Opinião
09 de setembro de 2026- Visualizações: 36
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A solidão dos conectados
Millennials e Geração Z são os mais propensos a se declarar solitários
Por Lissânder Dias
Na era dos paradoxos, um dos mais latentes é a solidão dos Millennials (1981-1996) e da Geração Z (1997-2006). Conectados em quase tudo, mas sós no que realmente importa, “raramente sozinhos, frequentemente solitários” 1. Por mais estranho que seja, os jovens dessas duas gerações são os mais propensos a se declarar solitários 2.
Para além dos números e tendências comportamentais, sobrepõe-se um grito geracional. Menosprezamos o passado, endeusamos o presente e desconfiamos do futuro. Fragmentados, lutamos para preencher vazios com substâncias descartáveis (bonitas por fora, mas perecíveis por dentro).
Há um clamor por companhia e presença real, verdadeira e leal, que não se desintegra facilmente. Como “ovelhas sem pastor”, andamos de um lado para o outro à procura de um pão que sacie a fome emocional e espiritual. O “maná” de hoje não é uma questão de quantidade, mas de qualidade. O objetivo não é acumular, mas usufruir de um alimento que supra a alma hoje.
Alguma coisa se perdeu
Alguma coisa se perdeu quando resolvemos gastar nosso tempo e nossas emoções com relacionamentos superficiais e utilitaristas.
Alguma coisa se foi quando trocamos a espiritualidade da Presença pelo fast-food religioso das frases feitas e das estratégias de marketing gospel.
Algo deu adeus dentro de nós quando deixamos de amar o real imperfeito para idealizar os “santos” irreais.
Alguma coisa foi abandonada quando a igreja deixou de ser um lugar de encontro para se tornar uma franquia pretensiosamente moderna, mas sem resposta contracultural.
Conspiração divina
A epidemia da solidão nos desafia a suscitar uma verdadeira conspiração divina do evangelho. Chega de programas religiosos artificiais! Abaixo aos estereótipos que separam a Igreja de Cristo! Salve a revolução de Jesus contra todas as expressões de pseudoevangelho que reduzem a fé a uma escolha moralista ou a uma “doutrina pura”.
Chegou a hora de rompermos a bolha religiosa e sermos presença encarnada na realidade do mundo. Dá trabalho, incomoda, amedronta, mas não há outro caminho para a fé cristã senão a vida na vida; a companhia que se faz presente no silêncio da dor e no choro da alegria.
Meu reino por um amigo!
Encontrar um amigo é coisa rara. É como uma pedra preciosa, um tesouro escondido. Podemos achá-lo pelas telas do computador, mas é na convivência sincera que ele vai se revelando e iluminando nossa vida. Nas coisas simples e surpreendentes. “Como ferro que se afia” (Pv 27), o amigo é um remédio de consumo contínuo contra a solidão, prescrito pelo próprio Deus. E a igreja – em sua inteireza – é um ecossistema ideal para construirmos amizades desde a infância até a vida adulta, como disciplina espiritual mesmo.
Nada supera a profunda conexão que a fé cristã promove. Ela aproxima famílias, une as mesas, compartilha sonhos e ensina que o caminho não é somente uma questão de direção, mas de companhia. Com o tempo, descobrimos que nenhum templo comporta a multidão de relações que se fazem e refazem quando, juntos, adoramos a Deus e servimos no mundo. O verdadeiro reino é feito de pessoas para pessoas (e vice-versa).
O poder do evangelho contra a solidão
Sem Cristo, estamos inteiramente sozinhos. Foi o que apóstolo Paulo tentou nos alertar em Efésios 2: “Sem Cristo, sem comunidade, longe do seu lugar, sem esperança” (v. 11-12). Quando o poder do evangelho nos invade e o sangue de Cristo nos alcança, Cristo destrói a “barreira, o muro de inimizade” (v. 14). Nele, já “não somos estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus” (v. 19).
Diante de nossos paradoxos geracionais, temos a escolha de continuar fugindo, disfarçados pelas agendas cheias, trabalho pesado, alívios artificiais e relacionamentos superficiais. Ou resolvemos – de uma vez por todas – entregar a Deus não somente nossa vida, mas nossos relacionamentos. Decidimos clamar pela dádiva da amizade e do amor que se faz realmente presente e atravessa as portas fechadas de nosso coração.
Quando o evangelho nos alcança, não há mais medo de amar, pois Deus já provou seu amor por nós “quando ainda éramos pecadores” (2.5). Superado o medo, o que nos resta é a liberdade santa, uma vida abundante que jorra da fé e transborda para o próximo, tendo como paradigma uma “nova humanidade” (2.15), fruto da obra de reconciliação operada por Cristo em nós (2.17).
Tanto os Millennials – com boa formação profissional, mas sedentos de sentido – quanto a Gen Z – ágil e produtiva, mas sem pertencimento – se veem no mundo como gotas de chuva no oceano. São muitas, mas se desfazem no primeiro contato com o mar.
Não precisa ser assim. Podemos encontrar conexões reais, mesmo diante de uma agenda maluca, com poucos dias de folga e muita exposição midiática. Podemos escolher nos conectar, mesmo que isso exija de nós mais do que “vamos tomar um café?”. Podemos nos abrir para a vulnerabilidade e o perdão, itens tão caros para qualquer relação verdadeira.
Sim, podemos encontrar na fé a estrutura necessária para qualquer relacionamento – a fé em Deus, a fé na vida, a fé no outro.
Notas
1. Pesquisa “Loneliness in America 2025”. Capítulo 2.
2. Gen Z (67%) e Millennials (65%). “Loneliness in America 2025”.
Artigo publicado originalmente na edição 421 de Ultimato.
Imagem: Magnific.
REVISTA ULTIMATO – VIVEMOS UMA EPIDEMIA DE SOLIDÃO?
A epidemia de solidão é um fenômeno global que ultrapassa fronteiras, níveis de renda, faixa etária e sofisticação tecnológica. Que consequências este cenário tem para a missão da igreja no mundo?
Talvez a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Saiba mais aqui.
Saiba mais:
» A Igreja – Uma comunidade singular de pessoas, John Stott e Tim Chester
» Pessoas: Humanas e Divinas – Ensaios sobre a natureza e o valor das pessoas, Peter van Inwagen
» O Discipulado na Igreja Local, Randy Pope e Kitti Murray
» Oração do Guerreiro e Cruz Imerecida, por Zazo Araújo
» A solidão do ser humano encontra esperança na solidão do próprio Cristo, Blog Ultimato
Por Lissânder Dias
Na era dos paradoxos, um dos mais latentes é a solidão dos Millennials (1981-1996) e da Geração Z (1997-2006). Conectados em quase tudo, mas sós no que realmente importa, “raramente sozinhos, frequentemente solitários” 1. Por mais estranho que seja, os jovens dessas duas gerações são os mais propensos a se declarar solitários 2.Para além dos números e tendências comportamentais, sobrepõe-se um grito geracional. Menosprezamos o passado, endeusamos o presente e desconfiamos do futuro. Fragmentados, lutamos para preencher vazios com substâncias descartáveis (bonitas por fora, mas perecíveis por dentro).
Há um clamor por companhia e presença real, verdadeira e leal, que não se desintegra facilmente. Como “ovelhas sem pastor”, andamos de um lado para o outro à procura de um pão que sacie a fome emocional e espiritual. O “maná” de hoje não é uma questão de quantidade, mas de qualidade. O objetivo não é acumular, mas usufruir de um alimento que supra a alma hoje.
Alguma coisa se perdeu
Alguma coisa se perdeu quando resolvemos gastar nosso tempo e nossas emoções com relacionamentos superficiais e utilitaristas.
Alguma coisa se foi quando trocamos a espiritualidade da Presença pelo fast-food religioso das frases feitas e das estratégias de marketing gospel.
Algo deu adeus dentro de nós quando deixamos de amar o real imperfeito para idealizar os “santos” irreais.
Alguma coisa foi abandonada quando a igreja deixou de ser um lugar de encontro para se tornar uma franquia pretensiosamente moderna, mas sem resposta contracultural.
Conspiração divina
A epidemia da solidão nos desafia a suscitar uma verdadeira conspiração divina do evangelho. Chega de programas religiosos artificiais! Abaixo aos estereótipos que separam a Igreja de Cristo! Salve a revolução de Jesus contra todas as expressões de pseudoevangelho que reduzem a fé a uma escolha moralista ou a uma “doutrina pura”.
Chegou a hora de rompermos a bolha religiosa e sermos presença encarnada na realidade do mundo. Dá trabalho, incomoda, amedronta, mas não há outro caminho para a fé cristã senão a vida na vida; a companhia que se faz presente no silêncio da dor e no choro da alegria.
Meu reino por um amigo!
Encontrar um amigo é coisa rara. É como uma pedra preciosa, um tesouro escondido. Podemos achá-lo pelas telas do computador, mas é na convivência sincera que ele vai se revelando e iluminando nossa vida. Nas coisas simples e surpreendentes. “Como ferro que se afia” (Pv 27), o amigo é um remédio de consumo contínuo contra a solidão, prescrito pelo próprio Deus. E a igreja – em sua inteireza – é um ecossistema ideal para construirmos amizades desde a infância até a vida adulta, como disciplina espiritual mesmo.
Nada supera a profunda conexão que a fé cristã promove. Ela aproxima famílias, une as mesas, compartilha sonhos e ensina que o caminho não é somente uma questão de direção, mas de companhia. Com o tempo, descobrimos que nenhum templo comporta a multidão de relações que se fazem e refazem quando, juntos, adoramos a Deus e servimos no mundo. O verdadeiro reino é feito de pessoas para pessoas (e vice-versa).
O poder do evangelho contra a solidão
Sem Cristo, estamos inteiramente sozinhos. Foi o que apóstolo Paulo tentou nos alertar em Efésios 2: “Sem Cristo, sem comunidade, longe do seu lugar, sem esperança” (v. 11-12). Quando o poder do evangelho nos invade e o sangue de Cristo nos alcança, Cristo destrói a “barreira, o muro de inimizade” (v. 14). Nele, já “não somos estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus” (v. 19).
Diante de nossos paradoxos geracionais, temos a escolha de continuar fugindo, disfarçados pelas agendas cheias, trabalho pesado, alívios artificiais e relacionamentos superficiais. Ou resolvemos – de uma vez por todas – entregar a Deus não somente nossa vida, mas nossos relacionamentos. Decidimos clamar pela dádiva da amizade e do amor que se faz realmente presente e atravessa as portas fechadas de nosso coração.
Quando o evangelho nos alcança, não há mais medo de amar, pois Deus já provou seu amor por nós “quando ainda éramos pecadores” (2.5). Superado o medo, o que nos resta é a liberdade santa, uma vida abundante que jorra da fé e transborda para o próximo, tendo como paradigma uma “nova humanidade” (2.15), fruto da obra de reconciliação operada por Cristo em nós (2.17).
Tanto os Millennials – com boa formação profissional, mas sedentos de sentido – quanto a Gen Z – ágil e produtiva, mas sem pertencimento – se veem no mundo como gotas de chuva no oceano. São muitas, mas se desfazem no primeiro contato com o mar.
Não precisa ser assim. Podemos encontrar conexões reais, mesmo diante de uma agenda maluca, com poucos dias de folga e muita exposição midiática. Podemos escolher nos conectar, mesmo que isso exija de nós mais do que “vamos tomar um café?”. Podemos nos abrir para a vulnerabilidade e o perdão, itens tão caros para qualquer relação verdadeira.
Sim, podemos encontrar na fé a estrutura necessária para qualquer relacionamento – a fé em Deus, a fé na vida, a fé no outro.
Notas
1. Pesquisa “Loneliness in America 2025”. Capítulo 2.
2. Gen Z (67%) e Millennials (65%). “Loneliness in America 2025”.
- Lissânder Dias é jornalista, cronista, poeta e editor de livros. Integra o Conselho Nacional da Interserve Brasil e do Movimento Vocare.
Artigo publicado originalmente na edição 421 de Ultimato.
Imagem: Magnific.
REVISTA ULTIMATO – VIVEMOS UMA EPIDEMIA DE SOLIDÃO?A epidemia de solidão é um fenômeno global que ultrapassa fronteiras, níveis de renda, faixa etária e sofisticação tecnológica. Que consequências este cenário tem para a missão da igreja no mundo?
Talvez a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Saiba mais aqui.
Saiba mais:
» A Igreja – Uma comunidade singular de pessoas, John Stott e Tim Chester
» Pessoas: Humanas e Divinas – Ensaios sobre a natureza e o valor das pessoas, Peter van Inwagen
» O Discipulado na Igreja Local, Randy Pope e Kitti Murray
» Oração do Guerreiro e Cruz Imerecida, por Zazo Araújo
» A solidão do ser humano encontra esperança na solidão do próprio Cristo, Blog Ultimato
Lissânder Dias do Amaral é jornalista, blogueiro, poeta e editor de livros. Integra o Conselho Nacional da Interserve Brasil e o Conselho da Unimissional. É autor de “O Cotidiano Extraordinário – a vida em pequenas crônicas” e responsável pelo blog Fatos e Correlatos do Portal Ultimato. É um dos fundadores do Movimento Vocare e ajudou a criar as organizações cristãs de cooperação Rede Mãos Dadas e Rede Evangélica Nacional de Ação Social (RENAS).
- Textos publicados: 149 [ver]
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Site: http://www.fatosecorrelatos.com.br
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