Opinião
24 de setembro de 2026- Visualizações: 62
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Uma fé não cooptada pela política
Lições de um rei que errou e de um profeta que ninguém lembra
Por Daniel Câmara
“Josafá, rei de Judá, voltou em paz para a sua casa, em Jerusalém. O vidente Jeú, filho de Hanani, saiu ao encontro do rei Josafá e lhe disse: Será que você deveria ajudar o perverso e amar aqueles que odeiam o Senhor Deus? Por isso, a ira do Senhor caiu sobre você. No entanto, coisas boas foram encontradas em você, porque tirou os postes da deusa Aserá da terra e pôs no coração o propósito de buscar a Deus.” (2 Crônicas 19.1-3)
Existe uma diferença entre uma fé apolítica e uma fé que se recusa a ser cooptada pela política. A primeira finge que a política não existe, ou que não lhe diz respeito. A segunda sabe que fé e política, cedo ou tarde, se tocam, porque cremos e também vivemos em sociedade. Contudo, esta fé não cooptada se recusa a usar o Evangelho como ferramenta de validação do que a política produz. Dessa desconfiança, nasce a percepção das diferenças entre essas duas dinâmicas. Se a fé anuncia o Reino de Deus, a política negocia o bem comum entre interesses divergentes. Se esta é obra de seres humanos que pecaram e carecem da glória de Deus, aquela é obra da Trindade imutável. Sendo assim, o atrito entre os negócios da política e as preocupações da fé é inevitável – e até saudável.
Uma ilustração dessa tensão (que ouso aqui dizer que deve ser cultivada pelo povo de Deus, dentro de certos limites) pode ser encontrada na sabedoria das Escrituras do Antigo Testamento: mais precisamente, na história de Josafá. Este rei de Judá, que viveu no século 9 a.C., era descendente de Davi e herdeiro da promessa de um reino "firmado para sempre" (2Sm 7.16). Não era um rei qualquer. Logo no início do reinado, enviou oficiais, levitas e sacerdotes a percorrer as cidades de Judá levando consigo o Livro da Lei, ensinando o povo (2Cr 17.7-9). As Escrituras dizem sem rodeios que ele "fez o que era reto aos olhos do Senhor" (1Rs 22.43). Ainda assim, como todo bom pecador com poder nas mãos, aliou-se ao rei Acabe, um dos homens mais ímpios da história bíblica, na esperança de restaurar a união entre Judá e Israel. Entre a paz e a fidelidade, escolheu a paz.
A aliança quase lhe custou a vida. Antes da batalha de Ramote-Gileade, Josafá pediu para ouvir um profeta legítimo do Senhor, e não apenas os quatrocentos aduladores da corte de Acabe que garantiam a vitória em coro. Um único homem, Micaías, filho de Inlá, anunciou a derrota. Por sua ousadia, foi preso e alimentado a pão e água. A batalha aconteceu de qualquer forma. Acabe, disfarçado para escapar dos arqueiros inimigos, morreu de um flechaço disparado ao acaso. Josafá, por pouco, sobreviveu, e voltava para casa "em paz". Foi então que um profeta idoso, Jeú, filho de Hanani, saiu ao seu encontro com uma pergunta que ainda hoje incomoda: "Será que você deveria ajudar o perverso?".
Desse breve encontro, e do que veio antes dele, nascem alguns princípios para quando a fé é chamada a confrontar o mundo da política – ressalvados todos os anacronismos, ora temperados pela natureza dinâmica e viva da revelação.

O primeiro princípio é a perspicácia: a capacidade de perceber que sucesso nem sempre é sinônimo de aprovação divina. Josafá já tinha, na própria pele, uma lição sobre isso. Soube distinguir a voz solitária de Micaías do coro de quatrocentos profetas que diziam exatamente o que o rei queria ouvir. Ainda assim, precisou de um segundo alerta, depois da batalha, para perceber que sua própria decisão fora errada. Voltava vitorioso e ileso; nada, à primeira vista, pedia correção. Mas Jeú, inspirado pelo Espírito, enxergou além da aparência.
Políticos sabem parecer invencíveis, se não pelo critério arcaico do resultado de batalhas, ao menos pela valorização de índices de aprovação ou pela descrição caricatural de seus opositores. O fato de que algo está "dando certo" não quer dizer que seja certo. "O temor do Senhor é o princípio da sabedoria" (Pv 9.10), e é esse temor, não a leitura de pesquisas eleitorais, que ensina a distinguir sucesso de aprovação divina.
Foi essa mesma perspicácia que, séculos depois, moveu a Igreja Confessante alemã: enquanto a Alemanha, humilhada pela derrota na Primeira Guerra, parecia recuperar sua glória sob o nazismo, boa parte da Igreja Evangélica se deixou cooptar pelo movimento dos "cristãos alemães". Em 1934, porém, um grupo de pastores e teólogos assinou a Declaração de Barmen, afirmando que nenhum projeto de poder tem direito ao trono que pertence só ao Todo-Poderoso. O preço dessa perspicácia foi alto para muitos de seus signatários: Martin Niemöller passaria oito anos em campos de concentração; Dietrich Bonhoeffer seria enforcado semanas antes do fim da guerra.
O segundo princípio é a vocação: a fidelidade ao chamado de anunciar a verdade. Jeú era chamado de "vidente" (2Cr 19.2), termo que, nas Escrituras hebraicas, remonta a um tempo em que "o profeta de hoje se chamava vidente" (1Sm 9.9). O termo aparece com frequência em Crônicas, associado a figuras ligadas à vida da corte e do templo, mas seu ofício não muda: um profeta, em essência, não é alguém que prevê o futuro ou fala em transe, mas um mensageiro que conecta os padrões da aliança aos dilemas de um tempo específico. Essa vocação, a Reforma a chamou de sacerdócio universal dos crentes (1Pe 2.9): não há mais casta sacerdotal que medeie o acesso a Deus ou o anúncio da sua verdade, porque a cruz nos fez, a todos, "sacerdócio real". Lutero desdobrou essa doutrina em outra, a doutrina da vocação: toda profissão lícita, e não só o ofício pastoral, é lugar legítimo de serviço a Deus. Isso exige contextualização. A verdade que anunciamos não muda, mas as perguntas que ela responde mudam a cada geração. O que o Deus de justiça tem a dizer sobre a desigualdade que a inflação aprofunda? O que o Deus de paz tem a dizer sobre os rumores de guerra? A resposta não está longe. Basta abrir o jornal e ler com os olhos da fé.
O terceiro princípio é a obediência: transformar vocação em ação, como Jeú, que "saiu" ao encontro do rei (2Cr 19.2). Nada disso teria acontecido dentro de quatro paredes; era preciso sair. Vale aqui uma distinção cara à tradição reformada: uma coisa é a Igreja como instituição, o culto, o púlpito, os sacramentos; outra é a Igreja como organismo, o mesmo povo de Deus espalhado, de segunda a sábado, em suas vocações e urnas. À instituição cabe um mandato mais estreito: pregar a Palavra fielmente, sem se tornar refém da pauta da semana. Ao organismo cabe o mandato mais largo: viver o senhorio de Cristo em cada esfera, política inclusive. Isso pode significar coisas bem concretas e pouco heroicas: o professor que se recusa a fechar os olhos ao bullying disfarçado de brincadeira, o servidor público que recusa o suborno, o vereador que perde uma votação por não trocar seu voto por vantagem. O silêncio relativo do púlpito quanto às minúcias partidárias, portanto, não é silêncio da Igreja. É a Igreja lembrando que sua voz mais eficaz contra o pecado político sai pela boca e pela vida de cada crente.
O quarto princípio é a denúncia: nomear com clareza o que é pecado. Jeú fez isso por meio de uma pergunta cortante; nós podemos fazer o mesmo diante da corrupção, da violência ou da guerra. Vale uma ressalva importante. Jeú confrontava um rei debaixo da aliança do Senhor; nações como o Brasil não estão sob essa mesma aliança direta. Mas a Escritura oferece uma base para ir além das fronteiras do povo de Deus. O profeta Amós abre seu livro condenando, uma a uma, seis nações pagãs sem pacto algum com o Senhor (Am 1 e 2), por crimes que qualquer consciência humana reconhece como tais: massacres de população civil, tratados de paz rasgados, violência contra mulheres grávidas. A base dessa denúncia não é a lei de Moisés, mas uma lei moral escrita no coração de todo ser humano (Rm 1.19-20; 2.14-15). É essa mesma lei que autoriza a Igreja a levantar a voz contra atrocidades cometidas a milhares de quilômetros daqui, sem que isso signifique tratar o Brasil, ou qualquer outra nação, como se fosse o Israel de Deus.
O quinto é o juízo: o anúncio de que um Deus santo não convive eternamente com a mentira que manipula eleições, o descaso com os vulneráveis, o desprezo pela Constituição. A tradição reformada sempre insistiu que a soberania de Deus alcança também os tronos e os parlamentos: é ele quem muda os tempos e as estações, quem remove reis e estabelece reis (Dn 2.21), cujo julgamento nenhuma reeleição adia indefinidamente. Esse anúncio precisa ser feito com clareza. Não com grosseria, mas sem covardia. Não é preciso chamar ninguém de monstro para dizer que Deus não tolera a sombra da negligência que arrisca vidas humanas, ou de ladrão para dizer que ele abomina a riqueza construída pela apropriação indébita do erário. Se ninguém se arrepender, que seja pela dureza do próprio coração, nunca pela fraqueza das nossas palavras.
O sexto princípio é o que evita, porém, que os cinco anteriores virem soberba: a misericórdia. Jeú não ousou ser mais duro do que o próprio Deus. Depois de repreender Josafá, reconheceu nele coisas boas: uma devoção sincera que rejeitava a idolatria e buscava a Deus, a mesma devoção que, anos antes, o levara a mandar ensinar a Lei pelas cidades de Judá. A vida do rei não se resumia a esse erro. Vivemos um tempo em que multidões inteiras, dos muitos lados de quaisquer duas narrativas políticas em disputa, mal cogitam que possa haver razão, ou ao menos boa intenção, do lado oposto. Não é fácil, nesse ambiente, exercer ao mesmo tempo denúncia e misericórdia. Mas é exatamente esse o chamado: lembrar que o objetivo de toda denúncia profética não é a destruição de um inimigo, mas o resgate de alguém, muitas vezes um irmão, enredado por algum tipo de ilusão política.
Vale uma última nota de humildade. Jeú, filho de Hanani, teve papel decisivo na história de dois reinos – ora com fracasso, diante de Baasa, ora com sucesso, diante de Josafá. Entretanto, sua biografia se perde em poucas linhas das Escrituras. E o próprio Josafá, anos depois, cometeria o mesmo erro de novo, aliando-se a outro rei ímpio (2Cr 20.35). É como se o livro de Crônicas quisesse ensinar, à sua comunidade recém-saída do exílio, que a fidelidade nunca está definitivamente ganha: ela se renova, ou se perde, decisão após decisão. A fé não cooptada não promete vitórias definitivas nem heróis lembrados. Promete apenas isto: que, no meio das tramas dos reinos de cá, sejamos fiéis ao Rei dos Reis.
Para ouvir mais sobre o tema, assista a palestra Cristão e política: engajamento público e fidelidade, ministrada por Daniel Câmara no Vitral na Cidade, em abril de 2026. Acesse: https://youtu.be/ZnK36uGERw0?si=rM7z3_C1N1jksmvw.
Imagem: Unsplash.
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A epidemia de solidão é um fenômeno global que ultrapassa fronteiras, níveis de renda, faixa etária e sofisticação tecnológica. Que consequências este cenário tem para a missão da igreja no mundo?
Talvez a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Saiba mais aqui.
Saiba mais:
» Evangélicos e Democracia Brasileira – Fé, ética e liberdade de expressão em uma sociedade pluralista, Paul Freston
» Fé Cristã e Ação Política – A relevância pública da espiritualidade cristã, Pedro Lucas Dulci
» Cristianismo e Política – Teoria bíblica e prática histórica, Robinson Cavalcanti
» Preparando o coração para as eleições de 2026, por Mariana Albuquerque
Por Daniel Câmara
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Existe uma diferença entre uma fé apolítica e uma fé que se recusa a ser cooptada pela política. A primeira finge que a política não existe, ou que não lhe diz respeito. A segunda sabe que fé e política, cedo ou tarde, se tocam, porque cremos e também vivemos em sociedade. Contudo, esta fé não cooptada se recusa a usar o Evangelho como ferramenta de validação do que a política produz. Dessa desconfiança, nasce a percepção das diferenças entre essas duas dinâmicas. Se a fé anuncia o Reino de Deus, a política negocia o bem comum entre interesses divergentes. Se esta é obra de seres humanos que pecaram e carecem da glória de Deus, aquela é obra da Trindade imutável. Sendo assim, o atrito entre os negócios da política e as preocupações da fé é inevitável – e até saudável.Uma ilustração dessa tensão (que ouso aqui dizer que deve ser cultivada pelo povo de Deus, dentro de certos limites) pode ser encontrada na sabedoria das Escrituras do Antigo Testamento: mais precisamente, na história de Josafá. Este rei de Judá, que viveu no século 9 a.C., era descendente de Davi e herdeiro da promessa de um reino "firmado para sempre" (2Sm 7.16). Não era um rei qualquer. Logo no início do reinado, enviou oficiais, levitas e sacerdotes a percorrer as cidades de Judá levando consigo o Livro da Lei, ensinando o povo (2Cr 17.7-9). As Escrituras dizem sem rodeios que ele "fez o que era reto aos olhos do Senhor" (1Rs 22.43). Ainda assim, como todo bom pecador com poder nas mãos, aliou-se ao rei Acabe, um dos homens mais ímpios da história bíblica, na esperança de restaurar a união entre Judá e Israel. Entre a paz e a fidelidade, escolheu a paz.
A aliança quase lhe custou a vida. Antes da batalha de Ramote-Gileade, Josafá pediu para ouvir um profeta legítimo do Senhor, e não apenas os quatrocentos aduladores da corte de Acabe que garantiam a vitória em coro. Um único homem, Micaías, filho de Inlá, anunciou a derrota. Por sua ousadia, foi preso e alimentado a pão e água. A batalha aconteceu de qualquer forma. Acabe, disfarçado para escapar dos arqueiros inimigos, morreu de um flechaço disparado ao acaso. Josafá, por pouco, sobreviveu, e voltava para casa "em paz". Foi então que um profeta idoso, Jeú, filho de Hanani, saiu ao seu encontro com uma pergunta que ainda hoje incomoda: "Será que você deveria ajudar o perverso?".
Desse breve encontro, e do que veio antes dele, nascem alguns princípios para quando a fé é chamada a confrontar o mundo da política – ressalvados todos os anacronismos, ora temperados pela natureza dinâmica e viva da revelação.

O primeiro princípio é a perspicácia: a capacidade de perceber que sucesso nem sempre é sinônimo de aprovação divina. Josafá já tinha, na própria pele, uma lição sobre isso. Soube distinguir a voz solitária de Micaías do coro de quatrocentos profetas que diziam exatamente o que o rei queria ouvir. Ainda assim, precisou de um segundo alerta, depois da batalha, para perceber que sua própria decisão fora errada. Voltava vitorioso e ileso; nada, à primeira vista, pedia correção. Mas Jeú, inspirado pelo Espírito, enxergou além da aparência.
Políticos sabem parecer invencíveis, se não pelo critério arcaico do resultado de batalhas, ao menos pela valorização de índices de aprovação ou pela descrição caricatural de seus opositores. O fato de que algo está "dando certo" não quer dizer que seja certo. "O temor do Senhor é o princípio da sabedoria" (Pv 9.10), e é esse temor, não a leitura de pesquisas eleitorais, que ensina a distinguir sucesso de aprovação divina.
Foi essa mesma perspicácia que, séculos depois, moveu a Igreja Confessante alemã: enquanto a Alemanha, humilhada pela derrota na Primeira Guerra, parecia recuperar sua glória sob o nazismo, boa parte da Igreja Evangélica se deixou cooptar pelo movimento dos "cristãos alemães". Em 1934, porém, um grupo de pastores e teólogos assinou a Declaração de Barmen, afirmando que nenhum projeto de poder tem direito ao trono que pertence só ao Todo-Poderoso. O preço dessa perspicácia foi alto para muitos de seus signatários: Martin Niemöller passaria oito anos em campos de concentração; Dietrich Bonhoeffer seria enforcado semanas antes do fim da guerra.
O segundo princípio é a vocação: a fidelidade ao chamado de anunciar a verdade. Jeú era chamado de "vidente" (2Cr 19.2), termo que, nas Escrituras hebraicas, remonta a um tempo em que "o profeta de hoje se chamava vidente" (1Sm 9.9). O termo aparece com frequência em Crônicas, associado a figuras ligadas à vida da corte e do templo, mas seu ofício não muda: um profeta, em essência, não é alguém que prevê o futuro ou fala em transe, mas um mensageiro que conecta os padrões da aliança aos dilemas de um tempo específico. Essa vocação, a Reforma a chamou de sacerdócio universal dos crentes (1Pe 2.9): não há mais casta sacerdotal que medeie o acesso a Deus ou o anúncio da sua verdade, porque a cruz nos fez, a todos, "sacerdócio real". Lutero desdobrou essa doutrina em outra, a doutrina da vocação: toda profissão lícita, e não só o ofício pastoral, é lugar legítimo de serviço a Deus. Isso exige contextualização. A verdade que anunciamos não muda, mas as perguntas que ela responde mudam a cada geração. O que o Deus de justiça tem a dizer sobre a desigualdade que a inflação aprofunda? O que o Deus de paz tem a dizer sobre os rumores de guerra? A resposta não está longe. Basta abrir o jornal e ler com os olhos da fé.
O terceiro princípio é a obediência: transformar vocação em ação, como Jeú, que "saiu" ao encontro do rei (2Cr 19.2). Nada disso teria acontecido dentro de quatro paredes; era preciso sair. Vale aqui uma distinção cara à tradição reformada: uma coisa é a Igreja como instituição, o culto, o púlpito, os sacramentos; outra é a Igreja como organismo, o mesmo povo de Deus espalhado, de segunda a sábado, em suas vocações e urnas. À instituição cabe um mandato mais estreito: pregar a Palavra fielmente, sem se tornar refém da pauta da semana. Ao organismo cabe o mandato mais largo: viver o senhorio de Cristo em cada esfera, política inclusive. Isso pode significar coisas bem concretas e pouco heroicas: o professor que se recusa a fechar os olhos ao bullying disfarçado de brincadeira, o servidor público que recusa o suborno, o vereador que perde uma votação por não trocar seu voto por vantagem. O silêncio relativo do púlpito quanto às minúcias partidárias, portanto, não é silêncio da Igreja. É a Igreja lembrando que sua voz mais eficaz contra o pecado político sai pela boca e pela vida de cada crente.
O quarto princípio é a denúncia: nomear com clareza o que é pecado. Jeú fez isso por meio de uma pergunta cortante; nós podemos fazer o mesmo diante da corrupção, da violência ou da guerra. Vale uma ressalva importante. Jeú confrontava um rei debaixo da aliança do Senhor; nações como o Brasil não estão sob essa mesma aliança direta. Mas a Escritura oferece uma base para ir além das fronteiras do povo de Deus. O profeta Amós abre seu livro condenando, uma a uma, seis nações pagãs sem pacto algum com o Senhor (Am 1 e 2), por crimes que qualquer consciência humana reconhece como tais: massacres de população civil, tratados de paz rasgados, violência contra mulheres grávidas. A base dessa denúncia não é a lei de Moisés, mas uma lei moral escrita no coração de todo ser humano (Rm 1.19-20; 2.14-15). É essa mesma lei que autoriza a Igreja a levantar a voz contra atrocidades cometidas a milhares de quilômetros daqui, sem que isso signifique tratar o Brasil, ou qualquer outra nação, como se fosse o Israel de Deus.
O quinto é o juízo: o anúncio de que um Deus santo não convive eternamente com a mentira que manipula eleições, o descaso com os vulneráveis, o desprezo pela Constituição. A tradição reformada sempre insistiu que a soberania de Deus alcança também os tronos e os parlamentos: é ele quem muda os tempos e as estações, quem remove reis e estabelece reis (Dn 2.21), cujo julgamento nenhuma reeleição adia indefinidamente. Esse anúncio precisa ser feito com clareza. Não com grosseria, mas sem covardia. Não é preciso chamar ninguém de monstro para dizer que Deus não tolera a sombra da negligência que arrisca vidas humanas, ou de ladrão para dizer que ele abomina a riqueza construída pela apropriação indébita do erário. Se ninguém se arrepender, que seja pela dureza do próprio coração, nunca pela fraqueza das nossas palavras.
O sexto princípio é o que evita, porém, que os cinco anteriores virem soberba: a misericórdia. Jeú não ousou ser mais duro do que o próprio Deus. Depois de repreender Josafá, reconheceu nele coisas boas: uma devoção sincera que rejeitava a idolatria e buscava a Deus, a mesma devoção que, anos antes, o levara a mandar ensinar a Lei pelas cidades de Judá. A vida do rei não se resumia a esse erro. Vivemos um tempo em que multidões inteiras, dos muitos lados de quaisquer duas narrativas políticas em disputa, mal cogitam que possa haver razão, ou ao menos boa intenção, do lado oposto. Não é fácil, nesse ambiente, exercer ao mesmo tempo denúncia e misericórdia. Mas é exatamente esse o chamado: lembrar que o objetivo de toda denúncia profética não é a destruição de um inimigo, mas o resgate de alguém, muitas vezes um irmão, enredado por algum tipo de ilusão política.
Vale uma última nota de humildade. Jeú, filho de Hanani, teve papel decisivo na história de dois reinos – ora com fracasso, diante de Baasa, ora com sucesso, diante de Josafá. Entretanto, sua biografia se perde em poucas linhas das Escrituras. E o próprio Josafá, anos depois, cometeria o mesmo erro de novo, aliando-se a outro rei ímpio (2Cr 20.35). É como se o livro de Crônicas quisesse ensinar, à sua comunidade recém-saída do exílio, que a fidelidade nunca está definitivamente ganha: ela se renova, ou se perde, decisão após decisão. A fé não cooptada não promete vitórias definitivas nem heróis lembrados. Promete apenas isto: que, no meio das tramas dos reinos de cá, sejamos fiéis ao Rei dos Reis.
- Daniel Ferreira Câmara, formado em direito pela UFMG, assessor jurídico do Ministério Público de Minas Gerais e colaborador do Nosso Vitral.
Para ouvir mais sobre o tema, assista a palestra Cristão e política: engajamento público e fidelidade, ministrada por Daniel Câmara no Vitral na Cidade, em abril de 2026. Acesse: https://youtu.be/ZnK36uGERw0?si=rM7z3_C1N1jksmvw.
Imagem: Unsplash.
REVISTA ULTIMATO – VIVEMOS UMA EPIDEMIA DE SOLIDÃO?A epidemia de solidão é um fenômeno global que ultrapassa fronteiras, níveis de renda, faixa etária e sofisticação tecnológica. Que consequências este cenário tem para a missão da igreja no mundo?
Talvez a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Saiba mais aqui.
Saiba mais:
» Evangélicos e Democracia Brasileira – Fé, ética e liberdade de expressão em uma sociedade pluralista, Paul Freston
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