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Prateleira

Para ouvir duas vezes

O portal Ultimato disponibiliza a seguir o artigo de Christopher Wright, publicado na seção “Vamos ler!” da  atual edição da revista Ultimato (347). 

***

John Stott foi um defensor veemente da prática que ele chamava de “ouvir duas vezes”. Devemos ouvir, segundo ele, tanto a Palavra como o mundo. Ouvimos a Palavra de Deus para crer nela e submeter-nos à autoridade de Deus por meio dela. Ouvimos o mundo que nos cerca -- não para submeter-nos a ele, mas para entendê-lo. Precisamos conhecer o mundo em que vivemos se quisermos ser convincentes em nossa vida como discípulos de Jesus Cristo, que é Senhor do céu e da terra. Precisamos entender os problemas que enfrentamos no mundo se quisermos comunicar a Palavra de Deus com relevância e poder.

John Stott foi tão bom quanto seu próprio conselho. “Pregou” fielmente “a Bíblia” durante toda a vida, atividade pela qual é mais conhecido. Suas exposições bíblicas frequentes na igreja All Souls, em Langham Place, em Londres, e depois também em muitas conferências internacionais foram publicadas na forma de seus comentários bíblicos do Novo Testamento na série “A Bíblia Fala Hoje”. Contudo, Stott também “ouvia o mundo”. Contava com uma equipe de mulheres e homens cristãos em diversas áreas profissionais do mundo secular. Eles se reuniam regularmente para ler livros contemporâneos e discutir questões urgentes que os cristãos enfrentam no chamado “mundo real”. Esses amigos ajudaram Stott a se lembrar de manter sua leitura e aplicação da Bíblia, de fato, conectadas com este mundo real de hoje. Com a ajuda deles, ele fez uma meticulosa pesquisa sobre todos os tipos de temas sobre os quais a maioria dos pastores sabe muito pouco: o mundo dos negócios, as forças armadas, economia ou biotecnologia. Stott realmente “ouvia o mundo”. Então ele combinou essa cuidadosa pesquisa com uma exegese e aplicação bíblicas equilibradas.

O resultado é Os Cristãos e os Desafios Contemporâneos, uma condensação de parte do raciocínio maduro e da sabedoria de um dos maiores líderes do povo de Deus. O livro não apenas dá ao leitor “todas as respostas certas”. Além disso, ele o ajuda a entender as perguntas de forma correta e, em seguida, a saber usar a Bíblia corretamente também -- não só fazendo um apanhado de um texto aqui ou ali, mas trazendo toda a revelação de Deus nas Escrituras para cada questão. E também o ajuda a pensar com clareza sobre cada questão com informações atuais e com uma mente cheia da verdade cristã, da compaixão própria de Cristo e das prioridades do evangelho.

O livro tem uma vida longa. Foi publicado pela primeira vez na década de 1980. Mas os tempos passam. Os problemas mudam. A ciência avança. Surgem novas questões e problemas. Por isso, ele foi revisado e atualizado várias vezes, e esta última edição foi muito bem elaborada por Roy McCloughry, com um novo capítulo de John Wyatt. Roy e John foram amigos de longa data de John Stott e entendiam muito bem o modo como ele pensava. Portanto, nesta obra, você ainda tem “o melhor de John Stott” examinando algumas das questões mais difíceis que temos de enfrentar como cristãos.

De igual modo, John Stott foi veemente em tratando-se de unir todas as dimensões de nossa missão cristã de uma maneira completamente holística e integrada. O próprio Stott foi um evangelista durante toda a vida. Realizou mais de cinquenta missões em universidades. Até o fim de sua vida, ele gostava de compartilhar as boas novas da salvação de Deus. Mas ele também via claramente que a Bíblia chama o povo de Deus a ser sal e luz do mundo, a amar e servir aos outros com a compaixão de Cristo, a praticar a justiça e a buscá-la no mundo, e a cuidar da criação como discípulos daquele que é Senhor do céu e da terra. Portanto, neste livro você também vê o autêntico John Stott -- desejando que o testemunho cristão no mundo seja autenticado pelo serviço cristão no mundo. Somos chamados a amar como Cristo amou e a viver como Cristo viveu, e isso inclui refletir cuidadosamente sobre todas as nossas perspectivas éticas e escolhas, e ser homens e mulheres íntegros em um mundo dominado pela corrupção.

Espero que Os Cristãos e os Desafios Contemporâneos ajude os cristãos brasileiros -- já conhecidos pelo fervor evangelístico e crescimento -- a levarem a sério também seu discipulado social e ético e a fazê-lo com fundamentos bíblicos fortes e maturidade.

Traduzido por Valéria Lamim Delgado Fernandes.


• Christopher Wright, diretor do International Ministries Langham Partnership e autor de O Deus Que Eu Não Entendo (Ultimato, 2012) e Povo, Terra e Deus (ABU Editora, 1991).

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