Apoie com um cafezinho
Olá visitante!
Cadastre-se

Esqueci minha senha

  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.
Seja bem-vindo Visitante!
  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.

Opinião

Eu, Deus e o cotidiano

Como cultivar espaço para Deus em meio à pressa dos dias

Por Robert Lopes

Acordamos: 5 alarmes tocando para não perdermos a hora. O dia cheio de compromissos e tarefas. Sem perceber, já quase no automático, pegamos o celular para olharmos as notícias. A barra de notificações lotada. No WhatsApp, conversas e mais conversas para responder.

Respiramos um pouco e já é a hora do almoço. Vai ter que ser iFood, não temos tempo para cozinhar. Comemos correndo, não sabemos bem descrever o que comemos, pois só engolimos rapidamente para não perder o próximo ônibus, para não bater o ponto atrasado e depois receber um desconto daqueles no pagamento.

Piscamos e já é noite. Fazemos um miojo porque é mais rápido, respondemos a mais um monte de mensagens, scrollamos por algumas boas horas, intercalando entre o Instagram e o TikTok. A Bíblia debaixo do abajur: olhamos para ela, o sono chega pesado, e balbuciamos para Deus: “Senhor, Tu sabes que hoje foi corrido, não tive tempo para nada, amém.”

Adormecemos tristonhos, por vezes em crise. E eu e Deus?!

“A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo...
Quando se vê, já é 6ª-feira...
Quando se vê, passaram 60 anos...
Agora, é tarde demais para ser reprovado...
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre, sempre em frente...”
(Mario Quintana)1


Está tão corrido que não tenho mais espaço para Deus. Eu não consigo orar por muitas horas, nem ler muitos capítulos da Bíblia. Será que ele deixará de me amar?

A nossa sociedade atual, em poucos minutos, recebe mais informações do que outrora nossos pais demorariam anos para receber! Tudo está tão rápido. Já acordamos sem ar, preocupados com o tempo que escorre entre os dedos; dizemos uns aos outros: “Tempo é dinheiro!”, e, sem perceber, o coração afirma: “O tempo é o meu deus.”

“Em nosso mundo altamente tecnológico e competitivo, é difícil evitar completamente as forças que saturam nosso espaço interior e exterior e nos desconectam do nosso ser mais íntimo, dos nossos companheiros humanos e do nosso Deus.” (Henri Nouwen)2

Os dias passam, as atividades crescem, e junto delas um grande vazio interior. Estamos tão cheios de obrigações, mas também tão vazios de propósito e direção. Reconhecemos que precisamos de Deus, mas dizemos que o tempo está escasso para buscá-lo. Quanto mais os dias passam, quanto mais a nossa agenda fica cheia, parece que o espaço para Deus em nossas vidas vai diminuindo pouco a pouco.

Uma pergunta fica pairando no ar em meio a todos esses dilemas: “Como cultivar um espaço para Deus em meio a um tempo que parece escorrer entre nossos dedos?”.

A ilusão do quantitativo
Imbuídos pela necessidade de sempre sermos muito produtivos, começamos a viver os nossos dias pela ótica do quantitativo. Essa ótica acaba afetando diretamente nossa vida com Deus. Começamos a pensar que nossa oração só será aceita se ela durar horas; começamos a pensar que Deus só nos aceitará se lermos a Bíblia toda durante o ano; que só seremos aceitos se formos a todas as atividades da igreja, se servirmos em todos os ministérios...

Mas será mesmo que o Deus da Bíblia está preocupado com o quantitativo?!

Há um texto bíblico que responde muito bem não só a essa pergunta, mas aos questionamentos e reflexões levantados até aqui: “Jesus olhou e viu os ricos colocando as suas contribuições na caixa de ofertas. Viu também uma viúva pobre colocar duas pequeninas moedas de cobre. Ele disse: — Em verdade lhes digo que esta viúva pobre colocou mais do que todos os outros. Todos esses deram do que lhes sobrava, mas ela, da sua pobreza, deu tudo o que possuía para viver.” (Lc 21.1-4, NVI)

Percebem? Na ótica humana, social e econômica, os ricos obviamente estariam ofertando muito mais do que a viúva. Eles ofertavam uma quantidade muito maior se comparada com as duas pequeninas moedas da viúva.

Entretanto, na ótica de Cristo, na ótica do seu reino, a verdadeira oferta, antes de tudo, desaguava do coração, de um amor genuíno a Deus. As duas moedas eram tudo o que aquela pobre viúva tinha, e tudo o que ela tinha, sem nenhum pesar no seu coração, ela entrega a Deus.

A nossa vida também é uma oferta a Deus – e, por sinal, uma oferta diária, uma oferta constante e, acima de tudo, viva! E diante da entrega desta oferta, o que Deus espera de nós é o qualitativo, ou, em outras palavras, uma entrega genuína e verdadeira.

“O que é melhor: sacrifício ou fartura? Entregar a Deus tudo do pouco que temos ou um pouco de tudo que temos?” (Grant R. Osborne)3



As duas moedas do nosso tempo
Você pode orar por horas, mas somente por medo de ser rejeitado por Deus, ou só por meritocracia, para mostrar o quanto é espiritual, ou orar por horas com a mente presa nos muitos problemas, longe de estar centrada em Deus.

Mas você pode pegar os poucos minutos que você tem durante o dia e fazer deles como a viúva fez das suas duas únicas moedas. Se dez minutos é tudo o que você tem, oferte-os de todo o seu coração diante de Deus. Se é sobre sua moto, no volante do carro, no metrô ou no ônibus lotado; se é ali que, silenciosamente e em amor e sinceridade, você derrama o seu coração diante de Deus, ele ouvirá a sua súplica, pois você está ofertando de todo o seu coração aquele momento, que Deus sabe muito bem que é tudo o que você tem.

“Seu chamado para ter uma vida espiritual só pode ser ouvido quando queremos honestamente confessar nossa existência desabrigada e preocupada e reconhecer seu efeito fragmentador em nossa vida diária. Só então o desejo do nosso verdadeiro lar pode ser desenvolvido.” (Henri Nouwen)4

Precisamos olhar para as limitações da nossa vida, para o nosso tempo escasso e fragmentado, e descansar no fato de que Deus, aquele que habita na eternidade, conhece e entende as nossas limitações. E esse mesmo Deus está pronto a receber as nossas duas moedas.

Deus se faz presente naquele breve instante, na pequena pausa do almoço, no meio da sua breve e sincera oração. Deus habita nos instantes da vida, nos minutos e segundos. Cabe a nós começarmos a entender isso e nos rendermos a ele.

“No reino de Deus, a vulnerabilidade e a limitação não são defeitos de fabricação; são o terreno onde a graça se torna visível.” (Tish Harrison Warren)5

O pouco tempo que temos será o nosso muito, se fará o nosso tudo, e tudo o que temos a Deus entregaremos: cada instante, cada segundo, cada fragmento e cada momento. Tudo se tornará oferta sincera diante de Deus e, com todo o nosso ser, se tornará a nossa entrega.
  • Robert Lopes, estudante de teologia no Seminário Martin Bucer, músico e colaborador do Nosso Vitral.
Notas
1 QUINTANA, Mario. "Seiscentos e sessenta e seis". In: Esconderijos do tempo. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2013.
2 NOUWEN, Henri. Espaço para Deus: um convite para a vida espiritual. Americana: Impacto, 2019.
3 OSBORNE, Grant R. Marcos. São Paulo: Vida Nova, 2019. (Série Comentário Expositivo).
4 NOUWEN, Henri. Op. cit.
5 WARREN, Tish Harrison. Liturgia do ordinário: práticas sagradas na vida cotidiana. São Paulo: Vida Nova, 2019.

Imagem:
Unsplash
REVISTA ULTIMATO – VIVEMOS UMA EPIDEMIA DE SOLIDÃO?
A epidemia de solidão é um fenômeno global que ultrapassa fronteiras, níveis de renda, faixa etária e sofisticação tecnológica. Que consequências este cenário tem para a missão da igreja no mundo?
Talvez a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Saiba mais aqui.
Saiba mais:
» Livres da Tirania da Urgência, Charles E. Hummel
» Refeições Diárias – Celebrando a Reconciliação, Vários autores
» O cristão e o tempo, por Luiz Fernando dos Santos
» Tempo para viver, por Isabelle Ludovico
» Teologia da espera – aprendendo a confiar no tempo de Deus, por Theo Pemberton

Leia mais em Opinião

Opinião do leitor

Para comentar é necessário estar logado no site. Clique aqui para fazer o login ou o seu cadastro.
Ainda não há comentários sobre este texto. Seja o primeiro a comentar!
Escreva um artigo em resposta

Ainda não há artigos publicados na seção "Palavra do leitor" em resposta a este texto.