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Opinião

Compartilhando fardos

Ao nos recusarmos a “ir para o outro lado da estrada”, carregamos os fardos uns dos outros – tropeçando, levantando e seguindo em direção à luz

Por Emma Scrivener

Quando pensamos em nossos relacionamentos na igreja, entramos no centro do cuidado da alma. Paulo resume isso em sua carta aos gálatas: “Levem os fardos pesados uns dos outros e, assim, cumpram a lei de Cristo” (Gl 6.2).

Paulo não diz: “Levem os fardos de algumas pessoas” ou: “Levem os fardos dos especialmente fracos”. Ele diz: “Levem os fardos pesados uns dos outros”. Deus nos criou para depender uns dos outros – e ninguém está livre disso. Aqui estão algumas palavras do mestre da Bíblia John Stott:
O plano de Deus para nossa vida é que sejamos dependentes [...] Todos nós estamos destinados a ser um peso para outros. Você está destinado a ser um peso para mim e eu estou destinado a ser um peso para você. E a vida familiar, incluindo a vida da família da igreja local, deveria ser de “responsabilidade mútua”.1

Como você se sente ao ser chamado de “fardo”? Francamente, eu odeio. Não quero ser um incômodo nem me sentir mal quando outros precisarem intervir. Para cumprir o prazo do livro Um Novo Dia, tive de pedir ajuda a babás, e isso foi um desafio para mim. Mas, se penso assim, perco de vista algo muito importante: minha salvação! O fato mais profundo sobre mim é que eu sou um fardo. Jesus tem de me resgatar, e ele está feliz em fazer isso. Se não posso deixar os outros me carregarem, estou esquecendo quem eu sou. Sou chamada a ser carregada – e sou chamada a carregar outros também.

Como você se sente ao carregar os fardos de outras pessoas? Talvez você tenha lutado por sua própria independência e espera que os outros façam o mesmo. Mais uma vez, se pensamos assim, esquecemos quem somos. A igreja não é um clube para cristãos individuais, mas um corpo de partes interdependentes. Precisamos uns dos outros! Esta semana meus amigos me carregaram, mas espero poder fazer o mesmo por eles mais para frente. E, quando servimos uns aos outros, cada um de nós é abençoado.



Em uma carta para sua igreja, uma mulher explica o que significa para ela ser “carregada”:
Eu tenho uma confissão a fazer. Eu fui diagnosticada com um problema de saúde mental. A questão é: Vocês irão agora para o outro lado da estrada?

Não é fácil admitir que tenho um problema, principalmente por causa do estigma, e porque a sociedade aceita menos uma doença mental do que uma doença física. Em segundo lugar, sou cristã e sinto que, de alguma forma, os cristãos deveriam ser imunes a problemas de saúde mental. Não tenho certeza se essa é uma visão compartilhada por outras pessoas.

Em março, fui diagnosticada com anorexia nervosa atípica... Eu estava sob forte pressão no trabalho e em casa, e senti que a vida estava ficando fora de meu controle. Infelizmente, em vez de pedir a ajuda de Deus, encontrei algo que eu podia controlar: minha dieta. Recusei-me a ouvir os familiares e os amigos até perceber que corria o risco de morrer de fome. Naquele momento, fui internada no Priory, onde começou o longo caminho para a recuperação. Foi nesse momento que permiti que Deus assumisse o controle do meu passado, presente e futuro.

Fiquei no hospital por dois meses e, com a ajuda de Deus e o apoio de amigos e familiares, estou no caminho da recuperação. Sim, ainda estou mentalmente frágil e, sim, ainda estou lutando. Sou grata àquelas pessoas que me apoiaram e não me julgaram com dureza.

Eu fui de fato ajudada pela Palavra em 1 Pedro 5.10: “O Deus de toda a graça [...] os restaurará, os confirmará, lhes dará forças”.

Um dia, eu serei forte novamente, mas até lá, por favor, não vão para o outro lado da estrada.

Todo mundo que sofre de uma doença mental precisa do amor e apoio de vocês. Meu destino está nas mãos da graça de Deus.

A expressão “ir para o outro lado da estrada” vem da história do bom samaritano (Lc 10.25-37). Um viajante é espancado, despido e roubado. Primeiro um sacerdote e depois um levita passam por ele. Finalmente, um samaritano aparece. Judeus e samaritanos eram inimigos, mas o bom samaritano “chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele” (Lc 10.33). O samaritano mostra-nos o que é amar uns aos outros – aproximando-se (não se afastando), vendo a dor (não fechando os olhos para ela) e mostrando compaixão (não se isolando). Podemos nos sentir despreparados e podemos não saber exatamente o que fazer ou dizer. Mas, ao nos recusarmos a “ir para o outro lado da estrada”, podemos ser uma comunidade de pessoas que carregam fardos – tropeçando, mas levantando uns aos outros e seguindo em direção à luz.

Depois de contar a parábola do bom samaritano, Jesus diz aos seus ouvintes: “Vá e faça o mesmo” (Lc 10.37). Cada um de nós é convidado a aproximar-se, ver e mostrar compaixão. Qual é sua resposta a esse chamado? Talvez, na teoria, você sinta entusiasmo, mas gostaria de um pouco mais de orientação.

Ou talvez você tenha tentado ser um bom samaritano, e isso não parece ter funcionado. Para terminar esta seção, incluí duas cartas. Na primeira, dou conselhos práticos para aqueles que desejam ajudar e, na segunda, falo sobre nossos limites no papel de ajudantes e a necessidade de equilibrar realismo e esperança. Em diferentes momentos, precisaremos ouvir as duas mensagens.

Cuidando de seu rebanho

Querida Emma,

Faço parte da equipe de liderança de uma igreja na cidade.
Queremos ser um lugar onde todos se sintam bem-vindos, especialmente aqueles que estão passando por momentos difíceis.
Você tem algum conselho sobre como fazer isso?

Graeme


Querido Graeme,

É ótimo que você esteja pensando dessa forma. Em minha opinião, os líderes precisam falar sobre saúde mental, tanto informalmente quanto no púlpito. Em vez de apenas dizer às pessoas que elas devem “confiar em Deus”, mostre à sua congregação como desenvolver práticas que as ajudem a crescer na fé. Isso significa ser um exemplo de fraqueza e desafiar a crença de que os líderes cristãos devem ser fortes, extrovertidos e “perfeitos”. É também vital treinar e preparar a família da igreja na área da saúde mental e emocional – por exemplo, o valor do descanso, os perigos do perfeccionismo, a importância da vulnerabilidade e o valor da comunidade.

Devemos esperar problemas de saúde mental (tanto em nossas congregações como em nossas equipes). E, como igreja, não devemos presumir que o distúrbio mental é simplesmente causado pelo pecado (embora o pecado tenha participação nisso). O que quero dizer é o seguinte: vivemos em um mundo caído. Grande parte de nosso sofrimento – incluindo os problemas psicológicos – surgiu sem ser nossa culpa. Ao mesmo tempo, desde a queda, o pecado permeia tudo – de criar filhos a servir na igreja, de nosso corpo à nossa mente (incluindo a saúde mental). Isso significa que há pecado envolvido no modo como reagimos ao distúrbio mental, assim como há no modo como lidamos com doenças físicas. Por exemplo, se quebro minha perna, isso não é “pecado”. Mas pode haver pecado na maneira como respondo à minha dor. Da mesma forma, a ansiedade, por exemplo, não é pecado, mas posso pecar na maneira como respondo a ela.

Seja o que for que enfrentemos, todos somos pecadores e todos estamos tentando nos tornar mais parecidos com Jesus. Vale a pena explicar isso como parte de uma declaração de crença da igreja. Reforce o fato de que o distúrbio mental não significa que somos exclusivamente pecadores ou que não temos fé! Respalde isso com uma estratégia de apoio pastoral clara e consistente, e cuide para que as pessoas saibam a quem pedir ajuda dentro e fora da igreja (p. ex., oferecendo contato com organizações úteis nesse sentido).

No caso de pessoas que sofrem de distúrbios mentais, acho que o principal é continuar a orar e estar ao lado delas a longo prazo. Não tenha medo dos distúrbios mentais, mas reserve um tempo para descobrir mais sobre o assunto, pergunte como é a condição da pessoa e como você pode ajudar. Permita que Deus trabalhe de outras maneiras que sejam diferentes da recuperação súbita e instantânea, e convide pessoas que não estejam necessariamente livres das lutas, mas estão a superá-las, para darem testemunho. Reintroduza essas pessoas na comunidade, por exemplo, criando confiança e ajudando-as a usar seus dons (especialmente em ambientes pequenos e livres de pressão). Forneça espaço para diferentes necessidades e pense em oferecer uma comunidade que vá além dos domingos. Isso pode significar dar espaço para as pessoas orarem e também ficarem em silêncio, ter alguém em um help desk treinado para ouvir e oferecer diferentes tipos de adoração, oportunidades para conversar em particular após os cultos e visitas àqueles que não conseguem ir à igreja.

E, acima de tudo, lembre às pessoas de sua igreja que elas são valorizadas e valiosas, e continue a apontá-las para Jesus e a graça dele. Parece que você já está fazendo isso; o que é maravilhoso ouvir.
Emma


Querida Emma,

Minha melhor amiga está lutando contra um distúrbio alimentar. Mostrei a ela versículos da Bíblia sobre honrar o corpo, mas ela está piorando. Parece que o que eu digo não está fazendo diferença alguma. Como posso fazê-la voltar a comer?

Judy

Querida Judy,

Cada célula do meu corpo gostaria de dizer: “Aqui está a resposta”. Mas não posso, porque não há uma solução, pelo menos não em termos humanos. Conselhos práticos e experiências compartilhadas são úteis, mas, em si mesmos, não são suficientes. Não são suficientes para mudar o coração de quem está lutando e, portanto, não são suficientes para mudar a luta dessas pessoas.

Eu não sou o suficiente – e você também não é. Não podemos entrar na cabeça e no coração de outra pessoa, e não podemos mudar nem os nossos. Você pode incentivar sua amiga e orar por ela, e isso já é bastante coisa, mas não pode fazê-la comer. Então, por favor, não desista de ser amiga dela, mas desista de ser a salvadora dela.

Nenhum de nós pode salvar outra pessoa, e é por isso que precisamos de Jesus. Ele é a essência de nossa fé e só ele pode mudar o coração de sua amiga. Essa é a esperança dela, e é a nossa esperança também. Estou lhe enviando alguns links e conselhos práticos (veja o Apêndice), que podem ser úteis. No entanto, sua maior necessidade (e a de sua amiga) é ficar perto de Jesus. Como está sua própria caminhada com Jesus? Há outros em sua vida encorajando você? É difícil amar alguém que está com dor, e é importante que você esteja sendo alimentada espiritualmente.

Ouvi um ministro ilustrando que o trabalho de encorajamento é como o de um cão pastor. Jesus é o verdadeiro Bom Pastor, e nós apenas colocamos outras ovelhas perdidas mais perto dele. Espero que não se importe de eu dizer isso, mas me parece que você está agindo como um cão pastor fiel. Você está fazendo o que pode, e Jesus vê isso. Mas há limites para o modo como você pode ajudar. Você não é o Bom Pastor, só Jesus é.

Entendo que você esteja se sentindo impotente e esteja procurando respostas. Mas continue a olhar para Jesus e não se desespere. O poder de Deus é aperfeiçoado em nossa fraqueza. Ele a ouve, ele a ama, ele ama sua amiga e, no final, trabalhará todas as coisas para o bem.

Com amor,

Emma


A experiência de impotência de Judy é muito familiar no cuidado pastoral. Às vezes, todos nos sentimos impotentes diante de problemas que simplesmente não mudam. Ficamos desesperados para ajudar e, ainda assim, incapazes de melhorar as coisas. Isso é frustrante, para dizer o mínimo. Ironicamente, porém, é em nossas experiências de devastação que Deus aparece nas formas mais poderosas. De fato, é precisamente quando sentimos toda a nossa fraqueza que Deus trabalha com poder.

Nota
1. STOTT, John. O Discípulo Radical. Viçosa: Ultimato, 2011. p. 93-94.

Artigo publicado originalmente no livro Um Novo Dia – Deixando para trás ansiedade, fome, controle, vergonha, ira e desespero. Ultimato.

Imagem: Unsplash.
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epidemia de solidão é um fenômeno global que ultrapassa fronteiras, níveis de renda, faixa etária e sofisticação tecnológica. Que consequências este cenário tem para a missão da igreja no mundo?
Talvez
a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Saiba mais
aqui.
Saiba mais:
» Um Novo Dia – Deixando para trás ansiedade, fome, controle, vergonha, ira e desespero, Emma Scrivener
» O Caminho do Coração – Meditações diárias, Ricardo Barbosa
» A Igreja: Uma comunidade singular de pessoas, John Stott e Tim Chester
» Uma nova família: a igreja, por Emma Scrivener

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