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Opinião

Espiritualidade e saúde – o que a igreja tem a ver com isso?

O impacto da religiosidade/espiritualidade na saúde do paciente tem recebido crescente atenção nas últimas três décadas

Por Fábio Ikedo

Considerado o pai da medicina moderna, William Osler, mais de um século após a sua morte, continua a exercer profunda influência. Um dos fundadores da Faculdade de Medicina de Johns Hopkins, foi pioneiro ao enfatizar a importância de estar ao lado do leito do paciente, estruturou o programa de residência médica e foi um exemplo de excelência científica, competência clínica e humanismo. Para muitos, ainda continua a ser o modelo ideal de médico. Osler publicou, em 1910, o artigo “The faith that heals” (A fé que cura) no British Medical Journal (BMJ)1. As primeiras palavras ecoam até hoje: “Nada na vida é mais maravilhoso do que a fé – a grande força motriz que não podemos nem pesar na balança nem testar no cadinho”.

116 anos após essa publicação de Osler, ainda não há medida objetiva para avaliar a fé.
Desde a década de 1990, o impacto da Religiosidade/Espiritualidade (R/E) na saúde do paciente tem recebido crescente atenção. Um reflexo é o aumento exponencial de publicações sobre o tema R/E e saúde nas últimas três décadas.

PubMed é uma respeitada base de dados de medicina e ciências da vida. Contém mais de 40 milhões de citações e resumos da literatura biomédica. Em 2025 e 2026 há uma média acima de cinco artigos publicados por dia com os termos spirituality e health. Se abranger outros termos, como faith, prayer, religion, o número de artigos publicado será bem maior.

Uma análise de setenta revisões sistemáticas, 61 metanálises e 101 revisões sistemáticas/metanálises da relação entre R/E e saúde/bem-estar (SBE), publicada em 2025, mostrou 70,4% de associações positivas entre R/E e SBE. A maioria das evidências baseava-se em estudos longitudinais (65%), o que fortalece a possibilidade de que a associação observada não seja apenas uma correlação pontual, em um determinado momento2.

Há anos a Comissão Americana de Acreditação de Organizações Hospitalares nos Estados Unidos recomendou que os profissionais de saúde realizem uma anamnese espiritual para todos os pacientes hospitalizados3.

No Brasil, pelo menos oito associações médicas organizaram algum grupo de estudos de espiritualidade, incluindo a Associação Brasileira de Psiquiatria, a Sociedade Brasileira de Cardiologia e a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. O Conselho Federal de Medicina (CFM) criou em fevereiro de 2025 a Comissão de Saúde e Espiritualidade, cujo foco é oferecer embasamento técnico-científico, com base em evidências, para que os médicos possam reconhecer e acolher a espiritualidade como uma dimensão da vida que influencia diretamente a saúde e o bem-estar dos pacientes. Essa comissão é considerada única no mundo para uma organização tão representativa como o CFM. Publicamente, o CFM reforçou que a iniciativa não está vinculada a nenhuma religião específica, mas reconhece a espiritualidade como um componente essencial da experiência humana e do cuidado em saúde.



Não há um consenso sobre uma definição de espiritualidade na literatura médica. Uma revisão sistemática analisou 166 definições de espiritualidade. Entre as diferentes definições dos livros, a mais utilizada foi a de Koenig: “A espiritualidade é a busca pessoal pela compreensão de respostas para as questões fundamentais sobre a vida, o sentido e a relação com o sagrado ou o transcendente, o que pode (ou não) levar ao desenvolvimento de rituais religiosos e à formação de uma comunidade, ou surgir deles”4.

Os pontos mais comuns entre as inúmeras definições de espiritualidade: a conexão ou relacionamento (com algo maior que si mesmo) e o que dá sentido à vida. A maioria das publicações considerou a espiritualidade como uma “conexão” ou “relação” (53,01%), que proporciona (ou é a busca por) propósito, sentido ou razão de ser (51,80%)4.

Pode haver interpolação de espiritualidade com religião, que envolve crenças, práticas e rituais relacionados ao transcendente, que é aquilo que está fora do “eu” e, no entanto, também dentro do “eu”. O transcendente é Deus para a maioria. Nas últimas décadas, um dos modos de analisar a espiritualidade tem sido por meio de perguntas que avaliam a religião (por exemplo, frequência a cultos ou missas). Assim, os termos religião (ou religiosidade) e espiritualidade costumam ser utilizados juntos5.

Aproximadamente 80% das pesquisas sobre R/E e saúde envolvem estudos sobre saúde mental. Um grande volume de pesquisas demonstrou que pessoas com maior nível de R/E apresentam melhor saúde mental e se adaptam mais rapidamente a problemas de saúde em comparação àquelas com menor nível5.

As pesquisas mais impressionantes sobre a relação entre R/E e saúde física situam-se no campo da mortalidade. O efeito cumulativo da R/E – caso ela ofereça algum benefício à saúde física – deveria manifestar-se por meio de um impacto na mortalidade. As pesquisas sugerem que isso realmente ocorre. Pelo menos 121 estudos examinaram a relação entre R/E e mortalidade. Desses estudos, 82 (68%) constataram que níveis mais elevados de R/E prediziam uma longevidade significativamente maior5.

De acordo com o doutor Daniel Sulmasy, médico e professor de bioética, a doença (especialmente a doença grave) inevitavelmente levanta questões que vão além da ciência – questões de natureza transcendente. São questões de sentido, valor e relacionamento6.

Victor Frankl, psiquiatra que viveu em um campo de concentração nazista, escreveu: “O homem não é destruído pelo sofrimento; ele é destruído pelo sofrimento sem sentido”. “De certa forma, o sofrimento deixa de ser sofrimento no momento em que encontra um sentido”. Isso fica mais evidente em situações mais preocupantes: 40% de um grupo de pacientes com câncer nos Estados Unidos indicaram a necessidade de ajuda para descobrir o sentido da vida7.

Muitos pacientes (72% em uma amostra com câncer avançado) têm necessidades espirituais que foram minimamente ou não foram atendidas pelo sistema médico-hospitalar8. E essas necessidades não surgem apenas na doença: em um estudo com 23.826 dinamarqueses – país onde 75,6% não consideravam que Deus desempenhasse um papel importante em suas vidas atualmente –, 81,9% relataram pelo menos uma necessidade espiritual forte ou muito forte no último mês. A mais comum (68,7%) foi a necessidade de paz interior9.

Para a igreja, esta pode ser uma grande oportunidade. Há uma lacuna a ser ainda preenchida, e a igreja pode ter um papel bem relevante. A atuação da capelania hospitalar está associada a uma melhor qualidade de vida do paciente e à satisfação da família com a assistência médica10.

Cristãos, ainda que não sejam da área de saúde, podem levar paz interior por meio da fé e relacionamento transformador com Jesus, preenchendo o vazio com sentido e valor real.

Notas
1. Osler W. The faith that heals. Br Med J. 1910 Jun 18;1(2581):1470-2. doi: 10.1136/bmj.1.2581.1470
2. Davis EWB et al. An overview of systematic reviews and meta-analyses on the association between religion/spirituality and health/well-being. Handbook of Spirituality, Health, and Well-Being, 2025, 380-395.
3. The Joint Commission. Advancing Effective Communication, Cultural Competence, and Patient- and Family-Centered Care: A Roadmap for Hospitals. Oakbrook Terrace, IL: The Joint Commission; 2010.
4. de Brito Sena MA et al. Defining Spirituality in Healthcare: A Systematic Review and Conceptual Framework. Front Psychol. 2021 Nov 18;12:756080.
5. Koenig HG. Religion, spirituality, and health: the research and clinical implications. ISRN Psychiatry. 2012 Dec 16;2012:278730.
6. Sulmasy DP. Physicians, Spirituality, and Compassionate Patient Care. N Engl J Med. 2024 Mar 21;390(12):1061-1063.
7. Moadel A et al. Seeking meaning and hope: self-reported spiritual and existential needs among an ethnically-diverse cancer patient population. Psychooncology. 1999 Sep-Oct;8(5):378-85.
8. Balboni TA et al. Religiousness and spiritual support among advanced cancer patients and associations with end-of-life treatment preferences and quality of life. J Clin Oncol. 2007 Feb 10;25(5):555-60.
9. Stripp TA et al. Spiritual needs in Denmark: a population-based cross-sectional survey linked to Danish national registers. Lancet Reg Health Eur. 2023 Mar 12;28:100602.
10. Balboni TA et al. Spirituality in Serious Illness and Health. JAMA. 2022;328(2):184-197.
  • Fábio Ikedo é médico formado pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM/UNIFESP), SP, com doutorado em finalização na área de cuidados paliativos na Faculdade de Medicina do Porto, Portugal. É coordenador da linha de pesquisa em filosofia, espiritualidade e saúde da UNIFESP, professor do curso de medicina da USF–Bragança Paulista, SP, e do curso de psicologia da UNIFAAT, Atibaia, SP, e membro da Comissão de Saúde e Espiritualidade do Conselho Federal de Medicina (CFM).
Imagem: Unsplash.

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