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Opinião

A contribuição protestante à educação superior

A importância dos evangélicos não se resume aos números. Em diferentes áreas, eles têm ajudado no desenvolvimento da sociedade

Por Marcone Bezerra Carvalho

Os evangélicos no Brasil

Em suas diversas expressões, o protestantismo é a opção religiosa de 26% dos brasileiros (Datafolha/2022). Essa quantidade de fiéis desperta a atenção da mídia e dos políticos. Contudo, a importância desse segmento religioso não se resume aos números. Em diferentes áreas, evangélicos têm ajudado no desenvolvimento da sociedade. Vejamos alguns exemplos dessa contribuição no âmbito da educação superior.

Docência. O caso mais famoso é o que dá conta dos primórdios da Universidade de São Paulo (USP). Ali lecionaram Flamínio Fávero, Otoniel Mota, Lívio Teixeira, Theodoro Henrique Maurer Jr., Isaac Nicolau Salum, Linneu de Camargo Schützer e os franceses Roger Bastide, Paul-Arbousse Bastide, Émile Léonard e Paul Hugon. Tempos depois, passaram pela mesma casa Jorge César Mota, João Baptista Borges Pereira e Ephraim de Figueiredo Beda. Na Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), marcou época o jurista Benjamim de Moraes Filho. Na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), ainda hoje os nomes de Waldyr Carvalho Luz, Rubem Alves e Eduardo Chaves são recordados. Em nossos dias, pelo Brasil afora, cristãos protestantes têm exercido a docência ou atuado na gestão acadêmica.

Instituições. No estado de São Paulo, existem três importantes instituições de ensino superior evangélicas: a Universidade Presbiteriana Mackenzie, a Universidade Metodista de São Paulo (UMESP, em São Bernardo do Campo) e a Universidade Metodista de Piracicaba. Outros centros de ensino superior vinculados à causa evangélica são a Universidade Luterana do Brasil (Canoas, RS), a UniEvangélica (Anápolis, GO), a UniCesumar (Maringá, PR), Faculdades Souza Marques (Rio de Janeiro, RJ), Faculdade 2 de Julho (Salvador, BA), Faculdade Presbiteriana Gammon (Lavras, MG), Faculdade Metodista Granbery (Juiz de Fora, MG), Faculdade Evangélica (Goianésia, GO), Faculdade Augusto Galvão (Campo Formoso, BA), Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná (Curitiba, PR) etc. Essas instituições, seja pela modalidade presencial ou a distância, têm atendido milhares de alunos e, no caso das universidades, fomentado a produção científica.

Livros de reconhecido valor científico. Na esteira da pesquisa, vieram à luz obras que têm enriquecido a cultura nacional. Entre tantas que poderiam ser lembradas, menciono as de Émile Léonard, José Gonçalves Salvador, Antonio Gouvêa Mendonça e David Gueiros Vieira. Os artigos de Léonard apareceram na Revista de História da USP (1951-1952) e deram origem ao livro O Protestantismo Brasileiro, que tem ensejado mais pesquisas do que qualquer outro. As obras Cristãos-novos, Jesuítas e Inquisição, de Salvador, e O Celeste Porvir – a inserção do protestantismo no Brasil, de Mendonça, foram publicadas pela Editora da Universidade de São Paulo. Por sua vez, O Protestantismo, a Maçonaria e a Questão Religiosa no Brasil, de Vieira, foi impresso pela Editora da Universidade de Brasília.



Iniciativas e métodos inovadores. Algo digno de registro é o vanguardismo de alguns empreendimentos. Por exemplo, a Escola de Engenharia do Mackenzie College, criada em 1896 e incorporada à Universidade do Estado de Nova York, foi a primeira faculdade privada desse gênero no país. No mesmo ano, e também no seio do Mackenzie College, foi organizada a primeira equipe de basquete do Brasil.

Outra empresa cujos frutos vingaram foi o Colégio Internacional, obra dos missionários George Morton e Edward Lane. Fundado na mesma época da Escola Americana (Mackenzie), foi transferido de Campinas, SP, para a cidade mineira de Lavras em 1892, devido à epidemia de febre amarela. Após ter sido rebatizado como Instituto Evangélico e depois como Instituto Gammon, deu origem à Escola Agrícola de Lavras, que, como importante promotora do ensino agrícola, veio a chamar-se Escola Superior de Agricultura de Lavras (1938), nome que manteve até 1994, quando foi transformada em Universidade Federal de Lavras.

É provável que o maior aporte dos protestantes tenha sido a introdução de abordagens e métodos educacionais modernos. Ao lado da produção de literatura didática, da coeducação dos sexos (classes mistas) e do incentivo ao livre exame, a metodologia inovadora dos estadunidenses fomentou a emancipação do espírito e, portanto, o estímulo à noção de responsabilidade individual. Tudo isso significou um sopro de renovação no arcaico sistema de ensino vigente no Brasil.

Quem muito se beneficiou desse pioneirismo pedagógico foi o estado de São Paulo. No final do século 19, o governo paulista, por meio de lei especial, recorreu à missionária Marcia Browne e a quatro professoras formadas no Mackenzie College, além do doutor Horace Lane, diretor da instituição, para reformar o ensino público. Sob a orientação de Lane, conselheiro de Cesário Mota e Caetano de Campos, Browne e sua equipe lançaram as bases da educação primária estatal, que, por mais de trinta anos, alinhou-se com os ideais mackenzistas.

A participação dos evangélicos na vida educacional de nosso país constitui um bonito capítulo do protestantismo nacional, fato reconhecido por estudiosos não protestantes, como Francisco Venâncio Filho, Maria Lúcia Hilsdorf e Fernando de Azevedo. Este último, em A Cultura Brasileira, ressalta melhor do que ninguém essa contribuição. Cabe aos evangélicos de hoje ampliá-la.

Para informações adicionais sobre o assunto, ver o Dicionário Enciclopédico de Instituições Protestantes no Brasil – Instituições educacionais, da Editora Mackenzie, organizado por Alderi Souza de Matos, Lidice Meyer Pinto Ribeiro e Marcel Mendes.

  • Marcone Bezerra Carvalho é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil e professor do Seminário Presbiteriano de Brasília. Publicou Protestantismo e História, Combates pela História Religiosa e Doutrina Segundo a Piedade.

Artigo publicado originalmente na
edição 401 de Ultimato.

Imagem: Centro Histórico e Cultural Mackenzie.



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