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Opinião

Uma "paróquia" global

Por Luiz Fernando dos Santos
 
“Vocês não dizem: ‘Daqui a quatro meses haverá a colheita’? Eu lhes digo: Abram os olhos e vejam os campos! Eles estão maduros para a colheita” (João 4.35).
 
A tentação do ‘paroquialismo’ não é novidade na igreja cristã. Os primeiros discípulos pareciam muito à vontade com a dinâmica da vida em Jerusalém. As visitas cotidianas ao templo, os grupos domésticos e uma atmosfera sobrenatural que os envolvia faziam a comunidade sentir-se muito confortável com aquela vida paroquial. Entretanto, para dar cumprimento à Grande Comissão, Deus serviu-se do martírio de Estêvão e da perseguição que o sucedeu para ‘dispersar’ os discípulos, que saíram ‘mundo a fora’ falando de Jesus onde quer que pusessem as plantas dos pés. 
 
A tentação de definir e esgotar a missão da igreja em torno de si mesma acompanha a história do cristianismo. Claro, a comunidade é uma realidade estável, local e que deve servir à edificação e ao treinamento dos santos. Entretanto, a passagem de um organismo vivo para uma organização petrificada é muito fácil de acontecer e, não raras vezes, para atender as demandas e as pressões locais, criamos estruturas complexas, com alto custo de manutenção e difícil de administrar. Essa estrutura pode tornar mais fácil a missão da igreja, mas também pode dificultá-la e exigir para a sua existência a maior parte dos recursos humanos e financeiros. 
 
John Wesley, pai do metodismo, certa vez afirmou que a sua paróquia era o mundo. Com isso queria indicar que o seu compromisso era fazer da igreja uma realidade em estado permanente de missão que avançasse para cada vez mais longe do centro paroquial, como círculos homocêntricos (concêntricos) que se ampliam em um lago espraiado, do centro para o transbordar nas margens. A igreja local precisa constantemente repensar as suas estruturas, o fim a que elas se destinam, a razão de ser e como ela efetivamente participa da obra que Deus realiza no mundo para implantar e expandir o seu Reino de justiça e amor. 
 
A ‘paróquia’ precisa tirar os olhos de si mesma, olhar para os campos brancos mais ao longe e procurar saber o que significam os movimentos políticos, econômicos e culturais no mundo. Seguramente, cada evento traz consigo um desafio, uma inquirição aos cristãos e inevitavelmente uma oportunidade para servir, testemunhar e proclamar o Senhorio de Jesus. Enquanto a igreja deve dedicar-se à sua vida orgânica, adoração, catequese, ensino, serviço etc., pensando no crescimento qualitativo e quantitativo, não pode deixar de exercitar essa consciência em ser cada vez mais uma igreja global. Essa consciência começa por romper com o lugar comum em muitas igrejas de conceber as missões como uma realidade extemporânea com eventos especiais, dissociados do dia a dia da comunidade. Absolutamente. 
 
Existem práticas que, se assumidas pela igreja como inerentes às suas atividades, podem fomentar e dar maior consistência à formação dessa consciência global cada vez mais profunda. A primeira coisa a se fazer é ensinar, à luz das Escrituras, na pregação, a partir do púlpito, a igreja a ler os sinais dos tempos, discernir os acontecimentos da história, sabendo que tudo está ligado com tudo e o que acontece do outro lado do mundo não demora, bate às nossas portas, vide pandemia, respondendo a cada coisa com o espírito de Cristo. Conhecer o mundo e o que nele acontece é um bom começo para se entender como Deus age e como podemos participar desse seu agir. 
 
Depois, tomar conhecimento das forças missionárias. O que está acontecendo na base, quais os desafios enfrentados no treinamento, recrutamento e sustento de obreiros. Tomar conhecimento dos avanços, dos perigos e das derrotas dos missionários em seus campos e nos deixar tocar por isso. Uma vez tocados, orar especificamente por tudo o que tomamos conhecimento. Fazer da oração por missões parte integrante dos momentos centrais da atividade da igreja para que um espírito de intercessão e clamor se estabeleça. 
 
Um gesto muito concreto exigido pelos que se importam é o da contribuição. Contribuir para as missões deve ser um compromisso assumido liberalmente por cada membro, mas a direção da igreja também pode e deve pensar a contribuição regular para as missões como uma despesa (?), como um especial investimento da comunidade. 
 
Para que essa consciência cresça com consistência e não se perca num espírito de euforia passageira, criar um conselho missionário que mobilize permanentemente a igreja e que desperte o interesse e, se Deus quiser, novas vocações para os campos do Senhor. 

Abrir o coração e as portas da igreja para acolher missionários para um tempo de descanso, cuidado pastoral e mutualidade certamente fará grande diferença e impactará os irmãos. 

E, por último e não menos importante, enviar missionários locais e participar de projetos missionários de maneira efetiva. 
 
Esses passos fornecem à igreja local uma estrutura intelectual, moral e espiritual que a torna capaz de agir localmente sem se perder em um ativismo infantil e estéril, comprometendo-se cada vez com a obra que Deus vem realizando nos quatro cantos da terra.

É ministro da Igreja Presbiteriana Central de Itapira (SP) e professor de Teologia Pastoral e Bioética no Seminário Presbiteriano do Sul, de Filosofia na Faculdade Internacional de Teologia Reformada (FITREF) e de História das Missões no Perspectivas Brasil.
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