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Opinião

Dragões, queda e salvação

Ter um site hoje em dia é uma espécie de missão. Esse ao menos é o caso do site que dedico a C.S. Lewis há sete anos. Na falta de literatura adequada em língua portuguesa para canalizar o interesse dos fãs ou curiosos por Lewis, esse é um meio de comunicação e difusão poderoso. E muitas perguntas que me têm sido feitas são inspiradoras, ou, no mínimo, interessantes.
 
Vou usar esse novo canal para formular respostas um pouco mais substanciosas e pensadas do que as que se pode dar em um “bate e volta” na internet. 
 
A mais recente se referia ao formato do navio Peregrino da Alvorada, que aparece no último filme da série Nárnia no cinema (A Viagem do Peregrino da Alvorada).  Se o dragão é, na Bíblia, um símbolo do diabo, o que faz numa história, que se quer cristã?
 
Bem, alguns poderiam sorrir diante dessa preocupação que não tem idade, rosto, classe social ou nível de estudo. Mas tem sinceridade e é assim que eu gosto. Por isso, vou responder com a mesma sinceridade e seriedade. 
 
Primeiro a parte fácil: Lewis era um escritor, e como escritor secular, ele não fazia “acepção de imagens”, muito menos fazia algum cotejo entre as imagens que resultavam do seu processo de criatividade e as imagens da Bíblia. São duas coisas bem distintas, ainda que seja possível também, fazer paralelos entre elas.
 
Não precisamos do navio para perceber isso: O próprio Aslam, um leão, também é usado na Bíblia para simbolizar o diabo. O mesmo vale para as figuras mitológicas e, portanto pagãs, que aparecem na história.
 
Mas é claro que o dragão a que alude o navio peregrino tem mais a ver com os dragões dos contos de fada, muitas vezes de índole boa, do que com os dragões bíblicos que aparecem principalmente no Apocalipse.
 
Mas já que estamos falando sobre isso, ocorre que o Navio não é único dragão que aparece na história. Há outro, como o leitor que leu o livro (da preferência) ou viu o filme (menos mal) deve lembrar. E ele tem um dos principais papéis no desenrolar da história.
 
Trata-se do simpaticíssimo (de nome não menos simpático) Estáquio. Sua atuação no início da história parece se personalizar e concretizar numa imagem, e aqui penso que pode haver alguma semelhança com os dragões da Bíblia. Pois o dragão em que o garoto se transforma, sem dúvida é uma representação do mal. Mas não se trata de nenhuma representação dualista ou maniqueísta, pois o dragão, uma vez que se conscientiza da situação, tenta fazer o melhor dela. Eustáquio presta uma ajuda importante, em forma de dragão, aos tripulantes do navio. Ele chega a lutar com uma serpente marinha e a se machucar nessa luta. Mas o que eu considero mais comovente nesse personagem é a amizade que ele acaba desenvolvendo com o pequeno e valente Ripchip. E isso, apesar da inimizade que se instalou entre eles, bem no início da história.
 
E, numa leitura mais aprofundada, notaremos que, mais do que uma imagem de um mal puramente diabólico (se é que o mal pode ser “puro”), ele é a imagem do mal instalado em um corpo que antes era são. A história de transformação de Eustáquio num dragão é uma espécie de história de “queda”. E o estrago é tão grande que só depois de muito sofrimento e, graças, sobretudo, à intervenção sobrenatural do Leão, que Eustáquio volta à sua forma real. E é uma forma melhorada, uma verdadeira vida nova. 
 
No contexto de seu retorno ao formato “normal”, de repente, vemo-nos diante de uma imagem da história soteriológica, ou história da salvação de uma alma antes soberba, egoísta, mesquinha e absolutamente chata. Assim, com muito humor e imaginação, somos apresentados aos conceitos de pecado, redenção e resgate e também, principalmente, da graça divina. Da mesma forma que Eustáquio sofre uma metamorfose, Lewis usa de imagens e da sátira para nos apresentar conceitos que, de outra forma, talvez nunca tivéssemos compreendido.
 
E então, da mesma forma que começamos a falar aqui em dragões e terminamos falando em salvação e na graça, poderemos notar a incrível habilidade com que Lewis usa imagens. Elas em si mesmas não têm significado algum. Mas em suas mãos, nem sempre de forma premeditada, elas passam a transpor profundas verdades cristãs numa linguagem acessível a qualquer um. E então, quem sabe, teremos reconhecido o seu segredo: passar despercebido diante dos olhos atentos do dragão (steal past the watchful dragons), o que exige muita sensibilidade, sabedoria e criatividade. Como certo estudioso de sua obra disse:
 
"O que Lewis foi capaz de fazer nas Crônicas (de Narnia) excedeu as suas próprias expectativas. Ele não foi capaz apenas de passar despercebido diante dos olhos do dragão do infantilismo, do excesso de familiaridade, ele também foi capaz (ainda que não tivesse tido essa intenção) de furtar-se aos olhos atentos do dragão do ceticismo adulto."
 
(What Lewis was able to do in the Chronicles (of Narnia) exceeded his own expectations. Not only was he able to steal past the watchful dragons of childhood familiarity, he also found (though he had not intended it so) that he was able to sneak past the watchful dragons of adult skepticism as well. (Bellah, Mike.  A Celebration of Joy: Christian Romanticism in the Chronicles of Narnia. Disponível http://www.bestyears.com/thesis_prelimpages.html. Acesso: 23 Jan. 2012).
 
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É mestre e doutora em educação (USP) e doutora em estudos da tradução (UFSC). É autora de O Senhor dos Anéis: da fantasia à ética e tradutora de Um Ano com C.S. Lewis e Deus em Questão. Costuma se identificar como missionária no mundo acadêmico. É criadora e editora do site www.cslewis.com.br
  • Textos publicados: 68 [ver]

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