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Opinião

O legado feminino na origem do presbiterianismo no Brasil

Por Lidice Meyer P. Ribeiro

Em 12 de agosto de 1859 desembarcou no Rio de Janeiro aquele que seria o primeiro de muitos missionários presbiterianos americanos a vir evangelizar o Brasil. Seu nome, Ashbell Green Simonton, seria para sempre lembrado como o pioneiro do presbiterianismo brasileiro. Veio só, mas não tardou a perceber a necessidade de apoio feminino em seu ministério. Regressou aos Estados Unidos e de lá trouxe sua esposa, Hellen, que foi um apoio constante para Simonton em sua breve vida no Brasil. William Rankin a descreveu como “adaptada à vida missionária, tendo uma mente primorosa e bem cultivada, um juízo sadio, um coração mui terno e amoroso, com uma fé simples, profunda humildade e zelo altruísta. Era especialmente qualificada para ser uma ajudadora no campo missionário” com “facilidade para granjear a confiança e a afeição de todos com os quais se relacionava”.

Consideradas como missionárias pelas juntas norte-americanas, outras esposas de pastores acompanharam seus maridos na vocação e no trabalho evangelístico, como Elizabeth Blackford e Mary Ann Chamberlaim, que fundou a escola que se tornou o Colégio e Universidade Mackenzie. Muitas também foram as missionárias solteiras que vieram como evangelistas e educadoras. Há também de serem lembradas as esposas dos pastores lusófonos. Dentre elas, destacam-se Luiza Pereira de Magalhães que dirigia o culto da igreja quando seu esposo, rev. Eduardo Carlos Pereira estava ausente em viagens missionárias e congressos, e, Alexandrina Teixeira da Silva Braga, que pode ser considerada a primeira teóloga protestante no Brasil.

Alexandrina foi descrita por Julio de Andrade como sendo “um espírito aberto aos grandes problemas do século e da pátria, esposa de dedicação comovente”. Casou-se em 1876 com o reverendo João Ribeiro de Carvalho Braga, natural de Braga, Portugal, que aos 18 anos havia se convertido ao protestantismo por meio da leitura de folhas de uma Bíblia utilizada como papel de embrulho. Alexandrina e seu esposo atuaram como missionários no estado de São Paulo em Rio Claro, São Paulo, Botucatu e Sorocaba e em Niterói, no Rio de Janeiro. Enquanto esteve em Botucatu, Alexandrina dirigiu a escola local, onde seu filho Erasmo Braga iniciou seus estudos, e escreveu artigos para o jornal Imprensa Evangélica. Durante sua estadia em Sorocaba criou e administrou a livraria Depósito de Livros. Em São Paulo foi professora na Escola Americana, futuro Colégio Mackenzie. Foi autora do livro Comparação da Doutrina da Igreja Romana com as Santas Escrituras e tradutora do conhecido Dicionário Bíblico de Davis. Em todos os lugares onde viveu, se destacou como mulher culta e envolvida na sociedade.

A trajetória desta teóloga brasileira não se marca apenas pelos seus frutos literários, mas também pelo seu fruto biológico. Alexandrina, tal como Mônica, mãe de Agostinho, deixou sua marca naquele que foi considerado por Themudo Lessa “um dos ministros de carreira mais brilhante do ministério nacional”. Se Erasmo Braga foi pastor, educador, escritor, poliglota e envolvido com os problemas sociais do Brasil, muitas destas características se devem à formação dada por sua mãe, Alexandrina, que estimulou em seus filhos o interesse em torno de questões políticas, sociais, intelectuais e eclesiásticas.

Apesar de muitas vezes desconhecidas pela maioria dos membros das igrejas presbiterianas atuais, Robert McIntire destaca que estas mulheres “muitas das quais fizeram sacrifícios de proporção heróicas, foram tão importantes para a difusão do evangelho quanto seus maridos.” Elas fazem parte destes 162 anos de história do protestantismo no Brasil.

>> Conheça o livro Vozes Femininas no Início do Cristianismo, de Rute Salviano Almeida.

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» Da Lei Seca ao direito ao voto: o movimento e o avivamento feminino
Lidice Meyer P. Ribeiro é doutora em Antropologia e professora convidada na Universidade Lusófona, Portugal.
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