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Opinião

Shalom – chamados a crer e a viver em paz

“Estar em Cristo” é essencialmente uma condição comunitária, pacífica e familiar

Por Rubem Amorese

A Carta de Paulo aos Efésios, ao ser examinada profundamente, revela-se um tratado inspirador sobre a paz. A riqueza de sua mensagem é ainda mais notável por sua origem: Paulo a escreve da escuridão e desconforto de uma prisão romana. Imaginemos: após sofrimentos, surras, naufrágio e visão comprometida, suas palavras resplandecem alegria, esperança, fé, luz e, acima de tudo, paz – com Deus e com a humanidade.

Cinco anos após seu denso tratado teológico em Romanos, Paulo avança em Efésios. Aqui, ele não apenas doutrina, mas fala de reencontro, de afetos restaurados, e da gloriosa convergência entre céu e terra, tudo em Cristo. A carta compartilha um sonho vibrante de união e paz. Paulo revela ter compreendido um mistério divino: o plano de Deus para seu Filho. Um plano em que Jesus estaria rodeado de irmãos, assentados com ele nos lugares celestiais, desfrutando de Sua mesa (Ef 1.3).

O que fora comprometido no Éden, resultando em inimizade e divisão, seria totalmente reconciliado por meio de Cristo. Ele se tornaria a cabeça de uma nova humanidade (Ef 1.22-23) que, guiada por Ele e com a intensa participação de seu Espírito, formaria um corpo harmonioso. Esse corpo não apenas maravilharia futuras gerações, mas também os principados e potestades nas regiões celestiais (Ef 3.10), testemunhas da sabedoria de Deus. Céu e terra se uniriam em admiração quando este plano, concebido antes da fundação do mundo (Ef 1.4), se materializasse em uma "casa" que acolheria judeus e gentios. A parede da separação, a inimizade, seria derrubada (Ef 2.14), e o verdadeiro “shalom” de Deus – a paz em sua plenitude – seria instaurado.

Para concretizar essa visão, em seu amor sacrificial, Deus visitou os humanos. Ele fez uma aliança eterna, predestinando-os para a adoção de filhos (Ef 1.5), chamando-os e resgatando-os da escravidão do pecado (Ef 2.1). Santificou-os para si e selou-os com o seu Santo Espírito, como garantia da herança, para o louvor da sua glória (Ef 1.13-14). Foram feitos para assentar em lugares celestiais juntamente com seu Filho (Ef 2.6), recebendo poder e treinamento para vencer o pecado e ressuscitar da condição de "vivos-mortos" por seus delitos e pecados, libertos do domínio de principados e potestades (Ef 2.2) que os mantinham em profunda alienação.



Mas o apóstolo percebeu que o plano divino ia além: era preciso buscar outros filhos de Adão que igualmente haviam se desviado. A convocação era clara: à paz com Deus e com seu povo (Ef 2.17). Paulo ensinaria que, pelo sangue derramado, o Filho seria a própria personificação da paz (Ef 2.13-14), e que "nele", por Sua graça, nós nos faríamos também paz. Ao mergulharmos em Cristo, encontraríamos um oceano de paz. Ao olhar para qualquer pessoa – um filisteu, um samaritano, um estrangeiro, um pobre, um doente, ou alguém ideologicamente diferente, mas crente no mesmo Cristo, reconciliada pelo mesmo Deus, sangue e Espírito – veríamos nela o próprio Cristo. Porque nele, "nós e eles" viveríamos a paz de Deus, a paz que Ele nos propôs no Seu sangue reconciliador.

Na estrada de Damasco, Paulo aprendeu uma lição vital: ao perseguir os seguidores do Caminho, perseguia o próprio Jesus. Essa verdade fundamentou seu sonho de comunidade espiritual unida. Toda afronta ou estranheza com um seguidor de Jesus se transformaria, de modo místico, em uma separação do próprio Cristo (Ef 4.4-6).

Assim, "estar em Cristo" transcende uma condição individual e isolada, tornando-se essencialmente coletiva, comunitária, pacífica e familiar. Não é possível conceber uma "igreja de Cristo" vivida isoladamente. Este sonho de convergência em Cristo, onde céu e terra glorificam o Pai, é a condição para a compreensão profunda do amor de Deus. Somente na dinâmica comunitária seria possível compreender plenamente a altura, largura e profundidade do amor de Cristo (Ef 3.18-19), e assim nos enchermos de toda a plenitude de Deus.

Diante dessa realidade, Paulo pede que nos esvaziemos de nossos egos e de tudo que nos separa, a fim de preservarmos diligentemente a unidade do Espírito no vínculo da paz (Ef 4.3). Isso nos capacita a receber os dons divinos, e, assim, em humildade, mansidão e longanimidade (Ef 4.2), tratar das nossas "articulações" – os pontos vitais do corpo onde os membros se encontram (Ef 4.16).

Seguindo a verdade em amor (Ef 4.15), somos chamados a crescer em harmonia, unidade e maturidade, para a glória de Deus Pai. Esse amor, que modula a verdade, haverá de ser da mesma natureza do amor de Deus: um amor que se dá sacrificialmente (Ef 5.2). Em seu Corpo, estabelece-se uma nova regência: a do outro. Do egoísmo, passamos ao altruísmo. E, ao nos submetermos uns aos outros no temor de Cristo (Ef 5.21), o shalom de Deus reinaria novamente entre nós, restaurando a plenitude e prometendo uma paz duradoura.

Juntamente com a igreja de Éfeso, somos chamados a crer nessa visão de Paulo. Somos chamados a transformá-la em experiência nossa; em anelos e propósitos diante de Deus; em orações devocionais de busca e luta, pelas quais iremos nos conformando ao seu Corpo. Essa entrega do nosso eu e do nosso mundo; essa radical mudança de rei e de regência deve nos impulsionar, como quem oferece, como quem “apresenta seu corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12.1), como um ofício sacerdotal; como quem oferece sua vida como ofício sagrado – o de viver a busca pela paz de Cristo, a qualquer preço, a participar, voluntariamente, do shalom de Deus.

Imagem: Freepik.


REVISTA ULTIMATO – LEMBREM-SE: ‘DEIXO COM VOCÊS A PAZ, A MINHA PAZ LHES DOU”
Durante a última ceia com os discípulos, Jesus se despede com palavras de paz: “Deixo-vos a paz; a minha paz vos dou. Não a dou como o mundo a dá. Não vos perturbeis, nem vos atemorizeis”.

Por meio dos artigos de capa desta edição, Ultimato quer ajudar o leitor a se lembrar dessa verdade. Para fazer frente aos dias difíceis em que vivemos.

É disso que trata a
edição 417. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
» Lendo Efésios com John Stott, John Stott
» O Cultivo da Vida Cristã – Meditações em 1 João, Robert Koo
Rubem Amorese é presbítero emérito na Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília. Foi professor na Faculdade Teológica Batista por vinte anos e consultor legislativo no Senado Federal. É autor de, entre outros, Fábrica de Missionários e Ponto Final. Acompanhe seu blog pessoal: ultimato.com.br/sites/amorese.

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