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Opinião

A fé no mercado da fé

Os perigos que os evangélicos enfrentam ao serem apenas mais um componente do mercado

Por Marcos Simas

Nos últimos anos, muita coisa mudou para nós evangélicos. Algumas para bem e outras nem tanto. Mas a grande e inegável verdade é que éramos invisíveis para o “mercado”, para a cultura e mesmo para as chamadas mídias “seculares”. E mais recentemente nos tornamos até visíveis demais. Para refrescar nossa memória, relato cronologicamente a seguir alguns episódios que mostram de alguma forma, o reconhecimento da importância do segmento evangélico no cenário cultural e econômico nacional.

Em 23 de janeiro de 2017, a edição 931 do prestigiado Observatório da Imprensa, publicava o texto “O viés anti-evangélico de ‘O Globo’”, escrito por Gilberto Garcia que expunha o que, segundo ele, “poderia ser uma ótica distorcida, a perspectiva discriminatória no viés religioso, visando depreciar a ligação do candidato evangélico Marcelo Crivella com a Igreja Universal do Reino de Deus, no afã de influenciar concretamente o posicionamento do eleitor carioca […] envolvendo a fé evangélica do candidato […]1. Independente dos fatos relativos à política e à denominação mencionada no artigo, o autor identificava um certo viés discriminatório e anti-evangélico de O Globo. Alguns anos se passaram e em 2024 o Grupo Globo produziu e transmitiu a série “Evangélicos” pelo GNT, que contava histórias de cristãos com perfis diversos em diferentes regiões do Brasil 2 .A seguir, em 11 de setembro de 2025, o Observatório da TV, outro veículo que cobre assuntos ligados às mídias em geral, publicava a matéria “Globo paparica evangélicos e faz série com cantores gospel no Fantástico”3. Mais recentemente, em 25 de fevereiro de 2026, a Globo anunciou, com alarde, que fará telefilmes de obras evangélicas, no caso publicadas pela editora Mundo Cristão, sendo o primeiro deles o romance Círculos não são infinitos, de Vitória Souza.4.

O Grupo Folha também tem se “curvado” a esse público que deixou de ser invisível e passivo, para ser proativo no espaço público e valioso no mercado de consumo. Uma das evidências é a criação de um blog chamado Evangélicos5 que “traz informações e histórias sobre o universo evangélico” e é capitaneado por Melina Cardoso, que em sua biografia se identifica como intercessora, jornalista e bacharel em Teologia, além de ser casada e mãe de três filhos – padrões declaradamente conservadores, no Brasil de hoje. Os temas abordados no blog fazem parte da agenda cotidiana da cultura evangélica nacional, até então desconhecida pela “elite” nacional e suas variantes: “igrejas domésticas que fortalecem a fé dos cristãos no Irã”6, “perseguição aos cristãos no Oriente Médio”7, “evangelização de prostitutas”8, “criação de filhos à luz da Bíblia”9, “igrejas servindo às famílias com espectro autista entre seus membros”10, “a ressocialização dos dependentes químicos realizada por organizações evangélicas”11, “a importância de os jovens evangélicos irem para a universidade”12, “a participação da igreja evangélica no socorro às vitimas da tragédia no Rio Grande do Sul”13, e até o espinhoso tema “porque os pastores caem”14. Lendo atenciosamente alguns desses artigos e matérias, há a sensação de estar lendo uma revista evangélica conservadora que exalta o trabalho social e espiritual da igreja. Outras evidências são o fato de ter o colunista Juliano Spyer, antropólogo e autor do livro Povo de Deus, especializado nesse público, além de ter textos publicados periodicamente em sua seção Cotidiano15, colaboradores que são declaradamente pastores evangélicos: Valdinei Ferreira, Marcos Amado, Daniel Guanaes e William Douglas.

Reinando na música que historicamente era uma área do “inimigo”
Segundo levantamentos da Pró-Música Brasil/Abramus (Associação Brasileira de Música e Artes), no ano de 202416 a música “gospel” já representa 20% de todo o mercado brasileiro. Somente nos últimos cinco anos, o consumo desse gênero em plataformas digitais cresceu 240%. Gigantes do streaming como o Spotify viram a audiência do gospel, apenas entre 2022 e 2023, aumentarem em cerca de 93%. Mesmo no Deezer, em junho de 2025, 18% das músicas mais tocadas na Deezer do Brasil eram cristãs17. No YouTube, os clipes de artistas gospel estão entre os mais assistidos do país, sendo que dos dez vídeos mais populares do Brasil, dois são de cantores do gênero. Além disso, as chamadas produtoras gospel tiveram pelo menos R$ 105 milhões em contratos com aproximadamente 350 municípios, entre 2024 e 2025, “sendo que as produtoras evangélicas tiveram faturamentosuperior ao das empresas que agenciam alguns dos mais requisitados artistas, como Xand Avião, Wesley Safadão e Maiara e Maraísa”18.

Todos esses números são refletidos na presença crescente do gospel em megashows como o Réveillon de Copacabana, um dos mais frequantados, badalados e famosos do mundo. Como resultado desse alcance, foi instituido o dia 9 de junho como o Dia Nacional da Música Gospel, em alusão a data de nascimento da missionária sueca Frida Maria Strandberg Vingren, assembleiana e compositora de mais de 20 hinos da Harpa Cristã19.



A economia da fé evangélica e seus números impressionantes
A revista Exame, em 26 de outubro de 2025, fez matéria mostrando que, segundo o estudo Gospel Power, a “gospel economy”, que influencia hábitos de consumo do segmento evangélico já movimenta cerca de R$21,5 bilhões por ano. Esse estudo, realizado pela Estúdio Eixo, consultoria de comportamento e cultura, em parceria com a Zygon, mostra que o ecossistema econômico e cultural evangélico possui cadeias próprias de produção, distribuição e influência, e que teria um público consumidor exigente, com 58% fazendo suas escolhas de consumo influenciados pela fé, e estando “dispostos a pagar mais por produtos e serviços alinhados à sua visão de mundo”. Além disso, impressionantes “52% não se sentem representados pela publicidade atual e 31% já boicotaram marcas que contrariaram seus princípios”. Ainda segundo o estudo, a moda, beleza e lifestyle evangélicos estão redefinindo o mercado, ao incorporar referências globais ao vestuário de inspiração religiosa, com o fortalecimento da chamada “moda modesta”, e ao segmento classificado pelo estudo como “Gospel Premium”, que combina propósito, estética e pertencimento. Já no turismo religioso, a pesquisa mostra o aumento da demanda por experiências voltadas ao sistema religioso, incluindo retiros, festivais e viagens temáticas. E ainda, os seguimentos de educação e tecnologia registram a ampliação de ofertas de ensino bíblico, cursos de teologia e formações voltadas à liderança cristã, nas plataformas digitais, com atenção especial ao público jovem e feminino20.

Outro relatório chamado “O poder evangélico”, com mais de 150 páginas, “foi produzido com base no monitoramento de plataformas sociais, analisando 100 mil conteúdos em cinco redes nos últimos três anos, incluindo quase 400 mil comentários e outras trocas nesses espaços, além de examinar conversas geradas por 275 mil assinantes de canais evangélicos no Telegram. Esses dados foram cruzados com informações do Target Group Index, levantamento estruturado da Kantar Ibope Media que entrevistou mais de 24,5 mil pessoas, e ainda considerou outros estudos sobre o tema e conteúdos do noticiário”21.

Não é sem motivo que a ESPM, referência nacional em marketing e comunicação, oferece o curso “Marketing Religioso – Conceitos de Marketing aplicado a causas, bens e serviços espirituais”22, “ voltado para lideranças religiosas e empreendedores de bens e serviços relacionados a espiritualidade”.

O consumo da fé no mercado da fé

Enfim, durante esse curto tempo de menos de 10 anos muita coisa mudou. E nos próximos anos, muita coisa provavelmente ainda irá mudar. Por isso, penso que cabem aqui algumas perguntas para refletirmos diantes dos dados expostos anteriormente: Agora que somos visíveis, será que vamos conseguir cumprir nossa missão de denunciar os “poderes desse mundo”, ou seremos apenas mais um desses poderes, sem autoridade para apresentar alternativamemnte seus questionamentos à uma sociedade injusta, corrupta e secularizada? Será que na ânsia de sermos relevantes e de dialogar com a cultura brasileira, nos deixamos sucumbir a padrões, que ao longo da história da igreja fizeram tão mal ao Reino de Deus? Por fim, será que influenciamos ou somos infuenciados e deixamos a nossa fé fazer parte do mercado, sendo, portanto, apenas mais um bem de consumo? Tenhamos em mente que o mercado tem fé no mercado da fé.

Notas:
1. “O viés antievangélico de ‘O Globo’”. Observatório da imprensa.
2. “‘Evangélicos’: série do GNT conta histórias de cristãos com perfis diversos em diferentes regiões do Brasil”. O Globo.
3. “Globo paparica evangélicos e faz série com cantores gospel no Fantástico”. Observatório da TV.
4. “Globo mira evangélicos e fecha com editora cristã para produzir adaptações de livros”. NaTelinha
5. “Adoção no Brasil: evangélicos ainda negligenciam órfãos”. Folha de S.Paulo.
6. “Em meio à guerra, igrejas domésticas fortalecem a fé dos cristãos no Irã”. Folha de S. Paulo.
7. “Não há como driblar perseguição no Oriente Médio, diz missionário brasileiro.” Folha de S. Paulo.
8. “Igreja ‘paga programa’ para evangelizar prostitutas”. Folha de S. Paulo.
9. “Não existe criação de filhos a luz da Bíblia sem disciplina, afirma pastora”. Folha de S. Paulo.
10. “Sua igreja está preparada para receber autistas?”. Folha de S. Paulo.
11. “Você abriria sua casa para abrigar ex-dependentes químicos em recuperação”. Folha de S. Paulo.
12. “Para pastor, privar jovens da universidade enfraquece ética cristã”. Folha de S. Paulo
13. “Além de doações, abraços, escuta e orações confortam que perdeu tudo no RS”. Folha de S. Paulo.
14. “Por que pastores caem?”. Folha de S. Paulo.
15. “Defesa Civil libera 86 imóveis na região de explosão em SP”. Folha de S. Paulo.
16. “Mercado Brasileiro de música 2024”. Pro-Música Brasil.
17. “Deezer revela dados do consumo de gospel no Brasil e aponta caminhos para o gênero”. Mundo da Música.
18. “Produtoras gospel são as campeãs de shows para prefeituras pelo país”. TAB Uol.
19. “A voz da fé: música gospel domina o mercado brasileiro e redefine fronteiras”. TVAnhanguera.
20. “Mercado evangélico gera R$21,5 bilhões por ano no Brasil”. Exame.
21. “Crescimento de evangélicos é oportunidade ignorada por mercado anunciante”.
Estadão.
22. “Marketing religioso- conceitos de marketing aplicado a causas, bens e serviços espirituais”. 
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Versão ampliada do artigo A fé no mercado da fé publicado na edição 419 de Ultimato.
  • Marcos Simas é doutor em Ciências da Religião e pesquisa religiosidade digital e novas formas de pertencimento religioso. Professor na Faculdade Teológica Sul Americana, coordena o grupo de estudos “Religião e Internet”. É especialista editorial pela Yale School of Management Executive Education. Foi editor-chefe da revista Cristianismo Hoje (Christianity Today Brazil) de 2008 a 2017.

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Os artigos da edição 419 de Ultimato ressaltam a “beleza de Deus” e o fato de termos sido feitos à sua imagem e semelhança, o que torna a arte (sua apreciação ou o fazer artístico) disponível para todos – “Sejam encanadores, coletores de lixo, taxistas ou CEOs, somos chamados pelo Grande Artista a cocriar. O Artista nos chama, a nós, artistas com ‘a’ minúsculo, para cocriar, para compartilhar a ‘irrupção celestial’ na terra quebrada” (Makoto Fujimura).
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Saiba mais:
» Cristianismo Antigo Para Tempos Novos – Amor à Bíblia, vida intelectual e fé pública, Paul Freston.
» A Igreja O País E O Mundo- Desafio a uma fé engajada, Robinson Cavalcanti
» O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto, Rodolfo Amorim
» A Arte e a Bíblia, Francis Schaeffer

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