Opinião
18 de setembro de 2026- Visualizações: 88
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Os privilégios de sermos filhos de Deus
Por Theo Pemberton
Durante a Copa do Mundo de 2026, tive a oportunidade de viajar para os EUA a fim de visitar um tio e duas tias que não via há alguns anos. Eles moram em três estados diferentes, cada um com suas próprias paisagens, clima, história, cultura, economia e modo de vida. A cada chegada, mudavam as paisagens e os costumes, mas eu encontrava a mesma realidade: alguém me esperando no aeroporto ou dirigindo mais de uma hora para me buscar, portas abertas, mesa posta, liberdade, cuidado e amor. Um verdadeiro tratamento VIP. Mas não porque eu fosse VIP. Era porque eu era família.
Muito mais que perdoados
Essa experiência me fez refletir: se pertencer a uma família humana traz tantos privilégios, o que significa sermos recebidos como filhos pelo próprio Deus? Em Cristo, Deus não apenas perdoa nossos pecados e nos reconcilia consigo mesmo (Ef 1:7; Rm 5:10-11); ele nos recebe em sua própria família como filhos (Jo 1:12; Ef 1:5). A Bíblia chama essa extraordinária realidade de adoção. Na justificação, Deus nos declara justos; na adoção, ele nos recebe como filhos. A Confissão de Fé de Westminster resume essa doutrina dizendo que aqueles que são justificados por meio de Cristo tornam-se participantes "da graça da adoção" e passam a desfrutar "da liberdade e privilégios dos filhos de Deus". Estes privilégios transformam nossa identidade, nosso relacionamento com Deus, nossa maneira de viver e nossa esperança para o futuro.
Uma nova identidade
A justificação nos diz como Deus nos recebe como Juiz: perdoados e revestidos da justiça de Cristo (Rm 5:1; 2Co 5:21). A adoção nos diz quem nos tornamos diante dele: seus filhos amados. É a passagem da sala do tribunal para a sala de estar da casa do Pai. "Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus" (1Jo 3:1). João reúne aqui amor, nome e realidade. O espanto não está apenas em recebermos um novo nome, mas em quem nos dá esse nome: o único Deus vivo e verdadeiro, Senhor soberano do universo. Essa nova identidade define quem somos e a quem pertencemos. É como receber um passaporte de ouro (Fp 3:20) com uma nova identidade: cidadão do céu e filho do Deus Altíssimo. Em Cristo, Deus não apenas nos permite entrar em sua casa; dá-nos o nome da família.
Um novo relacionamento com Deus
A adoção não termina em uma mudança de nome ou status; ela introduz o pecador reconciliado numa relação filial de comunhão real com Deus. Paulo mostra esta realidade em uma estrutura trinitária: o Pai enviou o Filho "a fim de que recebêssemos a adoção de filhos" e, "porque sois filhos", enviou "ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai!" (Gl 4:4-6). O Pai envia o Filho para nos redimir e adotar e, porque somos filhos, envia o Espírito do Filho para habitar em nós e tornar essa filiação uma realidade experimentada em nosso coração. Essa nova relação é também marcada pelo selo do próprio Deus: em Cristo, "fostes selados com o Santo Espírito da promessa, o qual é o penhor da nossa herança" (Ef 1:13-14). Na época dos apóstolos, o selo podia indicar a quem algo pertencia e dar proteção contra violação; Paulo se apropria dessa imagem e acrescenta algo ainda maior: o Espírito não apenas marca que pertencemos a Deus, mas é a garantia de que ele nos conduzirá à herança prometida. Assim, adoção não significa apenas que podemos chamar Deus de Pai. Significa que pertencemos a ele, desfrutamos de uma relação filial marcada por intimidade e acesso confiante, somos guardados pelo seu Espírito e caminhamos para a herança reservada aos seus filhos. O Deus que nos deu seu nome agora nos dá sua presença, sua proteção e um destino certo.
Uma nova maneira de viver
Ser filho de Deus não significa uma vida isenta de dificuldades, mas uma vida inteiramente debaixo do cuidado do Pai. Jesus ensina que ele conhece nossas necessidades e cuida de nós (Mt 6:8,31-32); esse cuidado inclui até aquilo que nem sempre reconhecemos como privilégio: a disciplina, pela qual Deus nos corrige e nos forma para o nosso bem e para a nossa santificação (Hb 12:6-11). Portanto, o Pai que nos acolhe é também o Pai que nos sustenta, corrige e jamais abandona.
Essa relação também transforma o motivo da nossa obediência. Não vivemos sob o temor servil de quem precisa conquistar a aceitação de Deus, pois “não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes com temor, mas recebestes o espírito de adoção” (Rm 8:15). Obedecemos não para conquistar o amor do Pai, mas porque já fomos recebidos e amados por ele. Por isso, a adoção também produz semelhança familiar: “Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; e andai em amor...” (Ef 5:1-2). A ordem é decisiva: não imitamos o Pai para nos tornarmos filhos amados; pelo Espírito, somos progressivamente conformados à imagem de Cristo (Rm 8:29; 2Co 3:18), aprendendo a refletir o caráter do Pai e a amar seu povo como nossa própria família. A adoção, portanto, não apenas nos dá um lugar na casa de Deus; transforma a maneira como vivemos dentro dela.
Nossa esperança para o futuro
A adoção também redefine nosso futuro. Paulo liga diretamente filiação e herança: "se somos filhos, somos também herdeiros; herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo" (Rm 8:17; Gl 4:7). Pedro descreve essa esperança como "uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus" para nós (1Pe 1:3-4). Filhos não apenas pertencem à casa do Pai; recebem sua herança. Já somos filhos de Deus, mas "ainda não se manifestou o que haveremos de ser" (1Jo 3:2). Apocalipse nos deixa enxergar a consumação dessa esperança: novos céus e nova terra, uma criação renovada e, acima de tudo, o próprio Deus habitando para sempre com seu povo (Ap 21:1-4; 22:3-5).
Conclusão
Por melhor que tenha sido minha viagem, chegou a hora de voltar para casa. Isso me lembra uma história que ouvi muitos anos atrás. Um pastor missionário, depois de passar muitos dias longe da família, finalmente retornava para sua cidade. Ao desembarcar, viu repórteres e uma pequena banda reunidos no aeroporto. Imaginou que sua esposa e seus filhos estivessem no meio daquela recepção e esperou para ser um dos últimos a sair do avião. Logo percebeu, porém, que toda aquela festa era para uma pessoa ilustre que viajara no mesmo voo. Quando chegou sua vez de desembarcar, não havia ninguém esperando por ele. Por um instante, foi tomado por certa tristeza. Então, como se o Senhor lhe falasse ao coração, veio-lhe o pensamento: "Filho, por que está triste? Ele chegou em casa. Você ainda não."
Essa última frase resume nossa esperança em Cristo: já fomos reconciliados com Deus, somos filhos e coerdeiros com Cristo, mas ainda estamos a caminho da casa do Pai (Jo 14:2-3). E é o próprio Deus quem garante o começo e o fim dessa história: "Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim... O vencedor herdará estas coisas, e eu lhe serei Deus, e ele me será filho" (Ap 21:6-7). Assim, ao nosso Deus e Pai seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém! (Fp 4:20).
Durante a Copa do Mundo de 2026, tive a oportunidade de viajar para os EUA a fim de visitar um tio e duas tias que não via há alguns anos. Eles moram em três estados diferentes, cada um com suas próprias paisagens, clima, história, cultura, economia e modo de vida. A cada chegada, mudavam as paisagens e os costumes, mas eu encontrava a mesma realidade: alguém me esperando no aeroporto ou dirigindo mais de uma hora para me buscar, portas abertas, mesa posta, liberdade, cuidado e amor. Um verdadeiro tratamento VIP. Mas não porque eu fosse VIP. Era porque eu era família.
Muito mais que perdoados
Essa experiência me fez refletir: se pertencer a uma família humana traz tantos privilégios, o que significa sermos recebidos como filhos pelo próprio Deus? Em Cristo, Deus não apenas perdoa nossos pecados e nos reconcilia consigo mesmo (Ef 1:7; Rm 5:10-11); ele nos recebe em sua própria família como filhos (Jo 1:12; Ef 1:5). A Bíblia chama essa extraordinária realidade de adoção. Na justificação, Deus nos declara justos; na adoção, ele nos recebe como filhos. A Confissão de Fé de Westminster resume essa doutrina dizendo que aqueles que são justificados por meio de Cristo tornam-se participantes "da graça da adoção" e passam a desfrutar "da liberdade e privilégios dos filhos de Deus". Estes privilégios transformam nossa identidade, nosso relacionamento com Deus, nossa maneira de viver e nossa esperança para o futuro.
Uma nova identidadeA justificação nos diz como Deus nos recebe como Juiz: perdoados e revestidos da justiça de Cristo (Rm 5:1; 2Co 5:21). A adoção nos diz quem nos tornamos diante dele: seus filhos amados. É a passagem da sala do tribunal para a sala de estar da casa do Pai. "Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus" (1Jo 3:1). João reúne aqui amor, nome e realidade. O espanto não está apenas em recebermos um novo nome, mas em quem nos dá esse nome: o único Deus vivo e verdadeiro, Senhor soberano do universo. Essa nova identidade define quem somos e a quem pertencemos. É como receber um passaporte de ouro (Fp 3:20) com uma nova identidade: cidadão do céu e filho do Deus Altíssimo. Em Cristo, Deus não apenas nos permite entrar em sua casa; dá-nos o nome da família.
Um novo relacionamento com Deus
A adoção não termina em uma mudança de nome ou status; ela introduz o pecador reconciliado numa relação filial de comunhão real com Deus. Paulo mostra esta realidade em uma estrutura trinitária: o Pai enviou o Filho "a fim de que recebêssemos a adoção de filhos" e, "porque sois filhos", enviou "ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai!" (Gl 4:4-6). O Pai envia o Filho para nos redimir e adotar e, porque somos filhos, envia o Espírito do Filho para habitar em nós e tornar essa filiação uma realidade experimentada em nosso coração. Essa nova relação é também marcada pelo selo do próprio Deus: em Cristo, "fostes selados com o Santo Espírito da promessa, o qual é o penhor da nossa herança" (Ef 1:13-14). Na época dos apóstolos, o selo podia indicar a quem algo pertencia e dar proteção contra violação; Paulo se apropria dessa imagem e acrescenta algo ainda maior: o Espírito não apenas marca que pertencemos a Deus, mas é a garantia de que ele nos conduzirá à herança prometida. Assim, adoção não significa apenas que podemos chamar Deus de Pai. Significa que pertencemos a ele, desfrutamos de uma relação filial marcada por intimidade e acesso confiante, somos guardados pelo seu Espírito e caminhamos para a herança reservada aos seus filhos. O Deus que nos deu seu nome agora nos dá sua presença, sua proteção e um destino certo.
Uma nova maneira de viver
Ser filho de Deus não significa uma vida isenta de dificuldades, mas uma vida inteiramente debaixo do cuidado do Pai. Jesus ensina que ele conhece nossas necessidades e cuida de nós (Mt 6:8,31-32); esse cuidado inclui até aquilo que nem sempre reconhecemos como privilégio: a disciplina, pela qual Deus nos corrige e nos forma para o nosso bem e para a nossa santificação (Hb 12:6-11). Portanto, o Pai que nos acolhe é também o Pai que nos sustenta, corrige e jamais abandona.
Essa relação também transforma o motivo da nossa obediência. Não vivemos sob o temor servil de quem precisa conquistar a aceitação de Deus, pois “não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes com temor, mas recebestes o espírito de adoção” (Rm 8:15). Obedecemos não para conquistar o amor do Pai, mas porque já fomos recebidos e amados por ele. Por isso, a adoção também produz semelhança familiar: “Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; e andai em amor...” (Ef 5:1-2). A ordem é decisiva: não imitamos o Pai para nos tornarmos filhos amados; pelo Espírito, somos progressivamente conformados à imagem de Cristo (Rm 8:29; 2Co 3:18), aprendendo a refletir o caráter do Pai e a amar seu povo como nossa própria família. A adoção, portanto, não apenas nos dá um lugar na casa de Deus; transforma a maneira como vivemos dentro dela.
Nossa esperança para o futuro
A adoção também redefine nosso futuro. Paulo liga diretamente filiação e herança: "se somos filhos, somos também herdeiros; herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo" (Rm 8:17; Gl 4:7). Pedro descreve essa esperança como "uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus" para nós (1Pe 1:3-4). Filhos não apenas pertencem à casa do Pai; recebem sua herança. Já somos filhos de Deus, mas "ainda não se manifestou o que haveremos de ser" (1Jo 3:2). Apocalipse nos deixa enxergar a consumação dessa esperança: novos céus e nova terra, uma criação renovada e, acima de tudo, o próprio Deus habitando para sempre com seu povo (Ap 21:1-4; 22:3-5).
Conclusão
Por melhor que tenha sido minha viagem, chegou a hora de voltar para casa. Isso me lembra uma história que ouvi muitos anos atrás. Um pastor missionário, depois de passar muitos dias longe da família, finalmente retornava para sua cidade. Ao desembarcar, viu repórteres e uma pequena banda reunidos no aeroporto. Imaginou que sua esposa e seus filhos estivessem no meio daquela recepção e esperou para ser um dos últimos a sair do avião. Logo percebeu, porém, que toda aquela festa era para uma pessoa ilustre que viajara no mesmo voo. Quando chegou sua vez de desembarcar, não havia ninguém esperando por ele. Por um instante, foi tomado por certa tristeza. Então, como se o Senhor lhe falasse ao coração, veio-lhe o pensamento: "Filho, por que está triste? Ele chegou em casa. Você ainda não."
Essa última frase resume nossa esperança em Cristo: já fomos reconciliados com Deus, somos filhos e coerdeiros com Cristo, mas ainda estamos a caminho da casa do Pai (Jo 14:2-3). E é o próprio Deus quem garante o começo e o fim dessa história: "Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim... O vencedor herdará estas coisas, e eu lhe serei Deus, e ele me será filho" (Ap 21:6-7). Assim, ao nosso Deus e Pai seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém! (Fp 4:20).
- Theo Pemberton é administrador, MDiv pelo RTS Orlando e doutorando em Teologia, com foco em Novo Testamento, na North-West University (África do Sul). Atua no ensino em diferentes ministérios da Igreja Presbiteriana de Pinheiros.
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