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Opinião

120 anos de C.S. Lewis: uma entrevista com o autor

Por Gabriele Greggersen

Um aniversário sempre é uma data importante. Quando se completa 120 anos, então, muito mais motivo para festa. É claro que C.S. Lewis, o aniversariante, já está morto desde os seus quase 65 anos, portanto, há 55 anos. É que comemoramos o nascimento e a morte na mesma semana.

Mas o que diria Lewis nessa data, se ele estivesse vivo? Vamos então fazer uma entrevista virtual com ele (e garanto que será um simples exercício de imaginação, sem nenhuma alusão ou promoção do espiritualismo).

Gabriele: Bom dia, boa tarde ou boa noite, Sr. Jack, posso chamá-lo assim?

Jack: Claro, eu até prefiro, pois me sinto mais à vontade.

Gabriele: Aliás, como foi que você resolveu ser chamado de Jack?

Jack:
Ah, isso foi quando eu ainda era pequeno e meu cachorro, Jacksie, foi atropelado. Eu gostava tanto dele, que resolvi adotar o seu nome para eternizá-lo.

Gabriele: Fale-me um pouco mais de sua infância.

Jack: Bem, nasci num lar de tradição anglicana e de pessoas que gostam de livros. Eles estavam por toda parte em casa. Minha mãe, que era matemática, representava o porto seguro da nossa família, pois meu pai, que era advogado, tinha um humor muito inconstante. Quando ela morreu de câncer, tudo se desestabilizou. Eu havia orado pela recuperação dela. Foi a minha primeira decepção com Deus. Meu pai se sentiu incapaz de cuidar de nossa educação, minha e do meu irmão mais velho, Warnie, com o qual sempre tive uma relação muito boa. Por isso ele nos colocou em internatos, mas não me dei bem em nenhum deles, até que meu pai resolveu contratar o seu ex-professor particular para me dar aulas em casa, tipo home-schooling. Ele era muito inteligente e culto, mas era ateu e eu resolvi me tornar ateu também. Graças a ele, consegui entrar em Oxford com notas excelentes.

Gabriele: Conte-me como foi o seu encontro com J.R.R. Tolkien.

Jack: Bem, quando o conheci fiquei assustado, pois haviam me alertado para eu tomar cuidado com dois tipos de gente: os filólogos e os papistas, e ele era ambos. Mas ele fazia parte de um grupo de professores que eu conheci, sobre o qual escrevi no meu diário que eram muito inteligentes e, pasmem, também eram cristãos!

Nos demos tão bem que resolvemos formar um clube, que denominamos Inklings, e que tinha o objetivo de discutir mitologia e cristianismo.

Gabriele: Mas como foi que você se tornou cristão?

Jack: Pois é, foi um longo processo, que levou três anos. Primeiro virei teísta com o argumento de Tolkien de que a história da paixão de Cristo tinha a mesma estrutura dos mitos, com a grande, crucial e decisiva diferença de que era verdadeira. Em Cristo, o mito se tornou fato. Isso me convenceu. Naquela noite eu me ajoelhei e me tornei o mais relutante dos convertidos. Mais alguns anos e finalmente reconheci que Cristo era, de fato, o Filho de Deus, que era Deus. Então, parece que a minha imaginação aflorou e eu comecei a escrever de fato. Até então, só tinha escrito dois poemas narrativos que não fizeram nenhum sucesso.

Gabriele: Fale-me mais de sua obra.

Jack: A primeira pós-conversão foi uma biografia imaginativa desse processo chamado O Regresso do peregrino. Trata-se de uma paródia ao The Pilgrim’s Progress de Bunyan, que foi traduzido para o português como O Peregrino. Eu fiz uma inversão: ao invés de ser a história de cristão atrás da salvação, é a história da salvação atrás do peregrino, que retorna para o seu lar cristão que havia deixado para trás. É meio uma história de filho pródigo.

Depois, fiz uma aposta com Tolkien de que ele escreveria sobre o tempo e eu sobre o espaço e deu na Trilogia Espacial. Tolkien desistiu da sua parte do projeto no meio do caminho.

Outra obra de ficção que foi um sucesso e virou capa da Revista Times foi o Cartas de um diabo a seu aprendiz. Foi a obra mais difícil e mais fácil de eu escrever. Mais fácil, porque bastou eu olhar para dentro do meu coração para entender a lógica do diabo dando conselhos ao seu sobrinho de como levar um cristão para o mal caminho. Mais difícil foi de encarar a sujeira nauseante que encontrei lá dentro.

Também escrevi O Problema do sofrimento, em que afirmo que o sofrimento é o megafone de Deus. Infelizmente, essa frase parece a única que sei dizer nas minhas palestras que aparecem no filme que fizeram sobre o meu romance com Joy, Shadowlands ou Terra das sombras. Fiquei muito honrado de ter Anthony Hopkins fazendo o papel de minha pessoa. De resto, gostei bastante do filme.

No pós-guerra, dei algumas palestras para a RAF, força aérea britânica, que ocasionaram o convite para eu dar palestras radiofônicas para a rádio BBC de Londres, que foram transcritas e viraram o meu clássico Cristianismo puro e simples.

Também escrevi o Peso da glória, uma série de sermões, minha autobiografia Surpreendido pela Alegria, Os quatro amores, Milagres e Abolição do homem, sobre a educação e o futuro de uma humanidade subjetivista. O grande abismo e Até que tenhamos rostos também são obras de ficção.

Mas não posso esquecer-me das Crônicas de Nárnia, que já vinha gestando desde a adolescência, quando vi com os olhos da minha imaginação, um fauno carregando presentes e um guarda-chuva.

Gabriele: E o que você achou dos filmes que fizeram das Crônicas?

Jack: Fiquei com muito medo, a princípio, do que dariam os filmes que resolveram fazer sobre as histórias, mas depois, eu vi o quanto os fãs das obras se organizaram e cuidaram para que houvesse uma fidelidade para com elas e relaxei. Posso dizer que os filmes são realmente obras-primas da sua arte. Claro que infelizmente deixaram de lado as referências mais explícitas ao cristianismo. Coisas de Hollywood.

Gabriele: Essas são as suas obras mais famosas. E as menos conhecidas, poderia falar algo sobre elas?

Jack: Bem, tenho alguns livros que publiquei na minha área de literatura e crítica literária, por exemplo, Um experimento em Crítica Literária; minha dissertação A Alegoria do Amor e A Imagem Descartada. Tem mais dois no prelo pela editora É Realizações, que é o Prefácio ao Paraíso e um livro sobre Literatura Medieval e Renascentista inglesa. Mas nem só de livros viverá o homem, certo? Na vida também escrevi diários e muitas cartas que foram publicadas em forma de livro, como as Cartas a uma Senhora Americana e Letters to Children, que infelizmente ainda não tem tradução para o português do Brasil. Embora eu nunca tenha gostado de escrever cartas, escrevi milhares, algumas a pessoas específicas por longos anos, como para essa Senhora Americana, cujo nome não vou revelar e meu amigo, Sheldon Vanauken, autor do impressionante livro Severe Mercy, onde ele narra a sua conversão e morte de sua amada esposa. Escrevi todas essas cartas graças à ajuda de meu irmão Warnie e é nas cartas que eu consigo me revelar como uma pessoa que sabe se colocar no lugar dos outros, inclusive de uma mulher e suas angústias e dores cotidianas e das crianças e suas curiosidades em relação à Nárnia, principalmente, mas também em relação a outros assuntos. Se você quiser saber o que penso de mulheres e crianças essa é a melhor fonte de consulta.

Gabriele: Querido Jack, infelizmente nosso tempo acabou. Gostaria de ficar aqui falando com você sobre muitos assuntos mais, mas agradeço desde já a sua disposição em conceder essa entrevista, que certamente vai sensibilizar muitos brasileiros que não te conhecem a ler mais as suas obras. Feliz aniversário, Jack!

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É mestre e doutora em educação (USP) e doutora em estudos da tradução (UFSC). É autora de O Senhor dos Anéis: da fantasia à ética e tradutora de Um Ano com C.S. Lewis e Deus em Questão. Costuma se identificar como missionária no mundo acadêmico. É criadora e editora do site www.cslewis.com.br
  • Textos publicados: 68 [ver]

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