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Opinião

Trabalho e insatisfação não devem andar juntos

Quantos de nós tinha maturidade suficiente para escolher uma área de trabalho aos vinte anos de idade?

Por Mariana Albuquerque


Se dezembro é um dos meses mais aguardados do ano, janeiro provavelmente é um dos mais indesejados. É neste primeiro mês do ano que somos forçados a encarar uma realidade: um ano acabou e outro começou, e nós precisamos voltar às nossas rotinas e, pior ainda, aos nossos trabalhos.

Não é a coisa mais difícil do mundo encontrar alguém que está insatisfeito com o trabalho que tem. Uma amiga me contou no final do ano passado que está em crise com a profissão que ela escolheu e que está considerando seriamente mudar de área. Trabalhar virou um peso que ela carrega todos os dias. Meu marido também compartilha do mesmo sentimento e tem feito encontros com nosso pastor para entender de onde realmente vem essa insatisfação.

Outra amiga que formada recentemente já está planejando sua mudança de área porque descobriu que a prática de sua profissão não lhe satisfaz.

Nós vivemos em uma sociedade desigual. Quase ninguém tem a chance de esperar para entender com o que realmente gostaria de trabalhar. Somos praticamente obrigados a escolher uma área de trabalho antes dos vinte anos. Quantos de nós tinha maturidade suficiente para fazer tal escolha com essa idade? Eu diria que poucos. É claro que é possível mudar de área ao longo da vida, mas isso vai requerer de nós muito mais energia e comprometimento porque as atribuições passam a se acumular. Seria, então, seguro dizer que boa parte de nós não trabalha com o que gosta ou que, se tivesse chance, teria feito outra escolha no passado.

Antes de oferecer mais argumentos, gostaria de dizer que este texto é sobre trabalho. Aquele que você precisa cumprir horário, que requer tempo e que lhe entrega uma recompensa monetária no fim do mês. Não vou falar aqui sobre vocação ou chamado porque, para mim, são coisas ligeiramente diferentes. Paulo trabalhava com a fabricação de tendas, mas seu chamado era claramente para a área pastoral, de ensino e pregação. Não há uma só palavra na Bíblia afirmando que precisamos trabalhar com aquilo que é o nosso chamado. Muitas vezes, nosso chamado precisará ser levado em paralelo ao nosso trabalho e Deus será glorificado nisso. A romantização do chamado no meio evangélico fez muito mal, mas este texto não é sobre isso.

O mandato
Nossa compreensão errada sobre o papel do trabalho faz com que muitos vivam uma vida de insatisfação, na qual o contentamento só chega na sexta-feira à noite e vai embora no domingo. Enquanto vivemos insatisfeitos, a misericórdia e a graça de Deus passam despercebidas diante de nossos olhos.

Ter uma ocupação não é uma escolha, é um mandato (Gn 2.15). Deus ordenou que Adão cultivasse o jardim, José trabalhou como escravo e como oficial do Egito, Daniel trabalhava para o governo da Babilônia, os discípulos foram pescadores e Jesus carpinteiro. Trabalhar é a regra. José trabalhou com tanta excelência que foi elevado a cargos que nenhum judeu pensou um dia ocupar. Daniel estava perto dos líderes da Babilônia, uma nação que é sinônimo de corrupção, mas permaneceu fiel e era elogiado por seu trabalho. José e Daniel entenderam que suas ocupações eram uma forma de cuidar daquilo que Deus estava fazendo no mundo e tudo o que faziam deveria glorificá-Lo.

Sim, a vida não é nada fácil. Muitos no Brasil trabalham o mês inteiro para ganhar salários injustos, mas no fim o Senhor Jesus Cristo dará conta de todo o mal. Coloque-se, por exemplo, no lugar dos judeus que foram levados para o cativeiro na Babilônia. Imagine deixar a sua terra para viver em um lugar estranho rodeado pela maldade. Eles só queriam que tudo aquilo acabasse, mas, no capítulo 29 de Jeremias, Deus pede que eles façam algo extremamente difícil:

Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel, a todos os exilados, que deportei de Jerusalém para a Babilônia:
"Construam casas e habitem nelas; plantem jardins e comam de seus frutos. Casem-se e tenham filhos e filhas; escolham mulheres para casar-se com seus filhos e deem as suas filhas em casamento, para que também tenham filhos e filhas. Multipliquem-se e não diminuam. Busquem a prosperidade da cidade para a qual eu os deportei e orem ao Senhor em favor dela, porque a prosperidade de vocês depende da prosperidade dela" (Jr 29.4-7, NVI)

Para o povo que estava sofrendo na Babilônia, Deus simplesmente diz: vivam, casem, cuidem dos filhos e busquem a prosperidade desta cidade. Sim, a prosperidade da cidade corrupta. Sim, construam e plantem. Encontrem ocupações e vivam. Fomos ensinados que o trabalho deve ser algo que nos satisfaz, mas a Palavra de Deus afirma que só há um que pode nos satisfazer e não devemos ter outro Deus além dele.

Não estou dizendo que devemos aceitar coisas absurdas em nosso trabalho e fechar os olhos para a corrupção. Não é isso. Meu ponto é: o trabalho é um mandato de Deus e não um meio de satisfação humana. Se hoje temos uma ocupação, que a façamos da melhor maneira possível e para a glória de Deus porque nenhuma folha cai da árvore se não for da vontade dele.



Romantização e insatisfação
Muitas vezes, o entendimento a respeito do trabalho como mandato divino existe, mas a insatisfação se torna uma companheira diária. Há dois anos, enquanto fazia terapia, minha psicóloga disse algo que até hoje me acompanha: cada um vive o mundo que tem na cabeça. Se a insatisfação se torna algo consistente, há algo em nós que precisa ser analisado com cuidado. Não estou defendendo uma vida rodeada pela pobreza e conformada com isso. Estou afirmando que a forma como enxergamos as situações molda nossos sentimentos.

Nós vivemos em um mundo que romantiza e transforma tudo em performance. Hoje, não basta só finalizar uma graduação de medicina, é preciso ter um perfil nas redes sociais que mostre o quanto você é bom médico. Além disso, a vida online faz com que a comparação seja o nosso modus operandi. Talvez você esteja insatisfeito porque aquele seu amigo posta todos os dias como está feliz no trabalho dos sonhos, enquanto você vive uma vida mediana. Isso molda a forma como você enxerga a sua vida e, consequentemente, gera sentimentos.

Nossos sentimentos não validam nossos achismos. Nossos sentimentos não tornam uma mentira verdade. Não somos o que sentimos.

Eu ainda era criança quando comecei a escutar a famosa frase atribuída a Confúcio: “Trabalhe com o que você ama e nunca mais precisará trabalhar na vida”. Isso não é verdade. Até mesmo as pessoas que gostam de sua ocupação sabem que há dias que nada dá certo, que seria muito melhor não estar trabalhando e, se pudessem, escolheriam mudar o que fazem. Trabalho é trabalho. Quando Deus disse ao homem que com o suor ele comeria o pão (Gn 3.19), ele não estava incluindo alguns e excluindo outros. Toda a humanidade vive sob o mesmo decreto (inclusive os salvos): até a volta de Cristo o trabalho será esgotante, a ponto de nos fazer suar para poder comer o pão do dia seguinte. Olhe ao redor e perceba que a maioria de nós preferiria não ir trabalhar.

Porém, faz parte da vida humana fazer coisas das quais não gostamos. Nós não fomos feitos para satisfazer todas as nossas vontades. Não, nós não precisamos ser realizados em todas as áreas da vida. Nós não precisamos estar bem o tempo todo. No entanto, devemos o tempo todo estar contentes em Cristo Jesus e com a vida que temos através d’Ele.

Venho de um lar onde os problemas são resolvidos e, quando não podem ser resolvidos, nós aprendemos a viver com eles e com o que eles têm para nos ensinar. Meu pai e minha mãe nunca tiveram a oportunidade de fazer o que amam, mas aprenderam a amar o que fazem. Não porque a ocupação em si é algo maravilhoso, mas por tudo o que ela proporciona no processo: mais tempo com a família, melhor vida financeira, mais oportunidade para os filhos etc. A lista continua.

Estamos em uma geração que só se permite estar satisfeita quando alcança o que quer, sem perceber que o processo talvez seja a parte mais importante. Não há nada de errado em querer um trabalho melhor, mas se permita deixar que o trabalho que você tem hoje melhore sua vida e seja uma forma de mostrar Cristo para as pessoas. Permita-se achar a graça de Deus no que ele dá hoje. Se seu desejo é sair do seu trabalho e encontrar outras oportunidades, responda de forma responsável a isso confiando que Deus é nosso provedor.

No entanto, recuse-se a viver uma vida insatisfeita e murmuradora. Deus nos criou para cuidar do jardim e ele nos pede todos os dias para trabalhar pela prosperidade das nossas cidades porque, em seu poder absoluto, ele sabe que alguém pode ser tocado pela nossa fidelidade, amor e contentamento em meio ao caos. Uma vida de insatisfação e repleta de murmuração fará com que nosso amor esfrie e que sejamos o sal que não salga. Que tudo aquilo que você faça, inclusive o que você não quer fazer, seja para a glória de Deus.
  • Mariana Albuquerque é casada com Mateus, graduada em jornalismo e pós-graduada em neurociência e comportamento humano. Atualmente é gerente de projetos das traduções da Christianity Today. @marianalbuqrq.

Imagem: israel-andrade-YI_9SivVt_s-unsplash


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Durante a última ceia com os discípulos, Jesus se despede com palavras de paz: “Deixo-vos a paz; a minha paz vos dou. Não a dou como o mundo a dá. Não vos perturbeis, nem vos atemorizeis”.

Por meio dos artigos de capa desta edição, Ultimato quer ajudar o leitor a se lembrar dessa verdade. Para fazer frente aos dias difíceis em que vivemos.

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» O Propósito de Deus e a nossa Vocação – Uma teologia bíblica da missão toda,Timóteo Carriker
» Trabalho, Descanso e Dinheiro – Uma abordagem bíblica, Timóteo Carriker
» Fábrica de Missionários – Nem leigos, nem santos, Rubem Martins Amorese
» A Espiritualidade na Prática, Paul Stevens
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