Opinião
27 de outubro de 2026- Visualizações: 56
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C. S. Lewis e o mistério da Ceia
Por Rosifran Macedo
Uma questão muito importante para C. S. Lewis era o valor da Ceia para a vitalidade espiritual do cristão, assunto discutido por ele no livro Letters to Malcon. Ele acreditava na presença de Deus em toda a criação, mas de modo distinto nos diferentes elementos criados. Para ele a presença de Deus nos elementos da Ceia, pão e vinho, é mais intensa do que no próprio homem, e no homem regenerado mais do que no incrédulo, e no homem mais do que nos animais, nestes mais do que nas plantas e nas plantas mais do que na matéria inanimada.1 Ele defendia que Deus está de forma mais “real” nos elementos da Ceia do que no próprio homem, embora afirmasse que, depois da Ceia, o nosso próximo era o objeto mais santo que podemos contemplar.2
Lewis não conseguia imaginar qual fora o entendimento dos discípulos na noite em que Jesus tomou o pão e o vinho e afirmou que ali estava o seu corpo e o seu sangue e que eles precisariam comer e beber para poder entrar em uma aliança de comunhão e unidade espiritual com ele. Mas Lewis discorda daqueles que afirmam que os elementos são meramente pão e vinho, um memorial, usados apenas para nos relembrar da morte de Cristo em nosso favor. Se este fosse o caso, eles teriam apenas valor psicológico e dependeriam da disposição da pessoa que os recebe para ter algum efeito. Para Lewis, se o pão e o vinho fossem apenas um memorial com efeito psicológico para lembrar o sacrifício de Cristo em nosso favor, haveria outros elementos muito mais eficientes. Para ele haverá sempre um “mistério” desconhecido de nós envolvido na escolha e na eficácia dos elementos da Ceia como o meio de Cristo comunicar sua vida e entrar em aliança com os participantes dela.
Ao mesmo tempo Lewis não via nenhuma dificuldade em acreditar que o véu que separa as duas realidades, o céu e terra, é facilmente transposto através da Ceia, “aqui uma mão invisível de um país oculto toca não apenas minha alma, mas meu corpo... aqui encontramos uma poderosa magia.”3 Ele usa a palavra “magia” não se referindo a técnicas “patéticas” pelas quais alguns charlatões fingem controlar a natureza, mas com o sentido expresso nos contos de fadas onde uma “flor mágica” ou, no caso de Nárnia, um guarda-roupa, de sua própria vontade abrirá uma porta para outro mundo. Algum elemento ao qual foi dado o poder inerente de transpor universos, uma “eficácia objetiva” que não pode ser analisada, um “fato bruto” como a existência deste universo com suas características próprias. O elemento mágico no cristianismo é que o universo celestial é uma realidade de fatos objetivos, talvez mais objetivo do que o natural, fatos sólidos e determinados que não podem ser “dissolvidos em ideais e valores”. Para Lewis não existe outro fato mais concreto, ou mais mágico, do que Deus como a “causa própria” da sua existência.
Uma ideia no pensamento de Lewis que nos ajuda a entender o seu conceito “mágico” da Ceia é a crença na transposição4 onde ele afirma que há várias dimensões existenciais (espiritual, emocional, sensorial) e que os recursos da inferior são mais limitados do que da superior e onde as realidades do mundo mais rico só podem ser representadas no mundo mais pobre se dermos mais de um significado aos elementos da mais pobre. Ele exemplifica com o caso da língua falada, mais rica, e a escrita, a mais pobre. Se temos de escrever uma língua com muitos sons de vogais, mas temos um alfabeto com apenas cinco vogais, teremos que usar uma mesma vogal para representar sons diferentes, é o caso de avô e avó. Ele chama esta relação de “simbolismo” pois há uma completa descontinuidade entre os dois, “Os caracteres escritos existem somente para o olho, as palavras faladas somente para o ouvido. Há uma completa descontinuidade entre os dois. Eles não se parecem uns com os outros, nem um causa o outro. Um é simplesmente um símbolo do outro e o representa por convenção”.

Já no caso da foto há uma diferença significativa pois ela faz parte do mundo visível e representa a realidade justamente por ser parte desta e a visibilidade de ambas tem a mesma fonte, a luz. O sol na foto só “brilha” porque o sol verdadeiro brilha nela, ela é um símbolo, mas também mais do que um símbolo pois a coisa representada está “realmente presente nela”, definida por Lewis como uma relação sacramental. Esta relação é o que acontece com os elementos da Ceia. A Realidade Espiritual que de fato nos dá a vida e a sustenta, que já existia muito antes que houvesse alimentos naturais dá a estes um novo significado e faz com que no contexto do culto a Deus se torne algo diferente, pois estes elementos de uma realidade inferior são atraídos para dentro e se tornam parte da realidade superior.
Não podemos tentar substituir este aspecto “mágico” da Ceia por um princípio meramente “espiritual” o que a torna apenas em um efeito psicológico ou filosófico para o participante. Não devemos ficar especulando qual é a base que temos para supor que os elementos da Ceia são narrativas de uma realidade objetiva superior mas simplesmente obedecer ao mandamento do Senhor “Tomai e comei, e bebei” e não “Tomai e entendei”. Ao tentar compreender como os elementos da Ceia funcionam estaremos simplesmente retirando-os do contexto sagrado a que pertencem e tornando-os meramente em elementos naturais. Lewis compara esta atitude com o fato de retirar uma brasa viva do fogo para a examinarmos, ao fazer isto ela se torna em um mero carvão.
Notas
1. Letters to Malcon, p.100
2. The Weight of Glory, p.46
3. Letters to Malcon, p.138
4. The Weight of Glory, pp.91-115
REVISTA ULTIMATO – VIVEMOS UMA EPIDEMIA DE SOLIDÃO?
A epidemia de solidão é um fenômeno global que ultrapassa fronteiras, níveis de renda, faixa etária e sofisticação tecnológica. Que consequências este cenário tem para a missão da igreja no mundo?
Talvez a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Saiba mais aqui.
Saiba mais:
» Os Últimos Dias de Jesus - O que de fato aconteceu?, N. T. Wright; Craig A. Evans
» Surpreendido Pela Alegria, C. S. Lewis
» O que não esquecer no memorial da Ceia do Senhor?, Vários autores
» C. S. Lewis e a identidade cristã, por Rosifran Macedo
Uma questão muito importante para C. S. Lewis era o valor da Ceia para a vitalidade espiritual do cristão, assunto discutido por ele no livro Letters to Malcon. Ele acreditava na presença de Deus em toda a criação, mas de modo distinto nos diferentes elementos criados. Para ele a presença de Deus nos elementos da Ceia, pão e vinho, é mais intensa do que no próprio homem, e no homem regenerado mais do que no incrédulo, e no homem mais do que nos animais, nestes mais do que nas plantas e nas plantas mais do que na matéria inanimada.1 Ele defendia que Deus está de forma mais “real” nos elementos da Ceia do que no próprio homem, embora afirmasse que, depois da Ceia, o nosso próximo era o objeto mais santo que podemos contemplar.2Lewis não conseguia imaginar qual fora o entendimento dos discípulos na noite em que Jesus tomou o pão e o vinho e afirmou que ali estava o seu corpo e o seu sangue e que eles precisariam comer e beber para poder entrar em uma aliança de comunhão e unidade espiritual com ele. Mas Lewis discorda daqueles que afirmam que os elementos são meramente pão e vinho, um memorial, usados apenas para nos relembrar da morte de Cristo em nosso favor. Se este fosse o caso, eles teriam apenas valor psicológico e dependeriam da disposição da pessoa que os recebe para ter algum efeito. Para Lewis, se o pão e o vinho fossem apenas um memorial com efeito psicológico para lembrar o sacrifício de Cristo em nosso favor, haveria outros elementos muito mais eficientes. Para ele haverá sempre um “mistério” desconhecido de nós envolvido na escolha e na eficácia dos elementos da Ceia como o meio de Cristo comunicar sua vida e entrar em aliança com os participantes dela.
Ao mesmo tempo Lewis não via nenhuma dificuldade em acreditar que o véu que separa as duas realidades, o céu e terra, é facilmente transposto através da Ceia, “aqui uma mão invisível de um país oculto toca não apenas minha alma, mas meu corpo... aqui encontramos uma poderosa magia.”3 Ele usa a palavra “magia” não se referindo a técnicas “patéticas” pelas quais alguns charlatões fingem controlar a natureza, mas com o sentido expresso nos contos de fadas onde uma “flor mágica” ou, no caso de Nárnia, um guarda-roupa, de sua própria vontade abrirá uma porta para outro mundo. Algum elemento ao qual foi dado o poder inerente de transpor universos, uma “eficácia objetiva” que não pode ser analisada, um “fato bruto” como a existência deste universo com suas características próprias. O elemento mágico no cristianismo é que o universo celestial é uma realidade de fatos objetivos, talvez mais objetivo do que o natural, fatos sólidos e determinados que não podem ser “dissolvidos em ideais e valores”. Para Lewis não existe outro fato mais concreto, ou mais mágico, do que Deus como a “causa própria” da sua existência.
Uma ideia no pensamento de Lewis que nos ajuda a entender o seu conceito “mágico” da Ceia é a crença na transposição4 onde ele afirma que há várias dimensões existenciais (espiritual, emocional, sensorial) e que os recursos da inferior são mais limitados do que da superior e onde as realidades do mundo mais rico só podem ser representadas no mundo mais pobre se dermos mais de um significado aos elementos da mais pobre. Ele exemplifica com o caso da língua falada, mais rica, e a escrita, a mais pobre. Se temos de escrever uma língua com muitos sons de vogais, mas temos um alfabeto com apenas cinco vogais, teremos que usar uma mesma vogal para representar sons diferentes, é o caso de avô e avó. Ele chama esta relação de “simbolismo” pois há uma completa descontinuidade entre os dois, “Os caracteres escritos existem somente para o olho, as palavras faladas somente para o ouvido. Há uma completa descontinuidade entre os dois. Eles não se parecem uns com os outros, nem um causa o outro. Um é simplesmente um símbolo do outro e o representa por convenção”.

Já no caso da foto há uma diferença significativa pois ela faz parte do mundo visível e representa a realidade justamente por ser parte desta e a visibilidade de ambas tem a mesma fonte, a luz. O sol na foto só “brilha” porque o sol verdadeiro brilha nela, ela é um símbolo, mas também mais do que um símbolo pois a coisa representada está “realmente presente nela”, definida por Lewis como uma relação sacramental. Esta relação é o que acontece com os elementos da Ceia. A Realidade Espiritual que de fato nos dá a vida e a sustenta, que já existia muito antes que houvesse alimentos naturais dá a estes um novo significado e faz com que no contexto do culto a Deus se torne algo diferente, pois estes elementos de uma realidade inferior são atraídos para dentro e se tornam parte da realidade superior.
Não podemos tentar substituir este aspecto “mágico” da Ceia por um princípio meramente “espiritual” o que a torna apenas em um efeito psicológico ou filosófico para o participante. Não devemos ficar especulando qual é a base que temos para supor que os elementos da Ceia são narrativas de uma realidade objetiva superior mas simplesmente obedecer ao mandamento do Senhor “Tomai e comei, e bebei” e não “Tomai e entendei”. Ao tentar compreender como os elementos da Ceia funcionam estaremos simplesmente retirando-os do contexto sagrado a que pertencem e tornando-os meramente em elementos naturais. Lewis compara esta atitude com o fato de retirar uma brasa viva do fogo para a examinarmos, ao fazer isto ela se torna em um mero carvão.
Notas
1. Letters to Malcon, p.100
2. The Weight of Glory, p.46
3. Letters to Malcon, p.138
4. The Weight of Glory, pp.91-115
- Rosifran Macedo é pastor presbiteriano, mestre em Novo Testamento pelo Biblical Theological Seminary (EUA). É missionário da Missão AMEM/WEC Brasil, onde foi diretor geral por nove anos. Atualmente, dedica-se, junto com sua esposa Alicia Macedo, em projetos de cuidado integral de missionários.
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Talvez a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Saiba mais aqui.
Saiba mais:
» Os Últimos Dias de Jesus - O que de fato aconteceu?, N. T. Wright; Craig A. Evans
» Surpreendido Pela Alegria, C. S. Lewis
» O que não esquecer no memorial da Ceia do Senhor?, Vários autores
» C. S. Lewis e a identidade cristã, por Rosifran Macedo
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