessoas que elas eram vistas e valorizadas, e que ele não tinha medo de se aproximar de seu sofrimento.
Da mesma forma, um ministério de proximidade reconhece o significado divino de oferecer a própria presença corpórea ao outro. É como uma comunidade ativamente engajada no bem do entorno local, sempre disponível e reconhecida por ter recursos para oferecer quando estes não se encontram em nenhum outro lugar da sociedade.
Um ministério da proximidade investe esforço e recursos para melhor compreender como raça, educação, classe social, gênero, sexualidade, idade, situação imigratória, deficiência e outras circunstâncias formativas da vida podem moldar a luta de alguém contra a sensação de solidão e invisibilidade.
Em vez de minimizar as diferenças genuínas que existem entre nós, um ministério de proximidade reconhece que muitas vezes desconhecemos e até mesmo tememos as diferenças uns dos outros. Requer aprender a ter curiosidade, em vez de nos sentirmos ameaçados, pela estranheza dos outros, e até mesmo pela nossa própria estranheza.
Em vez de nos isolarmos numa postura de autoproteção, um ministério de proximidade está enraizado na convicção divina de que nós, em todas as nossas diferenças, estamos de alguma forma interligados. Todos compartilhamos uma semelhança com o Deus que nos criou e todos dependemos uns dos outros para a cura e a plenitude coletivas.
Como é um ministério de proximidade?
Um ministério de proximidade pode significar uma reunião semanal de meditação silenciosa aberta aos moradores locais, um ombro amigo para um pai ou mãe sobrecarregado(a) ou uma sacola de mantimentos entregue a um vizinho imigrante necessitado.
Essas são todas maneiras tangíveis de compartilhar o amor de um Deus que não nos deixou órfãos. Elas podem servir como o ponto simples, porém necessário, que gradualmente nos reintegra ao tecido social.
Quando isso acontece, elas estabilizam nosso senso de identidade e bem-estar. Elas nos fazem sentir felizes por sermos humanos.
- Felicia Wu Song, socióloga cultural que estuda os efeitos sociais das tecnologias digitais na comunidade e na identidade na vida contemporânea. Com formação em história, comunicação e sociologia, é professora de sociologia no Westmont College, em Santa Bárbara, Califórnia. É autora de Restless Devices: Recovering Personhood, Presence and Place in the Digital Age (Intervarsity Press Academic, publicado em 2021). Quando não está trabalhando, gosta de cuidar do jardim, aprender a fazer pão e sonhar acordada em se tornar proficiente no baixo.
Tradução: Ana Laura Morais
Imagem: Unsplash
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Talvez a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Saiba mais aqui.
Saiba mais:
» Solidão: Estamos diante de uma nova epidemia?, Peng Ming Huang, Lin I Ter, Wu Tu Hsing
» A solidão dos conectados – Millennials e geração z são os mais propensos a se declarar solitários, Lissânder Diasz
» Um Novo Dia – Deixando para trás ansiedade, fome, controle, vergonha, ira e desespero, Emma Scrivener
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