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Opinião

Protestantismo e brasilidade: contribuições de Robinson Cavalcanti

Por Fernando Coêlho Costa
 
O crescimento dos evangélicos no Brasil nas últimas décadas foi o responsável também por sua pulverização, pela percepção de que algo não deu ou não está dando certo e ao mesmo tempo o alimentador de um discurso de superioridade sobre outras religiões, sobre o poder ou investidor de poder sobre o Estado e quem sabe de um messianismo sem o Messias.
 
É por isso que nesses momentos de reflexão sobre o projeto evangélico para o Brasil, não podemos esquecer do intelectual evangélico Robinson Cavalcanti (1944-2012), que dedicou parte dos seus escritos a dialogar sobre o que chamou de exercício da cidadania responsável, isto é, a implicação individual e social do impacto que o evangelho causa na vida dos convertidos ao seguimento de Jesus.
 
Foi a partir da experiência de conversão pessoal que o jovem Robinson passou a mediar suas experiências e seguiu para o engajamento profissional e religioso, a partir dos princípios centrais da Reforma Protestante – o que ele considerava importante na sua prática religiosa. Para ele, estes princípios estavam presentes tanto na história e tradição do catolicismo romano, quanto em movimentos posteriores entre os protestantes, aqui no Brasil também conhecidos como evangélicos.
 
O pensamento de Robinson, que teve como centro um conceito de Reforma, foi sendo forjado na interface dos jesuítas e dos luteranos, no Recife, entre as décadas de 1960 e 1970. Para que essa postura se sustentasse ele precisou desconstruir sua crença nos dogmas católicos romanos quanto à eclesiologia e a soteriologia, respectivamente, a busca pela definição de Igreja e da obra redentora de Cristo. Já dentro do protestantismo, à medida que ia conhecendo mais sobre as crenças e tradições, foi se deparando com o que ele chamou de reformados nominais, aqueles que “pareciam crer de fora” e diante da teologia liberal protestante, aqueles “que descriam de dentro da Igreja”.
 
Em dezenas de artigos publicados durante as décadas de 1980 a 2010, e que serviram de fonte para o recém lançado livro Política, Religião e Sociedade: a contribuição protestante de Robinson Cavalcantii, encontramos parte do que ele pensava sobre que impacto a Reforma Protestante poderia causar no Brasil contemporâneo através dos evangélicos. Os principais artigos sobre o assunto na Ultimato foram: Por um agiornamento evangélico, Protestantismo e brasilidade, Protestantismo: unidade e diversidade, Exótico protestantismo de Contra Reforma, Protestantismo: Reforma e Contra Reforma, Porque não continuei católico romano, Protestantismo brasileiro, A falta da Primeira Reforma: o valor da proposta original, O mais importante é a Igreja, e Igreja: o futuro está no resgate do passado.
 
Seu olhar sobre os evangélicos brasileiros, com suas dinâmicas e variáveis teológicas, culturais e institucionais, provocaram um estranhamento que o levou à constante comparação entre o catolicismo e o protestantismo. Por isso, ao se referir à história da Igreja, quase sempre preferia denominá-la simplesmente de “Igreja indivisa”, expressão que se refere à unidade de sentido da Igreja em todos os lugares e épocas.ii
 
Em Protestantismo e brasilidade, artigo de 1994, ele desafiou os evangélicos a promoverem a conversão cultural do protestantismo brasileiro. Para ele, a Terra de Santa Cruz ainda espera uma igreja com a sua face, jovial, afetiva, plástica, mestiça, de cultura luso-tropical. Ele se perguntava quando surgiria a igreja de sabor brasileiro e de alma verde-amarela, pois a história do cristianismo já havia experimentado o sabor siriano, grego, russo, romano, inglês e norte-americanoiii. Se essa “conversão cultural” por parte dos protestantes não acontecesse, dizia ele: “[…] apenas prosseguiremos inchando os nossos guetos alienígenas e alienados”.
 
Para ele, “[…] aqui o protestantismo chegou como projeto influenciador da cultura e logo foi abandonado por um isolamento de contracultura por influência neofundamentalista”. Esse isolamento a que Robinson se refere foi provocado por um afastamento dos protestantes dos espaços de cultura nacional, como por exemplo, das artes, da política e da universidade.
 
Ele destaca que nem sempre o cenário foi este, pois entre os primeiros grupos protestantes históricos no Brasil havia a consciência de uma “missão civilizatória” que priorizava o “contato com as elites” e é exemplificada pela presença dos “colégios de vanguarda” com a finalidade de ocupação de espaços sociopolíticos. Afirma ainda que “[…] cedo surgiu uma classe média de formação universitária, com uma visibilidade social inclusive no campo político”.
 
Como alguém de formação escolar e universitária, e tendo feito carreira na universidade na área das ciências humanas, Robinson era um entusiasta da universidade. Ele era um interessado em ver o protestantismo nacional sendo vinculado à defesa da educação de qualidade, da intelectualidade e da cultura como projeto definido para o país e promovido por princípios e crenças. Daí porque sua postura era a de que os evangélicos deveriam criar pontes culturais que fugissem dos extremismos da adesão superficial ou da rejeição total, por exemplo, do calendário folclórico.
 
Robinson era a favor “de uma participação crítica de dentro (não de fora, de cima ou de baixo) do fato cultural”. Nesse sentido, três elementos teriam sido os impeditivos da aproximação artística, cultural e intelectual dos evangélicos do que chamou de “brasilidade”:
  • o primeiro tem relação com a teologia presente na maior parte do protestantismo da segunda metade do século XX: “a subjetividade, o além, o futuro, o arrebatamento como ênfase teológica para os convertidos, para suas vidas, os deixam fora da cultura, na contracultura, na opção pela não-influência”;
  • a segunda dificuldade de aproximação dessa brasilidade foi o fato de os evangélicos terem feito a "opção pelo trabalho e a prosperidade como inserção na vida econômica, mas não na vida cultural”;
  • o terceiro impeditivo foi que o mundo evangélico repudiou, pelo menos por parte de algumas lideranças evangélicas, qualquer aproximação às ciências humanas. O que ele chamou de "um misto de desprezo e temor".
Quando Robinson Cavalcanti, já na década de 1970, percebeu que esse protestantismo brasileiro começou a guinar para o isolacionismo em relação às ciências, à política e à tradição do cristianismo mediado pela Reforma, aconteceu o confronto direto com alguns setores internos do protestantismo, pois elementos culturais de outros países haviam sido recebidos de forma passiva, como se fossem conteúdo do cristianismo em si. Disse ele: “os nossos seminários, a literatura evangélica e a subserviência às ‘mecas’ e ‘gurus’ do Primeiro Mundo não nos ajudam na caminhada da inculturação e do autoctonismo”.
 
Se os evangélicos brasileiros conseguissem romper com os elementos impeditivos dessa aproximação cultural e promovessem um protestantismo bíblico em suas crenças e à brasileira em suas práticas culturais, aí sim teriam contribuições próprias a enriquecer o conjunto da cristandade e dariam um importante passo na superação, em solo brasileiro, do incômodo título de "apenas mestiços saxonizados isolados em seus guetos”.
 
Uma de suas principais contribuições foi insistir em um protestantismo que representasse o que houvesse de melhor “[…] no conhecimento científico, em termos de exercício maduro da fé e de uma teologia relevante para o cotidiano”iv. Que fizesse dialogar com o protestantismo a cultura nacional e que não obrigasse boa parte dos intelectuais a terem de decidir entre ser evangélico ou ter a sua obra reconhecida na cultura nacional. Um protestantismo que voltasse do triste caminho da "opção da não influência", da abstenção de estar nos "lugares altos" do nosso "mundo nacional" e que de uma vez por todas não esquecesse que protestantismo e intelectualismo são compatíveis. Através de sua própria trajetória, ele apontou um caminho possível para o reencontro dos evangélicos com sua brasilidade.

NOTAS
i COSTA, Fernando Coêlho. Política, Religião e Sociedade: a contribuição protestante de Robinson Cavalcanti. Curitiba: CRV, 2020.
ii CAVALCANTI, Robinson. O mais importante é a Igreja. Ultimato, Viçosa, MG, ed. 317, mar/abr. 2009. 
iii CAVALCANTI, Robinson. Protestantismo e brasilidade. Ultimato, Viçosa, MG, ed. 228, mai/jun.1994.
iv CAVALCANTI, Robinson. A utopia possível: em busca de um cristianismo integral. Viçosa, MG: Ultimato, 1993.

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Fernando Coêlho Costa é historiador, teólogo, cientista das religiões e pesquisador do Protestantismo Brasileiro. Atuou como Assessor da ABUB, como pastor e hoje está envolvido na Geração de Líderes Jovens do Movimento Lausanne. É autor de Política, Religião e Sociedade: a contribuição protestante de Robinson Cavalcanti (Ed.CRV). Siga no Instagram: @fernandocoelhocosta. Conheça o Instituto Robinson Cavalcanti.
  • Textos publicados: 6 [ver]

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